Crônicas · Música

27 anos de “Spiderland”

No dia 27 de março de 1991 era lançado “Spiderland”, segundo e último disco de estúdio do Slint. Fundamental para a construção daquilo que conhecemos atualmente como post-rock (e seus derivados), “Spiderland” foi mais um trabalho que ficou ofuscado com o estrondoso sucesso do “Nevermind”. Porém, com o passar dos anos, sua influência foi se tornando cada vez maior até atingir a mística cult por parte dos fãs e da crítica. Atualmente, não temo em dizer que o álbum já é considerado um clássico moderno.

Com quase 40 minutos de duração e distribuído em 6 faixas, o ouvinte se depara com um ambiente claustrofóbico e que, em partes, torna-se absurdamente barulhento. Os vocais, que alternam entre sussurros, declamações e gritos, são os fatores que mais chamam atenção. Mesmo com um instrumental extremamente preciso, como se todos os acordes e riffs fossem milimetricamente criados, a voz de Brian McMahan não se deixa levar e ali, à deriva, conta a história de cada canção. Nas primeiras audições, confesso que fiquei incomodado com esse detalhe, até conseguir perceber a beleza nesse aspecto proposital e que torna o disco tão marcante.

Não é nenhum exagero dizer que certas explosões sonoras causam sustos e desespero, vide o final épico de “Good Morning, Captain”, canção que encerra o trabalho. Até o momento de mais “tranquilidade” do disco, em “Don, Aman”, é capaz de trazer um desconforto graças a sua atmosfera cinzenta, digna de um filme de terror.

Como já disse antes, “Spiderland” pode trazer doses de desconforto a um ouvinte iniciante, mas não desista na primeira audição. Com o passar do tempo, fica mais fácil compreender e enxergar a beleza melancólica que esse trabalho icônico oferece. Mesmo 27 anos depois de seu lançamento, “Spiderland” permanece tão atual quanto aqueles que ele influenciou.

Crônicas

Olhos Iguais Aos Seus

(Texto que escrevi para o blog da Immagine no dia 18 de abril de 2007. Link aqui.)

A vida moderna está cada vez mais estressante. Horários, limites, metas e outros inúmeros fatores mascaram a nossa liberdade e pela falta de tempo, não pensamos nisso. Deixamos passar vários detalhes despercebidos, cegos pela correria do cotidiano e, de certa forma, nos tornamos apenas mais um na multidão, como Humberto Gessinger canta em “Olhos Iguais Aos Seus”, canção lançada em 1990 no clássico disco O Papa É Pop:

“Você olha ao seu redor e acha melhor parar de olhar. São olhos iguais aos seus, iguais ao céu ao seu redor.”

 

O olhar pode ser considerado uma voz para o silêncio, uma forma de se comunicar quando palavras não são o bastante. Tem olhares que nos engrandecem, enquanto outros nos derrubam. Alguns são questionadores, e outros só aumentam as dúvidas. Um certo olhar pode mudar a rota da viagem, o rumo de um planejamento, uma intenção a mais ou até a falta dela. Um olhar apaixonado salva o dia de alguém, enquanto um olhar de tristeza procura alguém que o faça.

A percepção do stress na vida moderna é bem clara no trânsito. Precisamos correr para chegar logo em casa, para não nos atrasarmos no trabalho, para passar naquele sinal ou, simplesmente, ser mais rápido do que aquele carro logo à frente, No caminho, lombadas, placas, nervosismo, freia, acelera, freia novamente, engarrafamentos, cruzamentos, etc.

Certo dia (já estressado) peguei a marginal ao lado da BR e transitava rumo à minha casa quando um olhar veio bem na minha direção, como uma flecha. E aquele olhar me pegou de jeito. Nesse instante, o detalhe não passou despercebido. Não dessa vez. Não sei se era um pedido de ajuda ou apenas cansaço. Jamais saberei. Aquele olhar, durante alguns segundos, serviu para me mostrar que, na maioria das vezes, reclamamos de barriga cheia.

Crônicas · Música

O acaso mora ao lado

(Texto que fiz para o blog da Immagine após um show do Dance of Days em Barreiras, Bahia, no dia 27 de agosto de 2016. Foi ao ar no dia 26 de outubro do mesmo ano. Link aqui.)

No dia 27 de agosto, fomos a Barreiras curtir o show de uma das mais bem-sucedidas bandas do underground brasileiro: a Dance of Days. Com 19 anos de estrada, eles eram aguardados com muita ansiedade e alegria pelos poucos fãs presentes no local do evento. Apesar do baixo público, o show foi como esperávamos: pesado, agitado e barulhento. É bom ressaltar que fotografar uma das bandas mais respeitadas da música independente brasileira foi uma realização muito grande, e abaixo seguem alguns dos registros.

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Apesar de toda essa festa, o show não é o nosso assunto principal. Iremos falar sobre o acaso, o inesperado, e sobre como certas ocasiões podem marcar a nossa vida e ficarem guardadas em nossa memória. E, claro, com a ajuda da fotografia.

Enquanto aguardávamos na entrada, começamos a conversar com Thonny, um simpático segurança que estava na porta do local. Conversamos por um bom tempo, e todos os nossos assuntos envolviam música.

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Em certo momento, falávamos sobre a arrogância de certos artistas que, apesar de pouco tempo no ramo, já se comportam como deuses da música. Nesta hora, Thonny pegou seu celular e nos mostrou uma foto, dizendo: “Vocês conhecem esse cara aqui? Esse cara me disse ‘Thonny, traga amanhã uma foto da sua família, quero conhecê-la’”. O “cara” da foto era Paul McCartney.

A Great Honnor

Ficamos surpresos, sem reação. Em seguida, Thonny começou a nos contar a sua história, e ouvimos atentamente. Em 1988 (na época, era policial militar), ao ser visto conversando em inglês com um turista na Passarela do Samba, no Rio de Janeiro, foi convidado por um policial civil para trabalhar com segurança de estrangeiros. Sua empresa cobria eventos de grande porte, fato que o proporcionou a chance de trabalhar com artistas lendários, como Paul McCartney, Sting, Ozzy Osbourne, Kurt Cobain, entre outros. As fotos abaixo foram gentilmente cedidas pelo próprio Thonny, através do whatsapp.

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Perguntamos a ele qual foi o momento mais marcante de sua carreira, e ele nos disse:

“Momento mais marcante fica difícil dizer qual, mas um bastante interessante foi dirigir para PAUL MCCARTNEY, e ele sentar no banco do carona e começar a conversar comigo, perguntando coisas de minha vida, tipo onde eu morava, se era casado, quantos filhos… E o mais interessante, se eu tinha foto dos meus filhos comigo, depois ele abriu sua carteira e me mostrou a de seus filhos. No dia seguinte, ele me cobrou a foto de minha família, mulher e filhos. E depois, no final do trabalho, quando ele já estava dentro do avião quase partindo, me chamou para tirarmos uma foto juntos, eu, ele e a família. Ele juntou todo o dinheiro brasileiro, de todos da equipe dele, e me deu dizendo que não era para pagar o meu trabalho, e sim para que eu comprasse presentes para meus filhos em nome dele.”

A frase acima foi enviada pelo Whatsapp especialmente para o blog, e por si só já nos deixou arrepiada. Porém, o ouvir falar sobre esse acontecimento no dia do show foi ainda mais emocionante, algo surreal. A maneira como ele detalhava as situações, e o nível de intimidade que ele adquiriu com Paul nos deixou totalmente surpresos. Foi gratificante ouvir e saber que um dos maiores artistas de todos os tempos era uma pessoa extremamente humilde e simpática.

E Thonny continuou a nos contar mais histórias. Cada nova foto que víamos nos causava uma explosão de sensações, como se não acreditássemos que aquilo estava mesmo acontecendo.

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Outro trecho da conversa que causou muita comoção foi quando Thonny contou sobre o seu trabalho com Kurt Cobain, ex-líder do Nirvana, quando a banda veio ao Brasil para dois shows. Ao explicar os detalhes, Thonny nos contou o quão simples era Kurt, e como a fama o incomodava. Certa vez, Kurt perguntou a Thonny: “Hey Thonny, por que eu faço tanto sucesso, se existem artistas muito melhores do que eu?” Ao ouvir essas palavras, todos que participavam da conversa não disfarçaram a emoção. Sem falar na parte onde Kurt resolveu pular de asa delta de pijamas e calças rasgadas, que gerou risadas de todos nós.

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Depois de um longo tempo de conversa, nos despedimos de Thonny e adentramos ao local do evento. Mas confesso que poderíamos passar o resto da noite toda ali ouvindo suas histórias. É incrível como um momento que parecia ser tão comum, como esperar na porta de uma casa de shows, pudesse se transformar em algo magnífico. Naquela noite Thonny e suas histórias deixaram as nossas vidas mais brilhantes. Muito obrigado, Thonny, por ter tornado aquele dia marcante e inesquecível. Novamente a fotografia esteve presente em um momento especial. Esperamos reencontrá-lo para ouvir mais histórias. Na nossa dança de cada dia, o acaso é quem se destaca.

Crônicas

Vivo de Novo

Passadas duas semanas da tragédia, é necessário seguir em frente. Preciso seguir com o andamento do Numa Sexta e de outros projetos que tenho em mente. Não tenho palavras para agradecer as pessoas que, de alguma forma, me fizeram sentir acolhido e forte para seguir adiante. Não é necessário citar o nome de todas, tenho certeza que cada um reconhecerá a sua importância nesses últimos dias.

Repetindo: é hora de seguir em frente. Dona Raquel ficaria orgulhosa disso.

Vida de vivo de novo.

Crônicas

Fortaleza

Preciso ser honesto: isso é mais que um texto. É uma ferida aberta, escancarada e que ainda não cicatrizou. Vai demorar ainda. Porém, não é um lamento. Neste exato momento que o escrevo, faz nove dias que perdi minha mãe. Ela faleceu em um acidente de ônibus bem aqui ao lado, no Tocantins. Não há palavras para explicar a situação ou o que sinto. Nem precisa. Só que é preciso colocar tudo para fora, expurgar todo o sentimento ruim para ajudar a colocar tudo de volta no lugar. Tudo.

Não busco mais aqueles “e se?”, nem justificativas. Tampouco culpados. É melhor lembrar os momentos que passamos. A minha infância, as mudanças de cidade (foram várias), o retorno a Minas Gerais, o falecimento do meu pai e como nos tornamos ainda mais próximos, a mudança de rumos na vida e os vários reencontros. Tem muita história e sempre dá para tirar uma lição. Sempre.

Habitualmente, a música fez parte de toda essa trajetória. Não ouvíamos as mesmas coisas, mas hora ou outra havia algo em comum, como o Oasis. Ela acabou gostando, pois eu ouvia sem parar todos os dias durante a adolescência. Ao lado do Nirvana, era minha banda favorita. Uma música em especial ficou marcada: “Rockin’ Chair”. Ela adorava o refrão, mesmo sem entender uma única palavra. Realmente, a energia da música é contagiante e, nesse caso, entendê-la acaba sendo desnecessário. Depois do acontecimento, não consegui mais ouvi-la, acho que por medo da dor vir muito forte e eu não saber como reagir. Mas uma hora vou ter que encarar. A vida continua.

Lembro que um de seus maiores sonhos (se não o maior) era conhecer Fortaleza, capital cearense. Nunca soube o motivo e nem ela mesma sabia explicar tal vontade, mas tinha e em algum dia se tornaria real. Talvez essa tenha sido a dor maior: os planos que permaneceram somente no papel. Mas, pensando bem, o sonho de conhecer a cidade acabou se tornando realidade. De certa forma, ela foi não só a minha, mas a Fortaleza de muita gente.

Crônicas · Música · Traduções

Alguns Centavos Por Amor

(Texto escrito para o blog da Immagine que foi ao ar hoje. Link aqui. Para melhor entendimento, o link da tradução citada no texto está aqui.)

Há alguns anos atrás, talvez uns oito ou nove, conheci um blog que foi fundamental na construção do meu gosto musical. Se chamava “Amor Louco Br” e era voltado (basicamente) ao rock independente dos anos 80 e 90. Não importa se a banda era bem conhecida ou se era uma daquelas pérolas obscuras que passam despercebidas pela atenção do público. Provavelmente, teria algum registro disponível para ouvirmos.

Naquele gigantesco acervo digital, conheci artistas que se tornaram referências máximas para mim, como os Pixies, Nick Cave e o Sonic Youth, bem como outros artistas renomados. Também conheci artistas que, infelizmente, acabaram se tornando obscuros em meio a esse vasto universo musical. Dentre essa infinidade de trabalhos, lembro-me bem de ficar interessado em “Love 15”, único disco da extinta banda de Detroit, Majesty Crush.

Quando ouvi pela primeira vez, foi uma viagem sonora daquelas que demoramos a voltar ao estado normal. Naquele dia, fui dormir ansioso, pois queria continuar ouvindo aquelas músicas novamente e novamente e novamente. Sem parar. A voz calma de David Stroughter contrasta com os instrumentos que, ao fundo, criam toda a atmosfera do disco. As guitarras atuam como camadas/texturas que permitem um destaque maior do baixo e da bateria. Um típico álbum de shoegaze, que ultrapassa esse limite e vai ainda mais além.

Talvez pela minha inquieta vontade de conhecer cada vez mais e mais novos artistas, “Love 15” acabou desaparecendo das minhas audições. Por fim, fiquei anos sem ouvi-lo. Para ser bem sincero, até me esqueci da existência dele e do “Majesty Crush”. Porém, a espiral do universo fez questão de torná-lo presente de novo nas minhas playlists.

Sem saber o motivo, acordei com “Penny For Love” na cabeça, como se fosse uma continuação daquele sono de anos antes, que mencionei acima. E ela não parava um só minuto de tocar na minha rádio interna. Desde o despertar até o trajeto para o trabalho, seu refrão era repetido incessantemente em minha mente, como uma súplica, me implorando para ouvi-la novamente, depois de tanto tempo. E após realizar o tal desejo, era como se eu nunca tivesse esquecido sua existência.

Resolvi checar novamente informações sobre a banda pela internet, com a expectativa de encontrar algo novo, diferente da época em que a conheci, onde nem as letras das músicas estavam disponíveis. O cenário no Google era o mesmo, com informações escassas, mas com uma notícia a mais que se destacava. Porém, ela não foi nada animadora. David Stroughter, a mente principal por trás do projeto, havia falecido quase um ano antes da minha busca.

Pesquisei a fundo toda a situação que envolveu a sua morte e encontrei um artigo de despedida escrito pelo ex-baixista da banda, Hobey Echlin. Até fiz uma tradução do mesmo, para me aprofundar ainda mais na história desse enigma da música underground.

O Majesty Crush foi um verdadeiro caso de estar no lugar errado na época errada. Fizeram certo sucesso na região de Detroit e até emplacaram uma canção nas rádios. Porém, quando conseguiram lançar um disco por uma gravadora, ela faliu pouco tempo depois, arruinando o sonho dos integrantes, que não mais tiveram forças para manter a banda. David até se manteve ativo, mas sempre à margem da cultura independente.

Esse texto é uma homenagem ao Majesty Crush e, principalmente, a David Stroughter. Uma figura inquieta e brilhante que liderou uma das bandas mais interessantes de sua época. Certamente, sucesso não é sinônimo de qualidade.

Crônicas · Música

Um Grande Dia Chegando

Um grande dia está chegando. Para muitas pessoas, isso poderia ser dito sobre uma data especial esperada, como uma formatura, aquela festa anunciada há semanas, um reencontro com alguém especial ou uma viagem para o exterior. Para outras, somente o fato de poder acordar já é motivo para o próximo dia ser considerado grandioso.

Mas, para mim, será mais do que um grande dia. Será um dia ÚNICO. Será o dia do meu casamento com a pessoa que escolhi passar o resto da minha vida. JUNTOS E UNIDOS.

Apesar de certa tranquilidade, uma leve dose de ansiedade corre em meu sangue. Afinal, um grande dia está chegando.

Crônicas · Garimpo · Música

Garimpo: Em Memória

Logo após traduzir o artigo sobre vida e morte de David Stroughter, ex-vocalista do Majesty Crush, não imaginava que meu próximo texto seria novamente sobre o mesmo tema. Mas, infelizmente, fui pego de surpresa com a morte de dois artistas fundamentais da história da música: Dolores O’Riordan, ex-vocalista dos Cranberries, e “Fast” Eddie Clarke, ex-guitarrista da formação clássica do Mötorhead.

A primeira, dona de uma das vozes mais icônicas dos anos 90, ainda não teve a causa de sua morte revelada.

O segundo, que agora poderá reencontrar seus antigos parceiros Lemmy Kilmister e Phil “Philthy Animal” Taylor, sucumbiu após uma pneumonia.

Os últimos anos têm sido trágicos no que diz respeito à perda de lendas da música, e 2018 já começou com essas baixas terríveis.

Finalizo o texto com uma preocupação que não sai de minha cabeça: a “reposição” não está sendo a altura.

 

 

 

Música · Traduções

David Stroughter, 1966-1970: Uma Lembrança

(Tradução que eu fiz do artigo “David Stroughter, 1966-1970: A Remembrance”, escrito por Hobey Echlin e publicado originalmente no MetroTimes, de Detroit, em 6 de fevereiro de 2017. Link aqui.)

PHOTO COURTESY JACK NELSON

Conheci David Stroughter em 1988. Eu estava na banda Spahn Ranch e Dave era amigo do nosso baterista, Odell Nails. Dave veio para cantar uma faixa incomum de dance em que tivemos a idéia de usar uma bateria eletrônica e sintetizadores. “O que você faria se dois leões me atacassem, me rasgando com suas garras?”, ele cantava. Eu estava no chão. Ele soava como Marvin Gaye em “I Want You”, elevando nossa canção post-punk da arte danificada ao romance e martírio em uma mesma linha.

Aqui estava este rapaz criado entre Southfield (subúrbio de Detroit) e a Alemanha, de onde era sua mãe. Ele era o epítome de um enigma post-punk de Detroit do final dos anos 80, um iconoclasta multicultural que cresceu com os sobrinhos e tios da realeza da Motown, que poderia ser ouvido conversando com o Einstürzende Neubaten num alemão fluente no andar de cima da sala Burns, no St. Andrew’s Hall, depois de um show.

Viramos colegas de quarto em Hamtramck (cidade americana localizada no estado de Michigan), onde ele me introduziu às maravilhas do A.R. Kane e Xmal Deutschland, bandas cuja beleza “pegou” as brilhantes canções de ninar do Cocteau Twins e as atirou por uma linha perfeitamente negra, vagamente sinistra, certamente azulada (no caso, uma referência ao blues). Também ouvíamos – e rimos muito sobre – N.W.A. Dave amava os personagens. Para ele, eles eram quase shakespearianos. “Eu os conheço todos e, ao mesmo tempo, mantenho a gema de sua ociosidade”, como o Príncipe Hal diz em Henrique V, parte 1 (peça teatral escrita por Shakespeare).

PHOTO COURTESY JACK NELSON

Depois que os membros do Spahn Ranch tomaram seus caminhos em separado, Dave e Odell formaram o Majesty Crush com Michael Segal, o cínico balconista da loja de discos que havia vendido a Dave os discos do A.R. Kane anos antes. Eu quebrei um galho como baixista. A gente se reunia no porão da casa de Dave em Indian Village (histórico bairro situado na região leste de Detroit). Nossos corações estavam no lugar certo, mesmo que os dedos, em sua maior parte, não estivessem. Tornaríamos-nos, supostamente, algo como o Velvet Underground ou, em minha parte, uma linha de baixo meia-boca do James Jamerson com uma mistureba de Joy Division (culpado pelo baixo, como fora acusado), Can e Motown. Nossa música era simples e espacial, mas as letras e o cantar de Dave eram profundos e sombrios. Era o Marvin Gaye cantando Syd Barrett, cheio de saudade, luxúria e auto-depreciação. Dave era o nosso mistério inocente, completamente inspirado, saudosamente efêmero, perfeitamente visceral, completamente formado. Ele era nossa faísca criativa, nosso presente de fogo.

Mas a estrela que brilha duas vezes mais forte, dura pela metade, parafraseando as palavras de Dr. Tyrell sobre Roy Batty de Blade Runner, porque, realmente, enquanto eu processo o falecimento de Dave e a década que levou a sua súbita e trágica morte, eu preciso de outro herói condenado para me referir.

Entender Dave como pessoa era entender uma vida de oportunidade limitada, oprimida por uma perda profunda. Seu primo foi assassinado durante um assalto a um caixa eletrônico quando morávamos em Hamtramck, levando sua amada tia Otti a voltar para a Alemanha. Mais tarde, o próprio Dave passou um final de semana preso depois de ser falsamente acusado por um assalto armado, simplesmente em virtude de ser um negro de pele clara com um espaço entre seus dentes. Isso não o enrijeceu; isso o inspirou. Na semana seguinte, escrevemos nossa canção mais alegre, “Penny For Love”.

PHOTO COURTESY JACK NELSON

Mesmo que o Majesty Crush tenha se tornado uma anomalia na era do Grunge e do Rock Alternativo na cena de Detroit, com esses shoegazers multiculturais tocando um gótico-amigável, girando num pop sombrio, Dave estava encontrando sua voz e cantando o seu blues. “Psycho-blues”, como ele rabiscou uma vez em uma folha de papel, com sua escrita rasurada, onde as letras se inclinavam e derrubavam umas sobre as outras. Ele cantava sobre cross-dressing (ato de vestir-se com roupas ou acessórios do sexo oposto), lojas de livros adultos e prostituição em melodias desfalecidas e harmonias em falsete. Mas elas falavam para um estranho e vago prazer que, depois de alguns drinques, pareciam uma epifania, como o flash de nossa secretária eletrônica (isso em 1992, lembre-se) avisando que você tinha uma mensagem quando chegou em casa depois do bar – mesmo que você tivesse checado se havia alguma mensagem duas horas antes.

Dave era um personagem, com certeza. Ele poderia se apresentar com uma roupa de mergulho, ser a vida (e, às vezes, a morte) depois da festa, e até acordar com uma companhia amorosa ou por cima de um lixeiro em Eastern Market (histórico distrito comercial de Detroit). Seus demônios eram reais, mesmo que, lá atrás, eles parecessem cartunescos, e até divertidos. Apesar de sua natureza mercurial, Dave sempre obteve êxito. Ele comprou uma casa em Hamtramck; Preston Long, do Mule, morava no andar de cima. Nós fizemos discos, excursionamos e compartilhamos aqueles momentos idiotas que toda banda tem, viajando pela primeira vez para outra cidade, mesmo que isso significasse ter tocado para a banda de abertura e seus amigos da loja de discos. Uma noite, tocamos no State Theater como parte do clube X da rádio 89X’s. Minha mãe veio nos assistir. Nos bastidores, Dave acendeu um baseado. “O que? Sua mãe sabe que eu fumo”, ele insistiu. Ele estava certo. Conhecê-lo era aceitá-lo.

Mesmo que o Majesty Crush estivesse à margem da cultura independente, nós vivíamos a sua esperança, bem como o seu cinismo. Quando fomos tocar em Nova York pela primeira vez durante o CMJ (festival de música e cinema), dirigindo por St. Market’s Place até o apartamento de nosso amigo em Bowery, Darcy, do The Smashing Pumpkins, atravessou sem olhar bem em frente nossa van. Representando o centro oeste! Naquela noite, bem depois que todos nós já havíamos entrado, Dave cambaleou depois de ver o Verve (eram dias “pré-The Verve) naquilo que hoje chamaríamos de pop up venue (avenida marcada por lojas temporárias). Ele teria compartilhado um pouco de Xerez (vinho típico da Espanha) com Richard Ashcroft. Como eles eram, Dave? “Rod Stewart se encontra com… Deus.” Amém.

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No entanto, assim que nosso disco foi lançado, a nossa gravadora, uma subsidiária da Elektra, faliu. Nós fizemos o melhor, escrevendo e gravando um material mais agressivo, mas seguiríamos nosso caminho. Ficou marcado como um daqueles vários, vários momentos típicos do Spinal Tap (banda fictícia criada para um filme, lançado em 1984) que toda banda tem. Dave pegou a guitarra e fez alguns registros sob a alcunha de P.S. I Love You, escrevendo o epitáfio perfeito pós-shoegaze “Where The Fuck Is Kevin Shields?”, que achou o seu caminho até a lenda do rádio britânico John Peel, que compartilhou o sentimento ao vestir uma camiseta da gravadora perguntando a mesma coisa. Dave se mudou para Los Angeles, e era notavelmente resiliente com recursos bem limitados e um mercado musical inconstante. Ele se manteve vendendo carros de luxo usados que ele comprava em audições, enquanto encontrava seu colaborador mais consistente, Jonathan Wald, um verdadeiro Detroiter (natural de Detroit) cuja paciência trouxe uma generosidade emocional em Dave e que inspirou canções e cura após o falecimento da mãe de Wald alguns anos atrás. Apesar de estar baseado em L.A., Dave se tornou um “amigo-correspondente” da elite do shoegaze britânico, postando em fóruns e se irritando enquanto encantava-se com eles, principalmente com o baixista do Spacemen 3 e do Spiritualized, Will Carruthers, que acabou viajando até L.A. para gravar o álbum do P.S. I Love You. Entretanto, cada vez mais sua impaciência o fez seu próprio inimigo. Sua saúde mental não era tanto um problema quanto uma compreensão; há muito ele havia se tornado “Stroughter”, o protagonista maior-do-que-a-vida de histórias cada vez menos engraçadas. Ele possuía um olhar mais selvagem nas vezes que passamos juntos em L.A., mas eu coloquei a culpa daquilo na década de distância da insular reafirmação em Detroit. Ainda, éramos uma família. Ele pode ter aparecido em um Mustang conversível barulhento, mas fez questão de mostrar que havia espaço o suficiente para a cadeirinha do meu filho. Poderíamos não estar em contato sempre, mas eu sempre me senti próximo.

PHOTO COURTESY JACK NELSON

Quando Odell compartilhou a notícia do falecimento de Dave, ficamos os dois atordoados. Sabíamos que Dave estava fazendo suas coisas, pareceu para nós, com poucos retornos. Mas sempre compartilhamos a crença de que, não importasse a distância, ele estaria bem. Tempo depois que nos revertemos a vidas mais convencionais, Dave ainda estava lá fora, morando entre casas de hóspedes em Hollywood Hills (bairro nobre de Los Angeles) e no Morrison Hotel, fazendo seja lá o que for para trabalhar, trabalhar, em seus termos, pegando o bom com o ruim.

Por isso que mitificar ele ou sua morte é fazer um grande desserviço ao legado de David Stroughter como um artista ou visionário. Claro, há os fatores de seu falecimento que permanecem distantes, como “pela graça de Deus” e “por quem os sinos dobram”, mas, especialmente nesse clima, eles estão muito, muito pertos. Mas mais do que isso, lembrarei de Dave como viver em um mundo de pura imaginação, mesmo que isso tenha ficado mais hostil. Dave exigiu muito de todos ao seu redor, mas ele também entregou demais. Você cantou o seu blues, David. Por vários razões, mas na maioria, como você cantou e cantou, por amor. Obrigado, irmão. Você conseguiu a sua paz. Brilhe, seu louco e perfeito diamante.

COURTESY JENNIFER JEFFERY

 

Crônicas · Música

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Humberto Gessinger já dizia: ‘Só acredito no que pode ser dito em 3 minutos.” Mas, em alguns momentos, 60 segundos já são o suficiente. No caso de “Good Morning, Captain”, seu desfecho aterrorizante de um único minuto é o bastante para colocar o “Spiderland”, derradeiro disco do Slint, na posição de melhores álbuns de todos os tempos.

Nos seus 7 minutos e 38 segundos de duração, a canção se arrasta nos versos declamados/sussurrados do vocalista Brian McMahan, que narram uma história típica de um filme de M. Night Shyamalan, acompanhados por um instrumental preciso e seco. No minuto final, os instrumentos ganham um peso ainda mais potente e o personagem, desesperado, esbraveja a frase “I miss you”, até se perder em berros assustadores, como se estivesse afundando em um oceano sem fim.

Ouvir essa canção será uma das melhores experiências de sua vida.