Direto do Forno · Garimpo · Música

Garimpo: Protomartyr e o Meme Brasileiro

Assisti Bandidos Na TV recentemente e fiquei de cara com o tanto de plot twist que aconteceu na história toda. Nem o mais refinado roteirista de Hollywood seria capaz de desenrolar algo tão bizarro e impactante.

Não entrarei em detalhes sobre a série documental, mas apenas para que o leitor tenha um norte, ela trata sobre o Caso Wallace, que foi um desenrolar de acontecimentos ocorridos em Manaus que envolveu o político Wallace Souza e vários crimes. Wallace foi apresentador do Canal Livre, programa policial líder de audiência no Amazonas, e graças à fama, entrou para a política. Veja a série, vale muito a pena.

Voltando ao tópico principal, um dos memes mais engraçados da internet brasileira vem justamente do Canal Livre, que foi a briga entre o fantoche Galerito e o Gil da Esfiha, participante assíduo da plateia. Em um belo dia, durante uma apresentação do cantor Nunes Filho, Galerito foi provocar o Gil e o pau quebrou. O vendedor de esfihas não aceitou a brincadeira e partiu pra cima do fantoche, o que causou uma confusão generalizada AO VIVO, deixando muita gente perplexa e gerando muitas risadas… Menos Nunes Filho, que manteve a compostura e continuou sua apresentação como se nada estivesse acontecendo.

Essa foi a situação que inspirou o videoclipe de “Processed By The Boys”, do Protomartyr. A canção foi lançada em 11 de março, como single do próximo álbum do grupo, Ultimate Success Today, com lançamento marcado para julho. É interessante o contraste do vídeo, cujas atuações beiram o lado cômico da situação, mas a música em si é melancólica, pesada e com letras sombrias.

Confira abaixo.

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Redescobrindo o Suede

Meu primeiro contato com o Suede foi numa apresentação dos caras no programa do Jools Holland, em 1994, época do então recém-lançado Dog Man Star. Isso tem muitos anos, como também fazia muitos anos que eu não ouvia a banda de novo. Sem motivo algum, havia criado em minha cabeça uma espécie de bloqueio em relação ao Suede.

Bom, nas últimas semanas, estava navegando internet afora e deparei-me com uma postagem do Scream & Yell sobre a banda. Aquele post despertou uma curiosidade em redescobrir o Suede para, enfim, ter uma opinião bem formada em relação ao grupo. O resultado dessa redescoberta é que já faz umas duas semanas (ou mais) que o disco que inicia meus dias é o Dog Man Star.

Melancólico, o álbum possui doze canções ao todo e NENHUMA É DISPENSÁVEL. A hipnótica “Introducing The Band”, quase um mantra, é o abre-alas para um conjunto de músicas cujas referências abrangem o glam rock feito pelo David Bowie no início dos anos setenta, como “The Power” e “New Generation”, odes à ícones do cinema, como “Heroine” (Marilyn Monroe) e “Daddy’s Speeding” (James Dean), baladas bastante emotivas, vide “The 2 of Us” e “Black Or Blue” e até música clássica, no desfecho em “Still Life”.

“We Are The Pigs” e “The Wild Ones” foram os principais singles do disco e são suas melhores canções, flertando o rock’n’roll com um forte apelo pop. “The Asphalt World” é a mais experimental, com pouco mais de nove minutos de duração. Ela vem em sequência das duas baladas e possui uma longa passagem instrumental, quase que lisérgica, renovando o tom do disco às alturas até a última canção.

A banda em si é muito afiada, as linhas de guitarra são algo que se o ouvinte escutar com atenção, verá que são muito acima da média, mas o que me pegou em cheio foi a voz do Brett Anderson e sua figura elegante, bem vestida, como se ele estivesse acima de tudo o que está acontecendo durante as músicas.

A versão de luxo de Dog Man Star possui algumas demos e canções extras e também vale a pena dar uma conferida.

É um disco para dar play e colocar no repeat, pois a cada audição, detalhes e mais detalhes antes despercebidos começam a ficar claros e só engrandecem ainda mais a produção. Como disse acima, faz semanas que ele abre minhas audições diárias e, sem exageros, ele é capaz de tornar os dias um pouco menos pesados. Afinal, essa é uma das maiores belezas da música, não?

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25 Anos de Wowee Zowee

Um dos meus últimos textos foi sobre o vigésimo-quinto aniversário do Alien Lanes, do Guided By Voices, clássico do rock noventista lançado pela Matador Records. Por coincidência, outro grande disco da época e da mesma gravadora também completou vinte e cinco anos de seu lançamento em abril: Wowee Zowee, o mais experimental álbum do Pavement e o meu favorito.

Sucessor do Crooked Rain, Crooked Rain, trabalho mais aclamado da banda, Wowee Zowee é interessante pela sua não-linearidade, pois com uma tracklist de dezoito canções, o álbum alterna momentos mais bem produzidos (“Grounded”, “Rattled By The Rush”, “Kennel District”) com outras canções que parecem inacabadas, como “Serpentine Pad” e “Brinx Job”. Stephen Malkmus mostra-se um conhecedor de seu instrumento, cria linhas de guitarra ora estranhas, ora redondinhas, e sua voz, mesmo desafinando em vários momentos do disco, é cativante.

Uma canção que sintetiza o álbum, se fosse para selecionar uma, seria “Half A Canyon”. É a mais longa e tem grunhidos de Malkmus, letra non-sense e ela entra em um estado acelerado a partir de sua metade que parece um transe.

Pode-se dizer que Wowee Zowee é capaz de influenciar aqueles que pensam em montar um projeto musical, e mais além, prova que é possível obter êxito com sua criatividade e honestidade. E para quem é apenas amante da música, o disco envelheceu bem e rende as mesmas boas sensações de anos atrás, quando o conheci. Lembro que paguei vinte reais na saudosa Goval Discos pelo CD e o guardo com carinho até hoje.

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Garimpo: Black Taffy – Sad Day

Em meio a uma variedade de lives um tanto quanto questionáveis, alguns artistas seguem outra direção para continuar apresentando ao público o seu trabalho, principalmente no meio independente.

Escrevi sobre o Spotlights e o plano para lançar covers semanalmente e o Malcontent disponibilizando o áudio de uma apresentação ao vivo. Agora é a vez do Black Taffy e seu Sad Day.

Também oriundo de uma performance ao vivo, o disco é divido em dois lados, cada qual com seu setlist. A música do Black Taffy surfa na onda do trip hop, com um ar melancólico, relaxante e assombroso, o que a torna encantadora.

Para uma madrugada chuvosa, o que é o caso aqui no oeste baiano, é a indicação ideal.

Detalhe: os lançamentos citados são todos no formato pague o quanto quiser. Se não quiser pagar, é só fazer o download de forma gratuita.

Lado A:
1. nothing can come between us
2. turn my back on you
3. lovers rock
4. flow
5. siempre hay esperanza
6. haunt me

Lado B:
1. mermaid
2. king of sorrow
3. by your side
4. war of the hearts
5. hang on to your love

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Spotlights – All I Need (Radiohead Cover)

Poucos dias após lançar o ótimo EP We Are All Atomic (falei sobre ele aqui), o Spotlights soltou em sua conta no Bandcamp uma versão de “All I Need”, uma das canções mais arrasadoras do Radiohead.

Segundo os integrantes da banda, esse é o primeiro de vários covers que serão lançados nas próximas semanas com a proposta de pague o quanto puder.

Vale a pena conferir, pois essa versão do Spotlights ficou interessante. Aguardemos os próximos.

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Garimpo: Malcontet – Rest In Noise

Para deixar nossos dias de distanciamento social injetados com boa música, esse garimpo é daqueles que merecem ser ouvidos com o volume alto. O Malcontent faz um noise rock de qualidade, colocando muito do shoegaze e do pós-punk num liquidificador e criando um som moderno, pesado e barulhento, no bom sentido.

Rest In Noise é um álbum ao vivo lançado há quatro dias em sua página no Bandcamp, referente a um show realizado na cidade de Porto, em Portugal, em dezembro de 2018.

O áudio está impecável, limpo e bem editado, mostrando toda a força da banda quando sobe em um palco.

À efeito de créditos, o Malcontent foi a segunda banda portuguesa de noise rock que conheci no Floga-se. A outra é o The Melancholic Youth of Jesus, que já escrevi sobre aqui algumas vezes.

Começar o dia com Rest In Noise ecoando pela casa é como recompor o gás para o restante da rotina. Caiu por aqui em um momento essencial.

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Garimpo: Nirvana – Drain You (Ao Vivo Numa TV Francesa, 1994)

A insônia tem marcado presença em boa parte de minhas noites nessa “quarentena” (aqui o vírus AINDA não chegou), e para quem conseguiu se atrasar para o trabalho até em home office, acordar cedo por três dias seguidos é um feito a ser comemorado. Tive tempo até de fazer meu café e degustá-lo sem pressa.

Na última noite, deixei uma playlist engatilhada no computador. Pensei: assim que levantar, ligo o PC e coloco essas músicas para tocar, me ajudarão a tirar a preguiça. Foi dito e feito.

Boa parte dessa playlist (que, nesse momento, ainda está sendo executada) é formada por músicas do Nirvana. Sem alguma dúvida, Nirvana foi a banda que mais ouvi na minha adolescência, e sempre que posso, revisito minhas canções favoritas.

A minha favorita de todas é o tema do texto. Essa versão de “Drain You”, tocada em uma TV na França meses antes do suicídio do Kurt, já é bem conhecida e considerada por muita gente, e por mim, inclusive, como a sua melhor. E ela tem uma história curiosa: no final, a guitarra do Cobain estraga, e ele, puto da vida, a arremessa no chão. Com mais raiva ainda, ele solta o famoso grito, que na versão de estúdio é arrepiante, mas que ao vivo ele quase nunca fazia.

Veja como é curioso sua postura ao cantar sem sua guitarra. No mínimo, estranho. E Dave Grohl, claro, mais uma vez destruindo na bateria.

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Terrapin

Faixa de abertura de The Madcap Laughs, a obra-prima de Syd Barrett lançada em 1970, “Terrapin” é uma das maiores criações do músico em sua carreira solo. Em tempos de quarentena, Syd tem sido uma de minhas melhores companhias e sua voz ecoa pelas paredes da casa há alguns dias, e tenho ouvido “Terrapin” exaustivamente.

Por ter formato acústico, quis aprender a tocá-la. Não é tão difícil, apesar de possuir algumas sequências de acordes não muito convencionais em alguns trechos. Por isso Syd Barrett está no hall dos grandes artistas da história, por fugir do convencional, experimentar, ousar em suas criações.

Ao pesquisar tutoriais e tablaturas, deparei-me com duas surpresas. A primeira, um cover de David Gilmour presente em seu DVD In Concert, lançado em 2002. A segunda, uma estranha versão dos Smashing Pumpkins, de 1992, cantada por James Iha.

Vale conferir pela curiosidade, mas nada substitui a crueza e a beleza da original.

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Garimpo: The National – Never Tear Us Apart (INXS Cover)

Devido aos acontecimentos recentes na Austrália, uma galera boa se reuniu para gravar um tributo em prol de toda a causa. A proposta do disco Songs For Australia é que cada participante faça um cover de alguma canção australiana. A grana arrecadada será para ajudar o país a se reerguer após os desastres ambientais que comoveram o planeta.

O The National carimbou sua participação ao regravar “Never Tear Us Apart”, clássico do INXS, com uma versão happy-sad gostosa de ouvir. O disco completo sai daqui dez dias e você confere mais informações sobre ele aqui.

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Tricky + Goldfrapp + Smashing Pumpkins

Tricky sempre foi certeiro na escolha de suas parcerias musicais. Sua lista é grande: tem a longeva dupla com Martina Topley-Bird, PJ Harvey, Björk e até os caras do Red Hot Chili Peppers. Caberia mais algumas linhas para citar as colaborações com artistas menos conhecidos, e não que elas também não sejam importantes, mas não quero estender o texto.

Em 1995, saiu Maxinquaye, o mais aclamado disco do cara, um daqueles álbuns capaz de mudar a vida de alguém. A música “Pumpkin” (minha favorita) é tão sexy quanto nebulosa, e tem participação de uma então desconhecida Alisson Goldfrapp, que brilha em seus versos de forma magistral.

Interessante é que a canção possui um sample de “Suffer”, dos Smashing Pumpkins, aí a referência em seu título. A peça é uma amostra da imensa criatividade de Tricky na hora de desenvolver as suas músicas.