Direto do Forno · Música

O novo do Brant Bjork: Mankind Woman

Se John Garcia, um dos pilares do stoner/desert rock, anunciou um novo disco para 2019 (confira aqui), e Josh Homme atingiu uma popularidade enorme com o Queens of  the Stone Age, outra figura marcante do estilo deu as caras esse ano com um álbum repleto de influências e viagens sonoras.

Falo de Brant Bjork, ex-baterista do Kyuss e responsável por uma prolífica e elogiada carreira solo. “Mankind Woman” é o nome de seu trabalho mais recente, que chegou à Terra pela Heavy Psych Sounds Records no dia 14 de setembro. O nome da gravadora tem tudo a ver com o som produzido no disco: uma pesada e psicodélica viagem sonora.

Ao contrário dos seus ex-companheiros (e da maioria das bandas da cena), Bjork adota uma sonoridade mais influenciada pelo hard rock dos início dos anos 70 e do funk, mesclando riffs pesados com um groove à la Funkadelic. Dessa forma, ele atinge não só os admiradores que curtem um som mais “porrada”, mas também aqueles que curtem canções mais lisérgicas.

A faixa que abre o disco, “Chocolatize”, segue bem nessa linha de peso com psicodelia, ainda mais com um videoclipe bastante viajado.

Essa mistura também rende outras canções muito boas, como “Pisces”, a minha preferida, “Swagger & Sway” e a faixa-título. A maior parte das linhas de guitarra do disco são conduzidas pelo wah-wah, garantindo um funk de primeira, como a instrumental “Somebody”, talvez a mais viajada de todo o álbum.

No release do disco, presente no site oficial do artista, o termo “D-Funk”, algo como desert funk, é usado como uma das possíveis classificações de “Mankind Woman”. Ao ouvi-lo algumas vezes, afirmo que essa definição é certeira. Pegue um power trio furioso setentista e acrescente uma guitarra extra do Michael Hampton. É dessa fonte que surge o novo trabalho de Brant Bjork.

1. Chocolatize
2. Lazy Wizards
3. Pisces
4. Charlie Gin
5. Mankind Woman
6. Swagger And Sway
7. Somebody
8. Pretty Hairy
9. Brand New Old Times
10. 1968
11. Nation Of Indica

Crônicas · Música

Um Minuto Quente, Por Favor

Difícil imaginar quais rumos seriam tomados pelo Red Hot Chili Peppers após John Frusciante sair da banda pela primeira vez, em 1992. A exaustão das viagens e o vício em drogas o deixaram em pânico, e John abandonou seus companheiros antes do fim da turnê de divulgação do aclamado “Blood Sugar Sex Magik”, lançado um ano antes.

Para encontrar um novo guitarrista, a banda publicou um informativo em um jornal, porém sem sucesso. Chad Smith, então, sugeriu Dave Navarro, ex-guitarrista do Jane’s Addiction (e um dos que mais admiro), e o convite foi feito. Depois de um tempo e algumas jam sessions, ele foi aceito. A partir desse momento, dava-se início à criação e produção do trabalho que é considerado um ponto fora da curva na discografia do Red Hot Chili Peppers, renegado pela própria banda, pela crítica (qual é o papel da crítica?) e até por alguns fãs.

Em meio a ensaios turbulentos, falta de entrosamento com o novo guitarrista, lapso criativo e problemas com drogas do vocalista Anthony Kiedis, “One Hot Minute” foi lançado no ano de 1995.

“I can’t find the love I want.
Someone better slap me
Before I start to rust,
Before I start to decompose.”

As performances excêntricas e temáticas sexuais misturadas com o típico som funkydos discos anteriores deram lugar a uma atmosfera mais sombria, letras confessionais abordando temas como morte, depressão e abuso de drogas. Além disso, o som ficou mais pesado, devido às influencias de heavy metal e classic rock de Dave Navarro.

“I remember…
10 years ago in Hollywood
We did some good
and we did some real bad stuff.”

Em meio a esse caos, duas belas baladas saíram do forno e são momentos marcantes no decorrer do disco.

“Tearjerker” é uma linda homenagem a Kurt Cobain, ex-líder do Nirvana, cuja morte foi muito sentida por Anthony Kiedis. Já “My Friends”, minha favorita em todo o álbum, é um lamento pelas dificuldades, mas, ao mesmo tempo, uma tentativa de conforto para esses momentos de catástrofe. Ambas as músicas são os momentos mais vulneráveis de Kiedis, e percebe-se isso em sua voz.

“You never knew this,
But I wanted badly for you to
Requite my love.”

“Imagine me
Taught by tragedy.
Release is peace.”

Outro ponto positivo em relação ao “One Hot Minute” é uma bela ironia que o destino o concedeu. Falei acima que o som funky foi praticamento deixado de lado, mas é nesse álbum que está aquela que considero a música mais funky do Red Hot Chili Peppers, “Walkabout”. É impossível não se contagiar com a guitarra de Navarro nessa canção. É um momento onde, aparentemente, toda a tensão que os contornava é esquecida.

“Just me and my own two feet
In the heat I’ve got myself to meet.”

Mais de vinte anos depois do lançamento, nunca mais se viu o Red Hot Chili Peppers em um estado tão fragilizado e vulnerável. Se você assistir algumas apresentações da época, percebe-se nitidamente a áurea negativa que os sondava, especialmente no semblante de Kiedis.

Mais tarde, Navarro seria despedido da banda por “diferenças criativas” e John Frusciante retornaria. A partir daí, o filme já é conhecido. Porém, é importante lembrar essa fase sombria que a banda enfrentou e dar o merecido valor a esse grande trabalho que foi (e ainda é) “One Hot Minute”. Portanto, pegue uma cadeira, sente-se e aprecie o seu “minuto quente”. Ah, e peça um café também.

*Texto publicado hoje no blog da Immagine, dia 15 de setembro de 2017. Link aqui.