Direto do Forno · Música

Jair Naves – Deus Não Compactua (Single)

Após lançar “Veemente” em outubro do ano passado, Jair Naves solta mais um petardo, “Deus Não Compactua”, que entrará em seu terceiro disco solo, ainda sem nome.

Seu novo alvo são os falsos fiéis que tomaram conta do Brasil sil sil, liderados por políticos falastrões que usam o divino para justificar suas idiotices, mas que, de tão cegos, não visualizam a própria hipocrisia. O problema é que o veneno acaba se espalhando pela sociedade, atingindo não somente os seus votantes devotos, como também os opositores e até quem fica em cima do muro.

Assim, Jair segue assertivo em suas novas composições e reforça sua posição como um dos melhores artistas brasileiros da atualidade.

Infelizmente, o nosso país está tão confuso que até a fé, instrumento utilizado por muita gente como suporte para as dificuldades, está sendo manipulada para causar ainda mais confusão.

Crônicas · Música

A Conquista do Espelho

Qual o limite do “sentido” quando se trata de arte? Criar algo de fácil entendimento? Aceitação? Transitar entre o pedante e o popular? Ou melhor, o que é “fazer sentido”? Bem, são muitas perguntas e eu não tenho as respostas. Mas como diz uma famosa propaganda de televisão, são as perguntas que movem o mundo, e na arte não seria diferente. Diante deste cenário, o que mais me agrada é essa liberdade que o apreciador tem de fazer sua própria interpretação e criar a sua própria história em torno de alguma obra que o interesse.

Pensei sobre isso nos últimos dias, e um ótimo exemplo chegava sempre à minha mente. Gosto muito, muito mesmo do “Gessinger, Licks & Maltz” (também conhecido como GLM), disco que considero o melhor de toda a trajetória dos Engenheiros do Hawaii. É muito bem elaborado, muito influenciado pelo rock progressivo (Humberto é fã assumido do Rush e do Pink Floyd), as letras são enigmáticas e a banda estava no auge de sua criatividade e entrosamento. Apesar de tê-lo ouvido inúmeras vezes, ainda sinto dificuldade em interpretar as suas letras… E acho isso ótimo.

“Não é pose, não é positivismo.
Quanto pior, pior.”

Por ironia, logo na primeira faixa, “Ninguém = Ninguém”, temos uma das músicas mais claras de todo o álbum e que, de certa forma, entra no mesmo raciocínio do que disse logo acima. Um verdadeiro tapa na nossa cara e que, mesmo depois de tantos anos, parece bem atual.

Há tantos quadros na parede,
Há tantas formas de se ver o mesmo quadro.
Há tanta gente pelas ruas,
Há tantas ruas e nenhuma é igual a outra.
Ninguém é igual a ninguém!”

No decorrer do disco, sinto que o personagem (se é que exista algum, mas não importa, a graça é essa) vai entrando cada vez mais em um mundo sombrio, pós-apocalíptico, típico cenário de um filme sci-fi futurista: com chuva ácida, céu cinza, megalópoles lotadas de pessoas e poluição. Era 1992, ano do Impeachment do Collor, inflação fora do controle, manifestações, falta de investimentos… Ou seja, o que acontece na ficção não se diferencia muito da realidade do Brasil na época. Nem na atualidade, né?

“Falta pão
(o pão nosso de cada dia);
Sobra pão
(o pão que o diabo amassou).”

“Até quando você vai ficar fazendo o que quer comigo?
Até quando você vai ficar sem saber o que quer de mim?”

No final, a melhor parte e um dos desfechos mais espetaculares que já ouvi em um álbum: “A Conquista do Espelho/Problemas… Sempre Existiram/A Conquista do Espaço”. Três músicas formando uma só, até o momento em que o protagonista se conforma com a própria realidade ao observar tudo de fora e pensa: “aqui de cima até que é normal”.

“Nunca mais saiu da minha boca
O gosto amargo da palavra traição.
Nunca mais saiu da minha boca
Nenhum elogio a nenhuma paixão”

Mais alguns trechos interessantes do disco: 

“Por que você não soa quando toca?
Por que você não sua quando ama?
Ninguém derrama sangue
Quando perde, guerras de fliperama!”

 “A nossa elite burra se empanturra de biscoito fino.
Somos todos passageiros clandestinos dos destinos da nação.” 

“Vamos passear depois do tiroteio,
Vamos dançar num cemitério de automóveis;
Colher as flores que nascerem no asfalto;
Vamos todo mundo, tudo que se possa imaginar.”

“A mídia, a mediocracia;
Muito Zorro e nenhum Sargento Garcia.
Francamente
Há muito já não somos como já fomos:
Todos iguais.
Iguais aos poucos que ainda andam;
Iguais a tantos que andam loucos;
Iguais a loucos que ainda andam;
Iguais a santos que andam loucos de satisfação.”

Ter acesso a uma obra tão complexa que nos força a espremer os nossos neurônios para, ao menos, tentar compreendê-la é um privilégio. Em uma realidade onde o esforço para a criação de alto nível está cada vez mais difícil de ser encontrado, vale a pena parar um tempo e se atentar a esse disco que, mesmo após 25 anos, continua bem atual.

*Texto publicado no blog da Immagine no dia 31 de agosto de 2017. Link aqui.