Crônicas · Língua Presa · Música

46 + 2

(Meu texto mais recente para o site da Immagine. Link direto aqui.)

Antes do texto, um aviso: é preciso estar com a mente aberta para o que vem a seguir. Transitar entre o submundo da nossa consciência é como uma viagem sem volta. É compreensível não acreditar, e também creio ser humanamente impossível atingir tal teoria na prática. Porém, é como Eduardo Galeano diz sobre crer nas utopias: elas são impossíveis de se alcançar, mas, ao menos, nos fazem segui-las.

“Forty Six & 2” é a canção número 5 de Ænima, segundo disco do Tool, lançado em 1996. Sem dúvidas, uma das mais enigmáticas e discutidas do grupo, muito em virtude do enorme talento de Maynard J. Keenan com as palavras e de sua inteligência. É uma mescla de teorias com experiências pessoais que, em um todo, nos permite várias possibilidades de interpretação. Trago hoje a mais conhecida (e discutida) entre os admiradores e questionadores da banda.

Em resumo, dois conceitos servem como base: o Arquétipo da Sombra, de Carl Jung, e a teoria dos dois cromossomos extras, que foi mais bem desenvolvida pelo metafísico Drunvalo Melchizedek. Comecemos por essa.

O título da música refere-se a uma possível composição de cromossomos que os seres humanos podem atingir. Segundo Melchizedek, são três os conjuntos existentes na Terra. O primeiro possui a composição 42+2, sendo que “+2” são os cromossomos sexuais, x ou y. Esse primeiro grupo compreende a sua existência como uma única consciência, uma única realidade, ou seja, nada mais além do que os próprios olhos alcançam. Não há distinção de espécies ou organismos, tudo compreende uma única conexão. Povos ancestrais como os aborígenes australianos e algumas tribos africanas fariam parte desse conjunto. Até algumas tribos indígenas brasileiras entrariam nesse grupo.

O próximo passo “evolutivo” é composto por 44 cromossomos (sem esquecer os dois sexuais), e é onde nós estamos. – Note o “evolutivo” entre aspas como uma ironia. – O estado atual do ser humano é entendido como consciências individuais, cada qual compreendendo a própria visão de realidade. Não há a noção de vida como um todo, e sim cada ser entendendo-a e agindo conforme a própria percepção. Esse conglomerado de seres é visto apenas como um degrau para o estágio maior.

Portanto, mais dois cromossomos e chegamos ao estado evolutivo de máximo alcance, o 46+2. Esse nível de consciência admite o ser como uma ponte entre o divino e o material. Um único corpo, porém detentor de várias consciências diferentes, tornando-se onipresente, capaz de sentir, presenciar e agir em várias realidades ao mesmo tempo. Palavras do próprio Drunvalo:

“Toda célula em seu corpo tem sua própria consciência e memória. Você, o ser maior que o ocupa, faz as milhares consciências diferentes trabalharem juntas em apenas um ser. Ainda teremos consciência individual, mas elas estarão unidas na forma de uma existência superior, trabalhando como uma entidade.”

Dessa forma, o ser humano atingiria o pico da evolução mental, que se comparado a termos religiosos, seria o mesmo que tornar-se um deus ou Cristo. Porém, não é somente subir degrau por degrau até o topo da pirâmide. Na canção, para chegar ao estado de plenitude de consciência, é necessário encarar um grande obstáculo: o seu eu mais profundo e obscuro. A sua sombra e a teoria do Arquétipo, segundo Carl Jung.

A idéia de Jung é que todos os seres humanos possuem um submundo em seu inconsciente, um oceano profundo onde habitam os seus medos, repressões, fracassos, pensamentos inadequados, sonhos não-realizados, enfim, uma gama de sentimentos e instintos julgados como incorretos perante o convívio social. Essa é a chamada Sombra Pessoal.

Um segundo arquétipo é identificado em casos ainda mais obscuros, chamado Sombra Impessoal, que envolve psicopatas, genocidas, assassinos, ou seja, mentes que são essencialmente malignas.

O momento em que Jung e Melchizedek se cruzam em “Forty Six & 2” é na transição de estado consciente. Para chegar ao nível mais avançado, é necessário enfrentar a sua própria sombra, e não escondê-la ainda mais em seu interior. Deixar de lado os personagens sociais criados para uma melhor aceitação perante a sociedade e não ter medo de ser o que você é. Ao confrontar a sua sombra e tirá-la das profundezas de seu inconsciente, o indivíduo aceita-se de forma plena. Com isso, a sombra irá mover-se para o lado consciente, o que possibilita desafiá-la face a face e integrá-la em seu dia-a-dia. Leia esse trecho:

“Eu escolho viver e crescer, tomar e doar e mover, aprender, amar e chorar, matar e morrer, ser paranóico e mentir, odiar e temer, fazer o que for preciso para sobreviver. Eu escolho viver e mentir, matar e doar e morrer, aprender, amar, fazer o que for preciso para atravessar

Veja minha sombra mudando, alongando-se sobre mim. Suavizo esta velha armadura esperando que eu possa limpar o caminho. Atravessando minha sombra e saindo do outro lado. Adentre a sombra! 46 & 2 estão logo à minha frente!”

Caso contrário, reprimir a sua sombra irá fortalecê-la ao ponto de roubar o seu próprio equilíbrio. Um artigo no site A Mente É Maravilhosa chamado “Arquétipo da sombra: o lado escuro da nossa psique” possui um trecho fundamental para compreender esse desafio: “o nosso crescimento pessoal e o nosso bem-estar psicológico dependerão sempre da nossa capacidade de iluminar essas sombras.”

Agora um pensamento meu.

Lembremos do ano de 2018 no campo político. Não digo sobre aqueles que estavam tentando nos representar, mas sim dos eleitores em sua maioria e a intolerância que os acometeu. As discussões infundadas, a falta de diálogo, amizades acabando e até famílias entrando em colapso por opiniões divergentes. A polarização que tomou conta dos grupos sociais, das redes sociais (principalmente) e a falta de seriedade que tudo isso levou àqueles que não se sentiam representados por nenhum dos lados.

O teor cômico de toda a “filosofada” sobre a música “Forty Six & 2” é justamente o contraposto em que vivemos atualmente: o retrocesso. Como admitir que a vida humana possa passar para um degrau de lucidez muito mais evoluído que o atual, que compreende uma realidade além do que possamos imaginar, sendo que não somos capazes nem de encarar a diferença, sendo um todo, como realidade?

O próprio Maynard, de forma brilhante, nos toca na ferida em “Right In Two”, quando escreve que anjos estão nos assistindo perplexos e confusos, questionando-se como que o Pai concebeu a nós, macacos estúpidos, o livre arbítrio e a razão e preferimos a guerra/força para resolver nossos obstáculos, mesmo nas situações mais simples. Leia:

“Anjos na platéia intrigados e fascinados. Por que o Pai deu a estes humanos livre arbítrio? Agora eles estão todos confusos. Estes macacos falantes não sabem que o Éden tem o suficiente para viver? Há abundância neste jardim sagrado, macacos tolos.

Anjos na platéia perplexos e confusos. O Pai os abençoou com a razão e é isso o que eles escolheram? Macacos matando macacos, matando macacos por pedaços da terra. Macacos tolos, dê-lhes polegares e eles forjam uma lâmina.

Lutam até morrer pela terra, pelo céu, eles lutam pela luz, pela guerra, pelo paraíso. Deitam sobre o amor, sobre o sol, sobre o sangue. Eles lutam até morrer pelas palavras, polarizando…”

Usar a palavra “cômico” é apenas uma válvula de escape para aliviar a tensão, pois a realidade é trágica mesmo. Seres tão evoluídos como os seres humanos (lembra a ironia alguns parágrafos atrás?) não conseguem aceitar diferenças e compreender que mentalidades distintas são o que agregam para o próprio engrandecimento. E tenha certeza, eu, você e todos nós estamos nesse grupo.

Para finalizar, um pedido: ouças as músicas, leia suas letras e tire as conclusões por si mesmo. Ainda acredito que, ao final de tudo, não somente a música, mas a arte como um todo, é o melhor caminhão para a nossa evolução.

Garimpo · Música

Garimpo: Pense por si mesmo

“Pense por si mesmo. Questione autoridade. Pense por si mesmo. Questione autoridade.

Ao longo da história da humanidade, nossa espécie tem enfrentado o terrível fato de não sabermos quem somos ou para onde vamos nesse oceano de caos. Tem sido as autoridades políticas, religiosas e educacionais que tentam nos confortar, dando-nos ordem, regras, regulamentos, informando, formando em nossas mentes as suas visões da realidade.

Para pensar por si mesmo, você deve questionar as autoridades e aprender como colocar-se num estado de vulnerabilidade, mente aberta, uma vulnerabilidade caótica e confusa para informar a si mesmo.

Pense por si mesmo. Questione autoridade.”

Por Timothy Leary.