Quarta Parede

Episódio 8

Para quem esperava, enfim, por alguma resposta, a terceira temporada de Twin Peaks trouxe mais dúvidas do que certezas. Claro que a nostalgia veio junto com a expectativa, mas certo é que esse revival teve uma abordagem bem diferente da original, que já falei sobre aqui.

O oitavo episódio deixou bem claro que Lynch tinha mais liberdade artística para contar a sua história. Pelo que entendi, foi, de certa forma, um bomba atômica que desencadeou o espírito maligno Bob. E todo o surrealismo e desconforto sonoro que vemos durante boa parte desse fragmento da trama é digno de um: “PUTA QUE PARIU, QUE PORRA É ESSA QUE ACABEI DE VER?”

Se você procurar pela internet agora, verá que alguns “gênios” se acharam no dever de tentar explicar tudo o que acontece, sendo que o mais gostoso da obra de Lynch é tirar as suas próprias conclusões, isso quando elas são possíveis. O melhor mesmo é adentrar no seu universo non-sense e deixar-se levar pela correnteza de ideias tortas.

Para completar, o convidado musical da vez foi o Nine Inch Nails, com “She’s Gone Away”, um pedido do próprio David Lynch à Trent Reznor.

Uma verdadeira aula de arte.

Quarta Parede

+2 Filmes: Marilyn Monroe

No último final de semana, reparei um erro terrível que percorria minhas veias a um bom tempo: finalmente assisti Marilyn Monroe atuando. E que surpresa!

De forma aleatória, selecionei dois filmes em que a deusa-mor do cinema atuou e coloquei em cheque o seu talento: Some Like It Hot, de 1959, e The Seven Year Itch, de 1955. Ambos são comédias com boa dose de inocência (até demais por parte das personagens de Marilyn), grandes atuações e o mais importante: piadas e sacadas que realmente são engraçadas. Destaco os monólogos de Tom Ewell interpretando o Sr. Sherman em The Seven Year Itch, um personagem cheio de paranoias e hábitos inusitados.

Voltando à atriz, apesar da nítida e exagerada exploração de seu corpo em cena, com closes provocantes e roupas sensuais, Marilyn performa em alto nível. Seus movimentos, danças e expressões faciais vão muito além de uma atriz que, infelizmente, era taxada no estereótipo tolo da “beleza burra”.

Contudo, o que me fascina é perceber que um filme com mais de sessenta anos de lançamento causa mais graça do que uma “comédia” recente. É de parar e pensar porque o nível caiu tanto com o passar dos anos.

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E esse Watchmen, hein?

Se tem um seriado que me surpreendeu e que estou acompanhando com fervor é Watchmen, da HBO. Mesmo considerada por muitos como desnecessária, a continuação da HQ está muito interessante: trama misteriosa, clima sombrio, muita violência e claro, uma trilha sonora sensacional.

Sério, não é exagero nenhum dizer que praticamente tudo que o Trent Reznor e o Atticus Ross criam é acima da média, e não foi diferente nessa trilha sonora. Experimental na medida certa, misturando elementos de eletrônica, música ambient e industrial, e que resultou até em um cover de “Life On Mars?”, do David Bowie.

Vou deixar um aperitivo aqui embaixo.

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Vozes

Loucura. Demência. Alucinação. Colapso mental. Breakdown. Etc.

O termo é o de menos, mas as causas são das mais variadas. A arte, que imita a vida, traz bons reflexos de tal condição.

No cinema, são inúmeros os filmes que retratam a insanidade do ser humano. Rambo ficou perturbado após vivenciar uma guerra, assim como o Capitão Benjamin L. Willard em Apocalypse Now. A perda de um ente querido destruiu a mente de Andrew Laeddis em Ilha do Medo, enquanto a solidão colaborou com a paranoia tanto de Travis Bickle, em Taxi Driver, quanto de Jack Torrance, de O Iluminado.

Na música, David Crosby deu piripaque após perder sua namorada Christine Hinton em um acidente de carro, anos antes de descarregar suas angústias em If I Could Only Remember My Name, seu primeiro trabalho solo, em 1971. Sua condição era tão assustadora que o nome do disco é referência ao estado mental do cidadão: em alguns momentos, ele não conseguia nem se lembrar do próprio nome.

Já Skip Spence, ex-guitarrista do Moby Grape, chegou a atacar seus colegas de banda com um machado durante uma viagem lisérgica. Com o abuso de drogas e seu estado mental cada vez mais degradando, Skip foi internado numa clínica e lá gravou seu único trabalho solo, Oar, em 1969, um dos discos mais deprimentes e honestos que já ouvi.

Outras citações são apenas metafóricas, mas não menos importantes. Humberto Gessinger admite ouvir vozes, que certas vezes o assusta, e noutras, o atraem, em “Vozes” (A Revolta dos Dândis, 1987).

Já Robert Pollard… Bem, esse é guiados por vozes há mais de três décadas com o seu Guided By Voices, um dos pilares e mais importantes grupos do rock alternativo noventista.

Mas é nas artes gráficas a história de deterioração mental mais perturbadora e bem escrita que conheço. A tortura psicológica que o Coringa faz com o Comissário Gordon em A Piada Mortal (1988), cuja conclusão é perfeita:

“Só é preciso um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um lunático. É essa a distância que me separa do mundo. Apenas um dia ruim.”

Apenas um dia ruim e a nossa vida entra em colapso.

 

 

 

 

 

 

Quarta Parede

Twin Peaks

Boardwalk Empire, Mad Men, Peaky Blinders, The Wire, Lost, Stranger Things, etc.

É provável que nenhuma dessas e várias outras superproduções televisivas das últimas duas décadas existissem se não fosse por Twin Peaks, série criada por David Lynch e Mark Frost que estreou em 1990, durou duas temporadas, ganhou um revival em 2017 e que mudou para sempre a história da TV mundial.

Por aproximar o cinema da televisão e construir um único filme dividido em trinta episódios (considerando as duas primeiras temporadas somente), Twin Peaks encanta por uma variedade de fatores:

  • Uma trama misteriosa e atraente, cheia de reviravoltas, surpresas e emoção;
  • Vários personagens, dos principais aos secundários e até os coadjuvantes, que por algum momento possuem um enfoque/história paralela que complementam a história;
  • As famosas femme fatales que trazem um charme à mais ao seriado;
  • A maravilhosa trilha sonora de Angelo Badalamenti;

E tantos outros detalhes que completam o universo da trama.

Porém, nada do que foi citado supera aquele que considero o ponto mais alto do seriado: Dale Cooper, o personagem mais charmoso da história da TV, brilhantemente interpretado por Kyle MacLachlan.

Além de seu notável vocabulário e sua fixação por cafeína, o personagem chama a atenção por sempre analisar as situações além do que elas aparentam ser. Em muitos momentos, com uma digna dose de nonsense, Cooper convence a todos de que a solução de um caso está em um sonho, em uma visão ou apenas pela intuição.

No entanto, o que fez Dale Cooper entrar no meu hall de personagens favoritos são os seus ensinamentos. Não, não, nada de coach ou guru intelectual por aqui. São diálogos ou monólogos com opiniões bem peculiares a respeito de um determinado assunto que, mesmo que seja banal, soa enriquecedor ao intelecto. Veja abaixo e, se possível, assista Twin Peaks. Nunca mais sairá da sua cabeça.

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O Homem da Tela e o Homem do Machado

Não sai da minha cabeça a ideia de que o sexto episódio da terceira temporada de American Horror Story, The Axeman Cometh, teve uma leve inspiração em “Screen Man”, do Failure.

Eu sei que é só um devaneio sem sentido e que ambas as obras não tem ligação alguma, mas, na minha cabeça, as duas peças se complementam em uma só.

A imagem do Homem do Machado caminhando por New Orleans durante uma noite movimentada, à procura de sua próxima vítima e que, de repente, rompe com a quarta parede e olha atentamente nos olhos do espectador, tira o seu saxofone e toca as suas tristes e solitárias notas antes de cometer mais um crime, e você se espanta ao saber que ele pode ser qualquer pessoa, até mesmo o vizinho da porta ao lado, e você pisca os olhos rapidamente para ter certeza de que não é uma alucinação e… você acorda.

Admita: é um delírio e tanto.

 

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Believe The Hype

Já faz um bom tempo que carrego comigo o lema don’t believe the hype quando deparo-me com noticiários exaustivos a respeito de algum artista, filme, jogo ou qualquer outro produto/obra de arte.

Porém, em outubro de 2019, terei que discordar do Public Enemy ao afirmar: acredite SIM no hype que rodeia o “filme do Coringa”.

Joker é tudo isso e mais um pouco. É um daqueles filmes que o espectador não digere em poucos dias. Ele vai, aos poucos, sendo absorvido, e cada nova análise, cada novo texto lido, cada vídeo assistido sobre e qualquer material que disserte sobre a película rende um ponto de vista diferente em relação à anterior. É uma obra muito ampla e que ultrapassa a linha de lateralidade que assola o nosso país.

Sobre a atuação de Phoenix, é chover no molhado dizer que é a melhor de sua carreira, e até mesmo a melhor da década. Vencer um Oscar ainda seria pouco para glorificá-lo.

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“Me Come, Elio”

Melhor do que o filme, somente o livro Me Chame Pelo Seu Nome, de André Aciman. A adaptação para os cinemas é bela, com uma trilha sonora tocante e a química entre os atores que interpretam Elio e Oliver causa arrepios ao espectador.

Mas o livro tem algo ainda mais forte: ele é intenso. Ele causa dor ao leitor. Ele nos coloca na vulnerabilidade de Elio. Nas suas dúvidas, nos seus anseios, nas suas saudades. Se o filme termina na despedida, o livro vai além. Aos rumos tomados, ao reencontro, ao fogo que ainda não se apagou.

Mesmo que a história de Elio e Oliver em um paraíso italiano se encaixe na prateleira de obra LGBT, Me Chame Pelo Seu Nome é muito mais do que isso. É sobre descoberta, é sobre quebrar a barreira de si mesmo, ir além da grade invisível que cerca o nosso ser.

É sobre amor. Sobre sentir. Sobre ser humano.

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O Novo do Black Banshee: Metamorphosis

O céu escuro, noite, com uma chuva interminável. A ruas da metrópole mais parecem um formigueiro, cheias de pessoas, ciborgues, robôs, carros espaciais. Do apressado ao trabalho até o traficante da esquina. Do bad boy de jaqueta de couro à garota de programa na calçada.

Lembrou de algum filme? Na minha mente vieram dois: Blade Runner e A.I. – Inteligência Artificial. É justamente nesse cenário futurista que o novo disco do Black Banshee, Metamorphosis, entra, pois ele seria a trilha sonora ideal para uma película do tipo.

São quinze faixas e somente DUAS ultrapassam os dois minutos de duração, onde cada uma complementa a outra, transformando tudo em uma só peça. Com uma variedade de elementos e sons que vão de ruídos, cortes ambientes, sintetizadores até repetições incansáveis, Metamorphosis é um curto aperitivo para quem gosta de música eletrônica.

Pode soar exagerado, eu sei e gosto disso, mas Aphex Twin, lá na caverna onde vive, deve estar orgulhoso da escola que fundou.