Crônicas · Diversos · Língua Presa

Vazio

Penso em festas, bares, reuniões, festivais, protestos, bolsas de valores, redações de jornais, tumultos, casamentos, eventos esportivos e os mais variados tipos de aglomerações, enquanto permaneço deitado nessa cama e a minha única companhia é um pequeno feixe de luz que adentra o quarto pelo furo da cortina, pensando o que estou fazendo com minha vida, observando ela se esvair com o vento que sopra a terra da rua lá fora.

Penso no trajeto percorrido nas noites solitárias de volta para casa, nas bitucas de cigarros jogadas pela janela do carro enquanto passeio pela cidade viva e fervente e meu reflexo no retrovisor me aconselha: não há conforto nesse mundo.

E cada bituca daqueles cigarros que joguei pela janela do carro espalham cidade afora um pouco de mim. Palavras que disse, palavras que não disse, beijos que dei, ideias que tive, cicatrizes da existência que permeiam as minhas veias e que agora estão escancaradas pelo asfalto. O meu “eu” mais particular aberto para quem quiser ver.

Mais tarde, após horas na penumbra, o renascimento. Um banho para lavar a alma. Junto à água e o shampoo que escorrem pelo meu corpo, vejo descer pelo ralo, também, um pouco de mim. Da minha pele, dos meus olhos, da minha boca e de toda a minha estrutura, um pouco vai embora junto às impurezas. Ao final, toda a escuridão se esvai, e sobra apenas o vazio.

(Escrevi esse texto três dias depois de passar horas deitado no meu quarto, em uma crise profunda de tristeza. A escrita salva vidas.)

Diversos · Língua Presa

Entre o céu e o inferno

Um piscar de olhos é a distância entre o céu e o inferno.

Tem quem tome remédios. Leia uma piada. Faça sexo. Ligue para a mãe. Converse com um amigo. Transe com um amigo. Converse com a esposa ou marido. Assista alguma comédia pastelão. Deite no sofá e durma. Brinque com o cachorro. Acaricie o gato. Coma. Viaje. Saia correndo. Saia para beber. Vá ao médico. Ao mercado. Ao pet shop. Ao Instagram. À desilusão. À fantasia. Ao embate. Não importa.

A fuga é tola quando o inimigo vive dentro da própria cabeça. Céu e inferno estão lado a lado. Pisque os olhos e acorde. Você escolhe em qual hemisfério viverá.

 

Crônicas · Música

Um Minuto Quente, Por Favor

Difícil imaginar quais rumos seriam tomados pelo Red Hot Chili Peppers após John Frusciante sair da banda pela primeira vez, em 1992. A exaustão das viagens e o vício em drogas o deixaram em pânico, e John abandonou seus companheiros antes do fim da turnê de divulgação do aclamado “Blood Sugar Sex Magik”, lançado um ano antes.

Para encontrar um novo guitarrista, a banda publicou um informativo em um jornal, porém sem sucesso. Chad Smith, então, sugeriu Dave Navarro, ex-guitarrista do Jane’s Addiction (e um dos que mais admiro), e o convite foi feito. Depois de um tempo e algumas jam sessions, ele foi aceito. A partir desse momento, dava-se início à criação e produção do trabalho que é considerado um ponto fora da curva na discografia do Red Hot Chili Peppers, renegado pela própria banda, pela crítica (qual é o papel da crítica?) e até por alguns fãs.

Em meio a ensaios turbulentos, falta de entrosamento com o novo guitarrista, lapso criativo e problemas com drogas do vocalista Anthony Kiedis, “One Hot Minute” foi lançado no ano de 1995.

“I can’t find the love I want.
Someone better slap me
Before I start to rust,
Before I start to decompose.”

As performances excêntricas e temáticas sexuais misturadas com o típico som funkydos discos anteriores deram lugar a uma atmosfera mais sombria, letras confessionais abordando temas como morte, depressão e abuso de drogas. Além disso, o som ficou mais pesado, devido às influencias de heavy metal e classic rock de Dave Navarro.

“I remember…
10 years ago in Hollywood
We did some good
and we did some real bad stuff.”

Em meio a esse caos, duas belas baladas saíram do forno e são momentos marcantes no decorrer do disco.

“Tearjerker” é uma linda homenagem a Kurt Cobain, ex-líder do Nirvana, cuja morte foi muito sentida por Anthony Kiedis. Já “My Friends”, minha favorita em todo o álbum, é um lamento pelas dificuldades, mas, ao mesmo tempo, uma tentativa de conforto para esses momentos de catástrofe. Ambas as músicas são os momentos mais vulneráveis de Kiedis, e percebe-se isso em sua voz.

“You never knew this,
But I wanted badly for you to
Requite my love.”

“Imagine me
Taught by tragedy.
Release is peace.”

Outro ponto positivo em relação ao “One Hot Minute” é uma bela ironia que o destino o concedeu. Falei acima que o som funky foi praticamento deixado de lado, mas é nesse álbum que está aquela que considero a música mais funky do Red Hot Chili Peppers, “Walkabout”. É impossível não se contagiar com a guitarra de Navarro nessa canção. É um momento onde, aparentemente, toda a tensão que os contornava é esquecida.

“Just me and my own two feet
In the heat I’ve got myself to meet.”

Mais de vinte anos depois do lançamento, nunca mais se viu o Red Hot Chili Peppers em um estado tão fragilizado e vulnerável. Se você assistir algumas apresentações da época, percebe-se nitidamente a áurea negativa que os sondava, especialmente no semblante de Kiedis.

Mais tarde, Navarro seria despedido da banda por “diferenças criativas” e John Frusciante retornaria. A partir daí, o filme já é conhecido. Porém, é importante lembrar essa fase sombria que a banda enfrentou e dar o merecido valor a esse grande trabalho que foi (e ainda é) “One Hot Minute”. Portanto, pegue uma cadeira, sente-se e aprecie o seu “minuto quente”. Ah, e peça um café também.

*Texto publicado hoje no blog da Immagine, dia 15 de setembro de 2017. Link aqui.