Direto do Forno · Garimpo · Música

Garimpo: Current Affairs

A sensação é de estar num ambiente tonalizado em preto e branco, gélido e movimentado. A música é tão crua em qualquer aspecto que sentir-se só em meio à multidão não é algo incomum. As batidas secas da bateria contribuem para tal sentimento de solidão. Joan, sem sobrenome, declama seus versos com emoção, trazendo vida àquele lugar.

Música é assim, inexplicável. Certas melodias, estilos, artistas ou batidas transportam-nos a lugares que nunca vimos na vida, nem sequer sabemos se existem ou não. Esse é o exercício que ela traz à nossa imaginação, levando-nos a construir cenários e personagens que fazem sentido nem que seja somente para nós mesmos.

Esse é o caso do Current Affairs, banda escocesa de Glasgow que cria um som post-punk direto da fonte. Não é, por exemplo, o Joy Division do “Unknown Pleasures”, já ciente de como queria ser, mas aquele que ainda polia e lapidava o seu som, como no EP “An Ideal For Living”, um ano antes do seu clássico. A guitarra alterna momentos de peso com outros mais eufóricos, como se ela possuísse um aspecto cortante e elétrico, girando e dançando em volta dos seus irmãos baixo e bateria, que mantém uma linha mais direta e coesa em quase todas as canções.

Vamos aos registros oficiais: um EP de 2017, intitulado “Object”, mais dois singles, ambos datados do final do ano passado: “Cheap Cuts/Let Her” e “Breeding Feeling/Draw The Line”. Não chega a dez o número total de canções lançadas pelo conjunto. Mas a avaliar sua ainda pequena discografia, o Current Affairs possui uma riqueza musical tamanha que, ao meu ver, os torna preparados para um disco cheio e mais encorpado.

Abaixo, em ordem cronológica, o EP e os dois singles para você ouvir à vontade e de graça.

 

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Garimpo #04 – Claustrofobia

Claustrofobia. Esse é o sentimento não só da primeira, mas de todas as audições que fiz e farei do clássico “Unknown Pleasures”, estréia do Joy Division. Em “Candidate”, terceira faixa do disco, essa sensação fica ainda mais forte. A letra é, na minha opinião, a mais pesada emocionalmente, como uma flechada no peito. Ian Curtis declama os versos como se estivesse na lama, no fundo do poço, sobre um relacionamento desgastado que está, aos poucos, chegando ao completo fracasso.

Apesar do tom pesado, ela não deixa de ser belíssima.

“Please keep your distance,
the trail leads to here.
There’s blood on your fingers,
brought on by fear.

I campaigned for nothing,
I worked hard for this.
I tried to get to you…
You treat me like this.”