Direto do Forno · Música

A Estreia do The Quiet Temple

A introdução que fiz ao The Quiet Temple quando escrevi sobre o primeiro single do projeto serve muito bem como um resumo de todo o seu álbum de estreia, auto-intitulado:

“O estreante The Quiet Temple, por exemplo, tem a tag jazz como identificador em sua página. E num primeiro momento, sim, jazz caberia bem como um rótulo. No final dos quase oito minutos de “The Last Opium Den (On Earth)”, o primeiro single de seu disco de estreia, o ouvinte sabe que a fronteira vai muito mais além.”

Pelas variações de tempo, diversificação instrumental e alterações de clima, vejo uma clara influência do Talk Talk, principalmente de seu último disco, Laughing Stock, de 1991. Por coincidência (ou não), até o número de faixas é o mesmo.

Alguns desses resquícios permeiam na atmosfera jazzística de canções como “The Bible Black” e “Noah’s Theme”, com o sopro ao fundo aparecendo vez ou outra, acrescentando um charme na canção.

“Shades of Gemini”, a mais longa, tem em seu destaque o baixo regente, que possibilita o improviso e o experimento dos metais de forma caótica e hipnotizante. A partir dos seis minutos, o jogo musical ganha o acréscimo de uma guitarra-solo enfurecida, que chega a todo volume e torna a experiência ainda melhor. É a brisa matinal que toma forma até atingir o nível de um furacão.

O final também longo com “Utopia & Visions” transforma a euforia em uma construção mais cadenciada e quieta, mantendo uma constância tranquila até o seu desfecho.

Como o nome sugere, The Quiet Temple é um disco estranho para dias atuais, pois exige atenção para os mínimos toques e, principalmente, tempo, algo cada vez mais escasso na correria cotidiana. Serão necessárias, duas, três ou até mais audições para captar todos os detalhes do álbum, mas é um exercício que vale cada neurônio gasto.

1. The Last Opium Den (On Earth
2. The Bible Black
3. Shades Of Gemini
4. X Rated
5. Noah’s Theme
6. Utopia & Visions

Diversos · Língua Presa · Música

Adeus, Mark Hollis

O Talk Talk nasceu em Londres, no ano de 1981, em meio à febre do synthpop, onde os sintetizadores eram os principais regentes das canções. (Bandas como o A-ha, Eurythmics, Soft Cell e Tears For Fears são ótimos exemplos do estilo.)

Formada por Mark Hollis (guitarra, piano e voz), Lee Harris (bateria) e Paul Webb (baixista) e embarcando nessa onda, o sucesso veio rápido, com alguns singles estourando em vários países ao longo da Europa. No terceiro disco, The Colour of Spring, as mudanças começaram. As melodias ficaram mais complexas e as letras de Hollis mais reflexivas, o que não impediu o estouro de músicas como “Like’s What You Make It” e “Living In Another World”, por exemplo.

A partir de Spirit of Eden, de 1988, a casa caiu de vez. Trocando os sintetizadores e melodias pop por longos improvisos jazzísticos e experimentações sonoras com camadas e atmosferas mais sombrias, o Talk Talk atingiu o ápice de sua criatividade, principalmente no álbum seguinte, o quinto e último da discografia da banda: Laughing Stock, lançado em 1991. Poucos meses depois, a banda encerrou suas atividades.

Sobre as vendas, foram decepcionantes se comparadas aos trabalhos anteriores. Porém, isso é o de menos. Os dois discos são considerados precursores do que conhecemos hoje como post-rock (junto ao Spiderland, do Slint) e citados como dois dos maiores álbuns lançados durante aquele período.

Em 1998, Mark Hollis aventurou-se em uma carreira solo e lançou um único disco auto-intitulado. Foi seu último trabalho antes de se aposentar da indústria da música.

Há pouco menos de dois meses, em 25 de fevereiro e aos 64 anos, Hollis veio a óbito.

Se eu fizesse uma lista com os dez melhores discos que já ouvi até hoje, sem dúvida alguma, Laughing Stock estaria na primeira metade.