Diversos · Língua Presa · Música · Quarta Parede

O Homem da Tela e o Homem do Machado

Não sai da minha cabeça a ideia de que o sexto episódio da terceira temporada de American Horror Story, The Axeman Cometh, teve uma leve inspiração em “Screen Man”, do Failure.

Eu sei que é só um devaneio sem sentido e que ambas as obras não tem ligação alguma, mas, na minha cabeça, as duas peças se complementam em uma só.

A imagem do Homem do Machado caminhando por New Orleans durante uma noite movimentada, à procura de sua próxima vítima e que, de repente, rompe com a quarta parede e olha atentamente nos olhos do espectador, tira o seu saxofone e toca as suas tristes e solitárias notas antes de cometer mais um crime, e você se espanta ao saber que ele pode ser qualquer pessoa, até mesmo o vizinho da porta ao lado, e você pisca os olhos rapidamente para ter certeza de que não é uma alucinação e… você acorda.

Admita: é um delírio e tanto.

 

Música · Quarta Parede

Believe The Hype

Já faz um bom tempo que carrego comigo o lema don’t believe the hype quando deparo-me com noticiários exaustivos a respeito de algum artista, filme, jogo ou qualquer outro produto/obra de arte.

Porém, em outubro de 2019, terei que discordar do Public Enemy ao afirmar: acredite SIM no hype que rodeia o “filme do Coringa”.

Joker é tudo isso e mais um pouco. É um daqueles filmes que o espectador não digere em poucos dias. Ele vai, aos poucos, sendo absorvido, e cada nova análise, cada novo texto lido, cada vídeo assistido sobre e qualquer material que disserte sobre a película rende um ponto de vista diferente em relação à anterior. É uma obra muito ampla e que ultrapassa a linha de lateralidade que assola o nosso país.

Sobre a atuação de Phoenix, é chover no molhado dizer que é a melhor de sua carreira, e até mesmo a melhor da década. Vencer um Oscar ainda seria pouco para glorificá-lo.

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“Me Come, Elio”

Melhor do que o filme, somente o livro Me Chame Pelo Seu Nome, de André Aciman. A adaptação para os cinemas é bela, com uma trilha sonora tocante e a química entre os atores que interpretam Elio e Oliver causa arrepios ao espectador.

Mas o livro tem algo ainda mais forte: ele é intenso. Ele causa dor ao leitor. Ele nos coloca na vulnerabilidade de Elio. Nas suas dúvidas, nos seus anseios, nas suas saudades. Se o filme termina na despedida, o livro vai além. Aos rumos tomados, ao reencontro, ao fogo que ainda não se apagou.

Mesmo que a história de Elio e Oliver em um paraíso italiano se encaixe na prateleira de obra LGBT, Me Chame Pelo Seu Nome é muito mais do que isso. É sobre descoberta, é sobre quebrar a barreira de si mesmo, ir além da grade invisível que cerca o nosso ser.

É sobre amor. Sobre sentir. Sobre ser humano.

Direto do Forno · Música · Quarta Parede

O Novo do Black Banshee: Metamorphosis

O céu escuro, noite, com uma chuva interminável. A ruas da metrópole mais parecem um formigueiro, cheias de pessoas, ciborgues, robôs, carros espaciais. Do apressado ao trabalho até o traficante da esquina. Do bad boy de jaqueta de couro à garota de programa na calçada.

Lembrou de algum filme? Na minha mente vieram dois: Blade Runner e A.I. – Inteligência Artificial. É justamente nesse cenário futurista que o novo disco do Black Banshee, Metamorphosis, entra, pois ele seria a trilha sonora ideal para uma película do tipo.

São quinze faixas e somente DUAS ultrapassam os dois minutos de duração, onde cada uma complementa a outra, transformando tudo em uma só peça. Com uma variedade de elementos e sons que vão de ruídos, cortes ambientes, sintetizadores até repetições incansáveis, Metamorphosis é um curto aperitivo para quem gosta de música eletrônica.

Pode soar exagerado, eu sei e gosto disso, mas Aphex Twin, lá na caverna onde vive, deve estar orgulhoso da escola que fundou.

Quarta Parede

+2 Filmes: Tom Cruise em 1999

A virada do século foi bem produtiva para Tom Cruise. Com dois papéis marcantes no ano de 1999 (recebendo até uma indicação ao Oscar), para mim, foi a prova definitiva de que ele era mais do que apenas um rostinho bonito em Hollywood.

Em “Magnólia”, meu filme favorito de Paul Thomas Anderson, Cruise interpreta Frank T. J. Mackey, uma espécie de guru do sexo e que dá palestras para homens sobre como conquistar uma mulher e fazê-la sair com eles. Com uma postura um tanto quanto machista (sem ideologia, apenas veja o filme), o personagem de Tom Cruise esconde por trás da máscara de “homem bem resolvido” um cara emocionalmente frágil, ainda mais quando é confrontado com fantasmas de seu passado. Veja como Cruise encarna de forma brilhante seu personagem na platéia e depois em seu momento mais vulnerável. É magnífica e emocionante sua interpretação.

Outra película em que o ator desempenha seu papel com maestria é em “De Olhos Bem Fechados”, a última dirigida por Stanley Kubrick, que morreu dias após a finalização do filme.

Ambientado numa Nova York em plena época de natal, Cruise é o médico Bill Harford, que fica atordoado ao ouvir da esposa que ela fantasiou um caso com outro homem. Perdido em seus pensamentos, Harford sai pela cidade encontrando os mais variados tipos de pessoas, até se meter em uma seita secreta com orgias e pessoas misteriosas. O personagem de Cruise é de um cinismo notável e possui um “quê” de superioridade sobre as outras personagens. Por ser bem sucedido, usa de seu dinheiro para conseguir o que quer, mesmo em situações constrangedoras. Confira abaixo algumas cenas, mas cuidado, pois podem ter spoilers.

Aqui nesse texto, eu não quis prolongar muito sobre os filmes em si, apenas nas atuações do ator. Porém, afirmo que são longas que tocam nas feridas mais sensíveis do ser humano, como suas relações afetivas, suas interações com outras pessoas e como cada um, em seu particular, age em prol de si mesmo nas mais diversas situações. São filmes que escancaram de forma brilhante nossos maiores medos e fraquezas.

Se você vê Tom Cruise atualmente focando sua carreira em filmes de ação “mais do mesmo”, não se engane. Apesar do rosto ainda bonito mesmo depois de anos, ele só anda escolhendo seus papéis na sua zona de conforto, pois talento ele tem de sobra.

Quarta Parede

Joe Pesci em “Goodfellas”: “Funny how?”

“Goodfellas” (“Os Bons Companheiros” no Brasil) é um dos filmes mais aclamados de Martin Scorsese. Lançado em 1990, apresenta Ray Liotta em sua melhor forma como o protagonista da película e Robert De Niro dispensa comentários, mas é Joe Pesci que rouba a cena com uma atuação espetacular.

Apesar de não ser meu filme favorito do diretor (nem o segundo, nem o terceiro), a cena em que o personagem de Pesci, Tommy DeVito, finge estar irritado com um comentário feito por Henry, personagem de Ray Liotta, é uma das mais hilárias que já vi. Tensa e engraçada ao mesmo tempo. Filmes de comédia, cuja natureza é justamente fazer o espectador rir, não atingem tal feito como o “funny how” de Joe Pesci. Confira abaixo e assista o filme, pois não irá se arrepender.

 

Quarta Parede

+1 Filme (Ou Seria +1 Livro?): Drive

(O link original para o Blog da Immagine está aqui.)

Uma das melhores e mais rápidas leituras que fiz esse ano, “Drive”, de James Sallis, é um prato cheio para amantes de histórias sobre crimes, ambientes sujos, personagens enigmáticos e carros, muitos carros. O Piloto, personagem principal cujo nome nunca é revelado, é o centro da história.

Ele, que costuma dizer que “apenas dirige”, é o melhor no que faz. Durante o dia, trabalha como dublê de filmes. À noite, faz serviços fora da lei. E ele deixa bem claro que sua única função é conduzir o veículo até o local, esperar o ato e fugir dali. Só que tudo desanda quando um dos assaltos não ocorre como esperado e, a partir daí, a trama gira em torno do Piloto tentando salvar a sua própria vida.

Seguindo uma linha do tempo não-linear, a estrutura pode deixar o desenrolar dos acontecimentos meio confuso a princípio, sendo necessário retornar algumas páginas em certos momentos para compreender melhor em qual parte do tempo determinado capítulo está. Porém, isso não atrapalha o entendimento da história. E alguns deles centram-se em outros personagens, como o Doutor e o vilão, Bernie Gold, o que deixa o livro ainda mais interessante.

O texto possui um vocabulário bem coloquial, cheio de gírias, palavrões e um humor negro bastante refinado. Os locais são bem detalhados, e o leitor, de certa forma, entra no ambiente. E por se tratar de relações entre personagens cujas atitudes são bem questionáveis, o teor de algumas cenas é de bastante violência.

Assim como o livro que falei sobre no último texto, “Drive” também ganhou uma adaptação (bem elogiada e vencedora de prêmios, por sinal) para os cinemas. Ryan Gosling fez o papel do Piloto e, apesar de achá-lo um bom ator, sua atuação não me convenceu e as mudanças da adaptação em relação ao livro me incomodaram. Entretanto, a película é de uma fotografia e direção impecáveis, lembrando muito a estética de filmes noir.

Falando em modo particular, até tento, não consigo desassociar a obra literária da cinematográfica. Logo, o filme não é tão brilhante quanto o livro. Se o leitor consegue fazer tal distinção, os dois serão de todo agrado.

Quarta Parede

+1 Filme: Boneco de Neve

Nem Michael Fassbender conseguiu salvar a bomba que é o filme “Boneco de Neve”, baseado no ótimo livro do norueguês Jo Nesbo.

A obra impressa, que é narrada em terceira pessoa e alterna capítulos passados no presente e alguns flashbacks, conta a história de Harry Hole, um dos melhores (se não o melhor) detetives da polícia norueguesa e único do país a capturar um serial killer (isso na Austrália, se a memória não estiver falha) e Katrine Bratt, sua nova parceira de investigação, na busca ao chamado “Boneco de Neve”, suspeito de ser o primeiro serial killer a atuar na Noruega.

O livro surpreende com uma exuberante riqueza em detalhes, personagens muito bem desenvolvidos e momentos de pura tensão, enquanto o filme peca ao conduzir a história de forma rasa e simplória, deixando de lado o suspense (praticamente inexistente) e adotando uma forma mais direta em desenrolar os acontecimentos.

“Boneco de Neve” foi a terceira aventura que fiz no campo da literatura policial e, por coincidência, todas foram adaptadas ao cinema. Porém, ao contrário de “Boneco de Neve”, as outras duas histórias foram muito bem contadas na sétima arte.

Uma delas é “O Colecionador de Ossos”, onde acompanhamos Lincoln Rhyme, um brilhante investigador cuja carreira é interrompida após um acidente que o deixa tetraplégico. Porém, com a mente ainda funcionando, ele utiliza todo o seu conhecimento e percepção na busca pelo assassino que está assustando a população com métodos não-convencionais para levar suas vítimas à morte, tendo como base a Nova York do início do século 20. O filme baseado no livro tem a presença de Denzel Washington e Angelina Jolie nos papéis principais e é muito bom.

A outra é nada menos que “O Silêncio dos Inocentes”, um clássico absoluto do cinema. Aqui temos Clarice Starling, uma ainda novata do FBI que, a partir de conversas com o psiquiatra/psicopata Dr. Hannibal Lecter, investiga pistas para encontrar Buffalo Bill, um serial killer que esfola mulheres e as despeja em rios por vários estados diferentes. A atuação magistral de Anthony Hopkins como Lecter tornou o vilão um ícone da cultura pop.

É certo assumir certa injustiça ao exigir que um filme de duas horas consiga extrair por completo um tijolo de 418 páginas, mas o diretor Tomas Alfredson poderia, sim, ter contado a história de forma mais fiel e intensa quanto o livro, assim como os diretores de “O Colecionador de Ossos” e “O Silêncio dos Inocentes” fizeram. Decorrer uma investigação de modo tão raso e monótono foi como derreter o próprio boneco antes mesmo que ele tivesse alguma forma.

Os três livros eu encontrei na Americanas de LEM e todos com um ótimo preço, numa época em que a loja não estava infestada de livros de auto-ajuda e “biografias” de youtubers. Já os filmes, digamos que utilizei formas “alternativas” para assisti-los.

(O link do texto no blog da Immagine está aqui.)

Quarta Parede

Poema de “Before Sunrise”

“Desilusão do sonhar acordado
Cílios de Limousine
Ah, querida, com seu lindo rosto
Derrame uma lágrima no meu copo de vinho
Olhe para esses grandes olhos
Veja o que significa para mim
Bolos e milks hakes
Sou um anjo desiludido, sou um desfile de fantasias
Quero que saiba o que penso, não quero que adivinhe mais
Você não sabe de onde eu vim
Nós não sabemos para onde vamos
Jogados na vida como afluentes de um rio
Flutuando rio abaixo, pegos pela corrente
Eu te levo
Você me levará
É como poderia ser
Você não me conhece?
Não me conhece até agora?”

 

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Pai e Filho

(Meu mais recente texto para o blog da Immagine. Link aqui.)

Filmes de super-heróis estão cada vez mais presentes nas salas de cinema. Desde histórias que contam suas origens, a inserção deles em meio à sociedade, até as super-alianças com outros heróis combatendo forças megalomaníacas que ameaçam acabar com o planeta. Tem espaço para tudo. Só o Homem-Aranha, meu preferido da Marvel, está em três “universos” diferentes. O Batman, meu favorito de todos, idem. Mas eu gostaria mesmo é de falar sobre David Dunn, o herói “humano” de “Corpo Fechado”.

Digo “humano” porque é assim que ele nos é apresentado. Em “Corpo Fechado”, David é o único sobrevivente de um trágico acidente de trem. Além disso, ele passa ileso pelo acontecimento, sem um arranhão sequer. A partir daí, com a “ajuda” de seu futuro arquiinimigo, Mr. Glass, ele começa a descobrir e entender seus poderes sobrenaturais e o tamanho da responsabilidade que isso o traz. Só que antes de todo esse desdobramento, o protagonista da história nos é apresentado como um ser humano comum. Um homem cujo casamento está por um fio e está triste a todo tempo. Seu semblante é de derrota na maior parte das cenas. Sua postura, cabisbaixa, como se um peso habitasse seus ombros.

Diante desse fator humano/social, o que muito me chamou atenção foi o seu relacionamento com Joseph, seu filho, o que parece ser seu único conforto. E que não deixa de ser um conforto também para o menino, já que ele vive em meio à tensão do relacionamento dos pais. No primeiro encontro entre David (acompanhado pelo garoto) e Mr. Glass, por exemplo, onde a teoria de que ele seria um super-herói é apresentada, Joseph fica maravilhado com a possiblidade. Tanto que o menino leva a sério as explicações de Mr. Glass, enquanto David se mantém totalmente desacreditado (por enquanto).

Uma cena mais adiante reforça esse encantamento do garoto pelo pai: a cena dos exercícios.

David acaba de chegar do trabalho e é recebido pelo filho, que abandona os amigos para acompanhar o pai nos seus exercícios de rotina. O garoto é o responsável por colocar os pesos na barra para que ele possa levantar. Diante da possibilidade de ser realmente um super-herói, David pede a Joseph que ele coloque mais peso. Ele consegue levantar, e pede para que o menino coloque mais. A situação se repete mais algumas vezes, até o espanto de ambos: sem mais pesos para serem acrescentados à barra, eles improvisam algumas latas de tinta amarradas na mesma. Cerca de 250 quilos. E David as levanta, enquanto sua descrença começa a se desfazer.

A partir daí, não cabe a mim desenrolar todos os acontecimentos, mas considerando somente a relação entre pai e filho, preciso citar esse momento: a descoberta do garoto.

Após David realizar a sua primeira investida como um super-herói de verdade, a notícia de seu feito corre pela cidade feito vento. Os jornais a estampam em suas páginas. Em pleno café da manhã, David mostra uma dessas páginas ao filho, que, muito emocionado, não contém as lágrimas. David pede para que ele não reaja e o garoto obedece. Porém, não havia mais volta: a partir de agora, David Dunn era realmente um super-herói e tinha uma responsabilidade.

Mas vejo por outro ponto: desde o início do filme, Joseph já o via como tal, desde quando ele era aquele homem cabisbaixo e entristecido. Assim como, creio eu, a maioria dos filhos consideram os seus pais. Como heróis.

“Corpo Fechado” foi lançado na virada do milênio, em 2000. Foi escrito, dirigido e produzido por M. Night Shyamalan, sucedendo “O Sexto Sentido”. Ele faz parte de uma trilogia composta por “Fragmentado”, lançado em 2016 e “Glass”, cujo lançamento está marcado para o próximo ano.