Crônicas

O Monstro dos Mil Olhos

A boca salivava mesmo antes de me levantar; na cabeça, já percebia uma leve pontada. Cheguei a sonhar com o monstro dos mil olhos e sentia na pele, no sentido mais literal da expressão, a falta que ele me fazia. Ombros trêmulos, a coceira nos braços, uma sensação de formigamento espantadora que me impedia de seguir em frente. Mas a vida é impiedosa.

O despertador esperneava às sete da manhã quando levantei e fui correndo me arrumar. Os olhos mal se abriam quando entrei no banheiro e deixei a água do chuveiro caindo por alguns segundos. Nem a mais quente lava vulcânica era capaz de amenizar o gelo que eu sentia dentro daquela casa vazia. A chuva amena caía do lado de fora, infiltrando-se entre as estruturas da casa e me dava um oi pelas manchas no azulejo. Coloquei a primeira calça e primeira blusa branca que vi na minha frente, escovei os dentes, dei comida para os gatos e para o cachorro, calcei a bota velha e suja que ainda resistia ao tempo e parti para o trabalho feito uma bala.

No trânsito, foram mais alguns minutos de nervosismo e meu rosto começou a ficar vermelho, eu via tudo pelo retrovisor, tantos carros e motos e bicicletas e pessoas atravessando as ruas e a avenida e aqueles cachorros, pestes, porque não ficam no canto, toda essa agonia e a visão embaçada por causa do sono e porque essas pessoas não saíram mais cedo de suas casas, pensei. Fui desviando dos veículos, das enormes poças d’água, lutando contra o relógio e, chegando ao trabalho, ainda enfrentei o fedor insuportável daquelas águas sujas empoçadas e misturadas com mijos de motoristas de caminhão e grãos podres que já deviam estar ali há dias e agora a chuva os engolia e ajudava a deixá-los ainda mais nojentos.

Tentei abrir correndo a porta da sala, mas a chave não entrava e os braços trêmulos não se firmavam na direção da fechadura até que, finalmente, consegui e passei para o lado de dentro. A mochila nas costas ficou no meio do caminho. A copa era o destino e lá estava ele, me aguardando ferozmente, soltando fumaça por toda a sua superfície. O monstro dos mil olhos enclausurado em seu habitat natural. A garrafa térmica. Tomei o primeiro gole, depois o segundo, terceiro. No sexto, meu corpo voltou a se estabilizar. As tremuras passaram, bem como as coceiras. Tudo normal novamente. Vida que segue.

 

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Um minuto

A correria do escritório estava me matando naquele dia. Cobrança do gerente, dos colegas, da mulher, sistema travando, muita gente falando ao mesmo tempo… A única hora de paz era quando ia ao banheiro, mas o intestino não ajudava.
Fui colocar o celular para carregar quando, de repente, uma joaninha, em meio a toda aquela confusão, surgiu e pousou na minha mão. Ficou por volta de um minuto e bateu asas. Aquele minuto, para mim, durou anos. Aquele minuto salvou o meu dia. Por um minuto, aquela joaninha foi a minha melhor companhia. A vida está nas coisas simples.

*Escrito no dia 1 de julho de 2017. Fato verídico.