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Criança de Domingo

Manguebeat. O termo que revitaliza a música brasileira dos anos noventa. Que leva mundo afora a originalidade tupiniquim, o Chico e sua Nação, Fred 04 e o seu Mundo Livre, passeando do underground ao sucesso.

Da ponte aérea SPxPE, conhecemos Criança de Domingo. Escrita por Cadão Volpato, ex-Fellini e que à época liderava o Funziona Senza Vapore (1992), a canção que faz parte do único disco do projeto chegou aos ouvidos de Chico Science por Stela Campos, uma das integrantes da banda. Chico gostou tanto que a regravou para o segundo disco da Nação Zumbi, Afrociberdelia, de 1996.

A original, que só chegou à luz em 2002 (assim como todo o registro do Funziona Senza Vapore), bebe do pós-punk inglês. Já a regravação, mais lenta e melancólica, é moldada à forma do mangue, através de percussão e a guitarra de Lúcio Maia.

Da ponte aérea SPxPE, ganhamos a influência Inglaterra x Brasil. América do Sul x Europa. Tudo em um movimento só.

A música é universal.

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Garimpo: Soda Stereo – Dynamo (Ao Vivo no Fax En Concierto, 1992)

Há quem diga que nenhuma banda supera o Soda Stereo no gosto popular argentino. Nem mesmo os Beatles. Para nossos vizinhos, o trio liderado por Gustavo Cerati é uma espécie de deus musical.

Admito que conheço bem pouco do trabalho completo da banda, mas tem um disco que guardo com muito carinho nas minhas audições. Dynamo, de 1992, é, sem dúvidas, completamente à frente de seu tempo. Brincando com os ecos do shoegaze que borbulhavam na Europa naquela época + efeitos eletrônicos + muita dissonância nos acordes, é como se o disco tivesse sido lançado na última década. Ou ano passado. Sem exagero. Costumo chamá-lo de “Loveless latino”.

Um dos shows da turnê de lançamento do Dynamo foi em um programa de TV, uma espécie de talk show local chamado Fax En Concierto, onde nove das doze músicas foram executadas ao vivo. O áudio é ótimo e a banda, meus amigos, impecável, assim como a platéia. Sem celulares, tablets ou eletrônicos, apenas pessoas se divertindo e aproveitando o momento.

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Porno For Pyros – Pets (Ao Vivo no Howard Stern Show, 1997)

Porno For Pyros foi um projeto fundado por Perry Farrel após o fim de sua banda principal, Jane’s Addiction.

Em 1997, o grupo foi convidado para participar do programa do lendário radialista Howard Stern e apresentou a faixa “Pets” em um formato acústico muito interessante.

Porém, melhor do que a apresentação foi o bate-papo que rolou antes, sobre o dom de Perry em ver e se comunicar com alienígenas, tudo de uma forma bem racional e que reflete também no significado da canção executada.

Já postei aqui no blog outros vídeos do Howard Stern Show e vale a pena o leitor dar uma cavucada para encontrá-los.

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Estático

Toda uma áurea ronda o auto-intitulado disco de estreia do Foo Fighters, lançado em 1995. Considerado por muita gente como o melhor trabalho de Dave Grohl pós-Nirvana, tem como principal chamariz o fato de Dave ter gravado quase todos os instrumentos em apenas uma semana.

Imagina: são doze canções em que o rapaz gravou todas as linhas de guitarra, baixo e bateria, além dos vocais. É um feito que impressiona qualquer um e que resultou em um disco cru, potente, raivoso e que serviu como porta de entrada para uma carreira muito bem sucedida.

Destaquei a palavra quase ali em cima porque é muito comum ler por aí que Dave Grohl gravou 100% do álbum, o que não é verdade. Ele teve uma ajuda, mesmo que pequena, de uma figura chamada Greg Dulli, líder de outra banda que adoro, a The Afghan Whigs.

Durante as gravações do Foo Fighters (disco), Greg estava no estúdio de bobeira, quando foi chamado por Dave para participar do processo. Sua parte foi tocar uma das linhas de guitarra de X-Static, que por coincidência, é uma das melhores do álbum.

Confira abaixo.

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Garimpo: Beastie Boys – Sabotage (Ao Vivo no Late Show with David Letterman, 1994)

Em 1994, os Beastie Boys lançaram Ill Communication, um de seus discos mais aclamados pelos fãs e pela crítica (não que essa tenha importância). Desse álbum, arrisco que “Sabotage” seja a canção mais expressiva, ainda mais com o divertido e famoso videoclipe que ela ganhou, que parodia filmes policiais.

No mesmo ano, o trio foi ao “Late Show with David Letterman”, um dos programas da TV americana de maior sucesso nas últimas décadas. Uma de suas atrações mais interessantes eram as apresentações musicais, e foi em uma delas que o Beastie Boys fez um verdadeiro estrago.

Arrisco dizer que é uma das melhores performances que o palco do programa recebeu.

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Garimpo: David Bowie – Low (Ao Vivo no Montreux Jazz Festival, Suiça, 2002)

Podem ser considerados verdadeiros sortudos os presentes no Auditório Stravinski no dia 18 de julho de 2002, durante o Festival de Montreux. Naquele dia, David Bowie subiu ao palco com uma banda impecável para tocar o Low, seu magnífico disco de 1977, na íntegra.

Com um semblante jovem e bastante sorridente, Bowie demonstra muita boa vontade no palco, e além de dominá-lo, também dá espaço para que sua banda tenha seus momentos de brilho. Apesar das faixas ambient estarem desordenadas, as canções cantadas seguem a mesma sequência do álbum.

A abertura com “Warszawa”, a minha preferida do Low, é de uma emoção indescritível.

O único lamento é a ausência de “Weeping Walls”, uma das instrumentais mais intrigantes do disco.

Tracklist:
1. Warszawa
2. Speed of Life
3. Breaking Glass
4. What In The World
5. Sound And Vision
6. Art Decade
7. Always Crashing in the Same Car
8. Be My Wife
9. A New Career in a New Town
10. Subterraneans

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Garimpo: Chico Science & Nação Zumbi – Lixo do Mangue/Da Lama ao Caos (Ao Vivo no Montreux Jazz Festival, Suíça, 1995)

Em 1995, Chico e a Nação Zumbi atravessaram o oceano rumo ao Festival de Montreux, na Suíça, um dos mais tradicionais e prestigiados de todo o planeta. E na hora de tocar “Da Lama Ao Caos”, o mundo veio abaixo.

Após uma breve introdução com a instrumental “Lixo do Mangue”, percussão e guitarra entraram em uma sintonia pesada, como se um vulcão tivesse anunciando sua erupção. De repente, o grupo tomou conta do palco como poucos, deixando os gringos em transe.

Autenticidade, fator que anda tão escasso na classe artística mainstream brasileira, transbordava em Chico Science.

Se sua música atravessou a lama e chegou à selva de pedra há décadas, hoje, ela bate de frente em um rígido muro invisível que assombra o Brasil: o caos. É só dar atenção às suas letras. Parece que foram feitas ontem.

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Garimpo: Talk Show (1997)

Em 1997, chegou ao mundo o primeiro e único lançamento do Talk Show, banda que foi uma espécie de projeto paralelo para os instrumentistas do Stone Temple Pilots, já que Scott Weiland havia deixado o grupo para tratar seu problema com drogas e gravar um álbum solo (12 Bar Blues, lançado em 1998). Em seu lugar, Dave Coutts, ex-vocalista do Ten Inch Men, foi contratado para assumir os vocais e ajudar na composição das músicas.

Capa do álbum. Fonte: Wikipedia

Talk Show, o disco, é composto por doze canções que vão do hard rock distorcido à baladas mais suaves e emotivas. “Wash Me Down”, por exemplo, levada por uma bateria gostosa de ouvir e acordes de violão, acalma, enquanto “So Long”, que desde o início soa garageira (a sensação é de que o disco está arranhado), é um petardo sonoro. Outras canções que destaco são: “Ring Twice”, “Peeling An Orange” e “Hide”. Ao todo, o álbum mescla bem os momentos de maior intensidade com outros em que a poeira parece dar uma baixada, portanto, recomendo ouvi-lo em sequência, apreciando cada uma das faixas.

O projeto não durou muito (foi encerrado no ano seguinte), já que as vendas decepcionaram e o trabalho não foi bem divulgado. Logo, Weiland retornaria ao seu posto oficial de vocalista do Stone Temple Pilots e seguiria com a banda por mais algum tempo.

O disco homônimo do Talk Show é, ao meu ver, um trabalho do STP com um novo vocalista. Simples assim. Tanto que após a morte de Weiland e de Chester Bennington, pensei que seria muito mais interessante uma possível volta do Talk Show do que o STP continuar suas atividades com um terceiro vocalista que, apesar de muito competente, não chega aos pés do líder original da banda.

Devido à sua curta duração, o Talk Show ainda é um projeto que passa despercebido pela maior parte dos ouvintes, mas não se engane: é digno de atenção. Infelizmente, ele está no fosso da cultura pop dos anos noventa, sendo necessário escavar um pouco mais afundo até encontrá-lo.

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Garimpo: Devilish Dear – Appalish EP

Foram três anos sem nenhum trabalho do Devilish Dear até a chegada do curto EP Appalish, pela midsummer madness, no início de abril.

São três canções ao todo. A inicial, “Glass React”, é a melhor e estará no segundo disco do conjunto brasileiro, ainda sem nome ou data de lançamento.

Para quem gosta de experimentação, com muita guitarra e efeitos eletrônicos, vale a audição. Dá para garantir o EP por apenas UMA LIBRA (pouco mais de 5 reais). Uma pechincha perto da qualidade do disco.

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Garimpo: Jack Kerouac no Steve Allen Show (1959)

Não é a praia do blog, eu sei, mas Jack Kerouac é o meu escritor favorito e essa pérola que encontrei merece um espaço por aqui.

Em 1959, Jack foi convidado do Steve Allen Show, um talk show da época. É interessante ver o escritor em seu estado natural, tímido, contido, diferente daquele que encantou o mundo em livros como On The Road ou Big Sur, sempre alucinado, empolgante, sob efeito de álcool e afins.

São quase quatro minutos mágicos em que vemos Jack Kerouac proclamando versos do final de sua obra-prima, On The Road, acompanhado pelo apresentador que toca um blues em seu piano, encaixando de forma perfeita com a leitura.

Bom final de semana.