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Uma Noite Calma na Suécia

 

Imagine a situação:

É 18 de novembro de 2003, uma noite calma em Estocolmo, Suécia.

Pessoas se divertem no Debaser Hornstulls Strand, uma casa noturna famosa da cidade.

Mesas cheias de amigos que conversam, bebem, fumam, paqueram com pessoas de outras mesas, abrem seu corações, confidenciam segredos, discutem negócios, esportes e tudo mais que uma noite de distrações pode proporcionar.

Ao fundo, Andy Bell, um banquinho e um violão são os responsáveis pela trilha sonora do ambiente. Uma apresentação acústica com músicas do Ride, Oasis, entre outros.

Sua voz é calma, meio preguiçosa e tímida, capaz de chamar atenção e também de passar batida. Em “Thank You For The Good Times”, canção do Oasis que ele escreveu, seus versos são claros:

“Seria tão bom ouvi-lo dizer ‘obrigado pelos bons tempos’, antes que os bons tempos vão embora.”

Não tenho dúvida de que ao ouvirem os áudios dessa apresentação, as pessoas que lá estiveram e que tiveram bons momentos, pensam: 18 de novembro de 2003 foi uma noite calma na Suécia.

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O Povo Contra Larry Flynt

Uma provocação:

Larry Flynt é um dos nomes mais poderosos do entretenimento adulto estadunidense (Quando digo entretenimento adulto, leia pornografia pesada mesmo, não precisa ficar com vergonha.) É o fundador da LF Publications, cujo carro-chefe de maior nome é a revista Hustler. O filme é de 1996, mas a história acontece nas décadas de 70 e 80, retratando o início de sua trajetória e suas duras batalhas contra o lado conservador americano, que queria proibir a distribuição de sua revista. Flynt até sofreu um atentado de um louco da supremacia branca, fato esse que o deixou paraplégico.

Porém, o foco principal é o famoso imbróglio judicial entre ele e um pastor lá que o acusou de difamação e outras coisas. Para sua defesa, Flynt abraçou um trecho da lei americana que protege o direito do cidadão de expressar-se livremente, e era isso que incomodava os puritanos, que questionavam como uma revista “suja” circulava assim pelo país sem nenhum pudor, com o risco de poluir a mente das criancinhas e blábláblá. Interessante ressaltar aqui que até seu advogado dizia que não era apoiador da revista Hustler e dos outros conteúdos produzidos pela empresa, mas que defenderia sempre o direito da livre expressão das pessoas.

Agora, estamos em 2020 e essa história parece que jamais envelheceu. Do contrário, só piorou. Aquele pessoal que se considera puro e correto até hoje faz suas artimanhas para atacar o que não os convém. O caso da Natura é um ótimo exemplo, e não, não uso Natura e nem sei qual o cheiro daqueles trem. A questão é que eles se incomodaram com a figura usada na propaganda, mas nos bastidores dessas casas tão bonitas e limpas, sabemos bem muito do que acontece.

Imagine um cenário onde Larry Flynt seria candidato à presidência do Brasil sil sil. Qual lado o apoiaria, a direita defensora dos bons costumes (duvido muito) ou a esquerda festiva (como diria Vitor Brauer) que muda suas lutas todo dia, que o usariam como arma de combate e logo buscariam podres do cara (que com certeza devem existir) para derrubá-lo em seguida?

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Hoje Dancei Ouvindo Ride

Something Else, do The Brian Jonestown Massacre, foi um dos vários álbuns que ouvi hoje durante o dia. E no Spotify é o seguinte: quando um disco acaba, começa a tocar aquilo que o programa chama de rádio, que é um compilado aleatório de músicas que se parecem com o que acabou de ser reproduzido. É uma ferramenta interessante para descobrir bandas e artistas novos.

A rádio do Something Else tinha, em sua maioria, artistas de música psicodélica, como o Spiritualized e o Oh Sees. Só que teve uma em específico que quando começou a tocar, não acreditei. Meus braços arrepiaram-se por inteiro e pensei que havia entrado em uma máquina do tempo. “Dreams Burn Down”, do Ride.

Quando o shoegaze entrou na minha vida, eu estava naqueles momentos de personalidade vulnerável, ainda sendo moldado sob as próprias influências. Nowhere, do Ride, foi um dos grandes discos que abriram as portas para que eu adentrasse nesse universo de guitarras dissonantes, etéreas e barulhentas.

Voltando ao tempo presente, era final de tarde e estava encerrando o expediente (home office) quando “Dreams Burn Down” começou a tocar. Peguei um cigarro, acendi e coloquei o volume da caixa de som quase no máximo, fazendo com que a bateria SENSACIONAL do início da música quase trincasse a janela da sala. No quintal, meus dois cachorros ouviram o barulho da porta sendo aberta e vieram ver o que eu estava fazendo. A música, que eu não ouvia há uns bons anos, levou-me a dançar com eles durante todo o seu decorrer. Para minha surpresa, até a letra eu ainda sabia cantar.

Quase chorei em certo momento. Foi como se ela tivesse se transformado em correntes de ar e entrado em meu organismo, tomando conta de minhas emoções.

Foi como expurgar parte de demônios que ainda vivem dentro de mim.

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A Música Que Explodiu Minha Cabeça

Eu costumava passar madrugadas acordado no computador quando era adolescente, nos bons tempos do Orkut, MSN e jogatinas em excesso. Foi o período em que conheci boa parte das bandas que me acompanham até hoje e nunca me esqueço do dia em que caí no território “grunge” e minha cabeça explodiu ao ouvir “Nearly Lost You”, do Screaming Trees.

Aquela guitarra e bateria combinadas no começo me pegaram desprevenido por volta das 3h da madrugada em uma daquelas noites e não havia uma única alma conhecida acordada naquela hora para que eu pudesse compartilhar minha descoberta.

Estava tão animado com aquele som novo aos meus ouvidos que fui escavando cada vez mais internet afora, e quando finalmente o sono bateu, já era de manhã. Dali em diante veio o Pearl Jam, Smashing Pumpkins, algumas bandas mais desconhecidas como o Love Battery, e tantas outras que fazem parte do meu cotidiano até os dias atuais.

Bons tempos.

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Factótum

Factótum, por definição gramatical, é o indivíduo cuja função é ocupar-se de todos os afazeres de outrem. No português ainda mais claro, é o famoso faz-tudo, o Severino. O mesmo Severino que Gláuber Rocha disse ser a imagem do povo brasileiro, e que Makalister sampleou de forma brilhante.

Factótum também é o título do segundo romance do Bukowski, publicado em 1975. Entre bebedeiras, relacionamentos desastrosos e empregos dos mais variados tipos, o livro nos apresenta o submundo das cidades grandes, aquele em que os cartões-postais fazem questão de ignorar. Aqui, o personagem principal não deixa de ser um Severino, e mostra que não há glamour algum nas suas misérias.

Em resumo, não importa se o Severino é brasileiro ou americano, as dificuldades (que vão muito além da falta de interesse, como o personagem do livro) são quase as mesmas.

Trocando a chave, se eu pudesse dizer um faz-tudo na música… Bem, esse, ao contrário do já discorrido, seria alguém recheado de glamour. Quem mais foi capaz de transitar entre a soul music, a música eletrônica, o krautrock, o glam, o funk, o folk e o jazz de forma tão brilhante quanto David Bowie? É possível citar ao menos um disco dele em cada um desses estilos cujo nível é o mais alto possível. Além disso, é notória a sua influência em campos que ultrapassam as barreiras musicais, como a moda, por exemplo.

Um verdadeiro Factótum.

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Um Corvo Fora da Curva

Para iniciar, o contexto: surpreendendo a todos, Chris e Rich Robinson fizeram as pazes e anunciaram o retorno do The Black Crowes, após cinco anos de hiato, voltando a figurar nos principais portais do meio artístico.

Agora, o principal.

Eu possuía um rascunho intitulado “Um Corvo Fora da Curva”, na qual havia alguns escritos sobre o quão intrigante foi a trajetória dos Crowes lá nos anos noventa, onde a música pop e o rock alternativo/independente dominavam o cenário musical, e a gangue dos irmãos Robinson, influenciada pelos movimentos setentistas, voavam na contramão e ainda assim conseguiam se destacar.

Porém, todavia, entretanto, esse que vos escreve tomou a sábia atitude de apagar tal rascunho, com a desculpa de que não seria interessante finalizá-lo, por dificuldade em desenvolver o raciocínio. Hoje, com a notícia do retorno do conjunto, seria o timing ideal para terminar tal texto, mas a besteira cometida por mim levou a nuvenzinha chamada ideia para bem longe e sem retorno, causando-me um enorme remorso.

Para entrar na onda e arrancar (mesmo que em partes) o peso na consciência, deixo algumas das minhas canções favoritas da banda para o leitor ouvir, e uma lição muito importante: jamais apague uma ideia por completo, mesmo que ela não pareça promissora no momento. Em alguma oportunidade, ela fará sentido.

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Nostalgia

Nostalgia.

Ou a velha ilusão de que o passado foi muito melhor do que o presente momento. Aquela sensação que consome o consciente na hora de dormir, com memórias de tempos que jamais serão vividos novamente, e que dão saudade. Mas é de uma ingenuidade tamanha pensar que eles foram perfeitos. Não foram e pode ser que, na época em que aconteceram, foram um desastre, só que, na maior parte das vezes que a nostalgia bate com força, analisamos essas memórias com um carinho acima do normal.

São poucas as lembranças que me causam nostalgia. O álbum de figurinhas do primeiro filme do Homem-Aranha do Sam Raimi é uma delas. Situações que vivi com amigos da escola e da minha rua também. Mas nada supera a trilha sonora da clássica trilogia Donkey Kong Country para o SNES, em uma época que videogames ainda eram sinônimo de diversão, e não de mercado/esporte.

Separei algumas canções do vasto repertório para o leitor. É uma estranha mistura de dor no coração com a satisfação pelos bons momentos vividos.

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Idiotização

Os idiotas estão dominando o mundo ou eu que estou ficando rabugento cedo demais?

Repetindo os versos de Noel Gallagher, “estou desmoronando ou apenas ficando velho?”

Afinal, por que os homens viram completos idiotas quando se tornam pais? Cada vez mais tenho notado um comportamento…. digamos, imbecil quando esses interagem com seus filhos. Um exemplo bem nítido são as chamadas de vídeo com as crianças que, muitas vezes, nem têm noção do que está acontecendo, e o pai bobalhão fica fazendo voz fina e caras e bocas que até assustam.

Mais cedo no mercado, o segurança do local estava fazendo isso, perguntando ao filho como ele se machucou, se doeu, e depois um pedido que foi a gota d’água e que quase me matou de vergonha: “conta para o papai como foi que você chorou”. Nesse momento, vi que o mundo não tem mais salvação.

Fat Mike estava certo em 2003 e sua razão se concretizou por completo em 2019.

Os idiotas assumiram o controle.

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Dor

Aproveitando o gancho que o canal oficial do Nick Cave me deu ao subir no Youtube uma performance incrível de “Magneto”, vou finalizar esse rascunho que está há meses parado aqui no meus arquivos. Chama-se “Dor”.

Dor porque é através dela que, creio eu, os artistas tiram o melhor de seus talentos. Certa vez (isso tem anos), ao comentar com minha esposa que não conseguia escrever ou tocar quando estava triste, ela me deu esse soco na consciência:

-Bem, então você nunca irá gravar o seu melhor disco.

Posso citar Kurt Cobain, Elliott Smith, Damon Albarn e tantos outros que extraíram o pior de seus eus para criar obras incríveis, mas foi a perda de Nick Cave que me instigou a escrever esse texto.

Em julho de 2016, um de seus filhos, Arthur, então com 15 anos, caiu de um penhasco na Inglaterra e veio a óbito. Cave não concedeu nenhuma entrevista a respeito do ocorrido durante os dias de luto. Pelo contrário, respondeu todas suas perguntas em forma de música ao lançar Skeleton Tree no mesmo ano. E mesmo sem mencionar o acidente de forma direta nas letras, as referências são claras.

“Magneto” é a canção mais cortante do disco, daquelas em que o artista deixa seu coração totalmente exposto à quem quiser ver. Porém, toda a obra funciona como um cicatrizador para a ferida que dificilmente se fechará por completo.

Charles Bukowski escreveu em um poema sobre o que é ser um escritor, e para ele, as palavras devem sair até de suas entranhas, quase explodindo o seu interior. É como uma lava cutucando a borda de um vulcão, suplicando para encontrar a luz do dia.

Alguns músicos são verdadeiros escritores antes de serem, propriamente, músicos. Nick Cave é um deles. E meu favorito.

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Radiohead e a Cidade

Era fim de tarde quando saí da barbearia e fui em direção ao carro para, enfim, tomar o rumo de casa. Ao ligá-lo, o som, em modo aleatório, escolheu uma canção curiosa para aquele momento: “No Surprises”, do Radiohead.

Repito, era fim de tarde. Carros e motos aglomeravam as ruas. Pessoas tomavam conta das calçadas. Na sorveteria, nas lojas de roupas, na fila do banco então, nem se fala. Celulares eram tocados em cada canto que os olhos pudessem alcançar, por crianças, idosos, se bobear, até pelos cachorros.

Na esquina, um playboy fechou um motoqueiro e a buzina se espalhou cidade afora. Adiante, um motorista resmungou ao parar na faixa de pedestres para uma mulher atravessar. Se fosse uma gostosona, pensei, ele não reclamaria. E sem falar nas bicicletas, que vão e vêm na contra-mão sem se importar com quem ou que irá atravessar em sua frente.

Enquanto isso, em meio ao caos do fim de tarde na selva de pedra, tudo o que Thom Yorke pedia à mim, quase uma súplica, era um pouco de silêncio.