Direto do Forno · Música

O Novo do Our Transient Lives: Daily Loss EP

O nome Daily Loss, título do novo EP do Our Transient Lives, em português seria algo como “perda diária”. Tendo como base um poema visto na biblioteca pública de Indianápolis, Jared Rosdeutscher criou essa peça carregada de melancolia. Todos os dias perdemos alguma coisa, desde objetos banais até pessoas ou a si mesmo.

É um tipo de música que eu indicaria para os fãs de música ambient sem titubear, mas é bom cuidar com a tristeza que a cerca. Vai além da hipnose. Os pianos ao fundo de “First the Hour, Then the Day” explicitam isso. “Small the Daily Loss Appears” é como um sopro interminável e aos poucos cada elemento ao redor vai aparecendo, desde o baixo até ecos de guitarra, mas que vão embora em poucos instantes.

O encerramento com “Yet It Soon Amounts to Years” trouxe à minha mente “Wallace”, a minha música favorita da trilha sonora do Blade Runner 2049. Ouça as duas e perceba a semelhança.

Daily Loss é o primeiro trabalho que ouço desse projeto e gostei da forma como Jared monta suas peças, sabendo encaixar todos os detalhes nos momentos certos. Se ele traz a palavra “perda” em seu título, afirmo que tempo é algo que não foi perdido durante a audição desse EP.

Como é doce (e traiçoeira) a beleza da melancolia.

Esse é o poema citado no início do texto:

“Time by minutes slips away
First the hour, then the day
Small the daily loss appears
Yet it soon amounts to years”
-Ronald Tierney

1.Time By Minutes Slips Away
2. First the Hour, Then the Day
3. Small the Daily Loss Appears

4. Yet It Soon Amounts to Years

Garimpo · Música

Garimpo: Inches to Infinity

Tem um canal no Youtube que eu adoro, chamado Worldhaspostrock. É um dos maiores e melhores acervos de post-rock na plataforma, com vários discos e playlists para ouvir, sem falar que o canal ficou tão grande que algumas bandas lançam seus trabalhos em primeira mão direto por ele.

Tento ouvir o máximo que posso, principalmente as novas postagens, mas não tem como, é muito material. Mas teve um em específico que atingiu o meu emocional em cheio, um projeto chamado Inches to Infinity, e a canção de nome “These Bones Have Life”.

Na página deles no Bandcamp, a descrição é perfeita:

“Pintando quadros com música, algumas vezes sem palavras.”

São nove canções ao todo, todas no esquema pague o quanto quiser. E as artes visuais são maravilhosas, um aspecto fundamental que engrandece a experiência de ouvir.

Deixo abaixo aquela que citei acima e que me deu arrepios, “These Bones Have Life”.

Direto do Forno · Música

O Novo do Spotlights: We Are All Atomic EP

Seguindo a mesma proposta de misturar elementos das mais variadas escolas e juntá-las em um só núcleo, o Spotlights lançou no final do último mês We Are All Atomic, um EP curto, com pouco mais de vinte e quatro minutos, mas que mantém a criatividade de Love & Decay, o trabalho anterior.

Formado por quatro canções (I, II, III e IV), We Are All Atomic parece dividido ao meio. As duas primeiras peças se complementam, e as duas últimas, idem.

Bebendo do post-rock, “I”, com quase oito minutos, inicia o álbum feito uma trilha sonora pós-apocalíptica, com uma guitarra atmosférica dando um tom sombrio e contínuo que permanecem até a sua metade. A partir daí, a canção muda a chave ganha um aspecto mais violento, com distorções de peso e percussão entrando e conduzindo o restante até “II”, marcada por bateria e baixo cadenciados e guitarras pesadas.

Pode-se dizer o mesmo da outra metade do disco, o que muda apenas é a ordem de duração das músicas. “III” é o pedaço que introduz o ambiente de distopia, cuja repetição é estendida até a última fatia, “IV”, mais pesada e caótica e que, ao final, a guitarra age como uma sirene e, à exaustão, repete-se até o final.

Como em boa parte das bandas do universo shoegaze, as vozes, quase inaudíveis, são apenas um complemento em toda a estrutura, e não a força principal.

Por pegar referências em várias fontes, uni-las e criar uma música não original, mas particular, faz da Spotlights uma das minhas principais recomendações para quem gosta de um som pesado, hipnótico e melancólico.

We Are All Atomic foi lançado oficialmente em 27 de março, dessa vez pela Blues Funeral Recordings.


1. Part I
2. Part II
3. Part III
4. Part IV

Diversos · Garimpo · Língua Presa · Música

Criança de Domingo

Manguebeat. O termo que revitaliza a música brasileira dos anos noventa. Que leva mundo afora a originalidade tupiniquim, o Chico e sua Nação, Fred 04 e o seu Mundo Livre, passeando do underground ao sucesso.

Da ponte aérea SPxPE, conhecemos Criança de Domingo. Escrita por Cadão Volpato, ex-Fellini e que à época liderava o Funziona Senza Vapore (1992), a canção que faz parte do único disco do projeto chegou aos ouvidos de Chico Science por Stela Campos, uma das integrantes da banda. Chico gostou tanto que a regravou para o segundo disco da Nação Zumbi, Afrociberdelia, de 1996.

A original, que só chegou à luz em 2002 (assim como todo o registro do Funziona Senza Vapore), bebe do pós-punk inglês. Já a regravação, mais lenta e melancólica, é moldada à forma do mangue, através de percussão e a guitarra de Lúcio Maia.

Da ponte aérea SPxPE, ganhamos a influência Inglaterra x Brasil. América do Sul x Europa. Tudo em um movimento só.

A música é universal.

Direto do Forno · Música

A Estreia do The Quiet Temple

A introdução que fiz ao The Quiet Temple quando escrevi sobre o primeiro single do projeto serve muito bem como um resumo de todo o seu álbum de estreia, auto-intitulado:

“O estreante The Quiet Temple, por exemplo, tem a tag jazz como identificador em sua página. E num primeiro momento, sim, jazz caberia bem como um rótulo. No final dos quase oito minutos de “The Last Opium Den (On Earth)”, o primeiro single de seu disco de estreia, o ouvinte sabe que a fronteira vai muito mais além.”

Pelas variações de tempo, diversificação instrumental e alterações de clima, vejo uma clara influência do Talk Talk, principalmente de seu último disco, Laughing Stock, de 1991. Por coincidência (ou não), até o número de faixas é o mesmo.

Alguns desses resquícios permeiam na atmosfera jazzística de canções como “The Bible Black” e “Noah’s Theme”, com o sopro ao fundo aparecendo vez ou outra, acrescentando um charme na canção.

“Shades of Gemini”, a mais longa, tem em seu destaque o baixo regente, que possibilita o improviso e o experimento dos metais de forma caótica e hipnotizante. A partir dos seis minutos, o jogo musical ganha o acréscimo de uma guitarra-solo enfurecida, que chega a todo volume e torna a experiência ainda melhor. É a brisa matinal que toma forma até atingir o nível de um furacão.

O final também longo com “Utopia & Visions” transforma a euforia em uma construção mais cadenciada e quieta, mantendo uma constância tranquila até o seu desfecho.

Como o nome sugere, The Quiet Temple é um disco estranho para dias atuais, pois exige atenção para os mínimos toques e, principalmente, tempo, algo cada vez mais escasso na correria cotidiana. Serão necessárias, duas, três ou até mais audições para captar todos os detalhes do álbum, mas é um exercício que vale cada neurônio gasto.

1. The Last Opium Den (On Earth
2. The Bible Black
3. Shades Of Gemini
4. X Rated
5. Noah’s Theme
6. Utopia & Visions

Direto do Forno · Música

O Novo do Spotlights: Love & Decay

Junte a arte visual com o som da banda e a sensação é de navegar entre uma chuva de meteoros em pleno espaço sideral. Assim é Love & Decay, novo trabalho do Spotlights que chegou à Terra em 26 de abril desse ano pela Ipecac Recordings, gravadora do Mr. Mike Patton.

Mesmo que seja possível perceber as mais diversas influências no disco, como o shoegaze, o post-rock, o space rock, o stoner metal e até o doom metal, a predominância característica e que fica marcada é o peso. Em resumo, é um disco muito pesado, e devido às variedades que o compõem, torna-se, também, um trabalho emotivo.

Boa parte das canções tem a mesma proposta, iniciando com muita força e, em seguida, deixando a experimentação tomar conta, transformando a carga cheia em um espaço de flutuação.

“Far From Falling”, com mais de sete minutos, engata uma viagem espacial a partir de sua metade, com riffs repetitivos, guitarras solando ao fundo e a bateria constante que parece explodir a qualquer momento. E explode, quando a distorção engrandece e eleva ainda mais o estado psicodélico-espacial da canção.

Outros pontos altos do disco são os dois singles lançados anteriormente, “The Particle Noise” e “The Age of Decay”, que mesclam momentos sutis e hipnóticos com agressividade.  “Xerox”, a mais curta do álbum e cujo videoclipe você confere abaixo, destoa um pouco das demais, pois mantém a intensidade do começo ao fim. “The Beauty of Forgetting”, com quase onze minutos, finaliza com maestria e causa certa perplexidade, daquelas em que a pessoa fica estática, olhando para o nada, absorvendo tudo o que ouviu.

As edições em CD e vinil ainda contam com uma faixa extra, chamada “Sleepwalker”.

Tendo em vista tamanha riqueza de influências e detalhes de Love & Decay, saber que tudo isso é feito por um power trio catapulta ainda mais seu brilhantismo. Nada é feito com preenchimentos chatos ou megalomaníacos. A mistura entre o peso e a emoção podem atingir até ouvintes não-habituados com o estilo, apesar de que, à primeira audição, pode causar estranhamento.

Para fãs desse tipo de som, como eu, é um prato cheio.

1. Continue The Capsize
2. The Particle Noise
3. Far From Falling
4. Until The Bleeding Stops
5. Xerox
6. The Age of Decay
7. Mountains Are Forever
8. The Beauty of Forgetting

Direto do Forno · Música

The Quiet Temple – The Last Opium Den (On Earth) (Single)

É comum jogar na esfera da “música experimental” qualquer trabalho que tem na sua construção um passeio pelas mais variadas formas e estéticas sonoras, seja para agrupar um seleto conjunto de artistas, para identificar um coletivo ou apenas para tentar explicar aquilo que se ouve. Porém, ao analisar atentamente, questiono: qual música hoje em dia não é feita de experimentos?

O estreante The Quiet Temple, por exemplo, tem a tag jazz como identificador em sua página. E num primeiro momento, sim, jazz caberia bem como um rótulo. No final dos quase oito minutos de “The Last Opium Den (On Earth)”, o primeiro single de seu disco de estreia, o ouvinte sabe que a fronteira vai muito mais além.

O próprio Rich Machin, um dos cabeças do projeto, analisa o disco como um híbrido de jazz, krautrock e Velvet Underground, mas as influências são infinitas. Eu, por exemplo, colocaria também a ambiência do post-rock nesse liquidificador.

Independente disso tudo, o que importa é a qualidade. Palmas para o The Quiet Temple.

O disco completo, homônimo, será lançado pela Wichita Recordings em 05 de julho desse ano.

Diversos · Língua Presa · Música

Adeus, Mark Hollis

O Talk Talk nasceu em Londres, no ano de 1981, em meio à febre do synthpop, onde os sintetizadores eram os principais regentes das canções. (Bandas como o A-ha, Eurythmics, Soft Cell e Tears For Fears são ótimos exemplos do estilo.)

Formada por Mark Hollis (guitarra, piano e voz), Lee Harris (bateria) e Paul Webb (baixista) e embarcando nessa onda, o sucesso veio rápido, com alguns singles estourando em vários países ao longo da Europa. No terceiro disco, The Colour of Spring, as mudanças começaram. As melodias ficaram mais complexas e as letras de Hollis mais reflexivas, o que não impediu o estouro de músicas como “Like’s What You Make It” e “Living In Another World”, por exemplo.

A partir de Spirit of Eden, de 1988, a casa caiu de vez. Trocando os sintetizadores e melodias pop por longos improvisos jazzísticos e experimentações sonoras com camadas e atmosferas mais sombrias, o Talk Talk atingiu o ápice de sua criatividade, principalmente no álbum seguinte, o quinto e último da discografia da banda: Laughing Stock, lançado em 1991. Poucos meses depois, a banda encerrou suas atividades.

Sobre as vendas, foram decepcionantes se comparadas aos trabalhos anteriores. Porém, isso é o de menos. Os dois discos são considerados precursores do que conhecemos hoje como post-rock (junto ao Spiderland, do Slint) e citados como dois dos maiores álbuns lançados durante aquele período.

Em 1998, Mark Hollis aventurou-se em uma carreira solo e lançou um único disco auto-intitulado. Foi seu último trabalho antes de se aposentar da indústria da música.

Há pouco menos de dois meses, em 25 de fevereiro e aos 64 anos, Hollis veio a óbito.

Se eu fizesse uma lista com os dez melhores discos que já ouvi até hoje, sem dúvida alguma, Laughing Stock estaria na primeira metade.

Direto do Forno · Música

Wagner Almeida – O Cão e a Raposa (Single)

Da capa desesperadora, obra da artista Lola Camicasca, ao som doce e melancólico que acrescenta pitadas de math rock ao trabalho cru e caseiro, Wagner Almeida lança “O Cão e a Raposa”, o primeiro single de seu novo disco, previsto para sair do forno em maio.

O nome da canção busca referência na animação de mesmo nome, lançada em 1981 pela Disney. Assim como o filme retrata uma amizade que se transforma em desarmonia, Wagner assimila essa premissa à dificuldade em satisfazer as expectativas dos pais, muitas vezes esperançosos por um futuro melhor aos filhos, porém, sob sua própria visão de mundo, sem levar em consideração a vontade dos mesmos.

“Rock triste” foi o termo usado por alguns veículos para se referirem à cena mineira que surgiu há alguns anos, e apesar do mau gosto na definição, não há como deixar de associar esse tempero à música de Wagner Almeida.

Bela canção.

“Voltei dessa vez só .
Pensar de mais dói .
Alegrar os seus pais ,
Alegrar seus pais .

Nós somos tão iguais “

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Spotlights – The Age of Decay (Single)

Confesso que não estava com a audição preparada quando apertei o play para “The Age of Decay”, novo single do Spotlights. A avalanche sonora que atingiu os meus tímpanos foi de uma força avassaladora, algo muito surpreendente para um power trio.

O Spotlights é um conjunto norte-americano que integra o catálogo da Ipecac Recordings, gravadora fundada pelo Mr. Mike Patton, uma das mais interessantes da atualidade. A banda é composta por Sarah Quinteto (vocais e baixo), Mario Quintero (guitarra, vocais e sintetizadores) e Chris Enriquez (bateria).

O disco “Love & Decay” chega por completo em 26 de abril desse ano, e somente a canção citada acima está disponível de forma oficial até o momento. Sobre ela, é um estrondo de cordas, sintetizadores e bateria que seguem a fórmula de calmaria/tempestade, alternando entre melodias mais suaves até os riffs mais pesados entrarem em cena.

Odeio escrever com exageros, mas o impacto de “The Age of Decay” foi muito forte em mim. Eu realmente adorei a canção.