Diversos · Língua Presa

Nem Tudo Passa

Nem tudo passa. É bom deixar isso bem claro. Nem todas as pessoas superam seus traumas, seus medos, seus demônios. Nem todo mundo encontra o caminho da esperança e da salvação ou alguém para tirá-lo (a) da lama.

Digo que é bom deixar isso bem claro porque estamos acostumados a encarar um mundo de fantasia na maior parte do tempo. Pessoas felizes e saudáveis o tempo inteiro, “gurus” cheios de conhecimento e com soluções para cada problema, seja ele financeiro ou emocional, a famosa “ostentação” de riquezas e viagens e corpos perfeitos. Somos encharcados por esses estereótipos todos os dias em qualquer direção que olhamos. O pior de tudo: muita gente absorve isso. E se sente mal. Incapaz. Inferior.

O livro Quando Os Pêlos do Rosto Roçam No Umbigo, do querido colega e escritor Anton Roos, nos abre os olhos: a vida não é esse conto de fadas que somos forçados a acreditar.

Fonte: Amazon

Andrei, o personagem principal, o conselheiro de puta que navega pelo oceano mais sombrio da consciência, alimentado por fantasmas e temores que o impedem de continuar sua vida com um mínimo de decência, é o espelho da vida humana que não vemos nas redes sociais, nas colunas da elite ou no jornal diário. É a fragilidade que somos forçados a esconder e a condenar quem a expõe. É a sujeira que navega em nosso cérebro em segredo, pois colocá-la para fora fere os bons costumes. É a violência, a raiva, o obsceno, a dor no peito, a angústia de quem sabe que a salvação não existe. É a sombra do ser em seu estado mais natural.

Alguns desses traumas nos acompanham por toda a vida. Muita gente não entende. Muita gente finge que não vê. Muita gente até condena. Mas não se engane: todo mundo, até essa gente, tem um pouco de Andrei dentro de si.

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“Minha mãe e meu pai tinham um relacionamento complicado, e acho que por isso ele gostava de beber. Tinham dias em que ela não parava de falar no ouvido dele, sempre reclamando e falando sobre dinheiro. Eu observava tudo de longe.

Ele saía para trabalhar às 08 da manhã, voltava ao meio-dia para o almoço e retornava às 14 horas, chegando em casa depois somente às 18:30. Nessas duas horas de almoço, minha mãe começava a disparar sua metralhadora de palavras. ‘Precisamos de dinheiro, as contas estão vencendo, você conseguiu vender hoje?, já recebeu?, você está mentindo pra mim’. Em alguns dias, era insuportável. Lembro que em uma das vezes ele simplesmente levantou e saiu de casa. Só fui saber bem depois, quando ele me contou. Tinha ido ao estacionamento do DNIT, estacionado embaixo de uma árvore e cochilado. Era só isso que ele queria.

Ele morreu fazem alguns anos já. A mesma substância que o dava prazer, tirou sua vida.

Minha mãe queria dinheiro para não se preocupar. Meu pai só queria paz. Não culpo nenhum dos dois, assim é a vida.”