Garimpo · Música

Garimpo: Soda Stereo – Dynamo (Ao Vivo no Fax En Concierto, 1992)

Há quem diga que nenhuma banda supera o Soda Stereo no gosto popular argentino. Nem mesmo os Beatles. Para nossos vizinhos, o trio liderado por Gustavo Cerati é uma espécie de deus musical.

Admito que conheço bem pouco do trabalho completo da banda, mas tem um disco que guardo com muito carinho nas minhas audições. Dynamo, de 1992, é, sem dúvidas, completamente à frente de seu tempo. Brincando com os ecos do shoegaze que borbulhavam na Europa naquela época + efeitos eletrônicos + muita dissonância nos acordes, é como se o disco tivesse sido lançado na última década. Ou ano passado. Sem exagero. Costumo chamá-lo de “Loveless latino”.

Um dos shows da turnê de lançamento do Dynamo foi em um programa de TV, uma espécie de talk show local chamado Fax En Concierto, onde nove das doze músicas foram executadas ao vivo. O áudio é ótimo e a banda, meus amigos, impecável, assim como a platéia. Sem celulares, tablets ou eletrônicos, apenas pessoas se divertindo e aproveitando o momento.

Direto do Forno · Música

Dois EP’s do The Melancholic Youth of Jesus

Julgo importante colocar aqui que descobri o The Melancholic Youth of Jesus por uma entrevista do Carlos Sérgio, idealizador do projeto, concedida ao Floga-Se, talvez o site musical que mais acompanho há anos.

Pense no Jesus and Mary Chain (fase Psychocandy) saindo de Portugal. Só que muito, muito mais obscuro.

Recentemente, a extensa discografia do conjunto ganhou alguns integrantes: dois EP’s com três canções cada, cujo lançamento de um foi ontem, 10/06, e outro hoje.

Social Suicide é mais sombrio e hermético, como um espaço vazio e escuro. Gloominati, em contraste, soa etéreo. É como se ambos se completassem.

A dualidade e capacidade de renovação em um espaço de tempo curto são encantadoras.

Direto do Forno · Música

O Novo do Spotlights: Love & Decay

Junte a arte visual com o som da banda e a sensação é de navegar entre uma chuva de meteoros em pleno espaço sideral. Assim é Love & Decay, novo trabalho do Spotlights que chegou à Terra em 26 de abril desse ano pela Ipecac Recordings, gravadora do Mr. Mike Patton.

Mesmo que seja possível perceber as mais diversas influências no disco, como o shoegaze, o post-rock, o space rock, o stoner metal e até o doom metal, a predominância característica e que fica marcada é o peso. Em resumo, é um disco muito pesado, e devido às variedades que o compõem, torna-se, também, um trabalho emotivo.

Boa parte das canções tem a mesma proposta, iniciando com muita força e, em seguida, deixando a experimentação tomar conta, transformando a carga cheia em um espaço de flutuação.

“Far From Falling”, com mais de sete minutos, engata uma viagem espacial a partir de sua metade, com riffs repetitivos, guitarras solando ao fundo e a bateria constante que parece explodir a qualquer momento. E explode, quando a distorção engrandece e eleva ainda mais o estado psicodélico-espacial da canção.

Outros pontos altos do disco são os dois singles lançados anteriormente, “The Particle Noise” e “The Age of Decay”, que mesclam momentos sutis e hipnóticos com agressividade.  “Xerox”, a mais curta do álbum e cujo videoclipe você confere abaixo, destoa um pouco das demais, pois mantém a intensidade do começo ao fim. “The Beauty of Forgetting”, com quase onze minutos, finaliza com maestria e causa certa perplexidade, daquelas em que a pessoa fica estática, olhando para o nada, absorvendo tudo o que ouviu.

As edições em CD e vinil ainda contam com uma faixa extra, chamada “Sleepwalker”.

Tendo em vista tamanha riqueza de influências e detalhes de Love & Decay, saber que tudo isso é feito por um power trio catapulta ainda mais seu brilhantismo. Nada é feito com preenchimentos chatos ou megalomaníacos. A mistura entre o peso e a emoção podem atingir até ouvintes não-habituados com o estilo, apesar de que, à primeira audição, pode causar estranhamento.

Para fãs desse tipo de som, como eu, é um prato cheio.

1. Continue The Capsize
2. The Particle Noise
3. Far From Falling
4. Until The Bleeding Stops
5. Xerox
6. The Age of Decay
7. Mountains Are Forever
8. The Beauty of Forgetting

Garimpo · Música

Garimpo: Devilish Dear – Appalish EP

Foram três anos sem nenhum trabalho do Devilish Dear até a chegada do curto EP Appalish, pela midsummer madness, no início de abril.

São três canções ao todo. A inicial, “Glass React”, é a melhor e estará no segundo disco do conjunto brasileiro, ainda sem nome ou data de lançamento.

Para quem gosta de experimentação, com muita guitarra e efeitos eletrônicos, vale a audição. Dá para garantir o EP por apenas UMA LIBRA (pouco mais de 5 reais). Uma pechincha perto da qualidade do disco.

Direto do Forno · Música

Holy Motors – Two Days Passed/Beast In Black (Demos)

Anton Newcombe, líder do The Brian Jonestown Massacre, mantém contato direto com os fãs através de sua conta no Youtube, postando canções e discos de sua banda e de artistas parceiros. Interessante notar que ele coloca o aviso “work in progress” (trabalho em andamento), para sabermos que trata-se de um material não-oficial e que ainda precisa ser lapidado.

A parceria mais recente é com a Holy Motors, banda da Estônia que, segundo o próprio Newcombe, foi à Berlim (cidade onde ele reside) gravar um EP com sua produção. Conhecemos, até o momento, duas demos de canções dessa parceria: “Two Days Passed” e “Beast In Black”.

O resultado é um som etéreo recheado com guitarras atmosféricas que parecem ter sido criadas lá no início dos anos noventa, quando iniciou-se o que conhecemos por shoegaze.

Direto do Forno · Música

Swervedriver – Mary Winter (Single)

Um dos maiores expoentes do shoegaze nos anos 90, o Swervedriver está com novo disco chegando, o segundo após um hiato que durou quinze anos.

Para anunciá-lo, a banda lançou o single “Mary Winter”, com raízes fortes na sonoridade mais clássica do estilo, cheio de camadas de guitarra ao fundo e a voz quase sussurrada. O vídeo em si é uma bela viagem, tal qual a canção. Abaixo você pode conferir a capa de “Future Ruins”, bem como ouvir o single.

A Dangerbird Records prepara o novo álbum para o dia 25 de janeiro do próximo ano.

Música · Traduções

David Stroughter, 1966-1970: Uma Lembrança

(Tradução que eu fiz do artigo “David Stroughter, 1966-1970: A Remembrance”, escrito por Hobey Echlin e publicado originalmente no MetroTimes, de Detroit, em 6 de fevereiro de 2017. Link aqui.)

PHOTO COURTESY JACK NELSON

Conheci David Stroughter em 1988. Eu estava na banda Spahn Ranch e Dave era amigo do nosso baterista, Odell Nails. Dave veio para cantar uma faixa incomum de dance em que tivemos a idéia de usar uma bateria eletrônica e sintetizadores. “O que você faria se dois leões me atacassem, me rasgando com suas garras?”, ele cantava. Eu estava no chão. Ele soava como Marvin Gaye em “I Want You”, elevando nossa canção post-punk da arte danificada ao romance e martírio em uma mesma linha.

Aqui estava este rapaz criado entre Southfield (subúrbio de Detroit) e a Alemanha, de onde era sua mãe. Ele era o epítome de um enigma post-punk de Detroit do final dos anos 80, um iconoclasta multicultural que cresceu com os sobrinhos e tios da realeza da Motown, que poderia ser ouvido conversando com o Einstürzende Neubaten num alemão fluente no andar de cima da sala Burns, no St. Andrew’s Hall, depois de um show.

Viramos colegas de quarto em Hamtramck (cidade americana localizada no estado de Michigan), onde ele me introduziu às maravilhas do A.R. Kane e Xmal Deutschland, bandas cuja beleza “pegou” as brilhantes canções de ninar do Cocteau Twins e as atirou por uma linha perfeitamente negra, vagamente sinistra, certamente azulada (no caso, uma referência ao blues). Também ouvíamos – e rimos muito sobre – N.W.A. Dave amava os personagens. Para ele, eles eram quase shakespearianos. “Eu os conheço todos e, ao mesmo tempo, mantenho a gema de sua ociosidade”, como o Príncipe Hal diz em Henrique V, parte 1 (peça teatral escrita por Shakespeare).

PHOTO COURTESY JACK NELSON

Depois que os membros do Spahn Ranch tomaram seus caminhos em separado, Dave e Odell formaram o Majesty Crush com Michael Segal, o cínico balconista da loja de discos que havia vendido a Dave os discos do A.R. Kane anos antes. Eu quebrei um galho como baixista. A gente se reunia no porão da casa de Dave em Indian Village (histórico bairro situado na região leste de Detroit). Nossos corações estavam no lugar certo, mesmo que os dedos, em sua maior parte, não estivessem. Tornaríamos-nos, supostamente, algo como o Velvet Underground ou, em minha parte, uma linha de baixo meia-boca do James Jamerson com uma mistureba de Joy Division (culpado pelo baixo, como fora acusado), Can e Motown. Nossa música era simples e espacial, mas as letras e o cantar de Dave eram profundos e sombrios. Era o Marvin Gaye cantando Syd Barrett, cheio de saudade, luxúria e auto-depreciação. Dave era o nosso mistério inocente, completamente inspirado, saudosamente efêmero, perfeitamente visceral, completamente formado. Ele era nossa faísca criativa, nosso presente de fogo.

Mas a estrela que brilha duas vezes mais forte, dura pela metade, parafraseando as palavras de Dr. Tyrell sobre Roy Batty de Blade Runner, porque, realmente, enquanto eu processo o falecimento de Dave e a década que levou a sua súbita e trágica morte, eu preciso de outro herói condenado para me referir.

Entender Dave como pessoa era entender uma vida de oportunidade limitada, oprimida por uma perda profunda. Seu primo foi assassinado durante um assalto a um caixa eletrônico quando morávamos em Hamtramck, levando sua amada tia Otti a voltar para a Alemanha. Mais tarde, o próprio Dave passou um final de semana preso depois de ser falsamente acusado por um assalto armado, simplesmente em virtude de ser um negro de pele clara com um espaço entre seus dentes. Isso não o enrijeceu; isso o inspirou. Na semana seguinte, escrevemos nossa canção mais alegre, “Penny For Love”.

PHOTO COURTESY JACK NELSON

Mesmo que o Majesty Crush tenha se tornado uma anomalia na era do Grunge e do Rock Alternativo na cena de Detroit, com esses shoegazers multiculturais tocando um gótico-amigável, girando num pop sombrio, Dave estava encontrando sua voz e cantando o seu blues. “Psycho-blues”, como ele rabiscou uma vez em uma folha de papel, com sua escrita rasurada, onde as letras se inclinavam e derrubavam umas sobre as outras. Ele cantava sobre cross-dressing (ato de vestir-se com roupas ou acessórios do sexo oposto), lojas de livros adultos e prostituição em melodias desfalecidas e harmonias em falsete. Mas elas falavam para um estranho e vago prazer que, depois de alguns drinques, pareciam uma epifania, como o flash de nossa secretária eletrônica (isso em 1992, lembre-se) avisando que você tinha uma mensagem quando chegou em casa depois do bar – mesmo que você tivesse checado se havia alguma mensagem duas horas antes.

Dave era um personagem, com certeza. Ele poderia se apresentar com uma roupa de mergulho, ser a vida (e, às vezes, a morte) depois da festa, e até acordar com uma companhia amorosa ou por cima de um lixeiro em Eastern Market (histórico distrito comercial de Detroit). Seus demônios eram reais, mesmo que, lá atrás, eles parecessem cartunescos, e até divertidos. Apesar de sua natureza mercurial, Dave sempre obteve êxito. Ele comprou uma casa em Hamtramck; Preston Long, do Mule, morava no andar de cima. Nós fizemos discos, excursionamos e compartilhamos aqueles momentos idiotas que toda banda tem, viajando pela primeira vez para outra cidade, mesmo que isso significasse ter tocado para a banda de abertura e seus amigos da loja de discos. Uma noite, tocamos no State Theater como parte do clube X da rádio 89X’s. Minha mãe veio nos assistir. Nos bastidores, Dave acendeu um baseado. “O que? Sua mãe sabe que eu fumo”, ele insistiu. Ele estava certo. Conhecê-lo era aceitá-lo.

Mesmo que o Majesty Crush estivesse à margem da cultura independente, nós vivíamos a sua esperança, bem como o seu cinismo. Quando fomos tocar em Nova York pela primeira vez durante o CMJ (festival de música e cinema), dirigindo por St. Market’s Place até o apartamento de nosso amigo em Bowery, Darcy, do The Smashing Pumpkins, atravessou sem olhar bem em frente nossa van. Representando o centro oeste! Naquela noite, bem depois que todos nós já havíamos entrado, Dave cambaleou depois de ver o Verve (eram dias “pré-The Verve) naquilo que hoje chamaríamos de pop up venue (avenida marcada por lojas temporárias). Ele teria compartilhado um pouco de Xerez (vinho típico da Espanha) com Richard Ashcroft. Como eles eram, Dave? “Rod Stewart se encontra com… Deus.” Amém.

PHOTO COURTESY JACK NELSON

No entanto, assim que nosso disco foi lançado, a nossa gravadora, uma subsidiária da Elektra, faliu. Nós fizemos o melhor, escrevendo e gravando um material mais agressivo, mas seguiríamos nosso caminho. Ficou marcado como um daqueles vários, vários momentos típicos do Spinal Tap (banda fictícia criada para um filme, lançado em 1984) que toda banda tem. Dave pegou a guitarra e fez alguns registros sob a alcunha de P.S. I Love You, escrevendo o epitáfio perfeito pós-shoegaze “Where The Fuck Is Kevin Shields?”, que achou o seu caminho até a lenda do rádio britânico John Peel, que compartilhou o sentimento ao vestir uma camiseta da gravadora perguntando a mesma coisa. Dave se mudou para Los Angeles, e era notavelmente resiliente com recursos bem limitados e um mercado musical inconstante. Ele se manteve vendendo carros de luxo usados que ele comprava em audições, enquanto encontrava seu colaborador mais consistente, Jonathan Wald, um verdadeiro Detroiter (natural de Detroit) cuja paciência trouxe uma generosidade emocional em Dave e que inspirou canções e cura após o falecimento da mãe de Wald alguns anos atrás. Apesar de estar baseado em L.A., Dave se tornou um “amigo-correspondente” da elite do shoegaze britânico, postando em fóruns e se irritando enquanto encantava-se com eles, principalmente com o baixista do Spacemen 3 e do Spiritualized, Will Carruthers, que acabou viajando até L.A. para gravar o álbum do P.S. I Love You. Entretanto, cada vez mais sua impaciência o fez seu próprio inimigo. Sua saúde mental não era tanto um problema quanto uma compreensão; há muito ele havia se tornado “Stroughter”, o protagonista maior-do-que-a-vida de histórias cada vez menos engraçadas. Ele possuía um olhar mais selvagem nas vezes que passamos juntos em L.A., mas eu coloquei a culpa daquilo na década de distância da insular reafirmação em Detroit. Ainda, éramos uma família. Ele pode ter aparecido em um Mustang conversível barulhento, mas fez questão de mostrar que havia espaço o suficiente para a cadeirinha do meu filho. Poderíamos não estar em contato sempre, mas eu sempre me senti próximo.

PHOTO COURTESY JACK NELSON

Quando Odell compartilhou a notícia do falecimento de Dave, ficamos os dois atordoados. Sabíamos que Dave estava fazendo suas coisas, pareceu para nós, com poucos retornos. Mas sempre compartilhamos a crença de que, não importasse a distância, ele estaria bem. Tempo depois que nos revertemos a vidas mais convencionais, Dave ainda estava lá fora, morando entre casas de hóspedes em Hollywood Hills (bairro nobre de Los Angeles) e no Morrison Hotel, fazendo seja lá o que for para trabalhar, trabalhar, em seus termos, pegando o bom com o ruim.

Por isso que mitificar ele ou sua morte é fazer um grande desserviço ao legado de David Stroughter como um artista ou visionário. Claro, há os fatores de seu falecimento que permanecem distantes, como “pela graça de Deus” e “por quem os sinos dobram”, mas, especialmente nesse clima, eles estão muito, muito pertos. Mas mais do que isso, lembrarei de Dave como viver em um mundo de pura imaginação, mesmo que isso tenha ficado mais hostil. Dave exigiu muito de todos ao seu redor, mas ele também entregou demais. Você cantou o seu blues, David. Por vários razões, mas na maioria, como você cantou e cantou, por amor. Obrigado, irmão. Você conseguiu a sua paz. Brilhe, seu louco e perfeito diamante.

COURTESY JENNIFER JEFFERY