Direto do Forno · Música

O Novo do Tricky: Fall To Pieces

Desde a criação de seu selo próprio, o False Idols (2013), Fall To Pieces é o melhor lançamento do Tricky. E vou além: é o melhor trabalho do cara desde o Blowback, lá de 2001.

Atormentado pela morte de sua filha Mazy Topley-Bird, Tricky descarrega suas dores e esperanças em letras que em alguns momentos soam confusas, mas que possuem versos muito claros para quem está passando por um processo de luto.

Ainda há vestígios do seu recente flerte com a club music, como a abertura do álbum, “Thinking Of”, “Chills Me To The Bone” e “Fall Please”, uma das minhas preferidas. Porém, Fall To Pieces lembra mais os trabalhos de sua era de ouro, como o Pre-Millenium Tension (1996) e o Angels With Dirty Faces (1998), cuja abordagem era mais obscura.

A diferença é que aqui em Fall To Pieces o mais importante não é a batida que encabeça cada uma das canções, mas o que Tricky diz, seja através de sua própria voz ou das duas cantoras que, maravilhosamente, o apoiam no disco: Oh Land e Marta.

Em “Hate This Pain”, ele é bem claro: “what a fuckin’ game, I hate this fuckin’ pain” (que jogo de merda, eu odeio essa droga de dor). Mas em alguns minutos antes, ele mostra que não quer perder essa batalha, quando entoa “don’t let it get you down” (não deixe que isso te derrube) em “Close Now”.

Talvez a que mais explicite o motivo de sua dor, mesmo que não de forma tão direta, seja “I’m In The Doorway”, disparada a que mais gostei. É como se os versos fossem ditados pela sua própria filha em outro plano:

“Ended in the bayou. Would you think to free me?
I can only sense things into something sort of…
(…)
I’ll bring you greetings and hidden meanings.
Can you hear me breathing? Can you feel me leaving into something sort of?”

(“Terminou no bayou. Você pensaria em me libertar?
Posso apenas sentir coisas em algo como…
(…)
Trarei comprimentos e sentidos escondidos.
Você me ouve respirar? Você pode ver eu me transformando em algo como…?”)

Há tempos não me empolgava tanto com um disco do Tricky. Uma pena que seja em um momento tão delicado de sua vida. Mas é isso que grandes artistas fazem: em seus momentos de maior vulnerabilidade, transformam toda essa turbulência em obras primorosas.

1. Thinking Of
2. Close Now

3. Running Off
4. I’m in the Doorway
5. Hate this Pain

6. Chills Me to the Bone
7. Fall Please
8. Take Me Shopping
9. Like a Stone

10. Throws Me Around
11. Vietnam

Crônicas · Diversos · Língua Presa

Vazio

Penso em festas, bares, reuniões, festivais, protestos, bolsas de valores, redações de jornais, tumultos, casamentos, eventos esportivos e os mais variados tipos de aglomerações, enquanto permaneço deitado nessa cama e a minha única companhia é um pequeno feixe de luz que adentra o quarto pelo furo da cortina, pensando o que estou fazendo com minha vida, observando ela se esvair com o vento que sopra a terra da rua lá fora.

Penso no trajeto percorrido nas noites solitárias de volta para casa, nas bitucas de cigarros jogadas pela janela do carro enquanto passeio pela cidade viva e fervente e meu reflexo no retrovisor me aconselha: não há conforto nesse mundo.

E cada bituca daqueles cigarros que joguei pela janela do carro espalham cidade afora um pouco de mim. Palavras que disse, palavras que não disse, beijos que dei, ideias que tive, cicatrizes da existência que permeiam as minhas veias e que agora estão escancaradas pelo asfalto. O meu “eu” mais particular aberto para quem quiser ver.

Mais tarde, após horas na penumbra, o renascimento. Um banho para lavar a alma. Junto à água e o shampoo que escorrem pelo meu corpo, vejo descer pelo ralo, também, um pouco de mim. Da minha pele, dos meus olhos, da minha boca e de toda a minha estrutura, um pouco vai embora junto às impurezas. Ao final, toda a escuridão se esvai, e sobra apenas o vazio.

(Escrevi esse texto três dias depois de passar horas deitado no meu quarto, em uma crise profunda de tristeza. A escrita salva vidas.)