Crônicas · Língua Presa

Notas de cotidiano


(Crônica feita para o blog da Immagine e que foi ao ar hoje. Link aqui.)

Há algumas semanas, viajei para São Paulo a trabalho. Fiquei cinco dias lá, em meio a horas de trânsito, vários pedestres com semblantes sérios, bem vestidos, fumantes, clima instável, treinamentos e muito, muito barulho. Uma correria pura. Levei comigo um bloco de anotações vermelho que uso como uma espécie de diário, onde anoto pensamentos variados do cotidiano. Durante a viagem, utilizei o termo “notas” para referir aos detalhes que observava e achava interessante. “Notas de Hotel”, “Notas de Aeroporto”, “Rápidas”, “De Rodoviária”, “Notas da Estrada”, enfim, o que aparecesse eu escrevia.

Escrevi sobre o meu medo de viajar de avião (ainda mais com muita chuva e neblina lá em Barreiras); sobre o tédio no aeroporto após o vôo atrasar e, posteriormente, ser cancelado; sobre a antipatia de certos atendentes; filosofias de estrada como “o céu parece mais escuro quando se está longe de casa”; sobre a saudade da esposa; sobre conexões sem fio (se a conexão é sem fio, desconfio); e a minha preferida, que anotei depois de pagar exatos SETE REAIS por uma garrafa de água mineral: “algumas águas são melhores que outras”.

Alguns dias depois do acidente que minha mãe sofreu, folheei uma agenda que ela possuía, novinha em folha. Na página datada em 27/01, dia em que ela iria embora, ela anotou: “Voltando para casa”. Ela parou antes da metade do caminho. Desafiei-me a fazer o mesmo. No dia de voltar para LEM, escrevi como nota de hotel: “Voltando para casa”. Venci o desafio.

Alexander Supertramp, o rapaz aventureiro de “Na Natureza Selvagem” diz no filme (digo no filme porque não lembro se tal frase aparece no livro): “O espírito da vida humana vem de novas experiências”. Ou algo do tipo. Viajar é uma ótima experiência, mas melhor ainda é chegar em casa. Já a morte, não, mas tiram-se lições valiosas.

Por isso, como nota de hotel, escrevi (em inglês, porque achei que ficaria mais bonito): “there’s no place like home”. Esse texto poderia também servir como nota. O chamaria de Nota do Cotidiano. Ou Filosofia Barata do Dia-a-Dia. Fique à vontade para escolher.

 

Crônicas · Música

Na Natureza Selvagem

Terminei de ler, recentemente, o livro “Na Natureza Selvagem”, lançado em 1996 por Jon Krakauer e que conta a história de Christopher McCandless, rapaz de classe média alta, recém-formado na faculdade, com diversos conflitos pessoais que abandonou a vida que tinha em sociedade e partiu rumo ao Alasca, com o sonho de sobreviver no meio da natureza. Na obra, Krakauer tenta entender e recriar os passos de McCandless, através de entrevistas com familiares e pessoas que o ajudaram em sua jornada, informações sobre os lugares em que ele supostamente passou e muitas histórias semelhantes às de Chris. Em 2007, o livro recebeu uma ótima adaptação para os cinemas, com a direção comandada por Sean Penn e com Emile Hirsch no papel de McCandless.

O filme ajudou a impulsionar a história de McCandless para o mundo, mostrando seus ideais, seus pensamentos a respeito da sociedade em que vivemos e os motivos que o levaram a tomar suas decisões, com frases e diálogos bastante inspiradores, que nos fazem refletir muito sobre nossas vidas. Para acompanhar as cenas e contribuir ainda mais com a beleza da película, um grande artista foi convidado a criar e gravar a trilha sonora do filme… O responsável é ninguém menos que Eddie Vedder, e é esse trabalho o tema do texto de hoje.

Com pouco mais de meia hora de duração, o disco tem 11 belas canções que mesclam a simplicidade do acompanhamento voz-violão com alguns momentos de maior emoção e euforia, passando até por algumas passagens instrumentas, todas emanando uma sensação de liberdade e apreço pela natureza.

Um dos destaques é a “trinca” bem eufórica que abre o trabalho, composta por “Setting Forth”, “No Ceiling” (minha preferida do disco) e “Far Behind”. Curioso é que a duração das três juntas soma apenas um pouco mais que 5 minutos.  Em minha opinião, esse é o momento do disco que mais transmite o desejo de sair viajando pelo mundo, conhecendo lugares novos, pessoas novas e, principalmente, se conhecendo melhor.

A partir daí, o disco toma um caminho mais tranquilo e intimista, com aquelas canções voz-violão que falei um pouco acima, caso de “Rise” e “Long Nights”, até retomar novamente a uma direção mais “explosiva” em “Hard Sun”, canção de maior sucesso do álbum. Cito essas três músicas pois são, ao meu ver, as que mais evidenciam os conflitos retratados por McCandless no filme, e como essa escolha de abandonar tudo e cair na estrada transformou o seu interior.

A chave de ouro que encerra o disco é a ótima “Guaranteed”, canção que rendeu à Eddie Vedder um Globo de Ouro em 2008. A mais longa de todas as faixas, com pouco mais de 7 minutos, é composta inteiramente por um belo dedilhado que acompanha a voz de Vedder e tem uma das melhores letras do álbum, onde o personagem questiona as regras/modos de vida que levamos, com prisões que construímos em nossas cabeças, na rotina que levamos no dia-a-dia e que, sem percebermos, o tempo passa e não aproveitamos devidamente os simples detalhes da vida.

Recomendo arduamente a quem estiver lendo esse texto a ler o livro, assistir o filme e, óbvio, ouvir o álbum. Muitos julgam McCandless por não ter experiência suficiente para tomar uma jornada desse porte (inexperiência essa que causou a sua morte) e tanto Jon Krakauer como Sean Penn por romantizarem demais uma trágica história, mas as lições que podemos tirar podem fazer muita diferença em nossas vidas. Quando estiver estressado em um escritório, no trânsito, cansado da mesmice cotidiana, dê uma chance a essas canções, elas podem ter um forte impacto em você.

**BÔNUS**

Em certo momento do filme, McCandless faz uma breve apresentação musical em um festival com Tracy, garota que se apaixonou por ele quando o mesmo chegou em Slab City. A canção que eles tocam se chama “Angel From Montgomery”, originalmente criada por John Prine, mas que se tornou um verdadeiro clássico da música norte-americana na versão de Bonnie Raitt. Fica aí mais uma dica, pois música boa nunca é demais.

*Texto meu que foi ao ar no dia 24 de julho de 2017 no blog da Immagine. Link original aqui.