Diversos · Língua Presa · Música

Domingo de Páscoa

“Domingo de Páscoa”, do álbum Só Vive Duas Vezes, do Fellini. Já escrevi um breve texto sobre o disco aqui.

Cadão Volpato é ótimo em criar cenários em suas canções, mesmo com letras tão desconexas. E a canção tem tudo a ver com o feriado do final de semana.

O blog retorna após o mesmo, na segunda. E lembre-se: depois do domingo de páscoa, a segunda é o dia. Tudo volta ao normal.

“Depois do Domingo de Páscoa,
Segunda é o dia
Olhar uma por uma todas as quaresmeiras
É só o galo cantar e acordar o seu Pinto
Não é todo dia que se tem a vida inteira
O sol se levanta quando alguém cai da cama
As mulheres correndo que o ônibus vem vindo
Os judeus numa boa e os cachorros latindo”

Direto do Forno · Música

Jair Naves – Deus Não Compactua (Single)

Após lançar “Veemente” em outubro do ano passado, Jair Naves solta mais um petardo, “Deus Não Compactua”, que entrará em seu terceiro disco solo, ainda sem nome.

Seu novo alvo são os falsos fiéis que tomaram conta do Brasil sil sil, liderados por políticos falastrões que usam o divino para justificar suas idiotices, mas que, de tão cegos, não visualizam a própria hipocrisia. O problema é que o veneno acaba se espalhando pela sociedade, atingindo não somente os seus votantes devotos, como também os opositores e até quem fica em cima do muro.

Assim, Jair segue assertivo em suas novas composições e reforça sua posição como um dos melhores artistas brasileiros da atualidade.

Infelizmente, o nosso país está tão confuso que até a fé, instrumento utilizado por muita gente como suporte para as dificuldades, está sendo manipulada para causar ainda mais confusão.

Garimpo · Música

Garimpo: Fellini – Só Vive 2 Vezes (Disco)

Já deve fazer uma semana que o segundo álbum do Fellini, Só Vive 2 Vezes, é repetido de forma incessante no meu cotidiano, seja no player do carro ou no celular. A produção de baixa qualidade, as letras sem sentido de Cadão Volpato, as melodias que misturam pós-punk com MPB e sintetizadores e um forte senso de originalidade são os ingredientes que prenderam a minha atenção.

O Fellini foi um conjunto paulistano que durou de 1984 à 1990, tendo como frentes principais o guitarrista Thomas Pappon e o vocalista/letrista Cadão Volpato. Em Só Vive 2 Vezes, apenas a dupla participou da composição e gravação das músicas. Todo o trabalho foi feito na casa de Pappon em um gravador com quatro canais. Segundo Cadão, em uma das músicas é possível ouvir até um vigia passando na rua com um apito, mostrando o quão cru foi o processo desse disco. Crueza essa que, em alguns momentos, dificulta o entendimento de suas palavras, mas que não impedem o ouvinte de apreciar as canções.

A melancolia é companheira em quase todas as canções. Mesmo que algumas melodias sejam mais agradáveis, a sensação ao ouvir “Só Vive 2 Vezes” é de estar em um dia nublado acompanhando a chuva pela janela.

Destaco “Tudo Sobre Você”, “Tabu”, a mais experimental “Mãe dos Gatos”, a lamentosa “Todos Os Dias da Semana” e “Burros e Oceanos”.

 

Direto do Forno · Música

1919 – Anxiety (Single)

Já falei isso sobre o stoner rock, mas posso afirmar o mesmo para o pós-punk: no sub-mundo do gênero, longe dos flashes e cliques da cultura pop, o estilo vai muito bem. Cada vez mais surgem bandas identificadas com a estética iniciada lá no final dos anos setenta, algumas trazem novidades, outras seguem a linha mais-do-mesmo, mas mantém viva a sonoridade claustrofóbica e agressiva.

O caso do 1919 é diferente, pois eles participaram daquilo que pode ser considerado o início de tal movimento, mas após anos de inatividade (a primeira fase foi de 80 à 85), depois o retorno em 2014 e agora a perda de um dos membros principais do grupo, eles continuam a contribuir com música de qualidade.

“Anxiety” é o primeiro single e faixa inicial de “FUTURECIDE”, disco novo do grupo que chega por completo em 12 de abril deste ano, pela Cleopatra Records. Nos bastidores, lamenta-se a morte de Mark Tighe, um dos fundadores do conjunto. Por outro lado (e à pedido do próprio Tighe), o 1919 superou a tragédia da forma mais certeira: fazendo música.

Longe de minha pessoa querer ser piegas, mas a impressão ao ouvir “Anxiety” é de estar sintonizado numa rádio em plena década de oitenta.

Direto do Forno · Garimpo · Música

Garimpo: Current Affairs

A sensação é de estar num ambiente tonalizado em preto e branco, gélido e movimentado. A música é tão crua em qualquer aspecto que sentir-se só em meio à multidão não é algo incomum. As batidas secas da bateria contribuem para tal sentimento de solidão. Joan, sem sobrenome, declama seus versos com emoção, trazendo vida àquele lugar.

Música é assim, inexplicável. Certas melodias, estilos, artistas ou batidas transportam-nos a lugares que nunca vimos na vida, nem sequer sabemos se existem ou não. Esse é o exercício que ela traz à nossa imaginação, levando-nos a construir cenários e personagens que fazem sentido nem que seja somente para nós mesmos.

Esse é o caso do Current Affairs, banda escocesa de Glasgow que cria um som post-punk direto da fonte. Não é, por exemplo, o Joy Division do “Unknown Pleasures”, já ciente de como queria ser, mas aquele que ainda polia e lapidava o seu som, como no EP “An Ideal For Living”, um ano antes do seu clássico. A guitarra alterna momentos de peso com outros mais eufóricos, como se ela possuísse um aspecto cortante e elétrico, girando e dançando em volta dos seus irmãos baixo e bateria, que mantém uma linha mais direta e coesa em quase todas as canções.

Vamos aos registros oficiais: um EP de 2017, intitulado “Object”, mais dois singles, ambos datados do final do ano passado: “Cheap Cuts/Let Her” e “Breeding Feeling/Draw The Line”. Não chega a dez o número total de canções lançadas pelo conjunto. Mas a avaliar sua ainda pequena discografia, o Current Affairs possui uma riqueza musical tamanha que, ao meu ver, os torna preparados para um disco cheio e mais encorpado.

Abaixo, em ordem cronológica, o EP e os dois singles para você ouvir à vontade e de graça.

 

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Rema-Rema – Rema-Rema (Single)

Após passar quase quarenta anos no mais extremo limbo da música alternativa, a banda Rema-Rema retorna do obscuro para o catálogo da 4AD com o lançamento de seu único disco completo, “Fond Reflections”, trabalho esse que, segundo o próprio selo, é o “debut que nunca existiu”. Explico.

Formada por membros do The Models e da Siouxsie and The Banshees, o Rema-Rema estava naquele meio do post-punk no início dos anos oitenta, fazendo canções claustrofóbicas, secas e com muito experimentalismo. Em seu curto período de atividade, lançaram somente um EP em 1980, intitulado “Wheel in the Roses”. Inclusive, é um dos primeiros trabalhos lançados pela 4AD. Ouça “The Feedback Song” para ter uma noção de sua sonoridade:

Perto de completar quatro décadas do lançamento de “Wheel in the Roses”, Gary Asquith, um dos membros do conjunto, em parceria com o engenheiro de som Takatsuna Mukai, reviraram arquivos e fitas cassetes com canções da banda e trabalharam nelas para montar “Fond Reflections” da forma mais fiel possível quanto ele seria lançado na época.

Todo esse material resultou em um disco duplo, que sairá do forno em primeiro de março desse ano. A gravadora já disponibilizou “Rema-Rema”, faixa que leva o nome da banda. Um belo resgate da 4AD no que diz respeito à música alternativa.

Garimpo · Música

Garimpo: Trent Reznor & Peter Murphy Ao Vivo 23/06/2006

Em 2006, Trent Reznor, Peter Murphy, Atticus Ross e Twiggy Ramirez juntaram-se para um turnê de apresentações em rádios do EUA. Selecionado a dedo, o repertório continha canções tanto de Trent/Nine Inch Nails quanto de Murphy/Bauhaus, bem como algumas músicas aleatórias que faziam parte do gosto musical dos participantes.

Uma dessa apresentações aconteceu em Boston, no dia 23 de junho daquele ano, com quatro canções. A apresentação está completa no Youtube, no canal oficial do Nine Inch Nails.

A performance é recheada de sons eletrônicos e Twiggy Ramirez explora muito bem a sua guitarra. Somente “A Strange Kind of Love”, de Peter Murphy, é tocada em formato acústico.

Tracklist:

1. Warm Leatherette (Grace Jones)
2. A Strange Kind of Love (Peter Murphy)
3. Reptile (Nine Inch Nails)
4. Nightclubbing (Iggy Pop)