Crônicas

Vivo de Novo

Passadas duas semanas da tragédia, é necessário seguir em frente. Preciso seguir com o andamento do Numa Sexta e de outros projetos que tenho em mente. Não tenho palavras para agradecer as pessoas que, de alguma forma, me fizeram sentir acolhido e forte para seguir adiante. Não é necessário citar o nome de todas, tenho certeza que cada um reconhecerá a sua importância nesses últimos dias.

Repetindo: é hora de seguir em frente. Dona Raquel ficaria orgulhosa disso.

Vida de vivo de novo.

Crônicas

Fortaleza

Preciso ser honesto: isso é mais que um texto. É uma ferida aberta, escancarada e que ainda não cicatrizou. Vai demorar ainda. Porém, não é um lamento. Neste exato momento que o escrevo, faz nove dias que perdi minha mãe. Ela faleceu em um acidente de ônibus bem aqui ao lado, no Tocantins. Não há palavras para explicar a situação ou o que sinto. Nem precisa. Só que é preciso colocar tudo para fora, expurgar todo o sentimento ruim para ajudar a colocar tudo de volta no lugar. Tudo.

Não busco mais aqueles “e se?”, nem justificativas. Tampouco culpados. É melhor lembrar os momentos que passamos. A minha infância, as mudanças de cidade (foram várias), o retorno a Minas Gerais, o falecimento do meu pai e como nos tornamos ainda mais próximos, a mudança de rumos na vida e os vários reencontros. Tem muita história e sempre dá para tirar uma lição. Sempre.

Habitualmente, a música fez parte de toda essa trajetória. Não ouvíamos as mesmas coisas, mas hora ou outra havia algo em comum, como o Oasis. Ela acabou gostando, pois eu ouvia sem parar todos os dias durante a adolescência. Ao lado do Nirvana, era minha banda favorita. Uma música em especial ficou marcada: “Rockin’ Chair”. Ela adorava o refrão, mesmo sem entender uma única palavra. Realmente, a energia da música é contagiante e, nesse caso, entendê-la acaba sendo desnecessário. Depois do acontecimento, não consegui mais ouvi-la, acho que por medo da dor vir muito forte e eu não saber como reagir. Mas uma hora vou ter que encarar. A vida continua.

Lembro que um de seus maiores sonhos (se não o maior) era conhecer Fortaleza, capital cearense. Nunca soube o motivo e nem ela mesma sabia explicar tal vontade, mas tinha e em algum dia se tornaria real. Talvez essa tenha sido a dor maior: os planos que permaneceram somente no papel. Mas, pensando bem, o sonho de conhecer a cidade acabou se tornando realidade. De certa forma, ela foi não só a minha, mas a Fortaleza de muita gente.

Crônicas · Música · Traduções

Alguns Centavos Por Amor

(Texto escrito para o blog da Immagine que foi ao ar hoje. Link aqui. Para melhor entendimento, o link da tradução citada no texto está aqui.)

Há alguns anos atrás, talvez uns oito ou nove, conheci um blog que foi fundamental na construção do meu gosto musical. Se chamava “Amor Louco Br” e era voltado (basicamente) ao rock independente dos anos 80 e 90. Não importa se a banda era bem conhecida ou se era uma daquelas pérolas obscuras que passam despercebidas pela atenção do público. Provavelmente, teria algum registro disponível para ouvirmos.

Naquele gigantesco acervo digital, conheci artistas que se tornaram referências máximas para mim, como os Pixies, Nick Cave e o Sonic Youth, bem como outros artistas renomados. Também conheci artistas que, infelizmente, acabaram se tornando obscuros em meio a esse vasto universo musical. Dentre essa infinidade de trabalhos, lembro-me bem de ficar interessado em “Love 15”, único disco da extinta banda de Detroit, Majesty Crush.

Quando ouvi pela primeira vez, foi uma viagem sonora daquelas que demoramos a voltar ao estado normal. Naquele dia, fui dormir ansioso, pois queria continuar ouvindo aquelas músicas novamente e novamente e novamente. Sem parar. A voz calma de David Stroughter contrasta com os instrumentos que, ao fundo, criam toda a atmosfera do disco. As guitarras atuam como camadas/texturas que permitem um destaque maior do baixo e da bateria. Um típico álbum de shoegaze, que ultrapassa esse limite e vai ainda mais além.

Talvez pela minha inquieta vontade de conhecer cada vez mais e mais novos artistas, “Love 15” acabou desaparecendo das minhas audições. Por fim, fiquei anos sem ouvi-lo. Para ser bem sincero, até me esqueci da existência dele e do “Majesty Crush”. Porém, a espiral do universo fez questão de torná-lo presente de novo nas minhas playlists.

Sem saber o motivo, acordei com “Penny For Love” na cabeça, como se fosse uma continuação daquele sono de anos antes, que mencionei acima. E ela não parava um só minuto de tocar na minha rádio interna. Desde o despertar até o trajeto para o trabalho, seu refrão era repetido incessantemente em minha mente, como uma súplica, me implorando para ouvi-la novamente, depois de tanto tempo. E após realizar o tal desejo, era como se eu nunca tivesse esquecido sua existência.

Resolvi checar novamente informações sobre a banda pela internet, com a expectativa de encontrar algo novo, diferente da época em que a conheci, onde nem as letras das músicas estavam disponíveis. O cenário no Google era o mesmo, com informações escassas, mas com uma notícia a mais que se destacava. Porém, ela não foi nada animadora. David Stroughter, a mente principal por trás do projeto, havia falecido quase um ano antes da minha busca.

Pesquisei a fundo toda a situação que envolveu a sua morte e encontrei um artigo de despedida escrito pelo ex-baixista da banda, Hobey Echlin. Até fiz uma tradução do mesmo, para me aprofundar ainda mais na história desse enigma da música underground.

O Majesty Crush foi um verdadeiro caso de estar no lugar errado na época errada. Fizeram certo sucesso na região de Detroit e até emplacaram uma canção nas rádios. Porém, quando conseguiram lançar um disco por uma gravadora, ela faliu pouco tempo depois, arruinando o sonho dos integrantes, que não mais tiveram forças para manter a banda. David até se manteve ativo, mas sempre à margem da cultura independente.

Esse texto é uma homenagem ao Majesty Crush e, principalmente, a David Stroughter. Uma figura inquieta e brilhante que liderou uma das bandas mais interessantes de sua época. Certamente, sucesso não é sinônimo de qualidade.

Crônicas · Música

Um Grande Dia Chegando

Um grande dia está chegando. Para muitas pessoas, isso poderia ser dito sobre uma data especial esperada, como uma formatura, aquela festa anunciada há semanas, um reencontro com alguém especial ou uma viagem para o exterior. Para outras, somente o fato de poder acordar já é motivo para o próximo dia ser considerado grandioso.

Mas, para mim, será mais do que um grande dia. Será um dia ÚNICO. Será o dia do meu casamento com a pessoa que escolhi passar o resto da minha vida. JUNTOS E UNIDOS.

Apesar de certa tranquilidade, uma leve dose de ansiedade corre em meu sangue. Afinal, um grande dia está chegando.

Crônicas · Garimpo · Música

Garimpo: Em Memória

Logo após traduzir o artigo sobre vida e morte de David Stroughter, ex-vocalista do Majesty Crush, não imaginava que meu próximo texto seria novamente sobre o mesmo tema. Mas, infelizmente, fui pego de surpresa com a morte de dois artistas fundamentais da história da música: Dolores O’Riordan, ex-vocalista dos Cranberries, e “Fast” Eddie Clarke, ex-guitarrista da formação clássica do Mötorhead.

A primeira, dona de uma das vozes mais icônicas dos anos 90, ainda não teve a causa de sua morte revelada.

O segundo, que agora poderá reencontrar seus antigos parceiros Lemmy Kilmister e Phil “Philthy Animal” Taylor, sucumbiu após uma pneumonia.

Os últimos anos têm sido trágicos no que diz respeito à perda de lendas da música, e 2018 já começou com essas baixas terríveis.

Finalizo o texto com uma preocupação que não sai de minha cabeça: a “reposição” não está sendo a altura.

 

 

 

Crônicas · Música

1 Minuto

Humberto Gessinger já dizia: ‘Só acredito no que pode ser dito em 3 minutos.” Mas, em alguns momentos, 60 segundos já são o suficiente. No caso de “Good Morning, Captain”, seu desfecho aterrorizante de um único minuto é o bastante para colocar o “Spiderland”, derradeiro disco do Slint, na posição de melhores álbuns de todos os tempos.

Nos seus 7 minutos e 38 segundos de duração, a canção se arrasta nos versos declamados/sussurrados do vocalista Brian McMahan, que narram uma história típica de um filme de M. Night Shyamalan, acompanhados por um instrumental preciso e seco. No minuto final, os instrumentos ganham um peso ainda mais potente e o personagem, desesperado, esbraveja a frase “I miss you”, até se perder em berros assustadores, como se estivesse afundando em um oceano sem fim.

Ouvir essa canção será uma das melhores experiências de sua vida.

Crônicas · Música

Contexto histórico?

(Meu primeiro texto que foi ao ar no blog da Immagine, no dia 3 de julho de 2017. Link aqui.)

Olá pessoal, estou iniciando hoje o meu espaço particular aqui no site e procurarei trazer, basicamente, textos sobre música. Não, não pretendo ser nenhum crítico chato ou avaliador de discos, bandas ou shows, apenas irei apresentar e comentar álbuns que fizeram ou fazem parte da minha vida, com curiosidades e informações. Uma vez ou outra posso trazer algo sobre cultura “pop” em geral, mas meu foco maior será na área musical.

Para iniciar esse projeto, quero desconstruir algo que percebo com muita regularidade em blogs pela internet: a necessidade que alguns especialistas no assunto têm em explicar analiticamente o seu gosto por algum trabalho. Por exemplo, é muito difícil ver alguma postagem em que o autor coloca o “The Velvet Underground and Nico”, um dos álbuns mais importantes da história da música, no topo de sua lista de melhores discos simplesmente pelo fato dele ter sido realmente o melhor disco que essa pessoa já ouviu, sem precisar explicar a sua importância histórica. Sempre percebo uma necessidade de justificar essa opinião com um contexto ou alguma referência histórica, alguma explicação técnica que, muitas vezes, é apresentada sem sentido. Será que é necessário apreciar o “The Piper at the Gates of Down”, o “Thriller” ou o “Beggar’s Banquet” simplesmente pela importância que eles tiveram na história da música, sem considerar o que essas músicas transmitem ao ouvinte? Qual o problema em dizer que tal trabalho é o melhor que você já apreciou apenas pelo fato de ter sido o que mais te fez sentir emoções boas ou o que mudou o seu modo de enxergar o mundo? Absolutamente nenhum.

Posso estar sendo chato, criando polêmica sem necessidade ou falando besteiras, mas gostaria de exemplificar a minha ideia com minha indicação de hoje. Há 15 anos, o Wilco, uma de minhas bandas preferidas, lançava aquele que considero, até o momento, o melhor disco do novo milênio e um dos mais marcantes da minha vida: Yankee Hotel Foxtrot.

Não me aprofundo em detalhes técnicos, pois não sou nenhum especialista, mas como bom apreciador, percebo que YHC tem uma ótima produção, com arranjos que fogem do convencional (certa mescla de experimentalismo com um forte apelo pop) e uma banda que estava no auge de seu entrosamento. Mas o que realmente mexeu comigo foram as emoções passadas pelas músicas e como eu reagi e absorvi as suas mensagens. As letras de Jeff Tweedy possuem uma carga emocional muito forte, com versos simples, porém belíssimos, que ficam ainda mais nítidos quando são cantados por sua voz arrastada e melancólica. Suas letras se encaixam perfeitamente em momentos que passei, em ótimas memórias que guardo comigo, ou seja, é a trilha sonora de uma fase muito importante da minha vida. E isso já basta para que eu o julgue com tamanha importância.

Anos depois de lançado, é inegável que o disco já possui o seu contexto histórico, a sua importância no cenário musical, o impacto que seu lançamento conturbado causou e contribuiu para chegarmos nesse novo modelo de distribuição de músicas, além da influência que artistas novos tiveram… E isso é muito importante. Mas o que quero passar nesse texto de hoje é que, assim como toda forma de arte, a emoção é o alcance principal que o artista almeja, e não há problema nenhum em reconhecermos isso. Até a próxima!

Ouça-o na íntegra:

Sigam minhas redes:

Instagram

Youtube

Facebook

Crônicas · Música

Johnny Cash e Seus Discípulos

Certa vez, Trent Reznor, cérebro por trás do Nine Inch Nails, disse em uma entrevista qual foi sua reação ao ouvir a versão de Johnny Cash para seu hino definitivo, “Hurt”: foi como “ver alguém beijando sua namorada” e que a canção não mais o pertencia. Apesar de ainda preferir a original, mais melancólica e mais caótica, é inegável que Cash acrescentou uma carga emocional ainda mais forte à canção, muito devido à sua saúde fragilizada na época.

Citei “Hurt” por ser, talvez, a música mais conhecida atualmente na voz de Johnny Cash. Além da canção já citada, Cash gostava de se aventurar em regravações de grandes clássicos de outros artistas, sempre colocando a sua marca: a voz potente e grave acompanhada por seu fiel violão.

“The needle tears a hole.
The old familiar sting
Try to kill it all away,
But I remember everything.
What have I become?
My sweetest friend,
Everyone I know
Goes away in the end.”

Confira abaixo outras canções que ganharam uma versão interessante do man in black. Algumas mantém a estrutura original e ganham força com a potência vocal de Cash, enquanto outras foram desconstruídas e recriadas pelo artista.

Meu maior destaque é “The Mercy Seat”, uma das canções mais marcantes da extensa discografia de Nick Cave e seus Bad Seeds. A música é um épico alucinante de sete minutos, onde o personagem central questiona o duro destino na qual ele terá de enfrentar: a cadeira elétrica, também vista como um trono da misericórdia perante deus. Cash mantém o mesmo clima sombrio da original, agora substituindo todo o caos sonoro por um violão acompanhado de um órgão e um piano.

“Rusty Cage”, escrita por Chris Cornell, também ganha uma regravação interessante, onde o peso do Soundgarden é trocado por um ritmo mais voltado à country music.

“Did I disappoint you?
Or leave a bad taste in your mouth?
You act like you never had love
And you want me to go without.”

“And the mercy seat is waiting,
And I think my head is burning,
And in a way I’m yearning
To be done with all this measuring of truth.
An eye for an eye,
A tooth for a tooth,
And anyway I told the truth,
And I’m not afraid to die.”

“Reach out and touch faith
Your own personal Jesus.
Someone to hear your prayers,
Someone who cares…”

“You wired me awake
And hit me with a hand of broken nails.
You tied my lead and pulled my chain
To watch my blood begin to boil
But I’m gonna break, I’m gonna break my
I’m gonna break my rusty cage and run!”

Todas foram lançadas nos discos da série American Recordings.

 

Crônicas

O Monstro dos Mil Olhos

A boca salivava mesmo antes de me levantar; na cabeça, já percebia uma leve pontada. Cheguei a sonhar com o monstro dos mil olhos e sentia na pele, no sentido mais literal da expressão, a falta que ele me fazia. Ombros trêmulos, a coceira nos braços, uma sensação de formigamento espantadora que me impedia de seguir em frente. Mas a vida é impiedosa.

O despertador esperneava às sete da manhã quando levantei e fui correndo me arrumar. Os olhos mal se abriam quando entrei no banheiro e deixei a água do chuveiro caindo por alguns segundos. Nem a mais quente lava vulcânica era capaz de amenizar o gelo que eu sentia dentro daquela casa vazia. A chuva amena caía do lado de fora, infiltrando-se entre as estruturas da casa e me dava um oi pelas manchas no azulejo. Coloquei a primeira calça e primeira blusa branca que vi na minha frente, escovei os dentes, dei comida para os gatos e para o cachorro, calcei a bota velha e suja que ainda resistia ao tempo e parti para o trabalho feito uma bala.

No trânsito, foram mais alguns minutos de nervosismo e meu rosto começou a ficar vermelho, eu via tudo pelo retrovisor, tantos carros e motos e bicicletas e pessoas atravessando as ruas e a avenida e aqueles cachorros, pestes, porque não ficam no canto, toda essa agonia e a visão embaçada por causa do sono e porque essas pessoas não saíram mais cedo de suas casas, pensei. Fui desviando dos veículos, das enormes poças d’água, lutando contra o relógio e, chegando ao trabalho, ainda enfrentei o fedor insuportável daquelas águas sujas empoçadas e misturadas com mijos de motoristas de caminhão e grãos podres que já deviam estar ali há dias e agora a chuva os engolia e ajudava a deixá-los ainda mais nojentos.

Tentei abrir correndo a porta da sala, mas a chave não entrava e os braços trêmulos não se firmavam na direção da fechadura até que, finalmente, consegui e passei para o lado de dentro. A mochila nas costas ficou no meio do caminho. A copa era o destino e lá estava ele, me aguardando ferozmente, soltando fumaça por toda a sua superfície. O monstro dos mil olhos enclausurado em seu habitat natural. A garrafa térmica. Tomei o primeiro gole, depois o segundo, terceiro. No sexto, meu corpo voltou a se estabilizar. As tremuras passaram, bem como as coceiras. Tudo normal novamente. Vida que segue.

 

Crônicas · Música

Cadê As Guitarras, Radiohead?

‘OK Computer’, o mais conhecido e aclamado trabalho do Radiohead, completou 20 anos em 2017. Uma versão expandida chamada ‘OKNOTOK’ foi lançada, e claro, a mídia ficou a todo vapor. E não por menos, já que o álbum é considerado um dos melhores de todos os tempos.

E é aproveitando o hype (merecido) que surgiu nos últimos meses que resolvi fazer esse texto. Fiquei pensando o que se passa na cabeça de um artista ao atingir o tal “ápice” de sua criatividade. O correto seria manter a fórmula ou partir para um novo começo? No caso do Radiohead, a escolha foi a segunda opção.

‘Kid A’ chegou em 2000, 3 anos após o ‘OK Computer’, e novamente causou uma reviravolta na cultura pop mundial, com uma sonoridade totalmente nova. A idéia inicial da banda era fazer algo inverso ao que fora apresentado anteriormente, buscando fórmulas não-comerciais e não-convencionais tanto para a criação das músicas quanto para a divulgação do trabalho. A maior reviravolta, digamos assim, foi a ausência quase total de guitarras e/ou violões, que foram deixados de lado e deram lugar aos sintetizadores, baterias e ruídos eletrônicos, jazz, influências de krautrock e até música clássica. Para completar, não foi lançado nenhum single ou videoclipe para promover o disco. Mesmo com toda essa “aversão ao sucesso”, ‘Kid A’ vendeu milhões de cópias e foi muito bem recebido pela crítica.

“I slipped away,
I slipped on a little white lie.
We’ve got heads on sticks,
You’ve got ventriloquists staring at the shadows
At the edge of my bed.”

Saber mesclar em doses certas momentos de caos e estranheza com tranqüilidade e doçura foi peça fundamental para manter o equilíbrio e a qualidade do álbum. A dobradinha “The National Anthem/How To Disappear Completely”, por exemplo, leva o ouvinte de um total delírio sonoro a um espaço completo de paz e tristeza. Enquanto a primeira é levada por um baixo e bateria constantes que encontram um solo de instrumentos de sopro alucinados no final, a segunda diminui o clima e um violão acompanha os lamentos de Thom Yorke sobre a vida e a si mesmo.

Em seqüência, a bela faixa instrumental “Treefingers” mantém o clima de calmaria, como uma hipnose sonora. Porém, ao final, dá lugar a uma pancada de guitarras em “Optimistic” que, ironicamente (uma das poucas acompanhadas por guitarra/violão), considero a melhor do álbum. A estranha “Idioteque”, construída em cima de batidas eletrônicas indecifráveis e com uma letra igualmente enigmática, é outro ponto forte que se encontra no andamento do disco.

“Flies are buzzing round my head,
Vultures circling the dead,
Picking up every last crumb.
The big fish eat the little ones,
The big fish eat the little ones,
Not my problem, give me some.
You can try the best you can.
You can try the best you can?
The best you can is good enough.”

“Who’s in a bunker?
Who’s in a bunker?
Women and children first,
And the children first,
And the children…
(…)
Who’s in a bunker?
Who’s in a bunker?
I have seen too much,
I haven’t seen enough,
You haven’t seen it…”

Dos primeiros sons de “Everything In It’s Right Place” até o belo desfecho em “Motion Picture Soundtrack”, o Radiohead entrega um trabalho que serviria como base para suas experimentações futuras, que ficariam ainda mais claras em “Amnesiac” (2001) e que ganhariam uma encorpada ainda mais interessante em “In Rainbows” (2007).

Com o passar dos anos, o Radiohead foi adotando uma identidade de inovação a cada registro lançado, surpreendendo os ouvintes e conquistando cada vez mais fãs ao redor do planeta. Todo o entusiasmo em cima desses caras não é em vão.

*O Radiohead possui uma proteção f#d!d@ sobre suas músicas, por isso foi muito difícil encontrar as canções originais no Youtube. Mas nas plataformas digitais estão todas disponíveis.