Música · Quarta Parede

Não Sou Nada

Calma, não é o poema do Fernando Pessoa.

Caindo Na Real, de 1994, é um dos meus filmes favoritos, muito mais pela nostalgia do que pela qualidade técnica, e é, ao lado de Singles – Vida de Solteiro, aquele que melhor representa a essência da Geração X. O vazio existencial, as dúvidas sobre qual carreira seguir, sobre o que ser no futuro, trabalhos, relacionamentos e mais um monte de responsabilidades que a vida adulta, em tese, exige, são os principais questionamentos dos personagens principais desse filme, que é a estreia de Ben Stiller na direção.

Tanto que a canção “I’m Nuthin'”, executada pelo ator Ethan Hawke em uma das cenas, relata justamente esse buraco a ser preenchido naqueles que estão na casa dos vinte e poucos anos. Sem falar que a trilha sonora do filme também tem “Turnip Farm”, um petardo do Dinosaur Jr. em que J. Mascis destrói na guitarra em solos que parecem ser impossíveis de se criar uma tablatura.

Mas minha cena favorita é o breve passeio entre Troy (Ethan Hawke) e Lelaine (Winona Ryder), regado a café, cigarros e uma boa conversa (como ele mesmo diz no famoso diálogo “This is all we need: a couple of smokes, a cup of coffee and a little bit of conversation. You and me and five bucks”), onde ambos divagam sobre o que serão deles dali a alguns anos. Posso estar errado, mas sei lá, parece que naquele tempos as coisas eram mais simples.

Crônicas · Diversos · Língua Presa · Quarta Parede

O Povo Contra Larry Flynt

Uma provocação:

Larry Flynt é um dos nomes mais poderosos do entretenimento adulto estadunidense (Quando digo entretenimento adulto, leia pornografia pesada mesmo, não precisa ficar com vergonha.) É o fundador da LF Publications, cujo carro-chefe de maior nome é a revista Hustler. O filme é de 1996, mas a história acontece nas décadas de 70 e 80, retratando o início de sua trajetória e suas duras batalhas contra o lado conservador americano, que queria proibir a distribuição de sua revista. Flynt até sofreu um atentado de um louco da supremacia branca, fato esse que o deixou paraplégico.

Porém, o foco principal é o famoso imbróglio judicial entre ele e um pastor lá que o acusou de difamação e outras coisas. Para sua defesa, Flynt abraçou um trecho da lei americana que protege o direito do cidadão de expressar-se livremente, e era isso que incomodava os puritanos, que questionavam como uma revista “suja” circulava assim pelo país sem nenhum pudor, com o risco de poluir a mente das criancinhas e blábláblá. Interessante ressaltar aqui que até seu advogado dizia que não era apoiador da revista Hustler e dos outros conteúdos produzidos pela empresa, mas que defenderia sempre o direito da livre expressão das pessoas.

Agora, estamos em 2020 e essa história parece que jamais envelheceu. Do contrário, só piorou. Aquele pessoal que se considera puro e correto até hoje faz suas artimanhas para atacar o que não os convém. O caso da Natura é um ótimo exemplo, e não, não uso Natura e nem sei qual o cheiro daqueles trem. A questão é que eles se incomodaram com a figura usada na propaganda, mas nos bastidores dessas casas tão bonitas e limpas, sabemos bem muito do que acontece.

Imagine um cenário onde Larry Flynt seria candidato à presidência do Brasil sil sil. Qual lado o apoiaria, a direita defensora dos bons costumes (duvido muito) ou a esquerda festiva (como diria Vitor Brauer) que muda suas lutas todo dia, que o usariam como arma de combate e logo buscariam podres do cara (que com certeza devem existir) para derrubá-lo em seguida?

Quarta Parede

Sobre “In The Mood For Love”

Escrevi no Filmow.

“In The Mood For Love encanta pelos seus mínimos detalhes. Os pingos de chuva no chão, os sapatos em atrito com o solo, a fumaça do cigarro, as passagens de silêncio e solidão dos protagonistas, etc. Não conheço outro diretor que trabalhe tão bem as emoções humanas como Wong Kar-Wai.

Se Chungking Express, um dos meus filmes favoritos, extrai sua beleza daquele frenesi de iluminações e movimentos do centro de Hong Kong, In The Mood For Love tem na sutileza e na elegância jazzística todo o seu charme.”

Música · Quarta Parede

Carros Assassinos

Foi numa madrugada de segunda para terça, se não me engano, quando estava zapeando pela SKY, sem sono, e dei a sorte de pegar o Crash – Estranhos Prazeres (1996), do David Cronenberg, logo em seu início, ainda nas apresentações de elenco e equipe técnica. Sem dúvida alguma, é o filme mais bizarro que já assisti até hoje.

Cenas de sexo. Carros. Acidentes de carro. Cenas de pessoas fazendo sexo em carros acidentados. É basicamente isso. Não é um filme ruim, a experiência em assisti-lo foi interessante. A trilha sonora dá um ar de mistério ao filme, os personagens são charmosos e enigmáticos e tem algo nas cores dele que mexeu comigo, mas a história em si e o modo em que ela é contada é um pouco sem pé nem cabeça.

Alguns dias depois, lembrei que o Radiohead tem duas canções que se assemelham a um dos temas do filme: acidentes de carro. São elas “Airbag” (uma das minhas favoritas de toda a discografia deles) e “Killer Cars”, um b-side do The Bends, época que a banda ainda usava umas guitarrinhas distorcidas.

Quarta Parede · Traduções

Akira Kurosawa sobre Roteiro

“O que mais me estressa nos diretores aspirantes que batem à minha porta é isso:

‘É muito caro fazer um filme nos dias de hoje e é difícil virar um diretor.’

É preciso aprender e experimentar várias coisas para se tornar um diretor e não é tão fácil de se conseguir. Mas se você realmente quer fazer filmes, então escreva roteiros. Tudo o que você precisa é papel e lápis. Somente ao escrever roteiros se aprende aspectos da estrutura do filme e o que é o cinema.

Isso é o que os digo, mas eles ainda assim, não escrevem. Acham difícil demais. E é. Escrever roteiros é um trabalho árduo. Porém… Balzac disse para escritores e também para novelistas, que o mais essencial e necessário é a paciência ao encarar a chatice de escrever uma palavra por vez. Essa é a primeira exigência para qualquer escritor. Quando você analisa a obra de Balzac com isso em mente, é ainda mais impressionante, porque ele produziu um volume de trabalhos que não seríamos capazes de terminar de ler durante nossas vidas. Sabe como ele os escreveu? É interessante. Ele os rabiscava e enviava para a impressão logo em seguida. Uma página era impressa em uma folha de papel enorme. Quando recebia de volta as páginas impressas, ele fazia revisões na margem, até restar bem pouco do escrito original. Depois, enviava essas revisões para a impressão. É uma ótima forma de trabalhar, apesar de ser meio difícil para o tipógrafo. Ele era capaz de produzir bastante por causa desse método. Esse pode até ter sido o ingrediente, mas o mais essencial foi ter a paciência de escrever uma palavra por vez até chegar ao tamanho que queria.”

Diversos · Língua Presa · Quarta Parede

Poema de “Spartacus”

“Quando o sol ardente se opõe no horizonte oeste,
Quando o vento das montanhas se acalma,
Quando o canto do sabiá-do-campo cessa,
Quando os gafanhotos do campo não crepitam,
Quando a espuma do mar descansa como uma donzela
e o crepúsculo toca o contorno da terra suspensa,
Volto para casa.

Por sombras azuis e florestas púrpuras,
Volto para casa.

Volto ao lugar onde nasci.
À mãe que me deu à luz e ao pai que me ensinou
Há muito, muito tempo,
Muito tempo.

Agora, só.
Perdido e sozinho num mundo distante e vasto.

Ainda assim, quando o sol ardente baixa,
Quando o vento se acalma e a espuma do mar dorme
E o crepúsculo toca o contorno da terra,
Volto para casa.”

Quarta Parede

Big Sur

Na vasta obra de Jack Kerouac, Big Sur está entre minhas favoritas. É a visão do escritor sobre as três semanas que passou isolado em uma cabana na região que leva o nome do livro e como esse período afetou a sua cabeça.

Como de praxe, Jack junta pensamentos com filosofadas e flashbacks de forma desenfreada, dando a impressão de que está ao lado do leitor contando a história com tamanha empolgação. Não é uma leitura fácil, mas quando se atinge o ritmo necessário, torna-se prazerosa.

Big Sur foi adaptado para o cinema em 2013 e cumpre bem seu papel ao transpor para um filme esse estado de inquietação do cara. Os trechos que acontecem em cidades também me agradaram, por retratar de forma convincente as reuniões da galera beatnick, em um Estados Unidos dividido entre o conservadorismo e a porra-louquice.

Viva Kerouac!

Quarta Parede

Episódio 8

Para quem esperava, enfim, por alguma resposta, a terceira temporada de Twin Peaks trouxe mais dúvidas do que certezas. Claro que a nostalgia veio junto com a expectativa, mas certo é que esse revival teve uma abordagem bem diferente da original, que já falei sobre aqui.

O oitavo episódio deixou bem claro que Lynch tinha mais liberdade artística para contar a sua história. Pelo que entendi, foi, de certa forma, um bomba atômica que desencadeou o espírito maligno Bob. E todo o surrealismo e desconforto sonoro que vemos durante boa parte desse fragmento da trama é digno de um: “PUTA QUE PARIU, QUE PORRA É ESSA QUE ACABEI DE VER?”

Se você procurar pela internet agora, verá que alguns “gênios” se acharam no dever de tentar explicar tudo o que acontece, sendo que o mais gostoso da obra de Lynch é tirar as suas próprias conclusões, isso quando elas são possíveis. O melhor mesmo é adentrar no seu universo non-sense e deixar-se levar pela correnteza de ideias tortas.

Para completar, o convidado musical da vez foi o Nine Inch Nails, com “She’s Gone Away”, um pedido do próprio David Lynch à Trent Reznor.

Uma verdadeira aula de arte.

Quarta Parede

+2 Filmes: Marilyn Monroe

No último final de semana, reparei um erro terrível que percorria minhas veias a um bom tempo: finalmente assisti Marilyn Monroe atuando. E que surpresa!

De forma aleatória, selecionei dois filmes em que a deusa-mor do cinema atuou e coloquei em cheque o seu talento: Some Like It Hot, de 1959, e The Seven Year Itch, de 1955. Ambos são comédias com boa dose de inocência (até demais por parte das personagens de Marilyn), grandes atuações e o mais importante: piadas e sacadas que realmente são engraçadas. Destaco os monólogos de Tom Ewell interpretando o Sr. Sherman em The Seven Year Itch, um personagem cheio de paranoias e hábitos inusitados.

Voltando à atriz, apesar da nítida e exagerada exploração de seu corpo em cena, com closes provocantes e roupas sensuais, Marilyn performa em alto nível. Seus movimentos, danças e expressões faciais vão muito além de uma atriz que, infelizmente, era taxada no estereótipo tolo da “beleza burra”.

Contudo, o que me fascina é perceber que um filme com mais de sessenta anos de lançamento causa mais graça do que uma “comédia” recente. É de parar e pensar porque o nível caiu tanto com o passar dos anos.