Crônicas · Língua Presa

Notas de cotidiano


(Crônica feita para o blog da Immagine e que foi ao ar hoje. Link aqui.)

Há algumas semanas, viajei para São Paulo a trabalho. Fiquei cinco dias lá, em meio a horas de trânsito, vários pedestres com semblantes sérios, bem vestidos, fumantes, clima instável, treinamentos e muito, muito barulho. Uma correria pura. Levei comigo um bloco de anotações vermelho que uso como uma espécie de diário, onde anoto pensamentos variados do cotidiano. Durante a viagem, utilizei o termo “notas” para referir aos detalhes que observava e achava interessante. “Notas de Hotel”, “Notas de Aeroporto”, “Rápidas”, “De Rodoviária”, “Notas da Estrada”, enfim, o que aparecesse eu escrevia.

Escrevi sobre o meu medo de viajar de avião (ainda mais com muita chuva e neblina lá em Barreiras); sobre o tédio no aeroporto após o vôo atrasar e, posteriormente, ser cancelado; sobre a antipatia de certos atendentes; filosofias de estrada como “o céu parece mais escuro quando se está longe de casa”; sobre a saudade da esposa; sobre conexões sem fio (se a conexão é sem fio, desconfio); e a minha preferida, que anotei depois de pagar exatos SETE REAIS por uma garrafa de água mineral: “algumas águas são melhores que outras”.

Alguns dias depois do acidente que minha mãe sofreu, folheei uma agenda que ela possuía, novinha em folha. Na página datada em 27/01, dia em que ela iria embora, ela anotou: “Voltando para casa”. Ela parou antes da metade do caminho. Desafiei-me a fazer o mesmo. No dia de voltar para LEM, escrevi como nota de hotel: “Voltando para casa”. Venci o desafio.

Alexander Supertramp, o rapaz aventureiro de “Na Natureza Selvagem” diz no filme (digo no filme porque não lembro se tal frase aparece no livro): “O espírito da vida humana vem de novas experiências”. Ou algo do tipo. Viajar é uma ótima experiência, mas melhor ainda é chegar em casa. Já a morte, não, mas tiram-se lições valiosas.

Por isso, como nota de hotel, escrevi (em inglês, porque achei que ficaria mais bonito): “there’s no place like home”. Esse texto poderia também servir como nota. O chamaria de Nota do Cotidiano. Ou Filosofia Barata do Dia-a-Dia. Fique à vontade para escolher.

 

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #00: O Futebol Cearense em 2018

Estava esperando o início da temporada 2019 para dar o pontapé inicial na coluna “Não Ao Futebol Moderno” aqui no blog, onde pretendo discorrer sobre o futebol brasileiro na sua mais pura essência, longe da modernização que ele sofreu nos últimos anos.

Porém, faço aqui uma espécie de abertura não-oficial (um protótipo) da coluna para falar sobre os feitos do futebol cearense em 2018 que, creio eu, seja motivo de muito orgulho para o estado e que deixaram-me encantados. Afinal, eles abocanharam nada menos do que DOIS TÍTULOS NACIONAIS nesse ano, um feito gigante para uma terra que possui times de muita tradição, mas que, no campo, o cenário foi muito duro nas últimas temporadas.

O primeiro dos dois títulos foi do Ferroviário, que sagrou-se campeão nacional da Série D, vencendo o Treze-PB na final. O Ferrão, como é conhecido, estava na fila há 23 anos sem um título sequer, e quebrou a sequência incômoda logo com um campeonato a nível nacional. Perdeu em Campina Grande-PB por 1×0 e sapecou 3×0 na volta, em Fortaleza-CE.

Considerado por muitos como a terceira força do estado, o clube agora busca ascender ainda mais em âmbito nacional, já que disputará a terceira divisão no próximo ano. Seria importante também quebrar o jejum de títulos estaduais, já que o último, conforme dito acima, foi vencido há mais de duas décadas.


Fonte: Site oficial do Ferroviário Atlético Clube

Um dos rivais do Ferroviário, o Fortaleza também levantou um caneco nacional esse ano, só que ainda mais expressivo. O time comandado por Rogério Ceni sagrou-se CAMPEÃO BRASILEIRO DA SÉRIE B em pleno centenário, o primeiro título do clube na competição, após ser vice por duas oportunidades. Também marca o debut de títulos de Rogério em sua nova função.

Com uma campanha irretocável, o clube se manteve no topo praticamente por toda o campeonato, e martelou o título ao vencer o Avaí-SC, lá na Ressacada, por 0x1, com um gol no último lance da partida. E essa foi uma das forças do Fortaleza na série B: as partidas fora de casa. O time foi um ótimo visitante, vide a partida contra o Guarani-SP em Campinas, vencida pelos cearenses por 2×3, após estarem perdendo por 2×0.

A expectativa agora, não só dos torcedores, mas também dos jornalistas e das pessoas que acompanham o futebol nacional, é saber se a equipe terá forças o suficiente para uma boa campanha na primeira divisão nacional no ano que vem.


Fonte: O Povo Online

Além dos feitos extraordinários das duas equipes que compõem o tradicional Clássico das Cores, devemos também prestigiar o Ceará, que, aparentemente, tem plenas condições de permanecer na série A do ano que vem. Assim, teremos mais um grande clássico movimentando o Campeonato Brasileiro.

Fica também a torcida para que o CSA-AL consiga o seu acesso no próximo final de semana, quando visita o já rebaixado Juventude-RS lá em Caxias e depende apenas de si para carimbar a sua promoção à Série A de 2019. Convenhamos que, após passar quase o campeonato por completo no G4, ficar de fora seria uma grande tragédia.

Portanto, viva o futebol nordestino e que cada vez mais clubes de outros estados possam arrancar do eixo Rio-São Paulo as frentes do cenário futebolístico brasileiro.

Não ao futebol moderno!