Direto do Forno · Garimpo · Música

Garimpo: Last Victorian Death Squad – LVDS EP

Na maioria das vezes, discos de shoegaze causam sensações estranhas em mim. Gostosas, mas estranhas. Um mix de nostalgia com melancolia, como se à medida que o som passa pelos ouvidos, toda aquela barulheira pudesse ser vista em forma de memórias.

Mas ouvindo o relançamento do primeiro EP do Last Victorian Death Squad, LVDS, pela ótima e já citada gravadora Shore Dive Records, a sensação foi diferente. Não foi uma ode ao passado, e sim uma vista diferente para os próximos dias. Um ânimo a mais, um despertar súbito à la Jack Kerouac sobre o momento atual da vida e o que posso fazer para melhorá-la.

“Alice” honra as “músicas com nome de pessoas” e é uma bela introdução, com guitarras soando seu feedback em alto e bom som, enquanto o vocalista declama seus versos com uma empolgação muito natural.

O que vem em seguida é “Bad Bones” e dadas as devidas proporções, é como se a imposição daquele Oasis do início dos anos 2000 tivesse baixado no Last Victorian Death Squad. A canção é levada em um ritmo menos acelerado, mas ainda barulhento, como deve ser.

As duas faixas que completam o EP, “Acid” e “Devil”, continuam a soltar uma tempestade de cordas nos ouvidos, e como uma boa banda de shoegaze sabe fazer, a bateria continua ali fazendo seu trabalho, na dela, apenas mantendo a corrente e o vocal, também paciente e calmo (na contramão das cordas), vai dizendo o que é preciso colocar para fora.

Aqui eu repito o mesmo comentário que mandei para o pessoal da Shore Dive pelo Instagram: “pelo amor de deus, isso é uma das melhores coisas que ouvi nos últimos meses.

E como gosto de deixar bem claro, digo isso sem exageros.

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Julia Holter – So Humble The Afternoon (Single)

Lançada em 2018 como parte de uma coletânea do Adult Swim, “So Umble The Afternoon” sai agora como uma música solta no Bandcap da Julia Holter.

Uma música calma, com uma voz doce e leves sintetizadores ao fundo. Mas um pouco mais adiante, lá pelos três minutos, vira uma peça instrumental em que a artista brinca com sons variados, quase que formando uma névoa sonora que permeia o ambiente do ouvinte.

Mais uma prova de que ideias simples e bem feitas originam canções magníficas.

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Faten Kanaan – The North Wind (Single)

Como é bom ser guiado por uma tag no Bandcamp e a música ser exatamente aquilo que se buscava. Faten Kanaan é uma compositora estadunidense que mescla elementos eletrônicos com música clássica, ambient e outros derivados, criando um atmosférico através de melodias que se repetem e levam o ouvinte a um pleno estado de contemplação.

Seu single mais recente chama-se “The North Wind”, que além da faixa-título, também traz a canção “Night Tide/Anteros”, que é ainda mais interessante. Ambas a canções estarão no próximo disco da artista, A Mythology of Circles, que sai do forno da Fire Records em 13 de novembro.

Se eu soubesse da existência dessa mulher há algumas semanas atrás, certamente ela estaria na postagem abaixo de dicas ambient.

Agora é esperar a chegada do álbum e torcer para que seja brilhante por completo, assim como essas duas canções.

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Tricky + Björk

Foi por um curto período, mas Tricky e Björk tiveram um relacionamento em meados dos anos noventa, e tal junção ocasionou em colaborações em discos de ambas as partes.

Foram quatro músicas em conjunto, mas se tiverem algumas outras que fogem de meu conhecimento, por favor, me avisem. Duas estão no lançamento “não-oficial” do Tricky, Nearly God, de 1996 e a outra metade está em Post, um dos mais aclamados álbuns da artista do gelo, lançado um ano antes.

Em uma entrevista de anos atrás, Tricky disse que não foi uma boa pessoa para Björk. Não quero entrar nesses detalhes, apesar de achar que eles formariam um casal bem interessante, mas ao menos sobre as músicas que saíram do forno dessa união, posso dizer que tinham química.

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Thurston Moore – Cantaloupe (Single)

A primeira coisa que veio à minha mente quando ouvi os primeiros segundos de “Cantaloupe”, do Thurston Moore, foi a lembrança de alguns hits noventistas do Sonic Youth, principalmente “Sugar Kane”.

“Ah, mas é óbvio, Moore era um dos integrantes da banda”, você pode pensar, mas mesmo assim, foi inevitável.

Fato é que a guitarra desse camarada é irresistível e “Cantaloupe” é uma canção potente, agressiva e cool na medida certa. Ela é mais um single de By The Fire, o próximo disco solo do Thurston Moore, que sai no dia 25 de setembro desse ano.

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Redescobrindo o Suede

Meu primeiro contato com o Suede foi numa apresentação dos caras no programa do Jools Holland, em 1994, época do então recém-lançado Dog Man Star. Isso tem muitos anos, como também fazia muitos anos que eu não ouvia a banda de novo. Sem motivo algum, havia criado em minha cabeça uma espécie de bloqueio em relação ao Suede.

Bom, nas últimas semanas, estava navegando internet afora e deparei-me com uma postagem do Scream & Yell sobre a banda. Aquele post despertou uma curiosidade em redescobrir o Suede para, enfim, ter uma opinião bem formada em relação ao grupo. O resultado dessa redescoberta é que já faz umas duas semanas (ou mais) que o disco que inicia meus dias é o Dog Man Star.

Melancólico, o álbum possui doze canções ao todo e NENHUMA É DISPENSÁVEL. A hipnótica “Introducing The Band”, quase um mantra, é o abre-alas para um conjunto de músicas cujas referências abrangem o glam rock feito pelo David Bowie no início dos anos setenta, como “The Power” e “New Generation”, odes à ícones do cinema, como “Heroine” (Marilyn Monroe) e “Daddy’s Speeding” (James Dean), baladas bastante emotivas, vide “The 2 of Us” e “Black Or Blue” e até música clássica, no desfecho em “Still Life”.

“We Are The Pigs” e “The Wild Ones” foram os principais singles do disco e são suas melhores canções, flertando o rock’n’roll com um forte apelo pop. “The Asphalt World” é a mais experimental, com pouco mais de nove minutos de duração. Ela vem em sequência das duas baladas e possui uma longa passagem instrumental, quase que lisérgica, renovando o tom do disco às alturas até a última canção.

A banda em si é muito afiada, as linhas de guitarra são algo que se o ouvinte escutar com atenção, verá que são muito acima da média, mas o que me pegou em cheio foi a voz do Brett Anderson e sua figura elegante, bem vestida, como se ele estivesse acima de tudo o que está acontecendo durante as músicas.

A versão de luxo de Dog Man Star possui algumas demos e canções extras e também vale a pena dar uma conferida.

É um disco para dar play e colocar no repeat, pois a cada audição, detalhes e mais detalhes antes despercebidos começam a ficar claros e só engrandecem ainda mais a produção. Como disse acima, faz semanas que ele abre minhas audições diárias e, sem exageros, ele é capaz de tornar os dias um pouco menos pesados. Afinal, essa é uma das maiores belezas da música, não?

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Garimpo: Black Taffy – Sad Day

Em meio a uma variedade de lives um tanto quanto questionáveis, alguns artistas seguem outra direção para continuar apresentando ao público o seu trabalho, principalmente no meio independente.

Escrevi sobre o Spotlights e o plano para lançar covers semanalmente e o Malcontent disponibilizando o áudio de uma apresentação ao vivo. Agora é a vez do Black Taffy e seu Sad Day.

Também oriundo de uma performance ao vivo, o disco é divido em dois lados, cada qual com seu setlist. A música do Black Taffy surfa na onda do trip hop, com um ar melancólico, relaxante e assombroso, o que a torna encantadora.

Para uma madrugada chuvosa, o que é o caso aqui no oeste baiano, é a indicação ideal.

Detalhe: os lançamentos citados são todos no formato pague o quanto quiser. Se não quiser pagar, é só fazer o download de forma gratuita.

Lado A:
1. nothing can come between us
2. turn my back on you
3. lovers rock
4. flow
5. siempre hay esperanza
6. haunt me

Lado B:
1. mermaid
2. king of sorrow
3. by your side
4. war of the hearts
5. hang on to your love

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Terrapin

Faixa de abertura de The Madcap Laughs, a obra-prima de Syd Barrett lançada em 1970, “Terrapin” é uma das maiores criações do músico em sua carreira solo. Em tempos de quarentena, Syd tem sido uma de minhas melhores companhias e sua voz ecoa pelas paredes da casa há alguns dias, e tenho ouvido “Terrapin” exaustivamente.

Por ter formato acústico, quis aprender a tocá-la. Não é tão difícil, apesar de possuir algumas sequências de acordes não muito convencionais em alguns trechos. Por isso Syd Barrett está no hall dos grandes artistas da história, por fugir do convencional, experimentar, ousar em suas criações.

Ao pesquisar tutoriais e tablaturas, deparei-me com duas surpresas. A primeira, um cover de David Gilmour presente em seu DVD In Concert, lançado em 2002. A segunda, uma estranha versão dos Smashing Pumpkins, de 1992, cantada por James Iha.

Vale conferir pela curiosidade, mas nada substitui a crueza e a beleza da original.

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Tricky + Goldfrapp + Smashing Pumpkins

Tricky sempre foi certeiro na escolha de suas parcerias musicais. Sua lista é grande: tem a longeva dupla com Martina Topley-Bird, PJ Harvey, Björk e até os caras do Red Hot Chili Peppers. Caberia mais algumas linhas para citar as colaborações com artistas menos conhecidos, e não que elas também não sejam importantes, mas não quero estender o texto.

Em 1995, saiu Maxinquaye, o mais aclamado disco do cara, um daqueles álbuns capaz de mudar a vida de alguém. A música “Pumpkin” (minha favorita) é tão sexy quanto nebulosa, e tem participação de uma então desconhecida Alisson Goldfrapp, que brilha em seus versos de forma magistral.

Interessante é que a canção possui um sample de “Suffer”, dos Smashing Pumpkins, aí a referência em seu título. A peça é uma amostra da imensa criatividade de Tricky na hora de desenvolver as suas músicas.

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+2 do Swans

Na sexta-feira da próxima semana chega ao mundo leaving meaning, o décimo-quinto álbum de estúdio do Swans, uma das bandas mais devastadoras (emocionalmente falando) que descobri esse ano.

Até o exato momento, conhecemos somente dois pedaços do disco: “It’s Coming It’s Real” e “The Hanging Man”, ambas com um ar fantasmagórico e angustiante. Destaco o jogo percussivo da segunda, bem interessante mesmo.

Michael Gira segue certeiro em sua trajetória.