Crônicas · Língua Presa · Música

Um Corvo Fora da Curva

Para iniciar, o contexto: surpreendendo a todos, Chris e Rich Robinson fizeram as pazes e anunciaram o retorno do The Black Crowes, após cinco anos de hiato, voltando a figurar nos principais portais do meio artístico.

Agora, o principal.

Eu possuía um rascunho intitulado “Um Corvo Fora da Curva”, na qual havia alguns escritos sobre o quão intrigante foi a trajetória dos Crowes lá nos anos noventa, onde a música pop e o rock alternativo/independente dominavam o cenário musical, e a gangue dos irmãos Robinson, influenciada pelos movimentos setentistas, voavam na contramão e ainda assim conseguiam se destacar.

Porém, todavia, entretanto, esse que vos escreve tomou a sábia atitude de apagar tal rascunho, com a desculpa de que não seria interessante finalizá-lo, por dificuldade em desenvolver o raciocínio. Hoje, com a notícia do retorno do conjunto, seria o timing ideal para terminar tal texto, mas a besteira cometida por mim levou a nuvenzinha chamada ideia para bem longe e sem retorno, causando-me um enorme remorso.

Para entrar na onda e arrancar (mesmo que em partes) o peso na consciência, deixo algumas das minhas canções favoritas da banda para o leitor ouvir, e uma lição muito importante: jamais apague uma ideia por completo, mesmo que ela não pareça promissora no momento. Em alguma oportunidade, ela fará sentido.

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Nostalgia

Nostalgia.

Ou a velha ilusão de que o passado foi muito melhor do que o presente momento. Aquela sensação que consome o consciente na hora de dormir, com memórias de tempos que jamais serão vividos novamente, e que dão saudade. Mas é de uma ingenuidade tamanha pensar que eles foram perfeitos. Não foram e pode ser que, na época em que aconteceram, foram um desastre, só que, na maior parte das vezes que a nostalgia bate com força, analisamos essas memórias com um carinho acima do normal.

São poucas as lembranças que me causam nostalgia. O álbum de figurinhas do primeiro filme do Homem-Aranha do Sam Raimi é uma delas. Situações que vivi com amigos da escola e da minha rua também. Mas nada supera a trilha sonora da clássica trilogia Donkey Kong Country para o SNES, em uma época que videogames ainda eram sinônimo de diversão, e não de mercado/esporte.

Separei algumas canções do vasto repertório para o leitor. É uma estranha mistura de dor no coração com a satisfação pelos bons momentos vividos.

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Idiotização

Os idiotas estão dominando o mundo ou eu que estou ficando rabugento cedo demais?

Repetindo os versos de Noel Gallagher, “estou desmoronando ou apenas ficando velho?”

Afinal, por que os homens viram completos idiotas quando se tornam pais? Cada vez mais tenho notado um comportamento…. digamos, imbecil quando esses interagem com seus filhos. Um exemplo bem nítido são as chamadas de vídeo com as crianças que, muitas vezes, nem têm noção do que está acontecendo, e o pai bobalhão fica fazendo voz fina e caras e bocas que até assustam.

Mais cedo no mercado, o segurança do local estava fazendo isso, perguntando ao filho como ele se machucou, se doeu, e depois um pedido que foi a gota d’água e que quase me matou de vergonha: “conta para o papai como foi que você chorou”. Nesse momento, vi que o mundo não tem mais salvação.

Fat Mike estava certo em 2003 e sua razão se concretizou por completo em 2019.

Os idiotas assumiram o controle.

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Dor

Aproveitando o gancho que o canal oficial do Nick Cave me deu ao subir no Youtube uma performance incrível de “Magneto”, vou finalizar esse rascunho que está há meses parado aqui no meus arquivos. Chama-se “Dor”.

Dor porque é através dela que, creio eu, os artistas tiram o melhor de seus talentos. Certa vez (isso tem anos), ao comentar com minha esposa que não conseguia escrever ou tocar quando estava triste, ela me deu esse soco na consciência:

-Bem, então você nunca irá gravar o seu melhor disco.

Posso citar Kurt Cobain, Elliott Smith, Damon Albarn e tantos outros que extraíram o pior de seus eus para criar obras incríveis, mas foi a perda de Nick Cave que me instigou a escrever esse texto.

Em julho de 2016, um de seus filhos, Arthur, então com 15 anos, caiu de um penhasco na Inglaterra e veio a óbito. Cave não concedeu nenhuma entrevista a respeito do ocorrido durante os dias de luto. Pelo contrário, respondeu todas suas perguntas em forma de música ao lançar Skeleton Tree no mesmo ano. E mesmo sem mencionar o acidente de forma direta nas letras, as referências são claras.

“Magneto” é a canção mais cortante do disco, daquelas em que o artista deixa seu coração totalmente exposto à quem quiser ver. Porém, toda a obra funciona como um cicatrizador para a ferida que dificilmente se fechará por completo.

Charles Bukowski escreveu em um poema sobre o que é ser um escritor, e para ele, as palavras devem sair até de suas entranhas, quase explodindo o seu interior. É como uma lava cutucando a borda de um vulcão, suplicando para encontrar a luz do dia.

Alguns músicos são verdadeiros escritores antes de serem, propriamente, músicos. Nick Cave é um deles. E meu favorito.

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Radiohead e a Cidade

Era fim de tarde quando saí da barbearia e fui em direção ao carro para, enfim, tomar o rumo de casa. Ao ligá-lo, o som, em modo aleatório, escolheu uma canção curiosa para aquele momento: “No Surprises”, do Radiohead.

Repito, era fim de tarde. Carros e motos aglomeravam as ruas. Pessoas tomavam conta das calçadas. Na sorveteria, nas lojas de roupas, na fila do banco então, nem se fala. Celulares eram tocados em cada canto que os olhos pudessem alcançar, por crianças, idosos, se bobear, até pelos cachorros.

Na esquina, um playboy fechou um motoqueiro e a buzina se espalhou cidade afora. Adiante, um motorista resmungou ao parar na faixa de pedestres para uma mulher atravessar. Se fosse uma gostosona, pensei, ele não reclamaria. E sem falar nas bicicletas, que vão e vêm na contra-mão sem se importar com quem ou que irá atravessar em sua frente.

Enquanto isso, em meio ao caos do fim de tarde na selva de pedra, tudo o que Thom Yorke pedia à mim, quase uma súplica, era um pouco de silêncio.

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Vazio

Penso em festas, bares, reuniões, festivais, protestos, bolsas de valores, redações de jornais, tumultos, casamentos, eventos esportivos e os mais variados tipos de aglomerações, enquanto permaneço deitado nessa cama e a minha única companhia é um pequeno feixe de luz que adentra o quarto pelo furo da cortina, pensando o que estou fazendo com minha vida, observando ela se esvair com o vento que sopra a terra da rua lá fora.

Penso no trajeto percorrido nas noites solitárias de volta para casa, nas bitucas de cigarros jogadas pela janela do carro enquanto passeio pela cidade viva e fervente e meu reflexo no retrovisor me aconselha: não há conforto nesse mundo.

E cada bituca daqueles cigarros que joguei pela janela do carro espalham cidade afora um pouco de mim. Palavras que disse, palavras que não disse, beijos que dei, ideias que tive, cicatrizes da existência que permeiam as minhas veias e que agora estão escancaradas pelo asfalto. O meu “eu” mais particular aberto para quem quiser ver.

Mais tarde, após horas na penumbra, o renascimento. Um banho para lavar a alma. Junto à água e o shampoo que escorrem pelo meu corpo, vejo descer pelo ralo, também, um pouco de mim. Da minha pele, dos meus olhos, da minha boca e de toda a minha estrutura, um pouco vai embora junto às impurezas. Ao final, toda a escuridão se esvai, e sobra apenas o vazio.

(Escrevi esse texto três dias depois de passar horas deitado no meu quarto, em uma crise profunda de tristeza. A escrita salva vidas.)

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No Limite

Um curto relato.

Aula de Matemática II. Estava usando o kit antissocial na universidade: roupa toda preta, postura desengonçada e fones de ouvido. “Edge of the World”, do Faith No More, tocava no celular.

Presente no clássico The Real Thing (1989), a canção possui uma levada jazzística e a voz de Patton, afiadíssima, proclama os versos que soam como um ritual sedutor entre um homem mais velho e uma jovem e bela mulher.

É daquelas músicas em que não se ouve parado. O corpo, desobediente, balança, a cabeça rodopia, os dedos estalam e os pés tocam um bumbo imaginário. Nesse estado, saí da sala em completo transe musical e fui ao banheiro urinar (deixa eu manter o palavreado moderado).

O resultado da situação, deixo ao leitor que conclua.

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46 + 2

(Meu texto mais recente para o site da Immagine. Link direto aqui.)

Antes do texto, um aviso: é preciso estar com a mente aberta para o que vem a seguir. Transitar entre o submundo da nossa consciência é como uma viagem sem volta. É compreensível não acreditar, e também creio ser humanamente impossível atingir tal teoria na prática. Porém, é como Eduardo Galeano diz sobre crer nas utopias: elas são impossíveis de se alcançar, mas, ao menos, nos fazem segui-las.

“Forty Six & 2” é a canção número 5 de Ænima, segundo disco do Tool, lançado em 1996. Sem dúvidas, uma das mais enigmáticas e discutidas do grupo, muito em virtude do enorme talento de Maynard J. Keenan com as palavras e de sua inteligência. É uma mescla de teorias com experiências pessoais que, em um todo, nos permite várias possibilidades de interpretação. Trago hoje a mais conhecida (e discutida) entre os admiradores e questionadores da banda.

Em resumo, dois conceitos servem como base: o Arquétipo da Sombra, de Carl Jung, e a teoria dos dois cromossomos extras, que foi mais bem desenvolvida pelo metafísico Drunvalo Melchizedek. Comecemos por essa.

O título da música refere-se a uma possível composição de cromossomos que os seres humanos podem atingir. Segundo Melchizedek, são três os conjuntos existentes na Terra. O primeiro possui a composição 42+2, sendo que “+2” são os cromossomos sexuais, x ou y. Esse primeiro grupo compreende a sua existência como uma única consciência, uma única realidade, ou seja, nada mais além do que os próprios olhos alcançam. Não há distinção de espécies ou organismos, tudo compreende uma única conexão. Povos ancestrais como os aborígenes australianos e algumas tribos africanas fariam parte desse conjunto. Até algumas tribos indígenas brasileiras entrariam nesse grupo.

O próximo passo “evolutivo” é composto por 44 cromossomos (sem esquecer os dois sexuais), e é onde nós estamos. – Note o “evolutivo” entre aspas como uma ironia. – O estado atual do ser humano é entendido como consciências individuais, cada qual compreendendo a própria visão de realidade. Não há a noção de vida como um todo, e sim cada ser entendendo-a e agindo conforme a própria percepção. Esse conglomerado de seres é visto apenas como um degrau para o estágio maior.

Portanto, mais dois cromossomos e chegamos ao estado evolutivo de máximo alcance, o 46+2. Esse nível de consciência admite o ser como uma ponte entre o divino e o material. Um único corpo, porém detentor de várias consciências diferentes, tornando-se onipresente, capaz de sentir, presenciar e agir em várias realidades ao mesmo tempo. Palavras do próprio Drunvalo:

“Toda célula em seu corpo tem sua própria consciência e memória. Você, o ser maior que o ocupa, faz as milhares consciências diferentes trabalharem juntas em apenas um ser. Ainda teremos consciência individual, mas elas estarão unidas na forma de uma existência superior, trabalhando como uma entidade.”

Dessa forma, o ser humano atingiria o pico da evolução mental, que se comparado a termos religiosos, seria o mesmo que tornar-se um deus ou Cristo. Porém, não é somente subir degrau por degrau até o topo da pirâmide. Na canção, para chegar ao estado de plenitude de consciência, é necessário encarar um grande obstáculo: o seu eu mais profundo e obscuro. A sua sombra e a teoria do Arquétipo, segundo Carl Jung.

A idéia de Jung é que todos os seres humanos possuem um submundo em seu inconsciente, um oceano profundo onde habitam os seus medos, repressões, fracassos, pensamentos inadequados, sonhos não-realizados, enfim, uma gama de sentimentos e instintos julgados como incorretos perante o convívio social. Essa é a chamada Sombra Pessoal.

Um segundo arquétipo é identificado em casos ainda mais obscuros, chamado Sombra Impessoal, que envolve psicopatas, genocidas, assassinos, ou seja, mentes que são essencialmente malignas.

O momento em que Jung e Melchizedek se cruzam em “Forty Six & 2” é na transição de estado consciente. Para chegar ao nível mais avançado, é necessário enfrentar a sua própria sombra, e não escondê-la ainda mais em seu interior. Deixar de lado os personagens sociais criados para uma melhor aceitação perante a sociedade e não ter medo de ser o que você é. Ao confrontar a sua sombra e tirá-la das profundezas de seu inconsciente, o indivíduo aceita-se de forma plena. Com isso, a sombra irá mover-se para o lado consciente, o que possibilita desafiá-la face a face e integrá-la em seu dia-a-dia. Leia esse trecho:

“Eu escolho viver e crescer, tomar e doar e mover, aprender, amar e chorar, matar e morrer, ser paranóico e mentir, odiar e temer, fazer o que for preciso para sobreviver. Eu escolho viver e mentir, matar e doar e morrer, aprender, amar, fazer o que for preciso para atravessar

Veja minha sombra mudando, alongando-se sobre mim. Suavizo esta velha armadura esperando que eu possa limpar o caminho. Atravessando minha sombra e saindo do outro lado. Adentre a sombra! 46 & 2 estão logo à minha frente!”

Caso contrário, reprimir a sua sombra irá fortalecê-la ao ponto de roubar o seu próprio equilíbrio. Um artigo no site A Mente É Maravilhosa chamado “Arquétipo da sombra: o lado escuro da nossa psique” possui um trecho fundamental para compreender esse desafio: “o nosso crescimento pessoal e o nosso bem-estar psicológico dependerão sempre da nossa capacidade de iluminar essas sombras.”

Agora um pensamento meu.

Lembremos do ano de 2018 no campo político. Não digo sobre aqueles que estavam tentando nos representar, mas sim dos eleitores em sua maioria e a intolerância que os acometeu. As discussões infundadas, a falta de diálogo, amizades acabando e até famílias entrando em colapso por opiniões divergentes. A polarização que tomou conta dos grupos sociais, das redes sociais (principalmente) e a falta de seriedade que tudo isso levou àqueles que não se sentiam representados por nenhum dos lados.

O teor cômico de toda a “filosofada” sobre a música “Forty Six & 2” é justamente o contraposto em que vivemos atualmente: o retrocesso. Como admitir que a vida humana possa passar para um degrau de lucidez muito mais evoluído que o atual, que compreende uma realidade além do que possamos imaginar, sendo que não somos capazes nem de encarar a diferença, sendo um todo, como realidade?

O próprio Maynard, de forma brilhante, nos toca na ferida em “Right In Two”, quando escreve que anjos estão nos assistindo perplexos e confusos, questionando-se como que o Pai concebeu a nós, macacos estúpidos, o livre arbítrio e a razão e preferimos a guerra/força para resolver nossos obstáculos, mesmo nas situações mais simples. Leia:

“Anjos na platéia intrigados e fascinados. Por que o Pai deu a estes humanos livre arbítrio? Agora eles estão todos confusos. Estes macacos falantes não sabem que o Éden tem o suficiente para viver? Há abundância neste jardim sagrado, macacos tolos.

Anjos na platéia perplexos e confusos. O Pai os abençoou com a razão e é isso o que eles escolheram? Macacos matando macacos, matando macacos por pedaços da terra. Macacos tolos, dê-lhes polegares e eles forjam uma lâmina.

Lutam até morrer pela terra, pelo céu, eles lutam pela luz, pela guerra, pelo paraíso. Deitam sobre o amor, sobre o sol, sobre o sangue. Eles lutam até morrer pelas palavras, polarizando…”

Usar a palavra “cômico” é apenas uma válvula de escape para aliviar a tensão, pois a realidade é trágica mesmo. Seres tão evoluídos como os seres humanos (lembra a ironia alguns parágrafos atrás?) não conseguem aceitar diferenças e compreender que mentalidades distintas são o que agregam para o próprio engrandecimento. E tenha certeza, eu, você e todos nós estamos nesse grupo.

Para finalizar, um pedido: ouças as músicas, leia suas letras e tire as conclusões por si mesmo. Ainda acredito que, ao final de tudo, não somente a música, mas a arte como um todo, é o melhor caminhão para a nossa evolução.

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Notas de cotidiano


(Crônica feita para o blog da Immagine e que foi ao ar hoje. Link aqui.)

Há algumas semanas, viajei para São Paulo a trabalho. Fiquei cinco dias lá, em meio a horas de trânsito, vários pedestres com semblantes sérios, bem vestidos, fumantes, clima instável, treinamentos e muito, muito barulho. Uma correria pura. Levei comigo um bloco de anotações vermelho que uso como uma espécie de diário, onde anoto pensamentos variados do cotidiano. Durante a viagem, utilizei o termo “notas” para referir aos detalhes que observava e achava interessante. “Notas de Hotel”, “Notas de Aeroporto”, “Rápidas”, “De Rodoviária”, “Notas da Estrada”, enfim, o que aparecesse eu escrevia.

Escrevi sobre o meu medo de viajar de avião (ainda mais com muita chuva e neblina lá em Barreiras); sobre o tédio no aeroporto após o vôo atrasar e, posteriormente, ser cancelado; sobre a antipatia de certos atendentes; filosofias de estrada como “o céu parece mais escuro quando se está longe de casa”; sobre a saudade da esposa; sobre conexões sem fio (se a conexão é sem fio, desconfio); e a minha preferida, que anotei depois de pagar exatos SETE REAIS por uma garrafa de água mineral: “algumas águas são melhores que outras”.

Alguns dias depois do acidente que minha mãe sofreu, folheei uma agenda que ela possuía, novinha em folha. Na página datada em 27/01, dia em que ela iria embora, ela anotou: “Voltando para casa”. Ela parou antes da metade do caminho. Desafiei-me a fazer o mesmo. No dia de voltar para LEM, escrevi como nota de hotel: “Voltando para casa”. Venci o desafio.

Alexander Supertramp, o rapaz aventureiro de “Na Natureza Selvagem” diz no filme (digo no filme porque não lembro se tal frase aparece no livro): “O espírito da vida humana vem de novas experiências”. Ou algo do tipo. Viajar é uma ótima experiência, mas melhor ainda é chegar em casa. Já a morte, não, mas tiram-se lições valiosas.

Por isso, como nota de hotel, escrevi (em inglês, porque achei que ficaria mais bonito): “there’s no place like home”. Esse texto poderia também servir como nota. O chamaria de Nota do Cotidiano. Ou Filosofia Barata do Dia-a-Dia. Fique à vontade para escolher.

 

Crônicas

Gravidade

(Meu mais recente texto publicado no blog da Immagine. Link aqui.)

Há algumas semanas, o American Park se despediu de LEM e foi levar sua diversão para outra cidade. Com isso, aquela praça dos três poderes voltou ao seu marasmo habitual. Agora, bate uma tristeza passar pela rotatória da mesma, ao lembrar os bons momentos.

Foi a primeira vez que fui a um parque e participei das atrações. Gostei tanto que, ao todo, fui quatro vezes. A sensação de desafiar o medo da morte, do desconhecido e a gravidade me fez muito bem, algo que não sentia há bastante tempo.

É incrível como nosso cérebro resolve travar batalhas contra nós mesmos nesses momentos de apreensão. Ao trancar o banco de um brinquedo giratório que, como um pêndulo, balança a uma altura muito, mas muito alta, os pensamentos que invadiam minha mente eram os piores possíveis. “Isso vai cair igual naquele filme” ou “meu banco vai se abrir e vai acontecer uma tragédia”, e só piorava. Porém, ao repetir o brinquedo mais duas, três vezes, o medo dava lugar à euforia, à sensação de sentir-se vivo. Foi aí que eu compreendi que sentir medo é se sentir vivo e que é preciso encarar o desconhecido.

Posso levar isso para muitas situações da minha vida, e vou além: muitos dos meus erros ou falhas se derivam de não encarar o desconhecido. No campo da escrita é o exemplo mais claro. Muitas idéias que tenho poderiam ser mais bem desenvolvidas (muitas delas não chegam nem ao papel) justamente por não colocá-las em prática e trabalhar para torná-las algo concreto. Mas o fato de elas serem tão boas no campo da IDEIA me causa receio em colocá-las no campo do MATERIAL, por medo de não conseguir desenvolvê-la o suficiente. Ou seja, falta encarar o desconhecido.

Esse assunto mesmo permaneceu no campo da IDEIA por muito tempo e só agora resolvi desenvolvê-lo.

Foi preciso me arriscar contra a gravidade, sentir muito medo para aprender a encarar o desconhecido. Agora, só falta colocar em prática. Mas isso eu deixo para uma próxima hora.

A princípio, sigo como Maynard James Keenan: eu escolho viver.