Diversos · Língua Presa · Música

H.

“Então, alguém aí já assistiu aqueles desenhos da Warner Bros? Tem aqueles onde o personagem está tendo dificuldade para tomar uma decisão. Ele tem um anjo em um dos ombros e um demônio no outro. Parece bem óbvio, né? Geralmente, o anjo é o que tenta dar um bom conselho, enquanto o demônio o tenta convencer a fazer algo de mal. Não é sempre assim tão simples. Na maioria das vezes, não são realmente anjos ou demônios. São apenas amigos dando conselho, zelando pelo seu interesse, mas nem sempre entendendo o que pode ser o melhor para você. Então, sobra para você mesmo. Você tem que tomar a decisão por si próprio… Essa canção de chama H.”

“H.” é um dos singles de Ænima, disco do Tool lançado em 1996. Assim como a maioria das canções da banda, é alvo de muitas interpretações. O texto acima foi uma possível explanação que Maynard J. Keenan, vocalista do grupo, deu antes de tocá-la em um show.

Parafraseando o que ele disse acima, “você  tem que tomar a decisão por si próprio”. Tire você mesmo sua conclusão.

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Cadeira de Balanço

Minha mãe adorava “Rockin’ Chair”, do Oasis, mesmo entendendo apenas o all my life de uma das estrofes.

Presente na coletânea The Masterplan, de 1998, é uma canção enérgica, empolgante e que transmite um prazer em estar vivo que dispensa qualquer entendimento de inglês para se sentir bem. Parte dessa beleza vem da voz de Liam Gallagher, que atingiu seu auge no final da década de noventa.

Ouvi-la hoje em dia é como sentir a presença dela no mesmo ambiente.

Alguns anos mais tarde, Rod Stewart incluiu uma versão cover em sua coletânea The Rod Stewart Sessions 1971–1998, de 2009. Incrivelmente, ficou muito boa.

Diversos · Língua Presa

Entre o céu e o inferno

Um piscar de olhos é a distância entre o céu e o inferno.

Tem quem tome remédios. Leia uma piada. Faça sexo. Ligue para a mãe. Converse com um amigo. Transe com um amigo. Converse com a esposa ou marido. Assista alguma comédia pastelão. Deite no sofá e durma. Brinque com o cachorro. Acaricie o gato. Coma. Viaje. Saia correndo. Saia para beber. Vá ao médico. Ao mercado. Ao pet shop. Ao Instagram. À desilusão. À fantasia. Ao embate. Não importa.

A fuga é tola quando o inimigo vive dentro da própria cabeça. Céu e inferno estão lado a lado. Pisque os olhos e acorde. Você escolhe em qual hemisfério viverá.

 

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Meus Vinte e Seis Anos

“O meu pai sempre dizia: quero ver você doutor. Minha irmã sempre a escutar: quero ver você casar[…] Eu, sem caminho ou qualquer profissão.”

A realidade não é tão dura quanto na música. Os vinte e seis anos chegaram, disso não tem como escapar, mas meu pai nunca exigiu que eu fosse algo que não quisesse.

O caminho existe, apesar de vê-lo, por enquanto, apenas à distância. Falta ainda a direção. Falta sair da região chamada “conforto” e mudar para um país distante, chamado “criatividade”.

Eu, agora aos vinte e seis anos, gostaria de ter tido minha mentalidade atual há dez anos. Gostaria que pessoas que fizeram parte da minha adolescência me conhecessem hoje, que pessoas da família me vissem como sou hoje, que meu pai tivesse a chance de ver onde estou. Com muito caminho a ser desvendado.

 

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Tristessa

Tristessa é a quinta obra de Jack Kerouac que leio. Foi publicada originalmente em 1960, baseada em experiências reais do autor, que durante uma viagem à Cidade do México, apaixonou-se por uma prostituta índia chamada Esperanza.

Esperanza virou Tristessa, e as aventuras em uma Cidade do México marginalizada foram transformadas em um dos relatos mais honestos e comoventes de Kerouac, que transforma dor, solidão e sofrimento em cenários cheios de vida, ambientes alucinantes e personagens comoventes, cada qual com suas particularidades, tudo isso em seu já habitual ritmo frenético de escrever.

Além de Tristessa, li On The Road, Big Sur, Satori Em Paris e O Livro Dos Sonhos, todos recomendadíssimos.

Billy Corgan, líder do The Smashing Pumpkins, escreveu uma canção baseada em Tristessa para o disco de estreia da banda, Gish, lançado em 1991. Confira abaixo.

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Domingo de Páscoa

“Domingo de Páscoa”, do álbum Só Vive Duas Vezes, do Fellini. Já escrevi um breve texto sobre o disco aqui.

Cadão Volpato é ótimo em criar cenários em suas canções, mesmo com letras tão desconexas. E a canção tem tudo a ver com o feriado do final de semana.

O blog retorna após o mesmo, na segunda. E lembre-se: depois do domingo de páscoa, a segunda é o dia. Tudo volta ao normal.

“Depois do Domingo de Páscoa,
Segunda é o dia
Olhar uma por uma todas as quaresmeiras
É só o galo cantar e acordar o seu Pinto
Não é todo dia que se tem a vida inteira
O sol se levanta quando alguém cai da cama
As mulheres correndo que o ônibus vem vindo
Os judeus numa boa e os cachorros latindo”

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Adeus, Mark Hollis

O Talk Talk nasceu em Londres, no ano de 1981, em meio à febre do synthpop, onde os sintetizadores eram os principais regentes das canções. (Bandas como o A-ha, Eurythmics, Soft Cell e Tears For Fears são ótimos exemplos do estilo.)

Formada por Mark Hollis (guitarra, piano e voz), Lee Harris (bateria) e Paul Webb (baixista) e embarcando nessa onda, o sucesso veio rápido, com alguns singles estourando em vários países ao longo da Europa. No terceiro disco, The Colour of Spring, as mudanças começaram. As melodias ficaram mais complexas e as letras de Hollis mais reflexivas, o que não impediu o estouro de músicas como “Like’s What You Make It” e “Living In Another World”, por exemplo.

A partir de Spirit of Eden, de 1988, a casa caiu de vez. Trocando os sintetizadores e melodias pop por longos improvisos jazzísticos e experimentações sonoras com camadas e atmosferas mais sombrias, o Talk Talk atingiu o ápice de sua criatividade, principalmente no álbum seguinte, o quinto e último da discografia da banda: Laughing Stock, lançado em 1991. Poucos meses depois, a banda encerrou suas atividades.

Sobre as vendas, foram decepcionantes se comparadas aos trabalhos anteriores. Porém, isso é o de menos. Os dois discos são considerados precursores do que conhecemos hoje como post-rock (junto ao Spiderland, do Slint) e citados como dois dos maiores álbuns lançados durante aquele período.

Em 1998, Mark Hollis aventurou-se em uma carreira solo e lançou um único disco auto-intitulado. Foi seu último trabalho antes de se aposentar da indústria da música.

Há pouco menos de dois meses, em 25 de fevereiro e aos 64 anos, Hollis veio a óbito.

Se eu fizesse uma lista com os dez melhores discos que já ouvi até hoje, sem dúvida alguma, Laughing Stock estaria na primeira metade.

Diversos · Garimpo

Garimpo: Jack Kerouac no Steve Allen Show (1959)

Não é a praia do blog, eu sei, mas Jack Kerouac é o meu escritor favorito e essa pérola que encontrei merece um espaço por aqui.

Em 1959, Jack foi convidado do Steve Allen Show, um talk show da época. É interessante ver o escritor em seu estado natural, tímido, contido, diferente daquele que encantou o mundo em livros como On The Road ou Big Sur, sempre alucinado, empolgante, sob efeito de álcool e afins.

São quase quatro minutos mágicos em que vemos Jack Kerouac proclamando versos do final de sua obra-prima, On The Road, acompanhado pelo apresentador que toca um blues em seu piano, encaixando de forma perfeita com a leitura.

Bom final de semana.

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Sem Conserto

“Não consigo encontrar um lugar apropriado para o fim. O tempo entrou em coma, perdi minhas memórias e nem percebi. ‘Um breve instante’ foi um presente que eu ganhei, mas ainda não abri. Tempo perfeito não deixa sobras pro futuro. Igual a mim. Igualzinho a mim.
Qualquer um que fotografar os pesadelos de quem não volta a dormir, vai andar olhando pro céu, pois vai sempre estar a um passo de cair. ‘Um breve instante’ foi um presente que eu ganhei, mas ainda não abri. Sem memória e sem futuro, é melhor assim. Bem melhor assim.
É o melhor pra mim.”
Diversos · Língua Presa · Quarta Parede

Pai e Filho

(Meu mais recente texto para o blog da Immagine. Link aqui.)

Filmes de super-heróis estão cada vez mais presentes nas salas de cinema. Desde histórias que contam suas origens, a inserção deles em meio à sociedade, até as super-alianças com outros heróis combatendo forças megalomaníacas que ameaçam acabar com o planeta. Tem espaço para tudo. Só o Homem-Aranha, meu preferido da Marvel, está em três “universos” diferentes. O Batman, meu favorito de todos, idem. Mas eu gostaria mesmo é de falar sobre David Dunn, o herói “humano” de “Corpo Fechado”.

Digo “humano” porque é assim que ele nos é apresentado. Em “Corpo Fechado”, David é o único sobrevivente de um trágico acidente de trem. Além disso, ele passa ileso pelo acontecimento, sem um arranhão sequer. A partir daí, com a “ajuda” de seu futuro arquiinimigo, Mr. Glass, ele começa a descobrir e entender seus poderes sobrenaturais e o tamanho da responsabilidade que isso o traz. Só que antes de todo esse desdobramento, o protagonista da história nos é apresentado como um ser humano comum. Um homem cujo casamento está por um fio e está triste a todo tempo. Seu semblante é de derrota na maior parte das cenas. Sua postura, cabisbaixa, como se um peso habitasse seus ombros.

Diante desse fator humano/social, o que muito me chamou atenção foi o seu relacionamento com Joseph, seu filho, o que parece ser seu único conforto. E que não deixa de ser um conforto também para o menino, já que ele vive em meio à tensão do relacionamento dos pais. No primeiro encontro entre David (acompanhado pelo garoto) e Mr. Glass, por exemplo, onde a teoria de que ele seria um super-herói é apresentada, Joseph fica maravilhado com a possiblidade. Tanto que o menino leva a sério as explicações de Mr. Glass, enquanto David se mantém totalmente desacreditado (por enquanto).

Uma cena mais adiante reforça esse encantamento do garoto pelo pai: a cena dos exercícios.

David acaba de chegar do trabalho e é recebido pelo filho, que abandona os amigos para acompanhar o pai nos seus exercícios de rotina. O garoto é o responsável por colocar os pesos na barra para que ele possa levantar. Diante da possibilidade de ser realmente um super-herói, David pede a Joseph que ele coloque mais peso. Ele consegue levantar, e pede para que o menino coloque mais. A situação se repete mais algumas vezes, até o espanto de ambos: sem mais pesos para serem acrescentados à barra, eles improvisam algumas latas de tinta amarradas na mesma. Cerca de 250 quilos. E David as levanta, enquanto sua descrença começa a se desfazer.

A partir daí, não cabe a mim desenrolar todos os acontecimentos, mas considerando somente a relação entre pai e filho, preciso citar esse momento: a descoberta do garoto.

Após David realizar a sua primeira investida como um super-herói de verdade, a notícia de seu feito corre pela cidade feito vento. Os jornais a estampam em suas páginas. Em pleno café da manhã, David mostra uma dessas páginas ao filho, que, muito emocionado, não contém as lágrimas. David pede para que ele não reaja e o garoto obedece. Porém, não havia mais volta: a partir de agora, David Dunn era realmente um super-herói e tinha uma responsabilidade.

Mas vejo por outro ponto: desde o início do filme, Joseph já o via como tal, desde quando ele era aquele homem cabisbaixo e entristecido. Assim como, creio eu, a maioria dos filhos consideram os seus pais. Como heróis.

“Corpo Fechado” foi lançado na virada do milênio, em 2000. Foi escrito, dirigido e produzido por M. Night Shyamalan, sucedendo “O Sexto Sentido”. Ele faz parte de uma trilogia composta por “Fragmentado”, lançado em 2016 e “Glass”, cujo lançamento está marcado para o próximo ano.