Diversos · Língua Presa

Nem Tudo Passa

Nem tudo passa. É bom deixar isso bem claro. Nem todas as pessoas superam seus traumas, seus medos, seus demônios. Nem todo mundo encontra o caminho da esperança e da salvação ou alguém para tirá-lo (a) da lama.

Digo que é bom deixar isso bem claro porque estamos acostumados a encarar um mundo de fantasia na maior parte do tempo. Pessoas felizes e saudáveis o tempo inteiro, “gurus” cheios de conhecimento e com soluções para cada problema, seja ele financeiro ou emocional, a famosa “ostentação” de riquezas e viagens e corpos perfeitos. Somos encharcados por esses estereótipos todos os dias em qualquer direção que olhamos. O pior de tudo: muita gente absorve isso. E se sente mal. Incapaz. Inferior.

O livro Quando Os Pêlos do Rosto Roçam No Umbigo, do querido colega e escritor Anton Roos, nos abre os olhos: a vida não é esse conto de fadas que somos forçados a acreditar.

Fonte: Amazon

Andrei, o personagem principal, o conselheiro de puta que navega pelo oceano mais sombrio da consciência, alimentado por fantasmas e temores que o impedem de continuar sua vida com um mínimo de decência, é o espelho da vida humana que não vemos nas redes sociais, nas colunas da elite ou no jornal diário. É a fragilidade que somos forçados a esconder e a condenar quem a expõe. É a sujeira que navega em nosso cérebro em segredo, pois colocá-la para fora fere os bons costumes. É a violência, a raiva, o obsceno, a dor no peito, a angústia de quem sabe que a salvação não existe. É a sombra do ser em seu estado mais natural.

Alguns desses traumas nos acompanham por toda a vida. Muita gente não entende. Muita gente finge que não vê. Muita gente até condena. Mas não se engane: todo mundo, até essa gente, tem um pouco de Andrei dentro de si.

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H.

“Então, alguém aí já assistiu aqueles desenhos da Warner Bros? Tem aqueles onde o personagem está tendo dificuldade para tomar uma decisão. Ele tem um anjo em um dos ombros e um demônio no outro. Parece bem óbvio, né? Geralmente, o anjo é o que tenta dar um bom conselho, enquanto o demônio o tenta convencer a fazer algo de mal. Não é sempre assim tão simples. Na maioria das vezes, não são realmente anjos ou demônios. São apenas amigos dando conselho, zelando pelo seu interesse, mas nem sempre entendendo o que pode ser o melhor para você. Então, sobra para você mesmo. Você tem que tomar a decisão por si próprio… Essa canção de chama H.”

“H.” é um dos singles de Ænima, disco do Tool lançado em 1996. Assim como a maioria das canções da banda, é alvo de muitas interpretações. O texto acima foi uma possível explanação que Maynard J. Keenan, vocalista do grupo, deu antes de tocá-la em um show.

Parafraseando o que ele disse acima, “você  tem que tomar a decisão por si próprio”. Tire você mesmo sua conclusão.

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Cadeira de Balanço

Minha mãe adorava “Rockin’ Chair”, do Oasis, mesmo entendendo apenas o all my life de uma das estrofes.

Presente na coletânea The Masterplan, de 1998, é uma canção enérgica, empolgante e que transmite um prazer em estar vivo que dispensa qualquer entendimento de inglês para se sentir bem. Parte dessa beleza vem da voz de Liam Gallagher, que atingiu seu auge no final da década de noventa.

Ouvi-la hoje em dia é como sentir a presença dela no mesmo ambiente.

Alguns anos mais tarde, Rod Stewart incluiu uma versão cover em sua coletânea The Rod Stewart Sessions 1971–1998, de 2009. Incrivelmente, ficou muito boa.

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Entre o céu e o inferno

Um piscar de olhos é a distância entre o céu e o inferno.

Tem quem tome remédios. Leia uma piada. Faça sexo. Ligue para a mãe. Converse com um amigo. Transe com um amigo. Converse com a esposa ou marido. Assista alguma comédia pastelão. Deite no sofá e durma. Brinque com o cachorro. Acaricie o gato. Coma. Viaje. Saia correndo. Saia para beber. Vá ao médico. Ao mercado. Ao pet shop. Ao Instagram. À desilusão. À fantasia. Ao embate. Não importa.

A fuga é tola quando o inimigo vive dentro da própria cabeça. Céu e inferno estão lado a lado. Pisque os olhos e acorde. Você escolhe em qual hemisfério viverá.

 

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Meus Vinte e Seis Anos

“O meu pai sempre dizia: quero ver você doutor. Minha irmã sempre a escutar: quero ver você casar[…] Eu, sem caminho ou qualquer profissão.”

A realidade não é tão dura quanto na música. Os vinte e seis anos chegaram, disso não tem como escapar, mas meu pai nunca exigiu que eu fosse algo que não quisesse.

O caminho existe, apesar de vê-lo, por enquanto, apenas à distância. Falta ainda a direção. Falta sair da região chamada “conforto” e mudar para um país distante, chamado “criatividade”.

Eu, agora aos vinte e seis anos, gostaria de ter tido minha mentalidade atual há dez anos. Gostaria que pessoas que fizeram parte da minha adolescência me conhecessem hoje, que pessoas da família me vissem como sou hoje, que meu pai tivesse a chance de ver onde estou. Com muito caminho a ser desvendado.

 

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Tristessa

Tristessa é a quinta obra de Jack Kerouac que leio. Foi publicada originalmente em 1960, baseada em experiências reais do autor, que durante uma viagem à Cidade do México, apaixonou-se por uma prostituta índia chamada Esperanza.

Esperanza virou Tristessa, e as aventuras em uma Cidade do México marginalizada foram transformadas em um dos relatos mais honestos e comoventes de Kerouac, que transforma dor, solidão e sofrimento em cenários cheios de vida, ambientes alucinantes e personagens comoventes, cada qual com suas particularidades, tudo isso em seu já habitual ritmo frenético de escrever.

Além de Tristessa, li On The Road, Big Sur, Satori Em Paris e O Livro Dos Sonhos, todos recomendadíssimos.

Billy Corgan, líder do The Smashing Pumpkins, escreveu uma canção baseada em Tristessa para o disco de estreia da banda, Gish, lançado em 1991. Confira abaixo.

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Domingo de Páscoa

“Domingo de Páscoa”, do álbum Só Vive Duas Vezes, do Fellini. Já escrevi um breve texto sobre o disco aqui.

Cadão Volpato é ótimo em criar cenários em suas canções, mesmo com letras tão desconexas. E a canção tem tudo a ver com o feriado do final de semana.

O blog retorna após o mesmo, na segunda. E lembre-se: depois do domingo de páscoa, a segunda é o dia. Tudo volta ao normal.

“Depois do Domingo de Páscoa,
Segunda é o dia
Olhar uma por uma todas as quaresmeiras
É só o galo cantar e acordar o seu Pinto
Não é todo dia que se tem a vida inteira
O sol se levanta quando alguém cai da cama
As mulheres correndo que o ônibus vem vindo
Os judeus numa boa e os cachorros latindo”

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Adeus, Mark Hollis

O Talk Talk nasceu em Londres, no ano de 1981, em meio à febre do synthpop, onde os sintetizadores eram os principais regentes das canções. (Bandas como o A-ha, Eurythmics, Soft Cell e Tears For Fears são ótimos exemplos do estilo.)

Formada por Mark Hollis (guitarra, piano e voz), Lee Harris (bateria) e Paul Webb (baixista) e embarcando nessa onda, o sucesso veio rápido, com alguns singles estourando em vários países ao longo da Europa. No terceiro disco, The Colour of Spring, as mudanças começaram. As melodias ficaram mais complexas e as letras de Hollis mais reflexivas, o que não impediu o estouro de músicas como “Like’s What You Make It” e “Living In Another World”, por exemplo.

A partir de Spirit of Eden, de 1988, a casa caiu de vez. Trocando os sintetizadores e melodias pop por longos improvisos jazzísticos e experimentações sonoras com camadas e atmosferas mais sombrias, o Talk Talk atingiu o ápice de sua criatividade, principalmente no álbum seguinte, o quinto e último da discografia da banda: Laughing Stock, lançado em 1991. Poucos meses depois, a banda encerrou suas atividades.

Sobre as vendas, foram decepcionantes se comparadas aos trabalhos anteriores. Porém, isso é o de menos. Os dois discos são considerados precursores do que conhecemos hoje como post-rock (junto ao Spiderland, do Slint) e citados como dois dos maiores álbuns lançados durante aquele período.

Em 1998, Mark Hollis aventurou-se em uma carreira solo e lançou um único disco auto-intitulado. Foi seu último trabalho antes de se aposentar da indústria da música.

Há pouco menos de dois meses, em 25 de fevereiro e aos 64 anos, Hollis veio a óbito.

Se eu fizesse uma lista com os dez melhores discos que já ouvi até hoje, sem dúvida alguma, Laughing Stock estaria na primeira metade.

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Garimpo: Jack Kerouac no Steve Allen Show (1959)

Não é a praia do blog, eu sei, mas Jack Kerouac é o meu escritor favorito e essa pérola que encontrei merece um espaço por aqui.

Em 1959, Jack foi convidado do Steve Allen Show, um talk show da época. É interessante ver o escritor em seu estado natural, tímido, contido, diferente daquele que encantou o mundo em livros como On The Road ou Big Sur, sempre alucinado, empolgante, sob efeito de álcool e afins.

São quase quatro minutos mágicos em que vemos Jack Kerouac proclamando versos do final de sua obra-prima, On The Road, acompanhado pelo apresentador que toca um blues em seu piano, encaixando de forma perfeita com a leitura.

Bom final de semana.

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Sem Conserto

“Não consigo encontrar um lugar apropriado para o fim. O tempo entrou em coma, perdi minhas memórias e nem percebi. ‘Um breve instante’ foi um presente que eu ganhei, mas ainda não abri. Tempo perfeito não deixa sobras pro futuro. Igual a mim. Igualzinho a mim.
Qualquer um que fotografar os pesadelos de quem não volta a dormir, vai andar olhando pro céu, pois vai sempre estar a um passo de cair. ‘Um breve instante’ foi um presente que eu ganhei, mas ainda não abri. Sem memória e sem futuro, é melhor assim. Bem melhor assim.
É o melhor pra mim.”