Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #11: Garrincha no Vox Populi

Considero-me um cara ainda jovem, com vinte e sete anos recém completados. Comecei a acompanhar futebol para valer, com lembranças, torcida e tudo mais, em 2006, ano em que o Atlético Mineiro disputou a Série B. O que era para ser motivo de vergonha para muitos, foi a comprovação de uma lealdade e a firmação daquilo que acredito ser atleticano. E tenho certeza que muitos sentem o mesmo.

De 2006 pra cá, vi times encantadores. Vi o Barcelona de 2009, que ganhou TUDO que disputou, a Espanha bi-campeã européia e campeã mundial, o Galo de 13/14, enfim, são alguns exemplos. Tiveram muitos outros, claro. Sem falar no privilégio em presenciar o auge de dois dos maiores jogadores de todos os tempos, Messi e Cristiano Ronaldo.

Apesar de ser novo, minha alma pertence a épocas passadas. Tenho uma paixão inexplicável pelas décadas que não vivi, principalmente quando o assunto é futebol. Entro em devaneios quando imagino aquele futebol cascudo, truncado, times tão bem falados ainda nos dias atuais, como o Flamengo do Zico, o Atlético de Reinaldo, a Seleção Brasileira de 1970, Santos e Botafogo dos anos sessenta, e por aí vai. E um dos meus personagens favoritos desse tempo é o Garrincha, pelas jogadas inovadoras para a época. Os cortes secos, muitas vezes repetitivos, mas que os marcadores sempre caíam. E claro, sua estrela em duas Copas do Mundo.

Vi há poucos dias uma entrevista do Mané no programa Vox Populi, na TV Cultura, de 1978, salvo engano. A qualidade é de um nível que não se vê em entrevistas de jogadores nos dias atuais. Garrincha responde questionamentos variados, que vão de sua carreira a assuntos mais delicados, como situação financeira, vícios e separações. E o melhor de tudo, com exceção de uma ou outra pergunta que ele rodeia, o cara não nega a chance de resposta.

Pegue qualquer jogador brasileiro de hoje e imagine uma entrevista com ele. Os assuntos provavelmente seriam bens materiais, mulheres, idiotices de rede social e só ladeira abaixo. E as respostas? Bem, se houvesse alguma, todas passariam pelo exame do assessor antes. Uma lástima. Chega a dar tristeza perceber como nosso nível caiu tanto, dentro e fora do campo.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #10: Exageros da Imprensa

Sabemos que a mídia tem um papel cada vez mais forte na formação de opinião das pessoas em geral, e na imprensa esportiva não é diferente. O uso de títulos sensacionalistas para assuntos tão rasos são cada vez mais frequentes, o que diminui (e muito) a qualidade das notícias.

E não é só isso.

Tem sempre um jogador queridinho que é elogiado mesmo com atuações pífias, o clube do momento (PSG, Manchester City, etc) sempre colocado como grande potência mundial, mas que tradição mesmo é quase nenhuma, as famosas carimbadas de “sábios”  comentaristas donos da verdade (alguém lembra de colocarem o Palmeiras como o campeão nacional já no início do Brasileirão?) e muitas outras observações equivocadas.

A que chamou minha atenção nos últimos meses é a falácia do “golaço” de letra ou de calcanhar, que ganha manchetes em todo Brasil sempre que acontece tal episódio. Com o gol do Nenê ontem no FlaxFlu então, as proporções foram ainda maiores.

Reduziram a expressão golaço para qualquer gol nesse estilo que citei. O do clássico de ontem, por exemplo, a bola foi mascada e chorando até o fundo do gol, e a imprensa tratou o feito como um digno candidato ao Prêmio Puskas.

Convenhamos, golaço de letra ou de calcanhar foi o que Suárez fez contra o Mallorca, por exemplo, ou alguns que Ibrahimovic marcou em passagens pelo PSG e LA Galaxy, e não qualquer empurrada para o fundo da rede com o goleiro já batido ou até com o gol vazio.

Se transformarmos o golaço, aquele momento em que deixa qualquer amante do futebol boquiaberto, para gols tão simples e feios plasticamente, será mais um brilho prestes a ser apagado nesse esporte tão admirado em todo o planeta.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #09: “Supercopa” da Espanha

Supercopas são disputadas, no geral, entre os campeões dos dois torneios mais importantes de um país: a Liga e a Copa. Se ampliarmos para uma disputa continental, seria a disputa entre o campeão da Champions League/Libertadores contra o vencedor da Liga Europa/Sul-Americana.

Essa competição tornou-se tradicional em vários países mundo afora. Vale taça, grana e rende jogos bons para assistir. Na Inglaterra, por exemplo, é a partida que inaugura a temporada. Nesse ano, o Brasil também terá a sua Supercopa, reformada após vinte e oito anos de ausência do calendário.

Porém, com a ganância humana cada vez mais sem limites, dirigentes conseguiram estragar um torneio tão simples. Entenda:

Na última temporada, o Barcelona faturou o Campeonato Espanhol, enquanto o Valência levou a Copa do Rei. A lógica seria um embate entre as duas equipes para decidirem a Supercopa da Espanha.

Só que a federação espanhola resolveu mudar as regras da competição, transformando a partida única em um quadrangular, inserindo os dois times mais bem colocados na Liga Espanhola (fora o campeão, óbvio, e o possível campeão da Copa) para participarem. Resultado: Real Madrid e seu rival Atlético de Madrid fizeram a final do torneio, eliminando, respectivamente, Valencia e Barcelona.

O curioso é que as duas equipes da capital espanhola não ganharam NENHUM troféu na última temporada, e mesmo assim foram habilitadas a disputarem a taça. Além da mudança no formato, ainda organizaram o torneio para ser disputado na ARÁBIA SAUDITA, país com tradição zero no esporte e bastante contestado por irregularidades referentes aos direitos humanos. Só que os árabes nadam em petróleo e isso gera bastante dinheiro, né. É só juntar os pontos.

Tento não admitir, mas fica cada vez mais difícil não aceitar que esse esporte tão amado chamado futebol está tomado pelo dinheiro quase que por completo.

Só nos resta resistir!

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #08: Toda Arrogância Foi Castigada

“Não podemos abrir mão da Copa do Brasil se olharmos o passado do Internacional na competição.” – Celso Roth, após derrota para o Galo por 3×1.

O problema do futebol é viver de glórias do passado e pensar que elas podem salvar o presente.

Não coloquei data, mas sei que fiz essa anotação em 2015 ou 2016, pouco tempo antes do Inter cair para a Série B. Anos mais tarde, novamente a profecia se concretizou: foi a vez do Cruzeiro também ir para a segundona.

Comemorei demais, afinal, para quem não é de Minas Gerais, vos explico: não há torcida mais folgada. É um salto alto interminável, postura arrogante de jogadores e dirigentes e um pensamento de superioridade que beira o nojo.

Segunda Divisão é pouco. Que fiquem por muitos anos lá, fazendo companhia para o América.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #07: Já Fomos Rebaixados

Triste acontecimento no Mineirão ontem.

Se não bastasse a terrível partida que Atlético e cruzeiro protagonizaram no campo, um imbecil da torcida atleticana insultou um dos seguranças do estádio com termos racistas. O pior de tudo é que no Brasil sil sil da impunidade, nada acontecerá à esse idiota.

Esse é o país em que vivemos hoje. Ninguém liga mais para porra nenhuma. Disparam as metralhadores de xingamentos (quando não são as de balas mesmo) e não estão nem aí para o próximo. E o mais nojento de tudo é que esses são que se auto-intitulam “cidadãos de bem”.

Se há cinco/seis anos, a dupla mineira podia se vangloriar de dominar o cenário nacional e internacional do futebol local, hoje, à duras penas, se esforçam para não caírem para a segunda divisão.

Porém, no quesito humanidade, o Brasil caiu há tempos.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #06: Exorcismo

Tá exorcizado! Expurgado! Excomungado! Expulso!

Não importa o verbo, a sensação de ALÍVIO que o torcedor atleticano está sentindo hoje é imensurável. Eliminamos o Botafogo na Sul-Americana com DUAS VITÓRIAS!

O contexto para explicar tamanha alegria:

Há 25 anos um terror chamado Botafogo assombra as nossas cabeças em competições de mata-mata. Seja na Copa do Brasil, Sul-Americana ou qualquer outro torneio, sempre o time carioca passava com autoridade. Algumas vezes, de forma até humilhante, como aquele desastroso 2×5 em pleno Mineirão na temporada de 2008. Tenho pesadelos com aquele jogo até hoje.

Porém, isso é passado. Ontem espantamos essa nhaca do nosso caminho com uma vitória por 2×0 no Independência, gols de Fábio Santos e Vinícius. O próximo adversário será o La Equidad, da Colômbia.

Um adendo: não se enganem, Galos Doidos. O time tá jogando muito mal, com dificuldades para marcar gols e alguns jogadores passando por uma fase terrível. Vamos torcer para que o técnico Rodrigo Santana acerte ainda mais a equipe e que, ao final do ano, possamos levantar essa taça para salvar a temporada.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #05: A Perna Esquerda de São Victor

Era noite de 30 de maio de 2013, uma quinta-feira, mais precisamente aos 48′ do segundo tempo de uma partida de quartas-de-final da Copa Libertadores da América, quando Victor eternizou a sua passagem pelo Atlético-MG. Riascos foi despretensioso e parou na perna esquerda do arqueiro atleticano. Daquele momento em diante, o Galo só sossegou ao erguer a taça no Mineirão. Daquela quinta em diante, Victor virou santo.

Hoje, quase seis anos depois, o panorama pode até ser diferente, mas a situação é parecida. O dia é 28 de maio, também à noite, numa terça-feira. A competição é de “segundo escalão”, segundo o preside(a)nte(a) do clube, mas não para o torcedor. É um troféu que ainda não consta na galeria. A Sul-Americana. Cairia como uma luva para salvar esse ano desastroso do time

Com uma exibição fraquíssima da equipe, o garoto Alerrandro entra para evitar a vergonha de ser eliminado em casa durante os noventa minutos pelo modesto Unión La Calera, do Chile. Com 1×1 no agregado, tudo será decidido nos pênaltis. E disso, São Victor entende muito bem. E fez valer a sua alcunha santificada.

O goleiro alvinegro pegou todos os três pênaltis do time chileno. O segundo, por incrível semelhança, foi cobrado no meio do gol e São Victor defendeu com a perna esquerda. Na última vez que ele fez algo do tipo em uma competição continental, a taça veio para a Cidade do Galo, como disse no primeiro parágrafo.

Espero que tal fato vá além de uma mera coincidência, e que São Victor tenha o prazer de levantar mais um troféu com essa camisa tão gloriosa.

 

 

 

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #04: Soberba

Demos mole“. Assim, de forma resumida, foi a explicação de Renato Gaúcho para a virada que seu time levou EM CASA para o Fluminense, após abrir um 3×0 com meia hora de jogo. No final, 4×5 para os cariocas.

Soberba. Esse é o nome da praga que está enraizada no futebol brasileiro e que nos faz estagnar. Até os vizinhos sul-americanos apresentam equipes melhores treinadas do que aqui no “país do futebol”.

Foi assim, bastante soberbo, que o Felipão explicou o 1×7 na entrevista pós-jogo. Não foi mérito do adversário e nem erro dele mesmo. Foi “sorte”, algo de outro mundo.

Luxemburgo, desempregado há mais de quinhentos dias e que, a cada nova entrevista, parece que parou no tempo, demonstra a mesma atitude. Tudo que conhecemos atualmente no futebol foi graças a ele, nada do que acontece é novidade. Ele é o maior técnico que existe no planeta e está desempregado há tanto tempo… bem, talvez porque está “dando mole” em seus últimos trabalhos.

Por isso Fernando Diniz, Sampaoli e outros técnicos que tentam novas maneiras de jogar aqui no Brasil têm tanta dificuldade e gente torcendo contra. A zona de conforto e a soberba falam mais alto.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #03: José Maria Pena

Foi com pesar que li sobre o falecimento do grande José Maria Pena, figura que está na história dos dois alvinegros que torço: o Galo e a Pantera.

Como jogador, foi revelado nas categorias de base do Atlético-MG e jogou na equipe de 1968 a 1973, fazendo parte do time campeão nacional em 1971.

Como técnico, destaco sua passagem pelo Democrata-GV em 2007, naquele que considero o último grande time da Pantera, semifinalista do Campeonato Mineiro e campeão do interior. Como torcedor do “Demo”, é triste lembrar da grande equipe liderada por Vilar, Amilton e Leandro Carrijo e comparar com a atual situação do clube.

Zé Maria também foi o técnico do Democrata em sua melhor campanha até hoje, quando foi vice-campeão de Minas Gerais em 1991, porém, eu ainda não era nascido.

Fica aqui a minha singela homenagem a esse personagem fundamental de momentos gloriosos que, tenho certeza, não serão apagados das mentes dos torcedores.

CAM1971Foto: https://www.futebolinterior.com.br/

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #02: Masoquismo

No final de semana retrasado, assisti um jogaço da Bundesliga: Hertha Berlim 2×3 Borussia Dortmund. Fora de casa, os auri-negros venceram de virada e com um gol nos acréscimos, depois de tanto martelar o adversário. O jogo foi ótimo porque foi movimentado, com duas equipes bem armadas, que sabiam trocar passes e buscavam o gol a todo instante. Venceu a melhor.

Alguns dias antes, no final de fevereiro, assisti cerca de quinze minutos de Boavista x Madureira, transmitido pelo Sportv para TODO O BRASIL, pelo desastroso Campeonato Carioca. Meus olhos chegaram a doer, de tão ruim que foi a experiência. Os times não conseguiam trocar mais do que três passes até darem algum chutão para frente, sem falar na péssima pontaria dos jogadores. Ainda assim, a cada equipe conseguiu fazer um gol cada. Não vi nenhum deles.

Outra partida que acompanhei por alguns minutos foi Atibaia x Portuguesa, pela Série A2 do Paulistão, também com transmissão NACIONAL pelo canal global. Com chuva, esse jogo foi ainda pior. E olha que São Paulo tem, ao meu ver, o melhor futebol do interior. Ficou 1×2 para a Lusa, que consegue se afundar cada vez mais, ano após ano.

Sei que é engraçado admitir isso, mas mesmo com todas as críticas, gosto dos Estaduais. Sinto falta deles quando chega nessa época do nosso calendário futebolístico, onde a maioria dos campeonatos já estão nas fases finais. É divertido ver esses jogos com técnica zero, zagueiros truncados, atacantes que se acham craques e gramados terríveis. Lembra dos jogos que eu ia no Mamudão, em Governador Valadares-MG, acompanhar os jogos do Democrata pelo Campeonato Mineiro. É nessas partidas que temos o tio da pipoca, da batata seca, do torcedor do rádio de pilha e mais um monte desses clássicos personagens que fazem o futebol ser tão apaixonante.

Prefiro pagar vintão num ingresso para assistir Democrata x Ipatinga (clássico do leste mineiro que já vi debaixo de uma forte chuva e que perdemos em casa por 1×4) do que acompanhar um clássico inglês sentado, como se estivesse num teatro.

Gostar dos Estaduais é gostar de sofrer. Só pode ser masoquismo.