Crônicas · Língua Presa · Música

A Música Que Explodiu Minha Cabeça

Eu costumava passar madrugadas acordado no computador quando era adolescente, nos bons tempos do Orkut, MSN e jogatinas em excesso. Foi o período em que conheci boa parte das bandas que me acompanham até hoje e nunca me esqueço do dia em que caí no território “grunge” e minha cabeça explodiu ao ouvir “Nearly Lost You”, do Screaming Trees.

Aquela guitarra e bateria combinadas no começo me pegaram desprevenido por volta das 3h da madrugada em uma daquelas noites e não havia uma única alma conhecida acordada naquela hora para que eu pudesse compartilhar minha descoberta.

Estava tão animado com aquele som novo aos meus ouvidos que fui escavando cada vez mais internet afora, e quando finalmente o sono bateu, já era de manhã. Dali em diante veio o Pearl Jam, Smashing Pumpkins, algumas bandas mais desconhecidas como o Love Battery, e tantas outras que fazem parte do meu cotidiano até os dias atuais.

Bons tempos.

Garimpo · Música

Garimpo: Hall of Noises – The Melancholic Youth of Jesus

Carlos Santos, o mentor do Melancholic Youth of Jesus, acaba de disponibilizar de forma oficial o debut do projeto, Hall of Noises, lançado em 1992, em sua página no Bandcamp.

São seis canções com o melhor do noise rock/shoegaze, recheado de guitarras dissonantes, microfonias, feedbacks, enfim, os mais variados ruídos que dão todo o charme do trabalho.

Em junho desse ano, Santos e sua gangue soltaram dois ótimos EP’s fiéis às suas raízes. Escrevi sobre eles aqui.

Entre em transe com Hall of Noises no player abaixo.

Direto do Forno · Música

Greg Dulli – Pantomima (Single)

Greg Dulli é uma espécie de Midas da música underground. Seja em seu projeto principal, o Afghan Whigs, cuja discografia é uma das mais brilhantes dos anos noventa, ou com o The Gutter Twins, sua parceria com Mark Lanegan, e até com The Twilight Singers, a presença de Dulli garante ao ouvinte, no mínimo, uma dose de curiosidade.

Até escrevi aqui no blog sobre a discreta participação do cara no mítico álbum de estreia do Foo Fighters, na canção “X-Static”.

Agora, para 2020, Greg Dulli prepara o primeiro disco que leva o seu nome na capa: Random Desire, previsto para sair do forno em fevereiro. Você já pode ouvir “Pantomima”, a primeira canção liberada da obra. Nela, há uma boa concentração de carga emocional, sex appeal e guitarras, muitas guitarras.

Crônicas · Língua Presa · Música

Um Corvo Fora da Curva

Para iniciar, o contexto: surpreendendo a todos, Chris e Rich Robinson fizeram as pazes e anunciaram o retorno do The Black Crowes, após cinco anos de hiato, voltando a figurar nos principais portais do meio artístico.

Agora, o principal.

Eu possuía um rascunho intitulado “Um Corvo Fora da Curva”, na qual havia alguns escritos sobre o quão intrigante foi a trajetória dos Crowes lá nos anos noventa, onde a música pop e o rock alternativo/independente dominavam o cenário musical, e a gangue dos irmãos Robinson, influenciada pelos movimentos setentistas, voavam na contramão e ainda assim conseguiam se destacar.

Porém, todavia, entretanto, esse que vos escreve tomou a sábia atitude de apagar tal rascunho, com a desculpa de que não seria interessante finalizá-lo, por dificuldade em desenvolver o raciocínio. Hoje, com a notícia do retorno do conjunto, seria o timing ideal para terminar tal texto, mas a besteira cometida por mim levou a nuvenzinha chamada ideia para bem longe e sem retorno, causando-me um enorme remorso.

Para entrar na onda e arrancar (mesmo que em partes) o peso na consciência, deixo algumas das minhas canções favoritas da banda para o leitor ouvir, e uma lição muito importante: jamais apague uma ideia por completo, mesmo que ela não pareça promissora no momento. Em alguma oportunidade, ela fará sentido.

Garimpo · Música

Garimpo: Soda Stereo – Dynamo (Ao Vivo no Fax En Concierto, 1992)

Há quem diga que nenhuma banda supera o Soda Stereo no gosto popular argentino. Nem mesmo os Beatles. Para nossos vizinhos, o trio liderado por Gustavo Cerati é uma espécie de deus musical.

Admito que conheço bem pouco do trabalho completo da banda, mas tem um disco que guardo com muito carinho nas minhas audições. Dynamo, de 1992, é, sem dúvidas, completamente à frente de seu tempo. Brincando com os ecos do shoegaze que borbulhavam na Europa naquela época + efeitos eletrônicos + muita dissonância nos acordes, é como se o disco tivesse sido lançado na última década. Ou ano passado. Sem exagero. Costumo chamá-lo de “Loveless latino”.

Um dos shows da turnê de lançamento do Dynamo foi em um programa de TV, uma espécie de talk show local chamado Fax En Concierto, onde nove das doze músicas foram executadas ao vivo. O áudio é ótimo e a banda, meus amigos, impecável, assim como a platéia. Sem celulares, tablets ou eletrônicos, apenas pessoas se divertindo e aproveitando o momento.

Direto do Forno · Música

Pin Ups – Spinning (Single)

Esse texto vai soar muito puxa-saco, porque eu gosto demais dessa banda há anos e jamais pensei que diria isso algum dia: a Pin Ups está de volta e lançará um novo disco!

Em um breve contexto histórico, o grupo foi um dos mais importantes do underground nacional nos anos noventa, época em que a música subterrânea brasileira fabricou inúmeras bandas barulhentas, criativas e de alto nível. Na internet, é possível encontrar reportagens e entrevistas de personagens que viveram a época e aconselho o leitor a procurar para entender melhor.

Time Will Burn, o primeiro álbum da Pin Ups e lançado em 1990, é um dos maiores clássicos da época e costumo apelidá-lo de “Loveless brasileiro”, mesmo lançado um ano antes do mítico disco do My Bloody Valentine.

O último trabalho da banda, Bruce Lee, saiu em 1999 e parou por aí. Com alguns esporádicos retornos, o conjunto voltou à ativa e prepara Long Time No See, o novo disco que chegará no próximo mês, dia 14, pelo midsummer madness e Fleeting Media.

Ouça abaixo “Spinning”, o primeiro aperitivo desse retorno que comemoro com entusiasmo.

Garimpo · Música

Garimpo: No Idea

Procure no Youtube pelo canal “Vinyl Collector” e surpreenda-se. Dois garotos aparentemente na casa dos 15 anos tocando NA ÍNTEGRA discos como “In Utero” (1993) e “Nevermind” (1991), clássicos absolutos dos anos noventa. Em postagens mais recentes, eles até contam com a participação de um baixista, mas quem toca o projeto mesmo são os dois. Seus nomes são Carl Giannelli e Ethan Williams, e a banda chama-se No Idea.

Se falarmos em lançamentos OFICIAIS, até o momento em que vos escrevo, são apenas dois EP’s, mas o suficiente para apresentar a versatilidade deles.

O primeiro é intitulado “Your Peril”, e deu o ar das graças em 8 de julho de 2017. Apresentado pela própria banda como “ideal para fãs do Queens of the Stone Age/Kyuss, Electric Wizard, Sleep…”, é justamente esse tipo de som que você encontrará. Das quatro canções, três são instrumentais, mas todo o EP é recheado de riffs pesados e uma bateria monstruosa. Ambos os integrantes revezam nos instrumentos, ou seja, Carl e Ethan são multi-instrumentistas, o que garante mais um ponto para eles.

Em “Fungus”, o segundo EP lançado seis meses após seu antecessor, o trabalho é melhor resolvido. Carl Giannelli executa as cordas e canta, e Ethan Williams é o responsável pela bateria.

Também com apenas quatro canções, a sonoridade é muito diferente de “Your Peril”. Agora, temos guitarras menos pesadas, porém, com distorções mais sujas, remetendo às bandas da era de ouro do grunge . Além disso, todas as músicas possuem letras, sendo esse o ponto em que eles ainda podem desenvolver melhor. A julgar pelos vídeos do canal deles no Youtube, a influência do Nirvana e do Green Day (lá dos primórdios) é nítida.

Ver uma banda como o No Idea surgindo, tomando forma e aumentando, mesmo que aos poucos, seu reconhecimento é gratificante. Por serem ainda jovens, o talento deles só tende a ser desenvolvido, e espero ouvir um disco cheio em breve. Em resumo, são dois caras se divertindo fazendo música, buscando uma identidade própria e construindo sua base de admiradores.

Direto do Forno · Música

Guided By Voices – The Rally Boys (Single)

Chego a soar repetitivo, mas a fórmula do novo single do Guided By Voices é a mesma. A canção mal começa e as guitarras já estão correndo, com Pollard soltando os seus versos com a voz enérgica, apesar de já mostrar o seu envelhecimento. A duração segue o padrão: menos de dois minutos.

Quando o ouvinte pensa que virá uma segunda parte, uma estrofe a mais ou até um solo, ela é encerrada. Assim, direto ao ponto, é “The Rally Boys”, mais um anúncio de “Zeppelin Over China”, o disco completo que chega no início de fevereiro.

Direto do Forno · Música

O novo do Reverend Horton Heat: Whole New Life

Com formação nova e uma visão de mundo mais otimista (palavras do líder da banda à Billboard), “Whole New Life” chega ao mundo para aqueles que curtem um rock’n’roll descompromissado e ideal para se mexer. É difícil acompanhar o disco e não balançar o corpo por alguns segundos, no mínimo. São 11 faixas inéditas que bebem diretamente do rockabilly e do blues, com um pouco de punk rock.

A adição de um pianista trouxe certo dinamismo ao conjunto, tornando o disco mais versátil e menos enjoativo. A alternância de guitarras e piano tomando a frente de algumas canções mostram o quão criativo foi a produção do trabalho.

Um único momento de “Whole New Life” chama a atenção pelo teor mais emocional: “Don’t Let Go of Me”, digamos, poderia ser considerada a balada do disco. No mais, é uma enxurrada sonora sem tirar o pé do acelerador. Nesse tempo, os dois singles anteriores, “Hog Tyin’ Woman” e a faixa-título, e canções como “Wonky”, “Got It In My Pocket” e “Sunrise Through The Power Lines” fazem valer a audição da obra.

 

1. Whole New Life
2. Hog Tyin’ Woman
3. Hate To See You Cry
4. Got It In My Pocket
5. Don’t Let Go Of Me
6. Ride Before The Fall
7. Tchoupitoulas Street
8. Sunrise Through The Power Lines
9. Wonky
10. Perfect
11. Viva Las Vegas

Direto do Forno · Garimpo · Música

Garimpo: The Spinanes – Manos (Relançamento)

O duo The Spinanes pode até não ter estourado durante seus anos de atividade, mas ganhou um status cult que mantém viva a sua memória. Formado pela vocalista e guitarrista Rebecca Gates e pelo baterista Scott Plouf, lançou três discos pela Sub Pop nos anos noventa e só. Um deles, “Manos”, foi lançado em 1993 e até fez certo barulho nas rádios americanas e na MTV, mas nada gigante se compararmos com outras bandas da época. 25 anos depois, a Merge Records relançou o disco, remasterizado e com algumas faixas bônus.

O extingo blog Amor Louco Br (falo sobre ele aqui) também foi o responsável por me apresentar a banda, justamente com o “Manos”. Curti na primeira audição. Uma produção simples e garageira, com muita emoção por trás. É a música em seu estado mais natural. “Spitfire” e “Shellburn”, ambas com linhas de bateria muito interessantes, são as minhas favoritas até hoje. Ouça-o na íntegra abaixo.

Uma curiosidade: você pode ouvir os backing vocals de Rebecca Gates na canção “St. Ides Heaven”, de Elliott Smith.