Crônicas · Língua Presa · Música

Dor

Aproveitando o gancho que o canal oficial do Nick Cave me deu ao subir no Youtube uma performance incrível de “Magneto”, vou finalizar esse rascunho que está há meses parado aqui no meus arquivos. Chama-se “Dor”.

Dor porque é através dela que, creio eu, os artistas tiram o melhor de seus talentos. Certa vez (isso tem anos), ao comentar com minha esposa que não conseguia escrever ou tocar quando estava triste, ela me deu esse soco na consciência:

-Bem, então você nunca irá gravar o seu melhor disco.

Posso citar Kurt Cobain, Elliott Smith, Damon Albarn e tantos outros que extraíram o pior de seus eus para criar obras incríveis, mas foi a perda de Nick Cave que me instigou a escrever esse texto.

Em julho de 2016, um de seus filhos, Arthur, então com 15 anos, caiu de um penhasco na Inglaterra e veio a óbito. Cave não concedeu nenhuma entrevista a respeito do ocorrido durante os dias de luto. Pelo contrário, respondeu todas suas perguntas em forma de música ao lançar Skeleton Tree no mesmo ano. E mesmo sem mencionar o acidente de forma direta nas letras, as referências são claras.

“Magneto” é a canção mais cortante do disco, daquelas em que o artista deixa seu coração totalmente exposto à quem quiser ver. Porém, toda a obra funciona como um cicatrizador para a ferida que dificilmente se fechará por completo.

Charles Bukowski escreveu em um poema sobre o que é ser um escritor, e para ele, as palavras devem sair até de suas entranhas, quase explodindo o seu interior. É como uma lava cutucando a borda de um vulcão, suplicando para encontrar a luz do dia.

Alguns músicos são verdadeiros escritores antes de serem, propriamente, músicos. Nick Cave é um deles. E meu favorito.

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Radiohead e a Cidade

Era fim de tarde quando saí da barbearia e fui em direção ao carro para, enfim, tomar o rumo de casa. Ao ligá-lo, o som, em modo aleatório, escolheu uma canção curiosa para aquele momento: “No Surprises”, do Radiohead.

Repito, era fim de tarde. Carros e motos aglomeravam as ruas. Pessoas tomavam conta das calçadas. Na sorveteria, nas lojas de roupas, na fila do banco então, nem se fala. Celulares eram tocados em cada canto que os olhos pudessem alcançar, por crianças, idosos, se bobear, até pelos cachorros.

Na esquina, um playboy fechou um motoqueiro e a buzina se espalhou cidade afora. Adiante, um motorista resmungou ao parar na faixa de pedestres para uma mulher atravessar. Se fosse uma gostosona, pensei, ele não reclamaria. E sem falar nas bicicletas, que vão e vêm na contra-mão sem se importar com quem ou que irá atravessar em sua frente.

Enquanto isso, em meio ao caos do fim de tarde na selva de pedra, tudo o que Thom Yorke pedia à mim, quase uma súplica, era um pouco de silêncio.

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Vazio

Penso em festas, bares, reuniões, festivais, protestos, bolsas de valores, redações de jornais, tumultos, casamentos, eventos esportivos e os mais variados tipos de aglomerações, enquanto permaneço deitado nessa cama e a minha única companhia é um pequeno feixe de luz que adentra o quarto pelo furo da cortina, pensando o que estou fazendo com minha vida, observando ela se esvair com o vento que sopra a terra da rua lá fora.

Penso no trajeto percorrido nas noites solitárias de volta para casa, nas bitucas de cigarros jogadas pela janela do carro enquanto passeio pela cidade viva e fervente e meu reflexo no retrovisor me aconselha: não há conforto nesse mundo.

E cada bituca daqueles cigarros que joguei pela janela do carro espalham cidade afora um pouco de mim. Palavras que disse, palavras que não disse, beijos que dei, ideias que tive, cicatrizes da existência que permeiam as minhas veias e que agora estão escancaradas pelo asfalto. O meu “eu” mais particular aberto para quem quiser ver.

Mais tarde, após horas na penumbra, o renascimento. Um banho para lavar a alma. Junto à água e o shampoo que escorrem pelo meu corpo, vejo descer pelo ralo, também, um pouco de mim. Da minha pele, dos meus olhos, da minha boca e de toda a minha estrutura, um pouco vai embora junto às impurezas. Ao final, toda a escuridão se esvai, e sobra apenas o vazio.

(Escrevi esse texto três dias depois de passar horas deitado no meu quarto, em uma crise profunda de tristeza. A escrita salva vidas.)

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No Limite

Um curto relato.

Aula de Matemática II. Estava usando o kit antissocial na universidade: roupa toda preta, postura desengonçada e fones de ouvido. “Edge of the World”, do Faith No More, tocava no celular.

Presente no clássico The Real Thing (1989), a canção possui uma levada jazzística e a voz de Patton, afiadíssima, proclama os versos que soam como um ritual sedutor entre um homem mais velho e uma jovem e bela mulher.

É daquelas músicas em que não se ouve parado. O corpo, desobediente, balança, a cabeça rodopia, os dedos estalam e os pés tocam um bumbo imaginário. Nesse estado, saí da sala em completo transe musical e fui ao banheiro urinar (deixa eu manter o palavreado moderado).

O resultado da situação, deixo ao leitor que conclua.

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46 + 2

(Meu texto mais recente para o site da Immagine. Link direto aqui.)

Antes do texto, um aviso: é preciso estar com a mente aberta para o que vem a seguir. Transitar entre o submundo da nossa consciência é como uma viagem sem volta. É compreensível não acreditar, e também creio ser humanamente impossível atingir tal teoria na prática. Porém, é como Eduardo Galeano diz sobre crer nas utopias: elas são impossíveis de se alcançar, mas, ao menos, nos fazem segui-las.

“Forty Six & 2” é a canção número 5 de Ænima, segundo disco do Tool, lançado em 1996. Sem dúvidas, uma das mais enigmáticas e discutidas do grupo, muito em virtude do enorme talento de Maynard J. Keenan com as palavras e de sua inteligência. É uma mescla de teorias com experiências pessoais que, em um todo, nos permite várias possibilidades de interpretação. Trago hoje a mais conhecida (e discutida) entre os admiradores e questionadores da banda.

Em resumo, dois conceitos servem como base: o Arquétipo da Sombra, de Carl Jung, e a teoria dos dois cromossomos extras, que foi mais bem desenvolvida pelo metafísico Drunvalo Melchizedek. Comecemos por essa.

O título da música refere-se a uma possível composição de cromossomos que os seres humanos podem atingir. Segundo Melchizedek, são três os conjuntos existentes na Terra. O primeiro possui a composição 42+2, sendo que “+2” são os cromossomos sexuais, x ou y. Esse primeiro grupo compreende a sua existência como uma única consciência, uma única realidade, ou seja, nada mais além do que os próprios olhos alcançam. Não há distinção de espécies ou organismos, tudo compreende uma única conexão. Povos ancestrais como os aborígenes australianos e algumas tribos africanas fariam parte desse conjunto. Até algumas tribos indígenas brasileiras entrariam nesse grupo.

O próximo passo “evolutivo” é composto por 44 cromossomos (sem esquecer os dois sexuais), e é onde nós estamos. – Note o “evolutivo” entre aspas como uma ironia. – O estado atual do ser humano é entendido como consciências individuais, cada qual compreendendo a própria visão de realidade. Não há a noção de vida como um todo, e sim cada ser entendendo-a e agindo conforme a própria percepção. Esse conglomerado de seres é visto apenas como um degrau para o estágio maior.

Portanto, mais dois cromossomos e chegamos ao estado evolutivo de máximo alcance, o 46+2. Esse nível de consciência admite o ser como uma ponte entre o divino e o material. Um único corpo, porém detentor de várias consciências diferentes, tornando-se onipresente, capaz de sentir, presenciar e agir em várias realidades ao mesmo tempo. Palavras do próprio Drunvalo:

“Toda célula em seu corpo tem sua própria consciência e memória. Você, o ser maior que o ocupa, faz as milhares consciências diferentes trabalharem juntas em apenas um ser. Ainda teremos consciência individual, mas elas estarão unidas na forma de uma existência superior, trabalhando como uma entidade.”

Dessa forma, o ser humano atingiria o pico da evolução mental, que se comparado a termos religiosos, seria o mesmo que tornar-se um deus ou Cristo. Porém, não é somente subir degrau por degrau até o topo da pirâmide. Na canção, para chegar ao estado de plenitude de consciência, é necessário encarar um grande obstáculo: o seu eu mais profundo e obscuro. A sua sombra e a teoria do Arquétipo, segundo Carl Jung.

A idéia de Jung é que todos os seres humanos possuem um submundo em seu inconsciente, um oceano profundo onde habitam os seus medos, repressões, fracassos, pensamentos inadequados, sonhos não-realizados, enfim, uma gama de sentimentos e instintos julgados como incorretos perante o convívio social. Essa é a chamada Sombra Pessoal.

Um segundo arquétipo é identificado em casos ainda mais obscuros, chamado Sombra Impessoal, que envolve psicopatas, genocidas, assassinos, ou seja, mentes que são essencialmente malignas.

O momento em que Jung e Melchizedek se cruzam em “Forty Six & 2” é na transição de estado consciente. Para chegar ao nível mais avançado, é necessário enfrentar a sua própria sombra, e não escondê-la ainda mais em seu interior. Deixar de lado os personagens sociais criados para uma melhor aceitação perante a sociedade e não ter medo de ser o que você é. Ao confrontar a sua sombra e tirá-la das profundezas de seu inconsciente, o indivíduo aceita-se de forma plena. Com isso, a sombra irá mover-se para o lado consciente, o que possibilita desafiá-la face a face e integrá-la em seu dia-a-dia. Leia esse trecho:

“Eu escolho viver e crescer, tomar e doar e mover, aprender, amar e chorar, matar e morrer, ser paranóico e mentir, odiar e temer, fazer o que for preciso para sobreviver. Eu escolho viver e mentir, matar e doar e morrer, aprender, amar, fazer o que for preciso para atravessar

Veja minha sombra mudando, alongando-se sobre mim. Suavizo esta velha armadura esperando que eu possa limpar o caminho. Atravessando minha sombra e saindo do outro lado. Adentre a sombra! 46 & 2 estão logo à minha frente!”

Caso contrário, reprimir a sua sombra irá fortalecê-la ao ponto de roubar o seu próprio equilíbrio. Um artigo no site A Mente É Maravilhosa chamado “Arquétipo da sombra: o lado escuro da nossa psique” possui um trecho fundamental para compreender esse desafio: “o nosso crescimento pessoal e o nosso bem-estar psicológico dependerão sempre da nossa capacidade de iluminar essas sombras.”

Agora um pensamento meu.

Lembremos do ano de 2018 no campo político. Não digo sobre aqueles que estavam tentando nos representar, mas sim dos eleitores em sua maioria e a intolerância que os acometeu. As discussões infundadas, a falta de diálogo, amizades acabando e até famílias entrando em colapso por opiniões divergentes. A polarização que tomou conta dos grupos sociais, das redes sociais (principalmente) e a falta de seriedade que tudo isso levou àqueles que não se sentiam representados por nenhum dos lados.

O teor cômico de toda a “filosofada” sobre a música “Forty Six & 2” é justamente o contraposto em que vivemos atualmente: o retrocesso. Como admitir que a vida humana possa passar para um degrau de lucidez muito mais evoluído que o atual, que compreende uma realidade além do que possamos imaginar, sendo que não somos capazes nem de encarar a diferença, sendo um todo, como realidade?

O próprio Maynard, de forma brilhante, nos toca na ferida em “Right In Two”, quando escreve que anjos estão nos assistindo perplexos e confusos, questionando-se como que o Pai concebeu a nós, macacos estúpidos, o livre arbítrio e a razão e preferimos a guerra/força para resolver nossos obstáculos, mesmo nas situações mais simples. Leia:

“Anjos na platéia intrigados e fascinados. Por que o Pai deu a estes humanos livre arbítrio? Agora eles estão todos confusos. Estes macacos falantes não sabem que o Éden tem o suficiente para viver? Há abundância neste jardim sagrado, macacos tolos.

Anjos na platéia perplexos e confusos. O Pai os abençoou com a razão e é isso o que eles escolheram? Macacos matando macacos, matando macacos por pedaços da terra. Macacos tolos, dê-lhes polegares e eles forjam uma lâmina.

Lutam até morrer pela terra, pelo céu, eles lutam pela luz, pela guerra, pelo paraíso. Deitam sobre o amor, sobre o sol, sobre o sangue. Eles lutam até morrer pelas palavras, polarizando…”

Usar a palavra “cômico” é apenas uma válvula de escape para aliviar a tensão, pois a realidade é trágica mesmo. Seres tão evoluídos como os seres humanos (lembra a ironia alguns parágrafos atrás?) não conseguem aceitar diferenças e compreender que mentalidades distintas são o que agregam para o próprio engrandecimento. E tenha certeza, eu, você e todos nós estamos nesse grupo.

Para finalizar, um pedido: ouças as músicas, leia suas letras e tire as conclusões por si mesmo. Ainda acredito que, ao final de tudo, não somente a música, mas a arte como um todo, é o melhor caminhão para a nossa evolução.

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Notas de cotidiano


(Crônica feita para o blog da Immagine e que foi ao ar hoje. Link aqui.)

Há algumas semanas, viajei para São Paulo a trabalho. Fiquei cinco dias lá, em meio a horas de trânsito, vários pedestres com semblantes sérios, bem vestidos, fumantes, clima instável, treinamentos e muito, muito barulho. Uma correria pura. Levei comigo um bloco de anotações vermelho que uso como uma espécie de diário, onde anoto pensamentos variados do cotidiano. Durante a viagem, utilizei o termo “notas” para referir aos detalhes que observava e achava interessante. “Notas de Hotel”, “Notas de Aeroporto”, “Rápidas”, “De Rodoviária”, “Notas da Estrada”, enfim, o que aparecesse eu escrevia.

Escrevi sobre o meu medo de viajar de avião (ainda mais com muita chuva e neblina lá em Barreiras); sobre o tédio no aeroporto após o vôo atrasar e, posteriormente, ser cancelado; sobre a antipatia de certos atendentes; filosofias de estrada como “o céu parece mais escuro quando se está longe de casa”; sobre a saudade da esposa; sobre conexões sem fio (se a conexão é sem fio, desconfio); e a minha preferida, que anotei depois de pagar exatos SETE REAIS por uma garrafa de água mineral: “algumas águas são melhores que outras”.

Alguns dias depois do acidente que minha mãe sofreu, folheei uma agenda que ela possuía, novinha em folha. Na página datada em 27/01, dia em que ela iria embora, ela anotou: “Voltando para casa”. Ela parou antes da metade do caminho. Desafiei-me a fazer o mesmo. No dia de voltar para LEM, escrevi como nota de hotel: “Voltando para casa”. Venci o desafio.

Alexander Supertramp, o rapaz aventureiro de “Na Natureza Selvagem” diz no filme (digo no filme porque não lembro se tal frase aparece no livro): “O espírito da vida humana vem de novas experiências”. Ou algo do tipo. Viajar é uma ótima experiência, mas melhor ainda é chegar em casa. Já a morte, não, mas tiram-se lições valiosas.

Por isso, como nota de hotel, escrevi (em inglês, porque achei que ficaria mais bonito): “there’s no place like home”. Esse texto poderia também servir como nota. O chamaria de Nota do Cotidiano. Ou Filosofia Barata do Dia-a-Dia. Fique à vontade para escolher.

 

Crônicas

Gravidade

(Meu mais recente texto publicado no blog da Immagine. Link aqui.)

Há algumas semanas, o American Park se despediu de LEM e foi levar sua diversão para outra cidade. Com isso, aquela praça dos três poderes voltou ao seu marasmo habitual. Agora, bate uma tristeza passar pela rotatória da mesma, ao lembrar os bons momentos.

Foi a primeira vez que fui a um parque e participei das atrações. Gostei tanto que, ao todo, fui quatro vezes. A sensação de desafiar o medo da morte, do desconhecido e a gravidade me fez muito bem, algo que não sentia há bastante tempo.

É incrível como nosso cérebro resolve travar batalhas contra nós mesmos nesses momentos de apreensão. Ao trancar o banco de um brinquedo giratório que, como um pêndulo, balança a uma altura muito, mas muito alta, os pensamentos que invadiam minha mente eram os piores possíveis. “Isso vai cair igual naquele filme” ou “meu banco vai se abrir e vai acontecer uma tragédia”, e só piorava. Porém, ao repetir o brinquedo mais duas, três vezes, o medo dava lugar à euforia, à sensação de sentir-se vivo. Foi aí que eu compreendi que sentir medo é se sentir vivo e que é preciso encarar o desconhecido.

Posso levar isso para muitas situações da minha vida, e vou além: muitos dos meus erros ou falhas se derivam de não encarar o desconhecido. No campo da escrita é o exemplo mais claro. Muitas idéias que tenho poderiam ser mais bem desenvolvidas (muitas delas não chegam nem ao papel) justamente por não colocá-las em prática e trabalhar para torná-las algo concreto. Mas o fato de elas serem tão boas no campo da IDEIA me causa receio em colocá-las no campo do MATERIAL, por medo de não conseguir desenvolvê-la o suficiente. Ou seja, falta encarar o desconhecido.

Esse assunto mesmo permaneceu no campo da IDEIA por muito tempo e só agora resolvi desenvolvê-lo.

Foi preciso me arriscar contra a gravidade, sentir muito medo para aprender a encarar o desconhecido. Agora, só falta colocar em prática. Mas isso eu deixo para uma próxima hora.

A princípio, sigo como Maynard James Keenan: eu escolho viver.

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Humanos

(Meu mais recente texto para o blog da Immagine. Link aqui.)

Foi na casa de um antigo amigo, Thiago “Bola”, que ouvi o Gorillaz pela primeira vez. Fiquei encantado ao ver uma “banda de desenho” tocando uma música tão interessante. Era “Feel Good Inc.”. Pelos meus cálculos, que não estão muito certeiros, era 2005… Acho que está certo, pois um ano depois foi a primeira vez que vim para LEM e lembro perfeitamente de uma coletânea lançada pela Som Livre, chamada Top Hits TVZ 2, em que uma das bandas que passavam na propaganda era justamente o Gorillaz, com “Kids With Guns”, o que, mais tarde, eu achei estranho, pois o trecho do vídeo que passou no anúncio não era dessa  música.

Esse foi o ponto de partida para eu ir atrás de mais músicas da banda, pesquisar sua história, seus criadores e tudo mais. Encantou-me o fato de que um de seus criadores era Damon Albarn, vocalista e líder do Blur (já falei sobre eles aqui e aqui), uma das minhas bandas favoritas. Nessa época em que os conheci, o segundo disco deles, Demon Days, havia sido lançado e estava fazendo bastante sucesso. Canções como “El Mañana” e “O Green World” estiveram presentes em várias das minhas playlists, além das duas citadas acima. “Dare” foi outra que ouvi bastante.

Alguns anos se passaram e, novamente sem querer, descobri que eles haviam lançado mais um trabalho, e que me carimbou oficialmente como admirador da banda: “Plastic Beach”. Recheado de participações especiais, como os gigantes do rap Snoop Dog, Mos Def e De La Soul, até ícones como Lou Reed, esse disco me pegou em cheio. A primeira que ouvi foi “On Melancholy Hill”, cujo videoclipe é muito legal. O que falar então de “Stylo”, que tem até Bruce Willis perseguindo a banda no meio do deserto? É uma música melhor que a outra.

Depois de “Plastic Beach”, saíram mais três: “The Fall”, de 2010; “Humanz”, de 2017; e “The NowNow”, desse ano. Os dois mais recentes, inclusive, estão baixados no meu Spotify há umas três semanas (ou mais), mas não os ouvi ainda. Tenho uma “coisa” com lançamentos, não consigo ouvi-los quando ainda estão recentes. Tenho medo, creio eu, de me decepcionar. Ainda mais nesse caso, onde tenho como base o “Plastic Beach”, cujo nível é altíssimo.

Deixo abaixo duas músicas de cada disco (dos que ouvi) para vocês apreciarem. E sobre o meu amigo que cito no início do texto, não nos vemos e nem nos falamos há anos. Coisa de humanos.

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Êxtase

Não me lembro a data certa, mas sei que era uma sexta à noite, por volta das 23 horas. Estávamos voltando para casa, eu e Denise, ouvindo um daqueles programas flashback no rádio. Começou a tocar uma canção desconhecida. Estávamos em silêncio, e o rádio, bem baixo. Mesmo assim, deu para ouvir os primeiros segundos da música e me pareceu bem interessante. Eu conhecia aquela voz. Aumentei o volume para identificar e saquei na hora: era Guilherme Arantes. Meu pai era muito fã dele.

Aumentei um pouco mais para ouvi-la melhor. Os versos agora estavam mais claros. Era uma canção de amor. Muito bonita, por sinal. Bem escrita, frases e rimas bem construídas, uma sonoridade diferente do que costumo ouvir. Parece que foi feita especialmente para aquele momento.

Gravei um dos versos na memória para procurar seu nome na internet quando chegasse em casa. Era “eu nem sonhava te amar desse jeito”, que se repetia várias vezes ao final da música. Só reforçou ainda mais o sentimento de que a canção foi feita realmente para a situação em que estávamos passando ali, naquele trajeto. Descobri seu nome. “Êxtase”.

Ir do centro até nossa casa leva cerca de dez minutos. Se não me falha a memória, foram dez minutos de silêncio. A canção, que tem pouco mais de cinco de duração, levou a metade do tempo. O restante foi tomado pelo êxtase.

Êxtase esse que nunca mais passou. Nunca mais esqueci aquela música, e nunca me esquecerei daquele momento.

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Aniversário

10 de maio. Dia da prisão de Tiradentes no Rio de Janeiro. Dia do encerramento das atividades da Rede Manchete. Dia em que Luis XVI tornou-se Rei da França. Dia em que Churchill foi nomeado primeiro-ministro britânico. Dia da primeira publicação do Hulk pela Marvel Comics. Dia de São Damião de Veuster e São João de Ávila. Dia em que, dependendo do ano, é Dia das Mães. Também é dia do nascimento de Diego Tardelli, um dos ícones da atual fase vencedora do Atlético Mineiro, nosso Galão da Massa, e que nos trouxe a tão sonhada Taça da Libertadores, bem como de Jair Bala, ídolo do nosso rival América Mineiro. Também nasceram nesse dia: Bono Vox, Dennis Bergkamp, Sid Vicious, Vanderlei Luxemburgo… E eu.

Meus aniversários quase nunca passaram em branco. Nos primeiros anos de vida, foram as festinhas na escola. Na infância, em casa mesmo, só com os amigos da rua. Na adolescência em diante, fui perdendo o ânimo para comemorar. Não que eu tenha me tornado o “chato que nunca comemora nada”, mas perdi a graça. Mesmo assim, era lembrado. A reunião passou a ser mais reclusa: eu, minha mãe e meu pai. Um bolo, alguns salgadinhos e bebidas. Depois de um tempo, só eu e minha mãe.

Quando mudei para LEM, era sempre na casa da minha tia. Mais recentemente, depois que conheci Denise, sempre teve algo diferente. Tive minha primeira festa surpresa, depois tive mais uma. Por último, ganhei um bolo do LULA que, incrivelmente, estava delicioso. O próximo, agora, será o primeiro sem minha mãe.

Por esse motivo, me identifico bastante com a noção de “aniversário” que Damon Albarn retrata na canção “Birthday”, presente no disco de estréia do Blur, o “Leisure”, lançado em 1991. Uma espécie de desânimo total em relação à data que, conforme a letra, nada mais é do que um “dia patético”. Pode até ser que seja, mas a tradição de tornar marcante o dia em que nascemos nos faz, mesmo que inconscientemente, esperar algo de diferente, que não aconteceria em um dia comum.

Porém, eu, que não seria nada sem meus infindáveis questionamentos, pergunto: por que não tornar os dias comuns tão interessantes quanto os nossos aniversários? Isso me remete à fantasia dos tempos de fim de ano, carnaval e outras datas, em que fazemos de tudo para aproveitar melhor o dia, as pessoas, mas que, quando acaba, tudo volta ao marasmo da nossa rotina. Pergunto isso porque, assim como muitas pessoas, também só fico no questionamento. Sem ação.

Mas por acaso ou por esforço nosso, alguns dias comuns se parecem com um aniversário, e tem alguns aniversários que mais parecem um dia comum. Mas também tem aqueles aniversários que REALMENTE se parecem com um aniversário, e dias comuns que nada mais são do que dias comuns. Tudo depende… Da gente.

Para hoje, dia 10, meu aniversário, considerando somente trechos da canção citada, a que mais se assemelha com o que sinto agora seria: “I-think-of-you Day” (Dia de pensar em você).

“It’s my birthday.
No one here day.
Very strange day.
I-think-of-you day.

Go outside day.
Sit in park day.
Watch the sky day.
What a pathetic day.

I don’t like this day,
It makes me feel too small.

I don’t like these days,
They make me feel too small.”