Direto do Forno · Música

O novo do Will Oldham: Songs of Love and Horror

A melancolia é o carro-chefe de “Songs of Love and Horror”, disco em que o cantor e compositor Will Oldham deixa de lado seu alter-ego Bonnie ‘Prince’ Billy e assina como si mesmo as doze belas e delicadas canções.

Conduzido por completo por apenas voz e violão, “Songs of Love and Horror” é uma visita do artista por canções de sua discografia, seja como Bonnie ‘Prince Billy’ ou Palace Music, adotando uma estética mais intimista e caseira. Em alguns momentos, a carga emocional é tão forte que incomoda, no bom sentido, o ouvinte, mostrando o quão pesados são os versos presentes no disco, bem como a voz de Oldham.

Assumir um trabalho assim sem um personagem por trás é um ato de coragem por parte do cantor, e uma forma de expurgar as suas emoções como um vento forte varrendo as impurezas de seu interior.

Ótimo para ouvir com um vinho ao lado.

1. I See a Darkness
2. Ohio River Boat Song
3. So Far and Here We Are
4. The Way
5. Wai
6. The Glory Goes
7. Only Someone Running
8. Big Friday
9. Most People
10. Strange Affair
11. New Partner
12. Party with Marty (Abstract Blues)

 

Quarta Parede

Monólogo de “A Ghost Story”

“O escritor escreve o livro. O compositor escreve a música. O sinfonista escreve a sinfonia, o que pode ser o melhor exemplo porque as melhores foram escritas para Deus. Então, me diz o que acontece quando Beethoven está escrevendo a 9ª Sinfonia e, de repente, acorda um dia, e percebe que Deus não existe. De repente, todas as notas, acordes e harmonias que tinham a intenção de transcender a carne, você percebe que “são parte da física”. Então Beethoven diz:

– Caramba, Deus não existe, então acho que escrevo para outras pessoas. São apenas porcas e parafusos agora”.

Ele não teve filhos, não que eu me lembre. Mas tiremos o amor da equação e desenrolemos isso sob o pensamento: “é assim que se lembrarão de mim”. E eles lembraram. E nós lembramos. E, com certeza, fazemos o possível para perdurar. Construímos nosso legado e talvez o mundo todo se lembre ou, talvez, apenas algumas pessoas, mas fazemos o possível para continuarmos depois de partirmos.

Então ainda lemos esse livro, ainda cantamos essa música; as crianças se lembram dos pais e dos avós e todos têm sua árvore genealógica, e Beethoven tem sua sinfonia, e nós também. E todos continuarão ouvindo no futuro próximo. Mas é aí que as coisas começam a desmoronar. Porque seus filhos… Seus filhos vão morrer. Os seus também. E os seus também. Só estou dizendo. Todos morrerão, e os filhos deles também e assim por diante.

E então haverá uma grande mudança tectônica. Yosemite explodirá e as placas ocidentais mudarão, os oceanos subirão, as montanhas cairão e 90% da humanidade desaparecerá. Uma queda precipitada. É apenas ciência. Quem sobrar, irá para as partes altas e a ordem social acabará, e regrediremos a caçadores e necrófagos e coletores, mas talvez sobre alguém… Alguém que um dia cantarole uma melodia que costumava ouvir.

E isso dará a todos um pouco de esperança.

A humanidade chega à beira do fim, mas consegue seguir porque alguém ouve outro alguém cantarolar uma melodia numa caverna, e a física disso no ouvido deles os faz sentir algo além de medo ou fome ou ódio. E a humanidade prossegue e a civilização retorna. E agora você está pensando que terminará o livro. Mas não vai durar. Porque, aos poucos, o planeta vai morrer. Em alguns bilhões de anos o Sol se tornará gigante e eventualmente engolirá a Terra. Isso é fato.

Talvez até lá tenhamos nos estabelecido em outro planeta. Bom para nós. Talvez descubramos um jeito de carregar conosco tudo o que importa. Conseguem uma cópia da Mona Lisa, alguém vê e mistura poeira alienígena com cuspe, pinta algo novo e as coisas prosseguem. Mas nem isso importará. Mesmo que alguma forma de humanidade carregue uma gravação da 9ª Sinfonia de Beethoven até o futuro, o futuro atingirá uma parede.

O universo continuará expandindo e eventualmente levará toda a matéria com ele. Tudo pelo que lutou, tudo o que você e algum estranho do outro lado do planeta compartilharam com um estranho do futuro num planeta diferente, sem nem saber, tudo o que te fez sentir grande ou poderoso, tudo acabará.

Todo átomo nesta dimensão será destruído por uma força simples… E todas essas partículas retalhadas se contrairão novamente e o universo vai se juntar numa mancha pequena demais para notarmos.

Então, pode escrever um livro… Mas as páginas queimarão. Pode cantar uma música e passar adiante. Pode escrever uma peça esperando que alguém lembre e continue apresentando. Pode construir sua casa dos sonhos… mas no final nada importará mais do que enfiar a mão na terra para colocar uma cerca. Ou transar.

Acho que seria quase a mesma coisa.”