Direto do Forno · Música

A nova do Chris Cornell + Por que odeio lançamentos póstumos (a maioria)

Divulgado um box intitulado “Chris Cornell” contendo canções que resgatam todas as fases da carreira do artista, que tirou a própria vida em maio do ano passado.

A faixa “When Bad Does Good” é a única inédita que fará parte desse lançamento, considerando que o cover do Prince, “Nothing Compares 2 U”, já possui um vídeo extensamente divulgado.

Ao meu ver, desnecessário e sem sentido o lançamento dessa coletânea. Para os fãs, é um presente e tanto, mas ela soa mais como um caça-níquel do que uma lembrança do artista, cuja morte ainda é recente e lamentada por muitos. Por mim, inclusive, que tenho em Cornell uma das maiores (se não a maior) referência quando o quesito é escrita.

“When Bad Does Good”, por exemplo, ganhou uma produção que a torna forçadamente triste, apenas para tocar ainda mais forte na ferida dos seus admiradores.

A versão deluxe terá um livro, vários LP’s, CD’s, textos de seus ex-colegas de banda e fotos raras. O box será lançado no dia 16 de novembro.

Direto do Forno · Música

Chris Cornell – “You Never Knew My Mind” (Johnny Cash)

Acaba de sair do forno a versão de Chris Cornell para “You Never Knew My Mind”, poema escrito por Johnny Cash e que nunca havia sido gravado antes. A canção fará parte de uma coletânea em homenagem ao “man in black”.

A canção, como de costume, nos traz a potente e inigualável voz de Cornell em um acompanhamento acústico, bem parecida com suas apresentações solo nos últimos anos.

Intitulada “Johnny Cash: Forever Words”, a coletânea-tributo será lançada no dia 6 de abril e contará com versões de vários outros artistas.

Uma bela maneira de matar a saudade não só de Chris Cornell, mas também de Johnny Cash.

Já falei anteriormente no blog sobre a carreira de Chris Cornell (aqui) e os famosos covers de Johnny Cash (aqui).

Crônicas · Música

Johnny Cash e Seus Discípulos

Certa vez, Trent Reznor, cérebro por trás do Nine Inch Nails, disse em uma entrevista qual foi sua reação ao ouvir a versão de Johnny Cash para seu hino definitivo, “Hurt”: foi como “ver alguém beijando sua namorada” e que a canção não mais o pertencia. Apesar de ainda preferir a original, mais melancólica e mais caótica, é inegável que Cash acrescentou uma carga emocional ainda mais forte à canção, muito devido à sua saúde fragilizada na época.

Citei “Hurt” por ser, talvez, a música mais conhecida atualmente na voz de Johnny Cash. Além da canção já citada, Cash gostava de se aventurar em regravações de grandes clássicos de outros artistas, sempre colocando a sua marca: a voz potente e grave acompanhada por seu fiel violão.

“The needle tears a hole.
The old familiar sting
Try to kill it all away,
But I remember everything.
What have I become?
My sweetest friend,
Everyone I know
Goes away in the end.”

Confira abaixo outras canções que ganharam uma versão interessante do man in black. Algumas mantém a estrutura original e ganham força com a potência vocal de Cash, enquanto outras foram desconstruídas e recriadas pelo artista.

Meu maior destaque é “The Mercy Seat”, uma das canções mais marcantes da extensa discografia de Nick Cave e seus Bad Seeds. A música é um épico alucinante de sete minutos, onde o personagem central questiona o duro destino na qual ele terá de enfrentar: a cadeira elétrica, também vista como um trono da misericórdia perante deus. Cash mantém o mesmo clima sombrio da original, agora substituindo todo o caos sonoro por um violão acompanhado de um órgão e um piano.

“Rusty Cage”, escrita por Chris Cornell, também ganha uma regravação interessante, onde o peso do Soundgarden é trocado por um ritmo mais voltado à country music.

“Did I disappoint you?
Or leave a bad taste in your mouth?
You act like you never had love
And you want me to go without.”

“And the mercy seat is waiting,
And I think my head is burning,
And in a way I’m yearning
To be done with all this measuring of truth.
An eye for an eye,
A tooth for a tooth,
And anyway I told the truth,
And I’m not afraid to die.”

“Reach out and touch faith
Your own personal Jesus.
Someone to hear your prayers,
Someone who cares…”

“You wired me awake
And hit me with a hand of broken nails.
You tied my lead and pulled my chain
To watch my blood begin to boil
But I’m gonna break, I’m gonna break my
I’m gonna break my rusty cage and run!”

Todas foram lançadas nos discos da série American Recordings.

 

Garimpo · Música

Garimpo #05

Mantendo a linha das canções pesadas emocionalmente, não tinha como não falar sobre Chris Cornell. Ídolo máximo, morto após perder uma batalha contra si mesmo. Em “Sweet Euphoria”, somente sua voz e um violão, ambos carregados de sentimentos e lamentos em uma das mais belas poesias de sua carreira. Será que os anjos cansados que ele procura salvaram o seu amor? Não sei, foi só um pensamento rápido que me veio à mente. Não se assuste. É que depois de sua morte, todas suas músicas começaram a fazer ainda mais sentido.

 

Crônicas · Música

‘In My Time of Dying’ – O Epitáfio de Chris Cornell

Um breve resumo da carreira deste grande artista que nos deixou.

Soundgarden, Temple of the Dog, Audioslave, carreira solo, trilhas sonoras, colaborações com vários artistas, entre outros. É difícil dimensionar o tamanho da carreira de Chris Cornell depois de passar por tantos caminhos diferentes, desde o heavy metal até a música pop, sempre com a voz forte e pungente, mergulhada nas mais diversas emoções. Mais difícil ainda é compreender o que o levou a tirar a própria vida, mesmo com uma carreira de enorme sucesso.

Ativo desde os primórdios da cena musical de Seattle, antes mesmo do chamado “movimento Grunge” estourar, Cornell sempre foi marcado pelo talento vocal que possuía, transitando entre gritos raivosos e momentos mais tranquilos. Era como um mar agitado que se rebelava contra as rochas e depois se acalmava para ouvir o som das aves. Além disso, Chris mostrou ser um exímio compositor, com uma habilidade acima da média para escrever músicas que se equilibravam entre a agonia de ser inimigo da própria mente e a possibilidade de poder confrontar não somente a si mesmo, mas a vida difícil que nos espera.

Tudo começou no Soundgarden, banda que ajudou a fundar em 1984 e que teve participação importante para disseminar o famoso “som de Seattle” ao mundo inteiro. Apesar de ser uma das pioneiras do movimento, o Soundgarden se destoa um pouco de todo o conglomerado de bandas que surgiriam depois, com a mistura de riffs pesados do heavy metal e a agressividade do punk rock, somada à voz única de Cornell, sempre carregada de emoção, seja ela raiva ou melancolia.

Com 6 álbuns de estúdio lançados ao todo, o Soundgarden atingiu o ápice comercial e criativo em 1994, com o lançamento do clássico “Superunknown”, um dos trabalhos mais importantes dos anos 90, mantendo o peso presente nos álbuns anteriores, porém acrescentando novas formas, com melodias mais calmas e reflexivas. A banda entrou em hiato no ano de 1997, retomando as atividades em 2010. Materiais para um sétimo disco já estavam sendo gravados.

Após o hiato com o Soundgarden e alguns anos em carreira solo, Cornell foi convidado por ex-integrantes do Rage Against The Machine a se juntarem e formarem uma banda, que mais tarde seria conhecida como Audioslave.

A química entre os integrantes foi quase instantânea, e a soma entre o instrumental pesado do RATM com a voz de Cornell foi certeira. Juntos, lançaram 3 discos, e a banda é considerada uma das maiores da última década. Canções como “Like a Stone” e Be Yourself” são clássicos dos anos 2000, mas não se engane: as verdadeiras pérolas do Audioslave são suas canções menos conhecidas.

Em todo esse tempo, Chris Cornell ainda teve tempo para sua carreira solo e o ótimo projeto Temple of the Dog, criado em homenagem a seu amigo Andrew Wood, ex-vocalista da banda Mother Love Bone, que morreu por overdose de heroína.

Sobre o Temple of the Dog, somente um disco foi lançado, em 1991. A sonoridade é mais limpa, mais voltada ao rock clássico dos anos 70, com destaque à voz de Cornell em canções como “Say Hello To Heaven” e “Four Walled World”. Em “Hunger Strike”, temos a participação de um iniciante Eddie Vedder que, mais tarde, formaria o Pearl Jam com os integrantes restantes do Mother Love Bone. Nessa época, a cena de Seattle começava a se encorpar ainda mais.

Em carreira solo, Cornell trafegou em sua linha de conforto por um tempo, com “Euphoria Mourning” (1999) e “Carry On” (2007) e também ultrapassou suas barreiras ao lançar um álbum de música pop, o “Scream” (2009) onde guitarras pesadas foram trocadas por batidas eletrônicas. Apesar de não gostar tanto, acho válida a intenção de um artista em experimentar novas sonoridades em seu trabalho, sem ficar preso a um rótulo.

Seus dois últimos lançamentos mostram uma nova faceta do cantor, um lado mais tranquilo, sereno… pelo menos aparentemente. “Songbook”, de 2011 é inteiramente acústico e atravessa todas as fases de sua carreira, com canções do Soundgarden, Audioslave e alguns covers. “Higher Truth”, seu último lançamento, continua na mesma linha mais equilibrada, mesclando canções folk com guitarras distorcidas.

Chris Cornell se enforcou no dia 18 de maio desse ano, aos 52 anos, deixando a esposa e três filhos. Como dito anteriormente, já estava gravando com companheiros de banda um novo material para mais um disco com o Soundgarden e uma volta com o Audioslave também era cogitada, pois os membros se reuniram esse ano para uma curta apresentação e em algumas entrevistas, não descartavam uma possível retomada nas atividades.

Tive o prazer de ver esse gênio da música ao vivo com o Soundgarden, em 2013, em um dos momentos mais marcantes da minha vida. Desde a morte de Lou Reed, também em 2013, eu não sentia tanto a morte de um artista quanto a de Chris Cornell, uma das minhas maiores inspirações.

**BÔNUS**

“In My Time of Dying”, a canção que dá título ao texto, não foi citada em vão. Algo como “em meu tempo de morrer”, o épico de 11 minutos está presente do clássico “Physical Graffiti”, sexto álbum de estúdio lançado pelo Led Zeppelin. Porém, a (infeliz) coincidência é o fato de Chris Cornell ter cantado trechos da música justamente na última canção tocada ao vivo com o Soundgarden, poucas horas antes de falecer. Fica aqui a homenagem.

*Texto feito para o blog da Immagine, que foi ao ar no dia 17 de agosto de 2017. Link aqui.