Crônicas · Língua Presa · Música

Hoje Dancei Ouvindo Ride

Something Else, do The Brian Jonestown Massacre, foi um dos vários álbuns que ouvi hoje durante o dia. E no Spotify é o seguinte: quando um disco acaba, começa a tocar aquilo que o programa chama de rádio, que é um compilado aleatório de músicas que se parecem com o que acabou de ser reproduzido. É uma ferramenta interessante para descobrir bandas e artistas novos.

A rádio do Something Else tinha, em sua maioria, artistas de música psicodélica, como o Spiritualized e o Oh Sees. Só que teve uma em específico que quando começou a tocar, não acreditei. Meus braços arrepiaram-se por inteiro e pensei que havia entrado em uma máquina do tempo. “Dreams Burn Down”, do Ride.

Quando o shoegaze entrou na minha vida, eu estava naqueles momentos de personalidade vulnerável, ainda sendo moldado sob as próprias influências. Nowhere, do Ride, foi um dos grandes discos que abriram as portas para que eu adentrasse nesse universo de guitarras dissonantes, etéreas e barulhentas.

Voltando ao tempo presente, era final de tarde e estava encerrando o expediente (home office) quando “Dreams Burn Down” começou a tocar. Peguei um cigarro, acendi e coloquei o volume da caixa de som quase no máximo, fazendo com que a bateria SENSACIONAL do início da música quase trincasse a janela da sala. No quintal, meus dois cachorros ouviram o barulho da porta sendo aberta e vieram ver o que eu estava fazendo. A música, que eu não ouvia há uns bons anos, levou-me a dançar com eles durante todo o seu decorrer. Para minha surpresa, até a letra eu ainda sabia cantar.

Quase chorei em certo momento. Foi como se ela tivesse se transformado em correntes de ar e entrado em meu organismo, tomando conta de minhas emoções.

Foi como expurgar parte de demônios que ainda vivem dentro de mim.

Direto do Forno · Música

Lenny Pistol – (Still Losing) The Control (Single)

O vídeo de “(Still Losing) The Control)”, single mais recente do Lenny Pistol, é uma viagem. O filtro de VHS somado à colagens e cores púrpuras são ótimos complementos à música, levada por uma guitarrinha psicodélica e a voz preguiçosa e charmosa de Lenny. A letra parece narrar um sonho ou, melhor ainda, um passeio lisérgico.

Lenny Pistol é um dos artistas que mais gostei de conhecer nos últimos anos. Original, ele usa suas referências para passear entre o pop e o indie, sem parecer “comercial” (não gosto desse termo, mas ok) demais, e nem tão underground assim. Escrevi sobre o EP de estreia dele aqui.

Se vem um disco novo em breve, ainda não foi anunciado. Mas “(Still Losing) The Control)” seria o anúncio ideal para isso.

Direto do Forno · Música

All Them Witches – Saturnine & Iron Jaw (Single)

É intrigante como o All Them Witches passeia por várias vertentes musicas em uma só canção. Em um disco então, é uma salada completa, e das boas. É só ouvir o último lançamento do grupo, ATW, cujas impressões pessoais registrei aqui.

Agora vem o seu sucessor, Nothing As The Ideal, com lançamento previsto para o início de setembro via New West Records.

A canção que inicia esse novo trabalho já está disponível para o público, e é sobre ela o que disse no início desse texto. Com quase sete minutos e com um riff poderoso, ela navega entre o rock psicodélico e o stoner, e tem uma característica interessante e presente em várias outras músicas da banda: ela dá uma quebrada no tempo, de repente, até que volta subindo o tom até explodir de novo.

Se o trio mantiver a regularidade, acho que vem mais pedrada por aí.

Garimpo · Música

Terrapin

Faixa de abertura de The Madcap Laughs, a obra-prima de Syd Barrett lançada em 1970, “Terrapin” é uma das maiores criações do músico em sua carreira solo. Em tempos de quarentena, Syd tem sido uma de minhas melhores companhias e sua voz ecoa pelas paredes da casa há alguns dias, e tenho ouvido “Terrapin” exaustivamente.

Por ter formato acústico, quis aprender a tocá-la. Não é tão difícil, apesar de possuir algumas sequências de acordes não muito convencionais em alguns trechos. Por isso Syd Barrett está no hall dos grandes artistas da história, por fugir do convencional, experimentar, ousar em suas criações.

Ao pesquisar tutoriais e tablaturas, deparei-me com duas surpresas. A primeira, um cover de David Gilmour presente em seu DVD In Concert, lançado em 2002. A segunda, uma estranha versão dos Smashing Pumpkins, de 1992, cantada por James Iha.

Vale conferir pela curiosidade, mas nada substitui a crueza e a beleza da original.

Quarta Parede

Twin Peaks

Boardwalk Empire, Mad Men, Peaky Blinders, The Wire, Lost, Stranger Things, etc.

É provável que nenhuma dessas e várias outras superproduções televisivas das últimas duas décadas existissem se não fosse por Twin Peaks, série criada por David Lynch e Mark Frost que estreou em 1990, durou duas temporadas, ganhou um revival em 2017 e que mudou para sempre a história da TV mundial.

Por aproximar o cinema da televisão e construir um único filme dividido em trinta episódios (considerando as duas primeiras temporadas somente), Twin Peaks encanta por uma variedade de fatores:

  • Uma trama misteriosa e atraente, cheia de reviravoltas, surpresas e emoção;
  • Vários personagens, dos principais aos secundários e até os coadjuvantes, que por algum momento possuem um enfoque/história paralela que complementam a história;
  • As famosas femme fatales que trazem um charme à mais ao seriado;
  • A maravilhosa trilha sonora de Angelo Badalamenti;

E tantos outros detalhes que completam o universo da trama.

Porém, nada do que foi citado supera aquele que considero o ponto mais alto do seriado: Dale Cooper, o personagem mais charmoso da história da TV, brilhantemente interpretado por Kyle MacLachlan.

Além de seu notável vocabulário e sua fixação por cafeína, o personagem chama a atenção por sempre analisar as situações além do que elas aparentam ser. Em muitos momentos, com uma digna dose de nonsense, Cooper convence a todos de que a solução de um caso está em um sonho, em uma visão ou apenas pela intuição.

No entanto, o que fez Dale Cooper entrar no meu hall de personagens favoritos são os seus ensinamentos. Não, não, nada de coach ou guru intelectual por aqui. São diálogos ou monólogos com opiniões bem peculiares a respeito de um determinado assunto que, mesmo que seja banal, soa enriquecedor ao intelecto. Veja abaixo e, se possível, assista Twin Peaks. Nunca mais sairá da sua cabeça.

Direto do Forno · Garimpo · Música

Garimpo: Chicos De Nazca

Foi por uma recomendação do André Barcinski em seu espaço no Uol (faz muita falta) que conheci a Chicos De Nazca, banda chilena de Santiago que vive em Berlim desde 2010.

Ouvi uma música aqui e outra ali e achei interessante o som, porém, caiu no limbo das playlists. Hoje isso mudou. Embarquei em uma viagem aos anos 60 com Since You Got It, o álbum mais recente do conjunto (saiu essa semana), e entrei em transe.

São muitas guitarras se entrelaçando e conduzindo o ouvinte a um passeio entre paisagens coloridas, giratórias, flutuantes e cheias de flores. Nem precisa de “ajuda”, se é que me entendem.

Para quem gosta de psicodelia, é um prato cheio.

Direto do Forno · Música

O novo do Tool: Fear Inoculum

“Por milhões de anos, a humanidade viveu como os animais. Então, algo aconteceu e desencadeou o poder de nossa imaginação: nós aprendemos a falar.”
-Stephen Hawking

Comunicação. 

Se me perguntassem como eu definiria o trabalho do Tool, seria essa a palavra. É mais do que sentir ou ouvir as músicas. É uma orientação de pensamento, de colocar-se em um espaço vulnerável para absorver cada palavra e analisar o que está sendo dito. Como uma conversa, onde um lado transmite o que está pensando e o outro escuta para tirar as suas conclusões.

Por isso Fear Inoculum foi tão aguardado por todos os fãs. Porque falta sinceridade na música atual. Faltam artistas que colocam o ouvinte em um estado desconfortável e que o forçam a ouvir o disco duas, três, até dez vezes para captar todos os seus pedaços. E, ainda assim, haveriam surpresas. Um sussurro, uma virada de tempo diferente, uma letra mal-entendida e assim por diante. No caso do Tool, até hoje sou surpreendido com detalhes não percebidos em audições anteriores.

O trabalho é composto por dez faixas (considerando aqui a versão digital), sendo quatro instrumentais que funcionam como uma espécie de vinhetas para que o disco soe como uma única longa canção. Apesar de entender o conceito, achei desnecessária a quantidade (como também são nos outros discos).

Seus dois extremos são os pontos altos: a faixa-título que inicia a jornada e “7empest”, o desfecho, essa sendo a mais longa e a que mais causou-me um transe sonoro. Pesada e psicodélica na medida ideal. Mas isso é uma opinião recente. É impossível digerir um disco do Tool em tão pouco tempo. Fear Inoculum é um lançamento que renderá novos entendimentos a cada audição.

Meu único lamento é a arte da capa e do novo logo da banda. Poderiam ter sido bem melhores.

1. Fear Inoculum
2. Pneuma
3. Litanie contre la peur (instrumental)
4. Invincible
5. Legion Inoculant (instrumental)
6. Descending
7. Culling Voices
8. Chocolate Chip Trip
9. 7empest
10. Mockingbeat (instrumental)

 

 

 

Direto do Forno · Música

All Them Witches – 1×1 (Single)

Agora como um trio, o All Them Witches já está preparando o sucessor do ótimo ATW, lançado ano passado e que ficou por muitos dias nas minhas playlists diárias.

Não há nada confirmado de forma oficial, mas podemos esperar algo em breve, pois no último dia de outubro a banda soltou um single de repente, intitulado “1×1”, via New West Records.

Um rock do deserto feito sob medida, com altos riffs de guitarra, toques psicodélicos e uma bateria arrasadora. Confira abaixo.

 

Direto do Forno · Música

Tool – Fear Inoculum (Single)

Caro leitor, aconteceu. A internet parou, os planetas pararam, a humanidade parou. O que muitos acharam que nunca mais aconteceria, finalmente saiu da imaginação e faz parte da nossa realidade: o Tool irá lançar sim um novo disco esse ano, no dia 30 de agosto, e hoje já podemos ouvir o seu primeiro single.

O novo trabalho já tem nome: Fear Inoculum, e a faixa-título foi liberada para audição. São dez minutos de viagem ao inconsciente, como toda a obra do grupo.

É difícil falar sobre o Tool sem deixar a emoção de lado, pois é a minha banda favorita. É música que transcende a experiência do sentir. Ao finalizar a audição, fiquei estático olhando para o computador de tanta emoção.

Mal posso esperar pelo disco completo, porém, paciência. Ao menos, ainda bem, já sabemos que ele chegará.

Direto do Forno · Música

O Novo do Satan’s Pilgrims: The Way In To Way Out? EP

Em comemoração de dez anos do disco Psychsploitation, os lunáticos do Satan’s Pilgrims presentearam os fãs não somente com o relançamento do trabalho em vinil, mas também com um EP novo em folha que acompanha o mesmo.

Gravado esse ano, é um álbum curto, de apenas três canções, mas que garantem a diversão do ouvinte com bastante guitarras-surf e psicodelia, que reverberam de forma profunda na audição.

Não é à toa que o estilo surf rock é um dos mais interessantes de se conhecer, pois a animação é contagiante e incansável.

1. The Way In To Way Out?
2. Solar Flare
3. Journey To Eden