Crônicas

Olhos Iguais Aos Seus

(Texto que escrevi para o blog da Immagine no dia 18 de abril de 2007. Link aqui.)

A vida moderna está cada vez mais estressante. Horários, limites, metas e outros inúmeros fatores mascaram a nossa liberdade e pela falta de tempo, não pensamos nisso. Deixamos passar vários detalhes despercebidos, cegos pela correria do cotidiano e, de certa forma, nos tornamos apenas mais um na multidão, como Humberto Gessinger canta em “Olhos Iguais Aos Seus”, canção lançada em 1990 no clássico disco O Papa É Pop:

“Você olha ao seu redor e acha melhor parar de olhar. São olhos iguais aos seus, iguais ao céu ao seu redor.”

 

O olhar pode ser considerado uma voz para o silêncio, uma forma de se comunicar quando palavras não são o bastante. Tem olhares que nos engrandecem, enquanto outros nos derrubam. Alguns são questionadores, e outros só aumentam as dúvidas. Um certo olhar pode mudar a rota da viagem, o rumo de um planejamento, uma intenção a mais ou até a falta dela. Um olhar apaixonado salva o dia de alguém, enquanto um olhar de tristeza procura alguém que o faça.

A percepção do stress na vida moderna é bem clara no trânsito. Precisamos correr para chegar logo em casa, para não nos atrasarmos no trabalho, para passar naquele sinal ou, simplesmente, ser mais rápido do que aquele carro logo à frente, No caminho, lombadas, placas, nervosismo, freia, acelera, freia novamente, engarrafamentos, cruzamentos, etc.

Certo dia (já estressado) peguei a marginal ao lado da BR e transitava rumo à minha casa quando um olhar veio bem na minha direção, como uma flecha. E aquele olhar me pegou de jeito. Nesse instante, o detalhe não passou despercebido. Não dessa vez. Não sei se era um pedido de ajuda ou apenas cansaço. Jamais saberei. Aquele olhar, durante alguns segundos, serviu para me mostrar que, na maioria das vezes, reclamamos de barriga cheia.

Crônicas · Música

A Conquista do Espelho

Qual o limite do “sentido” quando se trata de arte? Criar algo de fácil entendimento? Aceitação? Transitar entre o pedante e o popular? Ou melhor, o que é “fazer sentido”? Bem, são muitas perguntas e eu não tenho as respostas. Mas como diz uma famosa propaganda de televisão, são as perguntas que movem o mundo, e na arte não seria diferente. Diante deste cenário, o que mais me agrada é essa liberdade que o apreciador tem de fazer sua própria interpretação e criar a sua própria história em torno de alguma obra que o interesse.

Pensei sobre isso nos últimos dias, e um ótimo exemplo chegava sempre à minha mente. Gosto muito, muito mesmo do “Gessinger, Licks & Maltz” (também conhecido como GLM), disco que considero o melhor de toda a trajetória dos Engenheiros do Hawaii. É muito bem elaborado, muito influenciado pelo rock progressivo (Humberto é fã assumido do Rush e do Pink Floyd), as letras são enigmáticas e a banda estava no auge de sua criatividade e entrosamento. Apesar de tê-lo ouvido inúmeras vezes, ainda sinto dificuldade em interpretar as suas letras… E acho isso ótimo.

“Não é pose, não é positivismo.
Quanto pior, pior.”

Por ironia, logo na primeira faixa, “Ninguém = Ninguém”, temos uma das músicas mais claras de todo o álbum e que, de certa forma, entra no mesmo raciocínio do que disse logo acima. Um verdadeiro tapa na nossa cara e que, mesmo depois de tantos anos, parece bem atual.

Há tantos quadros na parede,
Há tantas formas de se ver o mesmo quadro.
Há tanta gente pelas ruas,
Há tantas ruas e nenhuma é igual a outra.
Ninguém é igual a ninguém!”

No decorrer do disco, sinto que o personagem (se é que exista algum, mas não importa, a graça é essa) vai entrando cada vez mais em um mundo sombrio, pós-apocalíptico, típico cenário de um filme sci-fi futurista: com chuva ácida, céu cinza, megalópoles lotadas de pessoas e poluição. Era 1992, ano do Impeachment do Collor, inflação fora do controle, manifestações, falta de investimentos… Ou seja, o que acontece na ficção não se diferencia muito da realidade do Brasil na época. Nem na atualidade, né?

“Falta pão
(o pão nosso de cada dia);
Sobra pão
(o pão que o diabo amassou).”

“Até quando você vai ficar fazendo o que quer comigo?
Até quando você vai ficar sem saber o que quer de mim?”

No final, a melhor parte e um dos desfechos mais espetaculares que já ouvi em um álbum: “A Conquista do Espelho/Problemas… Sempre Existiram/A Conquista do Espaço”. Três músicas formando uma só, até o momento em que o protagonista se conforma com a própria realidade ao observar tudo de fora e pensa: “aqui de cima até que é normal”.

“Nunca mais saiu da minha boca
O gosto amargo da palavra traição.
Nunca mais saiu da minha boca
Nenhum elogio a nenhuma paixão”

Mais alguns trechos interessantes do disco: 

“Por que você não soa quando toca?
Por que você não sua quando ama?
Ninguém derrama sangue
Quando perde, guerras de fliperama!”

 “A nossa elite burra se empanturra de biscoito fino.
Somos todos passageiros clandestinos dos destinos da nação.” 

“Vamos passear depois do tiroteio,
Vamos dançar num cemitério de automóveis;
Colher as flores que nascerem no asfalto;
Vamos todo mundo, tudo que se possa imaginar.”

“A mídia, a mediocracia;
Muito Zorro e nenhum Sargento Garcia.
Francamente
Há muito já não somos como já fomos:
Todos iguais.
Iguais aos poucos que ainda andam;
Iguais a tantos que andam loucos;
Iguais a loucos que ainda andam;
Iguais a santos que andam loucos de satisfação.”

Ter acesso a uma obra tão complexa que nos força a espremer os nossos neurônios para, ao menos, tentar compreendê-la é um privilégio. Em uma realidade onde o esforço para a criação de alto nível está cada vez mais difícil de ser encontrado, vale a pena parar um tempo e se atentar a esse disco que, mesmo após 25 anos, continua bem atual.

*Texto publicado no blog da Immagine no dia 31 de agosto de 2017. Link aqui.