Garimpo · Música

Garimpo: Algel Olsen (Ao Vivo na NPR Music)

As árvores balançam ao fundo e dá até para ouvir o vento passando por entre os galhos. O sol brilha tímido e é quase possível sentir o cheiro de ar fresco.

É com esse visual ao fundo que a Angel Olsen gravou sua participação no Tiny Desk Concert, uma série de apresentações que acontecem no canal da NPR Music.

Há poucos dias escrevi aqui sobre o Whole New Mess, disco mais recente dela, e um pouco da sensação que esse trabalho causa. Só que ao vivo, suas músicas soam ainda mais aconchegantes.

O setlist é curto. São três músicas desse disco: a faixa-título, “What It Is (What It Is)” e “Waving, Smiling”. Ela também toca “Iota”, canção do álbum de 2014, Burn Your Fire for No Witness.

Curioso é que essa curta apresentação combina com a atual situação climática de onde moro: dia nublado, sol cabisbaixo e temperatura agradável.

Crônicas · Garimpo · Língua Presa · Música

Uma Noite Calma na Suécia

 

Imagine a situação:

É 18 de novembro de 2003, uma noite calma em Estocolmo, Suécia.

Pessoas se divertem no Debaser Hornstulls Strand, uma casa noturna famosa da cidade.

Mesas cheias de amigos que conversam, bebem, fumam, paqueram com pessoas de outras mesas, abrem seu corações, confidenciam segredos, discutem negócios, esportes e tudo mais que uma noite de distrações pode proporcionar.

Ao fundo, Andy Bell, um banquinho e um violão são os responsáveis pela trilha sonora do ambiente. Uma apresentação acústica com músicas do Ride, Oasis, entre outros.

Sua voz é calma, meio preguiçosa e tímida, capaz de chamar atenção e também de passar batida. Em “Thank You For The Good Times”, canção do Oasis que ele escreveu, seus versos são claros:

“Seria tão bom ouvi-lo dizer ‘obrigado pelos bons tempos’, antes que os bons tempos vão embora.”

Não tenho dúvida de que ao ouvirem os áudios dessa apresentação, as pessoas que lá estiveram e que tiveram bons momentos, pensam: 18 de novembro de 2003 foi uma noite calma na Suécia.

Direto do Forno · Garimpo · Música

Garimpo: Angel Olsen – Whole New Mess

Gravado no final de 2018 no corredor de uma capela, para que a voz ganhasse efeitos mais naturais, Whole New Mess é o quinto disco da Angel Olsen, lançado pela Jagjaguwar no dia 28 de agosto. Ele é traz as canções do disco anterior, o elogiado All Mirrors, de 2019, mas em um formato mais intimista.

As músicas foram escritas em um período difícil para a artista, onde ela passava por um término de relacionamento. Por isso a roupagem delicada e melancólica, mas sem parecer meloso.

Em certos momentos, Whole New Mess lembrou o Nebraska (1982), do Bruce Springsteen, devido à abordagem simples e crua das canções.

É um disco que tenho ouvido do início ao fim por várias vezes durante o dia e sem enjoar.

Garimpo · Música

Algumas Dicas Ambient

Fazer música é uma árdua tarefa, que exige concentração, dedicação, intuição, conhecimento e bastante criatividade. Trabalhar em cima de algo que irá mexer com emoções de outras pessoas com o uso de melodias e palavras já é difícil, imagina uma composição instrumental.

Assim é a música ambient, repleta de ecos, efeitos, ornamentos vocais, sequências repetitivas e tudo mais o que o artista quiser implementar em sua música, porém, em sua maioria, sem palavras cantadas.

Gosto muito de ouvir discos nesse estilo em momentos de leitura ou reflexão. Ao fumar um cigarro e sentar na área externa da casa, por exemplo, ou durante uma madrugada silenciosa. E por ser uma vertente musical tão rica e repleta de compositores inventivos, tornou-se uma das minhas favoritas.

Abaixo estão três discos ambient que garimpei recentemente e que muito me agradaram. Se o EP Kill, do John Bence, possui uma abordagem mais voltada para o gótico e com um clima mais sombrio, o Apartment Loops Vol. 1 do italiano Bruno Bavota é de uma sensação mais sublime, como se o ouvinte flutuasse nas nuvens.

Por fim, trago o disco de estreia do Ghost Lode, chamado Lenten Distance. Esse é o projeto solo de Matt Weed, guitarrista da banda Rosetta. Seu debut é composto por seis belas e melancólicas peças acústicas com um ar de space rock. Creio que se o espaço tivesse som, seria algo do tipo.

Espero que o leitor faça bom proveito.

 

Direto do Forno · Música

O Novo do Ruby Haunt: Tiebracker

Na mitologia nórdica, Hugin e Munin são os corvos e fiéis escudeiros de Odin, que sobrevoam por toda Midgard e retornam com informações importantes para seu mestre. Traduzidos, seus nomes significam memória e pensamento.

O que seria do ser humano sem suas memórias e seus pensamentos? Mesmo que doam, mesmo que sejam pesados, fúteis ou impróprios, mesmo que tragam sensações nada agradáveis, não dá para viver sem eles, muito menos apagá-los por completo.

É nesse campo que o Ruby Haunt acerta, já que suas canções, carregadas de emoção e nostalgia, levam o ouvinte à pontos sensíveis. Ouvir uma música como “Avalon”, por exemplo, é caminhar no limite da vulnerabilidade. É aquela sensação gostosa de satisfação misturada com a dor de algumas lembranças.

Tiebreaker saiu do forno no último dia 29 e recomendo cautela na primeira audição, pois sua forma continua quente no que corresponde à emoções.

É um álbum sem firulas, são oito belas canções com o mínimo de exageros, tudo funciona muito bem direto ao ponto. De grosso modo, as músicas começam, terminam, a próxima começa a tocar e assim vai, como se elas não dependessem do todo para funcionar. As que possuem o violão acústico mais presente, como “April Second”, são as que mais me agradaram.

Um trabalho para ouvir e sentir, apenas. Pode machucar um pouco, mas vai cicatrizar, não se preocupe.

1. River
2. Carrie
3. Avalon
4. Splinters
5. April Second
6. Prairie Fire
7. Rest Stop
8. Weathervane

Direto do Forno · Garimpo · Música

Car Seat Headrest – There Must Be More Than Blood (Acústico)

Saiu mês passado o novo disco do Will Toledo e seu Car Seat Headrest, Making a Door Less Open, pela Matador. Apesar de ser um bom disco, a canção que mais gostei não está presente nele. Ou melhor, não a versão que me cativou.

Foi postada somente no Youtube a versão acústica de “There Must Be More Than Blood”, a penúltima e mais longa faixa do álbum, com mais de sete minutos. Sua repaginada acústica vai só até os seis, e é curiosa a vestimenta que Will Toledo usa em seu vídeo. A máscara de estação nuclear deu um efeito à sua voz, meio que abafando-a, o que aumentou mais ainda seu tom melancólico.

Devo ter reproduzido o vídeo mais de cem vezes até o momento, e digo isso sem exagero. Uma pena que “There Must Be More Than Blood” acústica não saiu em outra plataforma.

Pelo que vi, alguns fãs mandaram mensagens no Instagram do cara e no próprio vídeo pedindo para que ele a solte no Bandcamp, pelo menos. Tomara que o faça.

Direto do Forno · Música

O Novo do Stone Temple Pilots: Perdida

É bem capaz que eu já tenha dito isso por aqui em algum momento, mas na dúvida, repito: fui um dos muitos que torceram o nariz para a continuidade do Stone Temple Pilots após a morte do Scott Weiland. Achava-o insubstituível, tanto que até hoje não ouvi as músicas da banda com o carinha do Linkin Park. Com um vocalista totalmente desconhecido por mim então, pior ainda.

Mas também fui um dos muitos que quebraram a cara com o disco auto-intitulado lançado em 2018. O cara novo tinha nome, Jeff Gutt, e cantava muito. Por isso, quando a banda anunciou Perdida, o disco mais recente e com uma proposta nova, afinal, o álbum é inteiro acústico, aguardei com entusiasmo.

Perdida é um disco melancólico e encantador. Desde a capa enevoada aos arranjos, ele funciona como uma exposição de sentimentos, uma ode à saudade e à melancolia. A faixa-título seria a que melhor resume essa composição. Jeff quase nunca eleva sua voz, e em raros momentos o tom de desalento é quebrado. “She’s My Queen”, por exemplo, é de uma melodia um pouco mais suave, e “Sunburst”, faixa que encerra o álbum, se analisarmos a tradução do termo e adicionarmos poesia no contexto, é como o sol aparecendo após um período perdido em meio ao tempo nublado.

Ao contrário do que o nome sugere, o Stone Temple Pilots não está perdido, muito pelo contrário, seus integrantes buscam cada vez mais novas maneiras de incrementar a sua música, e fazem aqui de forma acima do que eu esperava. Com belas composições, Perdida é o melhor disco da banda desde o Nº 4, de 1999.

O disco saiu no dia 7 de fevereiro pela gravadora Rhino.

1. Fare Thee Well
2. Three Wishes
3. Perdida
4. I Didn’t Know the Time
5. Years
6. She’s My Queen
7. Miles Away
8. You Found Yourself While Losing Your Heart
9. I Once Sat at Your Table
10. Sunburst

Direto do Forno · Música

Wilco – Tell Your Friends (Single)

Não é segredo algum dizer que Jeff Tweedy é um dos maiores compositores do mundo da música nos últimos trinta anos, principalmente nos tempos áureos do Wilco (Being There e Yankee Hotel Foxtrot).

“Tell Your Friends” é mais uma prova da habilidade do músico, novamente certeiro ao descrever pequenos detalhes que tornam-se gigantescos agora que estão praticamente em falta: gestos de afeto, como um abraço, aperto de mão, palavras de carinho, etc.

Mesmo com a tecnologia ao favor (e também desfavor, em partes) da humanidade, todos sentimos falta de calor humano. Por isso ele diz:

“Quero segurar sua mão
Quando te ver novamente.”

O single foi disponibilizado para download a preço mínimo e toda a renda será destinada à ONG World Central Kitchen.

Wilco sendo Wilco, apenas. Banda grandiosa não só na música, mas também em suas atitudes.

 

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Terrapin

Faixa de abertura de The Madcap Laughs, a obra-prima de Syd Barrett lançada em 1970, “Terrapin” é uma das maiores criações do músico em sua carreira solo. Em tempos de quarentena, Syd tem sido uma de minhas melhores companhias e sua voz ecoa pelas paredes da casa há alguns dias, e tenho ouvido “Terrapin” exaustivamente.

Por ter formato acústico, quis aprender a tocá-la. Não é tão difícil, apesar de possuir algumas sequências de acordes não muito convencionais em alguns trechos. Por isso Syd Barrett está no hall dos grandes artistas da história, por fugir do convencional, experimentar, ousar em suas criações.

Ao pesquisar tutoriais e tablaturas, deparei-me com duas surpresas. A primeira, um cover de David Gilmour presente em seu DVD In Concert, lançado em 2002. A segunda, uma estranha versão dos Smashing Pumpkins, de 1992, cantada por James Iha.

Vale conferir pela curiosidade, mas nada substitui a crueza e a beleza da original.

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King Buzzo – Science In Modern America (Single)

Parece não ter fim a criatividade do King Buzzo, um dos líderes do Melvins. Porém, agora a proposta é diferente. Ele deixa de lado o tremor de suas guitarras e assume um formato mais acústico em Gift of Sacrifice, seu segundo disco solo. O anterior, This Machine Kills Artists, é de 2014 e segue a mesma proposta. A distribuição de ambos é pela Ipecac Recordings.

Para esse novo trabalho, Buzzo contará com a ajuda de um antigo conhecido da época do Fantômas: Trevor Dunn, que também é integrante do Mr. Bungle.

Um primeiro aperitivo de Gift of Sacrifice já está disponível para audição e chama-se “Science In Modern America”. Apesar do nome “acústico” rodear as informações do disco, a canção soa tão aterrorizante quanto uma pedrada dos Melvins.

O álbum completo sai em maio, no dia 15.