Direto do Forno · Música

O “novo” do Nebula: Demos & Outtakes 98​-​02

A apóstrofe no título tem um motivo: o lançamento é de hoje, cravado em 25/01, mas o material que ele traz não é tão novo assim. São sobras de estúdio e demos que nunca haviam sido lançadas anteriormente pelo Nebula, figura fundamental para o rock do deserto.

“Demos & Outtakes 98-02” é composto por dez canções, sendo cinco inéditas. Uma delas é “Whalefinger”, a primeira canção escrita pelo guitarrista da banda, Eddie Glass, quando ele ainda participava de outro conjunto. À exceção de “To The Center”, faixa com forte influência psicodélica dos anos sessenta/setenta, a maior parte do tracklist é composto de canções rápidas e pesadas, com muito fuzz e distorção.

Algumas já conhecidas, como “Smokin’ Woman” e “Sun Creature” (ambas do EP “Sun Creature”, de 1998), vêm em versão demo, com uma roupagem mais crua e pesada, sendo um deleite para quem gosta de ouvir uma banda em seu estado mais natural possível. “Nervous Breakdown”, cover do Black Flag e que encerra o disco em uma versão ao vivo, é interessante por mostrar algumas das referências que contribuem para a sonoridade da banda.

Esse compilado é ideal não somente para os fãs do conjunto, mas também uma porta de entrada interessante para quem o deseja conhecer melhor. Agradeço a Heavy Psych Sounds Records por esse resgate.

1. Stagnant Pool
2. Whalefinger
3. Humbucker
4. Smokin’ Woman
5. Sun Creature
6. You Got It
7. To The Center 
8. Synthetic Dream
9. How Does It Feel To Feel
10. Nervous Breakdown (Black Flag Cover Ao Vivo)

Direto do Forno · Música

Bloodshot Bill – Take Me For a Ride (Single)

Após anos integrando o catálogo da Norton Records, Bloodshot Bill mudou de ares. Agora ele faz parte da Goner Records, e é por lá que “Come Get Your Love Right Now”, seu disco mais recente, sairá do forno em 15 de fevereiro, com o melhor do rockabilly e do surf rock.

Para o novo trabalho, ele soltou um único single até agora, “Take Me For a Ride”, um rock’n’roll de garagem seco e certeiro, com pouco mais de dois minutos de pura animação.

Se você não o conhece, veja essa apresentação do artista canadense na KEXP há pouco mais de um ano, e cuidado para não viciar.

Direto do Forno · Música

Black Taffy – Geraldine/Lantern Flies In Mist (Singles)

Um álbum começa pela capa. Para mim, ela comunica muito com o ouvinte sobre o que ele pode encontrar ao iniciar a sua audição. Sim, algumas são ridículas, outras não são feitas para serem levadas a sério, mas as julgo como parte importante dessa composição que forma um disco.

Em “Elder Mantis”, a estréia de Black Taffy, a arte gráfica comunica-se diretamente com a sua música. As batidas obscuras dos dois singles já lançados, “Geraldine” e “Lantern Flies In Mist”, são tão melancolicamente belas quanto o enigmático pano negro que faz fundo para colagens foscas de objetos que remetem, mesmo que em partes, à estética noir da primeira metade do século XX.

A obra completa tem sua distribuição pela Leaving Records e chega às lojas em 15 de fevereiro, seja em formato físico ou digital.

Direto do Forno · Garimpo · Música

Garimpo: Current Affairs

A sensação é de estar num ambiente tonalizado em preto e branco, gélido e movimentado. A música é tão crua em qualquer aspecto que sentir-se só em meio à multidão não é algo incomum. As batidas secas da bateria contribuem para tal sentimento de solidão. Joan, sem sobrenome, declama seus versos com emoção, trazendo vida àquele lugar.

Música é assim, inexplicável. Certas melodias, estilos, artistas ou batidas transportam-nos a lugares que nunca vimos na vida, nem sequer sabemos se existem ou não. Esse é o exercício que ela traz à nossa imaginação, levando-nos a construir cenários e personagens que fazem sentido nem que seja somente para nós mesmos.

Esse é o caso do Current Affairs, banda escocesa de Glasgow que cria um som post-punk direto da fonte. Não é, por exemplo, o Joy Division do “Unknown Pleasures”, já ciente de como queria ser, mas aquele que ainda polia e lapidava o seu som, como no EP “An Ideal For Living”, um ano antes do seu clássico. A guitarra alterna momentos de peso com outros mais eufóricos, como se ela possuísse um aspecto cortante e elétrico, girando e dançando em volta dos seus irmãos baixo e bateria, que mantém uma linha mais direta e coesa em quase todas as canções.

Vamos aos registros oficiais: um EP de 2017, intitulado “Object”, mais dois singles, ambos datados do final do ano passado: “Cheap Cuts/Let Her” e “Breeding Feeling/Draw The Line”. Não chega a dez o número total de canções lançadas pelo conjunto. Mas a avaliar sua ainda pequena discografia, o Current Affairs possui uma riqueza musical tamanha que, ao meu ver, os torna preparados para um disco cheio e mais encorpado.

Abaixo, em ordem cronológica, o EP e os dois singles para você ouvir à vontade e de graça.

 

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O novo do John Garcia: John Garcia and the Band of Gold

Em ordem cronológica, é seu terceiro álbum solo, mas se levarmos em conta a nova banda que o acompanha, “John Garcia and the Band of Gold” é o primeiro disco do deus-mor do rock do deserto com esse grupo. E o seu melhor trabalho desde que se desprendeu do Kyuss.

Ao todo, são onze petardos sonoros que não aliviam em nenhum momento. Quer entender melhor? Pegue os três singles disponibilizados anteriormente (“Chicken Delight“, “Jim’s Whiskers” e “My Everything“) e quadruplique-os. O disco inteiro é recheado de riffs pesados e sujos, com muito fuzz e blues, um baixo marcante e igualmente forte, acrescentados à uma bateria pungente que parece causar uma avalanche de rochas sobre o ouvinte.

Mas o fio-condutor que mantém o álbum bem nivelado do início ao fim é o vocalista e dono do projeto. O tempo fez bem à sua voz e Garcia parece mais vivo do que nunca, enérgico nos versos e agressivo nas horas certas. E é justamente esse equilíbrio entre voz e instrumentos que tornam “John Garcia and the Band of Gold” um trabalho uniforme, mantendo a intensidade desde o início instrumental com “Space Vato” até o desfecho (não se engane pelo nome) com “Softer Side”.

Se o stoner rock/metal tem, ao meu ver, uma das atividades mais produtivas da música underground, ouvir um novo disco daquele que é considerado uma lenda viva do estilo é um incentivo e tanto.


1. Space Vato
2. Jim’s Whiskers
3. Chicken Delight
4. Kentucky II
5. My Everything
6. Lillianna
7. Popcorn (Hit Me When You Can)
8. Apache Junction
9. Don’t Even Think About It
10. Cheyletiella
11. Softer Side

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Perfect Son – Lust (Single)

Falei aqui sobre o Perfect Son, alter-ego do cantor e produtor polonês Tobiasz Biliński, uma das novas apostas da Sub Pop.

Seu disco de estréia pelo selo chega somente no próximo mês, mas o segundo single, “Lust”, já está disponível e, assim como o antecessor, é de uma surpresa agradável.

Desde os primeiros segundos, a canção é conduzida por uma leva de batidas hipnóticas, que alternam entre linhas mais constantes e picos de maior força, enquanto o artista solta seus versos de forma direta e confessional.

“Lust”, em seus três minutos cravados, demonstra mais uma vez o ótimo produtor que Perfect Son é, e tem as características ideais para ser executada em qualquer meio de circulação pop.

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Glen Hansard – I’ll Be You, Be Me (Single)

Após ouvir “I’ll Be You, Be Me” algumas vezes e a julgar pela sonoridade da mesma, posso afirmar que o novo disco de Glen Hansard nada tem a ver com o artista que eu conheci. Esqueça aquele rapaz de “Once”, filme premiado no Oscar de 2006. Ele evoluiu, e sua música também.

A voz doce e carregada de emoção está mais grave e soturna, enquanto as melodias advindas do folk foram substituídas por experimentos eletrônicos bem densos e explosivos, que atingem um crescendo impressionante no fim da canção, algo que, para mim, é totalmente novo na carreira de Hansard.

“This Wild Willing”, seu quarto disco em carreira solo, chega ao mundo somente em abril, via Anti Records.

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Cosmic Cave – Ex Hex (Single)

Três mulheres. Guitarra, baixo e bateria. É assim, simples e certeiro, que a Ex Hex mantém suas atividades, agora com um novo disco chegando em março de 2019 pela Merge Records, quase cinco anos após “Rips” (2014).

“It’s Real” é o título do trabalho, e contará com dez canções. A escolhida como primeiro single, “Cosmic Cave”, é dançante, animada e imparável. São três minutos cravados do mais puro rock’n’roll de garagem.

O nome do disco deve ser uma brincadeira com o ouvinte: sim, é real o que você está ouvindo. Difícil mesmo é sair do transe causado por essa primeira e ótima fatia do álbum. Só lamento pela capa: poderia ter sido melhor. Bem melhor.

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Hank Wood and the Hammerheads – HEADS (Single)

Ali no título está single, mas como a própria banda o denomina, “HEADS” é um “2-Song Cassingle“, ou seja, um trabalho de duas canções que terá seu formato físico em fita cassete, resgatando o modo que ouvia-se música algumas décadas atrás.

“You Could Have It” e “I’d Rather Be With Me” são as músicas que compõem esse pequeno projeto, mas que causam um belo estrago (no bom sentido) ao ouvinte. Se juntá-las, são quase cinco minutos de porrada sonora influenciada pelo punk rock e pelo rock de garagem meio The Stooges, com guitarras cortantes e velozes e um vocal bem raivoso.

Seu lançamento foi no início do ano, em 4 de janeiro. Apenas enquanto escrevo esse texto, “HEADS” está sendo repetido pela quarta vez.

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Rema-Rema – Rema-Rema (Single)

Após passar quase quarenta anos no mais extremo limbo da música alternativa, a banda Rema-Rema retorna do obscuro para o catálogo da 4AD com o lançamento de seu único disco completo, “Fond Reflections”, trabalho esse que, segundo o próprio selo, é o “debut que nunca existiu”. Explico.

Formada por membros do The Models e da Siouxsie and The Banshees, o Rema-Rema estava naquele meio do post-punk no início dos anos oitenta, fazendo canções claustrofóbicas, secas e com muito experimentalismo. Em seu curto período de atividade, lançaram somente um EP em 1980, intitulado “Wheel in the Roses”. Inclusive, é um dos primeiros trabalhos lançados pela 4AD. Ouça “The Feedback Song” para ter uma noção de sua sonoridade:

Perto de completar quatro décadas do lançamento de “Wheel in the Roses”, Gary Asquith, um dos membros do conjunto, em parceria com o engenheiro de som Takatsuna Mukai, reviraram arquivos e fitas cassetes com canções da banda e trabalharam nelas para montar “Fond Reflections” da forma mais fiel possível quanto ele seria lançado na época.

Todo esse material resultou em um disco duplo, que sairá do forno em primeiro de março desse ano. A gravadora já disponibilizou “Rema-Rema”, faixa que leva o nome da banda. Um belo resgate da 4AD no que diz respeito à música alternativa.