Direto do Forno · Música

O novo do Iggy Pop: Free

A parceria com Josh Homme parece ter feito bem para a mente de Iggy Pop. Passados três anos desde Post Pop Depression, eis que chega ao mundo Free, seu décimo oitavo disco em carreira solo, com uma banda renovada e um estilo diferente.

As guitarras foram deixadas de lado e metais tornaram-se os fios condutores do álbum, uma semelhança com Blackstar, do David Bowie, que o ouvinte mais atento notará com facilidade. Além disso, o ar melancólico e meio noir traz uma faceta de Iggy que contrasta com sua figura selvagem e raivosa.

Após a abertura com a faixa-título, onde o artista escancara seu desejo de liberdade com um instrumental quase ambient, a trinca dançante happy-sad “Loves Missing”, “Sonali” e “James Bond” vem logo em seguida como o ponto mais alto do disco, sendo a última, talvez, uma das melhores canções de toda sua carreira.

Na segunda metade, o disco entra em uma espiral depressiva. A exagerada “Dirty Sanchez” não é tão atrativa, mas “Glow In The Dark” compensa em sequência. Para os fãs de poesia, “We Are The People”, com letra do Lou Reed, “Do Not Go Gentle Into That Good Night” (um poema de Dylan Thomas) e “The Dawn” são três peças de spoken word que finalizam o álbum de forma primorosa.

Com uma carreira de cinco décadas, Iggy Pop não precisa mais da aprovação de ninguém e pode fazer o que bem entender com sua música. Ele é livre, e tal liberdade nos brindou com um disco de alto nível. Como eu disse há alguns meses, que esse não seja o seu epitáfio, como Blackstar foi para seu amigo Bowie.

1. Free
2. Loves Missing
3. Sonali
4. James Bond
5. Dirty Sanchez
6. Glow in the Dark
7. Page
8. We Are the People
9. Do Not Go Gentle Into That Good Night
10. The Dawn

 

Garimpo · Música

Ex:Re, Ex Hex e FEELS

Três discos de grupos da atualidade (e liderados por mulheres) para ficar de olho.

O Ex:Re, projeto da Elena Tonra (Daughter) é mais melancólico, enquanto o Ex Hex e o FEELS são mais sujos.

São discos que funcionam em qualquer momento, seja no trajeto para o trabalho ou no conforto do seu sofá. Ou da cama, se preferir.

O repeat é garantido.

Ex:Re – Ex:Re

Ex Hex – It’s Real

FEELS – Post Earth

 

 

Crônicas · Língua Presa · Música

Dor

Aproveitando o gancho que o canal oficial do Nick Cave me deu ao subir no Youtube uma performance incrível de “Magneto”, vou finalizar esse rascunho que está há meses parado aqui no meus arquivos. Chama-se “Dor”.

Dor porque é através dela que, creio eu, os artistas tiram o melhor de seus talentos. Certa vez (isso tem anos), ao comentar com minha esposa que não conseguia escrever ou tocar quando estava triste, ela me deu esse soco na consciência:

-Bem, então você nunca irá gravar o seu melhor disco.

Posso citar Kurt Cobain, Elliott Smith, Damon Albarn e tantos outros que extraíram o pior de seus eus para criar obras incríveis, mas foi a perda de Nick Cave que me instigou a escrever esse texto.

Em julho de 2016, um de seus filhos, Arthur, então com 15 anos, caiu de um penhasco na Inglaterra e veio a óbito. Cave não concedeu nenhuma entrevista a respeito do ocorrido durante os dias de luto. Pelo contrário, respondeu todas suas perguntas em forma de música ao lançar Skeleton Tree no mesmo ano. E mesmo sem mencionar o acidente de forma direta nas letras, as referências são claras.

“Magneto” é a canção mais cortante do disco, daquelas em que o artista deixa seu coração totalmente exposto à quem quiser ver. Porém, toda a obra funciona como um cicatrizador para a ferida que dificilmente se fechará por completo.

Charles Bukowski escreveu em um poema sobre o que é ser um escritor, e para ele, as palavras devem sair até de suas entranhas, quase explodindo o seu interior. É como uma lava cutucando a borda de um vulcão, suplicando para encontrar a luz do dia.

Alguns músicos são verdadeiros escritores antes de serem, propriamente, músicos. Nick Cave é um deles. E meu favorito.

Direto do Forno · Música

Current Affairs – Buckle Up/Worlds In Crisis (Single)

No início do ano, escrevi sobre o Current Affairs (aqui), um conjunto escocês de post-punk que impressiona pela curta e rica discografia.

Eles continuam sem lançar um disco completo, mas acaba de chegar mais um single, “Buckle Up/Worlds In Crisis”, gravado em abril do ano passado e só agora disponibilizado de forma oficial.

Se você gostar dos outros singles, também curtirá esse. Sem tirar nem por, a mesma essência.

Direto do Forno · Música

Dois EP’s do The Melancholic Youth of Jesus

Julgo importante colocar aqui que descobri o The Melancholic Youth of Jesus por uma entrevista do Carlos Sérgio, idealizador do projeto, concedida ao Floga-Se, talvez o site musical que mais acompanho há anos.

Pense no Jesus and Mary Chain (fase Psychocandy) saindo de Portugal. Só que muito, muito mais obscuro.

Recentemente, a extensa discografia do conjunto ganhou alguns integrantes: dois EP’s com três canções cada, cujo lançamento de um foi ontem, 10/06, e outro hoje.

Social Suicide é mais sombrio e hermético, como um espaço vazio e escuro. Gloominati, em contraste, soa etéreo. É como se ambos se completassem.

A dualidade e capacidade de renovação em um espaço de tempo curto são encantadoras.

Diversos · Língua Presa · Música

Domingo de Páscoa

“Domingo de Páscoa”, do álbum Só Vive Duas Vezes, do Fellini. Já escrevi um breve texto sobre o disco aqui.

Cadão Volpato é ótimo em criar cenários em suas canções, mesmo com letras tão desconexas. E a canção tem tudo a ver com o feriado do final de semana.

O blog retorna após o mesmo, na segunda. E lembre-se: depois do domingo de páscoa, a segunda é o dia. Tudo volta ao normal.

“Depois do Domingo de Páscoa,
Segunda é o dia
Olhar uma por uma todas as quaresmeiras
É só o galo cantar e acordar o seu Pinto
Não é todo dia que se tem a vida inteira
O sol se levanta quando alguém cai da cama
As mulheres correndo que o ônibus vem vindo
Os judeus numa boa e os cachorros latindo”

Direto do Forno · Música

Jair Naves – Deus Não Compactua (Single)

Após lançar “Veemente” em outubro do ano passado, Jair Naves solta mais um petardo, “Deus Não Compactua”, que entrará em seu terceiro disco solo, ainda sem nome.

Seu novo alvo são os falsos fiéis que tomaram conta do Brasil sil sil, liderados por políticos falastrões que usam o divino para justificar suas idiotices, mas que, de tão cegos, não visualizam a própria hipocrisia. O problema é que o veneno acaba se espalhando pela sociedade, atingindo não somente os seus votantes devotos, como também os opositores e até quem fica em cima do muro.

Assim, Jair segue assertivo em suas novas composições e reforça sua posição como um dos melhores artistas brasileiros da atualidade.

Infelizmente, o nosso país está tão confuso que até a fé, instrumento utilizado por muita gente como suporte para as dificuldades, está sendo manipulada para causar ainda mais confusão.

Garimpo · Música

Garimpo: Fellini – Só Vive 2 Vezes (Disco)

Já deve fazer uma semana que o segundo álbum do Fellini, Só Vive 2 Vezes, é repetido de forma incessante no meu cotidiano, seja no player do carro ou no celular. A produção de baixa qualidade, as letras sem sentido de Cadão Volpato, as melodias que misturam pós-punk com MPB e sintetizadores e um forte senso de originalidade são os ingredientes que prenderam a minha atenção.

O Fellini foi um conjunto paulistano que durou de 1984 à 1990, tendo como frentes principais o guitarrista Thomas Pappon e o vocalista/letrista Cadão Volpato. Em Só Vive 2 Vezes, apenas a dupla participou da composição e gravação das músicas. Todo o trabalho foi feito na casa de Pappon em um gravador com quatro canais. Segundo Cadão, em uma das músicas é possível ouvir até um vigia passando na rua com um apito, mostrando o quão cru foi o processo desse disco. Crueza essa que, em alguns momentos, dificulta o entendimento de suas palavras, mas que não impedem o ouvinte de apreciar as canções.

A melancolia é companheira em quase todas as canções. Mesmo que algumas melodias sejam mais agradáveis, a sensação ao ouvir “Só Vive 2 Vezes” é de estar em um dia nublado acompanhando a chuva pela janela.

Destaco “Tudo Sobre Você”, “Tabu”, a mais experimental “Mãe dos Gatos”, a lamentosa “Todos Os Dias da Semana” e “Burros e Oceanos”.

 

Direto do Forno · Música

1919 – Anxiety (Single)

Já falei isso sobre o stoner rock, mas posso afirmar o mesmo para o pós-punk: no sub-mundo do gênero, longe dos flashes e cliques da cultura pop, o estilo vai muito bem. Cada vez mais surgem bandas identificadas com a estética iniciada lá no final dos anos setenta, algumas trazem novidades, outras seguem a linha mais-do-mesmo, mas mantém viva a sonoridade claustrofóbica e agressiva.

O caso do 1919 é diferente, pois eles participaram daquilo que pode ser considerado o início de tal movimento, mas após anos de inatividade (a primeira fase foi de 80 à 85), depois o retorno em 2014 e agora a perda de um dos membros principais do grupo, eles continuam a contribuir com música de qualidade.

“Anxiety” é o primeiro single e faixa inicial de “FUTURECIDE”, disco novo do grupo que chega por completo em 12 de abril deste ano, pela Cleopatra Records. Nos bastidores, lamenta-se a morte de Mark Tighe, um dos fundadores do conjunto. Por outro lado (e à pedido do próprio Tighe), o 1919 superou a tragédia da forma mais certeira: fazendo música.

Longe de minha pessoa querer ser piegas, mas a impressão ao ouvir “Anxiety” é de estar sintonizado numa rádio em plena década de oitenta.

Direto do Forno · Garimpo · Música

Garimpo: Current Affairs

A sensação é de estar num ambiente tonalizado em preto e branco, gélido e movimentado. A música é tão crua em qualquer aspecto que sentir-se só em meio à multidão não é algo incomum. As batidas secas da bateria contribuem para tal sentimento de solidão. Joan, sem sobrenome, declama seus versos com emoção, trazendo vida àquele lugar.

Música é assim, inexplicável. Certas melodias, estilos, artistas ou batidas transportam-nos a lugares que nunca vimos na vida, nem sequer sabemos se existem ou não. Esse é o exercício que ela traz à nossa imaginação, levando-nos a construir cenários e personagens que fazem sentido nem que seja somente para nós mesmos.

Esse é o caso do Current Affairs, banda escocesa de Glasgow que cria um som post-punk direto da fonte. Não é, por exemplo, o Joy Division do “Unknown Pleasures”, já ciente de como queria ser, mas aquele que ainda polia e lapidava o seu som, como no EP “An Ideal For Living”, um ano antes do seu clássico. A guitarra alterna momentos de peso com outros mais eufóricos, como se ela possuísse um aspecto cortante e elétrico, girando e dançando em volta dos seus irmãos baixo e bateria, que mantém uma linha mais direta e coesa em quase todas as canções.

Vamos aos registros oficiais: um EP de 2017, intitulado “Object”, mais dois singles, ambos datados do final do ano passado: “Cheap Cuts/Let Her” e “Breeding Feeling/Draw The Line”. Não chega a dez o número total de canções lançadas pelo conjunto. Mas a avaliar sua ainda pequena discografia, o Current Affairs possui uma riqueza musical tamanha que, ao meu ver, os torna preparados para um disco cheio e mais encorpado.

Abaixo, em ordem cronológica, o EP e os dois singles para você ouvir à vontade e de graça.