Crônicas · Garimpo · Língua Presa · Música

Uma Noite Calma na Suécia

 

Imagine a situação:

É 18 de novembro de 2003, uma noite calma em Estocolmo, Suécia.

Pessoas se divertem no Debaser Hornstulls Strand, uma casa noturna famosa da cidade.

Mesas cheias de amigos que conversam, bebem, fumam, paqueram com pessoas de outras mesas, abrem seu corações, confidenciam segredos, discutem negócios, esportes e tudo mais que uma noite de distrações pode proporcionar.

Ao fundo, Andy Bell, um banquinho e um violão são os responsáveis pela trilha sonora do ambiente. Uma apresentação acústica com músicas do Ride, Oasis, entre outros.

Sua voz é calma, meio preguiçosa e tímida, capaz de chamar atenção e também de passar batida. Em “Thank You For The Good Times”, canção do Oasis que ele escreveu, seus versos são claros:

“Seria tão bom ouvi-lo dizer ‘obrigado pelos bons tempos’, antes que os bons tempos vão embora.”

Não tenho dúvida de que ao ouvirem os áudios dessa apresentação, as pessoas que lá estiveram e que tiveram bons momentos, pensam: 18 de novembro de 2003 foi uma noite calma na Suécia.

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Hoje Dancei Ouvindo Ride

Something Else, do The Brian Jonestown Massacre, foi um dos vários álbuns que ouvi hoje durante o dia. E no Spotify é o seguinte: quando um disco acaba, começa a tocar aquilo que o programa chama de rádio, que é um compilado aleatório de músicas que se parecem com o que acabou de ser reproduzido. É uma ferramenta interessante para descobrir bandas e artistas novos.

A rádio do Something Else tinha, em sua maioria, artistas de música psicodélica, como o Spiritualized e o Oh Sees. Só que teve uma em específico que quando começou a tocar, não acreditei. Meus braços arrepiaram-se por inteiro e pensei que havia entrado em uma máquina do tempo. “Dreams Burn Down”, do Ride.

Quando o shoegaze entrou na minha vida, eu estava naqueles momentos de personalidade vulnerável, ainda sendo moldado sob as próprias influências. Nowhere, do Ride, foi um dos grandes discos que abriram as portas para que eu adentrasse nesse universo de guitarras dissonantes, etéreas e barulhentas.

Voltando ao tempo presente, era final de tarde e estava encerrando o expediente (home office) quando “Dreams Burn Down” começou a tocar. Peguei um cigarro, acendi e coloquei o volume da caixa de som quase no máximo, fazendo com que a bateria SENSACIONAL do início da música quase trincasse a janela da sala. No quintal, meus dois cachorros ouviram o barulho da porta sendo aberta e vieram ver o que eu estava fazendo. A música, que eu não ouvia há uns bons anos, levou-me a dançar com eles durante todo o seu decorrer. Para minha surpresa, até a letra eu ainda sabia cantar.

Quase chorei em certo momento. Foi como se ela tivesse se transformado em correntes de ar e entrado em meu organismo, tomando conta de minhas emoções.

Foi como expurgar parte de demônios que ainda vivem dentro de mim.