Crônicas · Língua Presa · Música

46 + 2

(Meu texto mais recente para o site da Immagine. Link direto aqui.)

Antes do texto, um aviso: é preciso estar com a mente aberta para o que vem a seguir. Transitar entre o submundo da nossa consciência é como uma viagem sem volta. É compreensível não acreditar, e também creio ser humanamente impossível atingir tal teoria na prática. Porém, é como Eduardo Galeano diz sobre crer nas utopias: elas são impossíveis de se alcançar, mas, ao menos, nos fazem segui-las.

“Forty Six & 2” é a canção número 5 de Ænima, segundo disco do Tool, lançado em 1996. Sem dúvidas, uma das mais enigmáticas e discutidas do grupo, muito em virtude do enorme talento de Maynard J. Keenan com as palavras e de sua inteligência. É uma mescla de teorias com experiências pessoais que, em um todo, nos permite várias possibilidades de interpretação. Trago hoje a mais conhecida (e discutida) entre os admiradores e questionadores da banda.

Em resumo, dois conceitos servem como base: o Arquétipo da Sombra, de Carl Jung, e a teoria dos dois cromossomos extras, que foi mais bem desenvolvida pelo metafísico Drunvalo Melchizedek. Comecemos por essa.

O título da música refere-se a uma possível composição de cromossomos que os seres humanos podem atingir. Segundo Melchizedek, são três os conjuntos existentes na Terra. O primeiro possui a composição 42+2, sendo que “+2” são os cromossomos sexuais, x ou y. Esse primeiro grupo compreende a sua existência como uma única consciência, uma única realidade, ou seja, nada mais além do que os próprios olhos alcançam. Não há distinção de espécies ou organismos, tudo compreende uma única conexão. Povos ancestrais como os aborígenes australianos e algumas tribos africanas fariam parte desse conjunto. Até algumas tribos indígenas brasileiras entrariam nesse grupo.

O próximo passo “evolutivo” é composto por 44 cromossomos (sem esquecer os dois sexuais), e é onde nós estamos. – Note o “evolutivo” entre aspas como uma ironia. – O estado atual do ser humano é entendido como consciências individuais, cada qual compreendendo a própria visão de realidade. Não há a noção de vida como um todo, e sim cada ser entendendo-a e agindo conforme a própria percepção. Esse conglomerado de seres é visto apenas como um degrau para o estágio maior.

Portanto, mais dois cromossomos e chegamos ao estado evolutivo de máximo alcance, o 46+2. Esse nível de consciência admite o ser como uma ponte entre o divino e o material. Um único corpo, porém detentor de várias consciências diferentes, tornando-se onipresente, capaz de sentir, presenciar e agir em várias realidades ao mesmo tempo. Palavras do próprio Drunvalo:

“Toda célula em seu corpo tem sua própria consciência e memória. Você, o ser maior que o ocupa, faz as milhares consciências diferentes trabalharem juntas em apenas um ser. Ainda teremos consciência individual, mas elas estarão unidas na forma de uma existência superior, trabalhando como uma entidade.”

Dessa forma, o ser humano atingiria o pico da evolução mental, que se comparado a termos religiosos, seria o mesmo que tornar-se um deus ou Cristo. Porém, não é somente subir degrau por degrau até o topo da pirâmide. Na canção, para chegar ao estado de plenitude de consciência, é necessário encarar um grande obstáculo: o seu eu mais profundo e obscuro. A sua sombra e a teoria do Arquétipo, segundo Carl Jung.

A idéia de Jung é que todos os seres humanos possuem um submundo em seu inconsciente, um oceano profundo onde habitam os seus medos, repressões, fracassos, pensamentos inadequados, sonhos não-realizados, enfim, uma gama de sentimentos e instintos julgados como incorretos perante o convívio social. Essa é a chamada Sombra Pessoal.

Um segundo arquétipo é identificado em casos ainda mais obscuros, chamado Sombra Impessoal, que envolve psicopatas, genocidas, assassinos, ou seja, mentes que são essencialmente malignas.

O momento em que Jung e Melchizedek se cruzam em “Forty Six & 2” é na transição de estado consciente. Para chegar ao nível mais avançado, é necessário enfrentar a sua própria sombra, e não escondê-la ainda mais em seu interior. Deixar de lado os personagens sociais criados para uma melhor aceitação perante a sociedade e não ter medo de ser o que você é. Ao confrontar a sua sombra e tirá-la das profundezas de seu inconsciente, o indivíduo aceita-se de forma plena. Com isso, a sombra irá mover-se para o lado consciente, o que possibilita desafiá-la face a face e integrá-la em seu dia-a-dia. Leia esse trecho:

“Eu escolho viver e crescer, tomar e doar e mover, aprender, amar e chorar, matar e morrer, ser paranóico e mentir, odiar e temer, fazer o que for preciso para sobreviver. Eu escolho viver e mentir, matar e doar e morrer, aprender, amar, fazer o que for preciso para atravessar

Veja minha sombra mudando, alongando-se sobre mim. Suavizo esta velha armadura esperando que eu possa limpar o caminho. Atravessando minha sombra e saindo do outro lado. Adentre a sombra! 46 & 2 estão logo à minha frente!”

Caso contrário, reprimir a sua sombra irá fortalecê-la ao ponto de roubar o seu próprio equilíbrio. Um artigo no site A Mente É Maravilhosa chamado “Arquétipo da sombra: o lado escuro da nossa psique” possui um trecho fundamental para compreender esse desafio: “o nosso crescimento pessoal e o nosso bem-estar psicológico dependerão sempre da nossa capacidade de iluminar essas sombras.”

Agora um pensamento meu.

Lembremos do ano de 2018 no campo político. Não digo sobre aqueles que estavam tentando nos representar, mas sim dos eleitores em sua maioria e a intolerância que os acometeu. As discussões infundadas, a falta de diálogo, amizades acabando e até famílias entrando em colapso por opiniões divergentes. A polarização que tomou conta dos grupos sociais, das redes sociais (principalmente) e a falta de seriedade que tudo isso levou àqueles que não se sentiam representados por nenhum dos lados.

O teor cômico de toda a “filosofada” sobre a música “Forty Six & 2” é justamente o contraposto em que vivemos atualmente: o retrocesso. Como admitir que a vida humana possa passar para um degrau de lucidez muito mais evoluído que o atual, que compreende uma realidade além do que possamos imaginar, sendo que não somos capazes nem de encarar a diferença, sendo um todo, como realidade?

O próprio Maynard, de forma brilhante, nos toca na ferida em “Right In Two”, quando escreve que anjos estão nos assistindo perplexos e confusos, questionando-se como que o Pai concebeu a nós, macacos estúpidos, o livre arbítrio e a razão e preferimos a guerra/força para resolver nossos obstáculos, mesmo nas situações mais simples. Leia:

“Anjos na platéia intrigados e fascinados. Por que o Pai deu a estes humanos livre arbítrio? Agora eles estão todos confusos. Estes macacos falantes não sabem que o Éden tem o suficiente para viver? Há abundância neste jardim sagrado, macacos tolos.

Anjos na platéia perplexos e confusos. O Pai os abençoou com a razão e é isso o que eles escolheram? Macacos matando macacos, matando macacos por pedaços da terra. Macacos tolos, dê-lhes polegares e eles forjam uma lâmina.

Lutam até morrer pela terra, pelo céu, eles lutam pela luz, pela guerra, pelo paraíso. Deitam sobre o amor, sobre o sol, sobre o sangue. Eles lutam até morrer pelas palavras, polarizando…”

Usar a palavra “cômico” é apenas uma válvula de escape para aliviar a tensão, pois a realidade é trágica mesmo. Seres tão evoluídos como os seres humanos (lembra a ironia alguns parágrafos atrás?) não conseguem aceitar diferenças e compreender que mentalidades distintas são o que agregam para o próprio engrandecimento. E tenha certeza, eu, você e todos nós estamos nesse grupo.

Para finalizar, um pedido: ouças as músicas, leia suas letras e tire as conclusões por si mesmo. Ainda acredito que, ao final de tudo, não somente a música, mas a arte como um todo, é o melhor caminhão para a nossa evolução.

Crônicas · Língua Presa

Notas de cotidiano


(Crônica feita para o blog da Immagine e que foi ao ar hoje. Link aqui.)

Há algumas semanas, viajei para São Paulo a trabalho. Fiquei cinco dias lá, em meio a horas de trânsito, vários pedestres com semblantes sérios, bem vestidos, fumantes, clima instável, treinamentos e muito, muito barulho. Uma correria pura. Levei comigo um bloco de anotações vermelho que uso como uma espécie de diário, onde anoto pensamentos variados do cotidiano. Durante a viagem, utilizei o termo “notas” para referir aos detalhes que observava e achava interessante. “Notas de Hotel”, “Notas de Aeroporto”, “Rápidas”, “De Rodoviária”, “Notas da Estrada”, enfim, o que aparecesse eu escrevia.

Escrevi sobre o meu medo de viajar de avião (ainda mais com muita chuva e neblina lá em Barreiras); sobre o tédio no aeroporto após o vôo atrasar e, posteriormente, ser cancelado; sobre a antipatia de certos atendentes; filosofias de estrada como “o céu parece mais escuro quando se está longe de casa”; sobre a saudade da esposa; sobre conexões sem fio (se a conexão é sem fio, desconfio); e a minha preferida, que anotei depois de pagar exatos SETE REAIS por uma garrafa de água mineral: “algumas águas são melhores que outras”.

Alguns dias depois do acidente que minha mãe sofreu, folheei uma agenda que ela possuía, novinha em folha. Na página datada em 27/01, dia em que ela iria embora, ela anotou: “Voltando para casa”. Ela parou antes da metade do caminho. Desafiei-me a fazer o mesmo. No dia de voltar para LEM, escrevi como nota de hotel: “Voltando para casa”. Venci o desafio.

Alexander Supertramp, o rapaz aventureiro de “Na Natureza Selvagem” diz no filme (digo no filme porque não lembro se tal frase aparece no livro): “O espírito da vida humana vem de novas experiências”. Ou algo do tipo. Viajar é uma ótima experiência, mas melhor ainda é chegar em casa. Já a morte, não, mas tiram-se lições valiosas.

Por isso, como nota de hotel, escrevi (em inglês, porque achei que ficaria mais bonito): “there’s no place like home”. Esse texto poderia também servir como nota. O chamaria de Nota do Cotidiano. Ou Filosofia Barata do Dia-a-Dia. Fique à vontade para escolher.

 

Crônicas

Gravidade

(Meu mais recente texto publicado no blog da Immagine. Link aqui.)

Há algumas semanas, o American Park se despediu de LEM e foi levar sua diversão para outra cidade. Com isso, aquela praça dos três poderes voltou ao seu marasmo habitual. Agora, bate uma tristeza passar pela rotatória da mesma, ao lembrar os bons momentos.

Foi a primeira vez que fui a um parque e participei das atrações. Gostei tanto que, ao todo, fui quatro vezes. A sensação de desafiar o medo da morte, do desconhecido e a gravidade me fez muito bem, algo que não sentia há bastante tempo.

É incrível como nosso cérebro resolve travar batalhas contra nós mesmos nesses momentos de apreensão. Ao trancar o banco de um brinquedo giratório que, como um pêndulo, balança a uma altura muito, mas muito alta, os pensamentos que invadiam minha mente eram os piores possíveis. “Isso vai cair igual naquele filme” ou “meu banco vai se abrir e vai acontecer uma tragédia”, e só piorava. Porém, ao repetir o brinquedo mais duas, três vezes, o medo dava lugar à euforia, à sensação de sentir-se vivo. Foi aí que eu compreendi que sentir medo é se sentir vivo e que é preciso encarar o desconhecido.

Posso levar isso para muitas situações da minha vida, e vou além: muitos dos meus erros ou falhas se derivam de não encarar o desconhecido. No campo da escrita é o exemplo mais claro. Muitas idéias que tenho poderiam ser mais bem desenvolvidas (muitas delas não chegam nem ao papel) justamente por não colocá-las em prática e trabalhar para torná-las algo concreto. Mas o fato de elas serem tão boas no campo da IDEIA me causa receio em colocá-las no campo do MATERIAL, por medo de não conseguir desenvolvê-la o suficiente. Ou seja, falta encarar o desconhecido.

Esse assunto mesmo permaneceu no campo da IDEIA por muito tempo e só agora resolvi desenvolvê-lo.

Foi preciso me arriscar contra a gravidade, sentir muito medo para aprender a encarar o desconhecido. Agora, só falta colocar em prática. Mas isso eu deixo para uma próxima hora.

A princípio, sigo como Maynard James Keenan: eu escolho viver.

Crônicas · Música

Humanos

(Meu mais recente texto para o blog da Immagine. Link aqui.)

Foi na casa de um antigo amigo, Thiago “Bola”, que ouvi o Gorillaz pela primeira vez. Fiquei encantado ao ver uma “banda de desenho” tocando uma música tão interessante. Era “Feel Good Inc.”. Pelos meus cálculos, que não estão muito certeiros, era 2005… Acho que está certo, pois um ano depois foi a primeira vez que vim para LEM e lembro perfeitamente de uma coletânea lançada pela Som Livre, chamada Top Hits TVZ 2, em que uma das bandas que passavam na propaganda era justamente o Gorillaz, com “Kids With Guns”, o que, mais tarde, eu achei estranho, pois o trecho do vídeo que passou no anúncio não era dessa  música.

Esse foi o ponto de partida para eu ir atrás de mais músicas da banda, pesquisar sua história, seus criadores e tudo mais. Encantou-me o fato de que um de seus criadores era Damon Albarn, vocalista e líder do Blur (já falei sobre eles aqui e aqui), uma das minhas bandas favoritas. Nessa época em que os conheci, o segundo disco deles, Demon Days, havia sido lançado e estava fazendo bastante sucesso. Canções como “El Mañana” e “O Green World” estiveram presentes em várias das minhas playlists, além das duas citadas acima. “Dare” foi outra que ouvi bastante.

Alguns anos se passaram e, novamente sem querer, descobri que eles haviam lançado mais um trabalho, e que me carimbou oficialmente como admirador da banda: “Plastic Beach”. Recheado de participações especiais, como os gigantes do rap Snoop Dog, Mos Def e De La Soul, até ícones como Lou Reed, esse disco me pegou em cheio. A primeira que ouvi foi “On Melancholy Hill”, cujo videoclipe é muito legal. O que falar então de “Stylo”, que tem até Bruce Willis perseguindo a banda no meio do deserto? É uma música melhor que a outra.

Depois de “Plastic Beach”, saíram mais três: “The Fall”, de 2010; “Humanz”, de 2017; e “The NowNow”, desse ano. Os dois mais recentes, inclusive, estão baixados no meu Spotify há umas três semanas (ou mais), mas não os ouvi ainda. Tenho uma “coisa” com lançamentos, não consigo ouvi-los quando ainda estão recentes. Tenho medo, creio eu, de me decepcionar. Ainda mais nesse caso, onde tenho como base o “Plastic Beach”, cujo nível é altíssimo.

Deixo abaixo duas músicas de cada disco (dos que ouvi) para vocês apreciarem. E sobre o meu amigo que cito no início do texto, não nos vemos e nem nos falamos há anos. Coisa de humanos.

Crônicas · Música

Êxtase

Não me lembro a data certa, mas sei que era uma sexta à noite, por volta das 23 horas. Estávamos voltando para casa, eu e Denise, ouvindo um daqueles programas flashback no rádio. Começou a tocar uma canção desconhecida. Estávamos em silêncio, e o rádio, bem baixo. Mesmo assim, deu para ouvir os primeiros segundos da música e me pareceu bem interessante. Eu conhecia aquela voz. Aumentei o volume para identificar e saquei na hora: era Guilherme Arantes. Meu pai era muito fã dele.

Aumentei um pouco mais para ouvi-la melhor. Os versos agora estavam mais claros. Era uma canção de amor. Muito bonita, por sinal. Bem escrita, frases e rimas bem construídas, uma sonoridade diferente do que costumo ouvir. Parece que foi feita especialmente para aquele momento.

Gravei um dos versos na memória para procurar seu nome na internet quando chegasse em casa. Era “eu nem sonhava te amar desse jeito”, que se repetia várias vezes ao final da música. Só reforçou ainda mais o sentimento de que a canção foi feita realmente para a situação em que estávamos passando ali, naquele trajeto. Descobri seu nome. “Êxtase”.

Ir do centro até nossa casa leva cerca de dez minutos. Se não me falha a memória, foram dez minutos de silêncio. A canção, que tem pouco mais de cinco de duração, levou a metade do tempo. O restante foi tomado pelo êxtase.

Êxtase esse que nunca mais passou. Nunca mais esqueci aquela música, e nunca me esquecerei daquele momento.

Crônicas · Música

Aniversário

10 de maio. Dia da prisão de Tiradentes no Rio de Janeiro. Dia do encerramento das atividades da Rede Manchete. Dia em que Luis XVI tornou-se Rei da França. Dia em que Churchill foi nomeado primeiro-ministro britânico. Dia da primeira publicação do Hulk pela Marvel Comics. Dia de São Damião de Veuster e São João de Ávila. Dia em que, dependendo do ano, é Dia das Mães. Também é dia do nascimento de Diego Tardelli, um dos ícones da atual fase vencedora do Atlético Mineiro, nosso Galão da Massa, e que nos trouxe a tão sonhada Taça da Libertadores, bem como de Jair Bala, ídolo do nosso rival América Mineiro. Também nasceram nesse dia: Bono Vox, Dennis Bergkamp, Sid Vicious, Vanderlei Luxemburgo… E eu.

Meus aniversários quase nunca passaram em branco. Nos primeiros anos de vida, foram as festinhas na escola. Na infância, em casa mesmo, só com os amigos da rua. Na adolescência em diante, fui perdendo o ânimo para comemorar. Não que eu tenha me tornado o “chato que nunca comemora nada”, mas perdi a graça. Mesmo assim, era lembrado. A reunião passou a ser mais reclusa: eu, minha mãe e meu pai. Um bolo, alguns salgadinhos e bebidas. Depois de um tempo, só eu e minha mãe.

Quando mudei para LEM, era sempre na casa da minha tia. Mais recentemente, depois que conheci Denise, sempre teve algo diferente. Tive minha primeira festa surpresa, depois tive mais uma. Por último, ganhei um bolo do LULA que, incrivelmente, estava delicioso. O próximo, agora, será o primeiro sem minha mãe.

Por esse motivo, me identifico bastante com a noção de “aniversário” que Damon Albarn retrata na canção “Birthday”, presente no disco de estréia do Blur, o “Leisure”, lançado em 1991. Uma espécie de desânimo total em relação à data que, conforme a letra, nada mais é do que um “dia patético”. Pode até ser que seja, mas a tradição de tornar marcante o dia em que nascemos nos faz, mesmo que inconscientemente, esperar algo de diferente, que não aconteceria em um dia comum.

Porém, eu, que não seria nada sem meus infindáveis questionamentos, pergunto: por que não tornar os dias comuns tão interessantes quanto os nossos aniversários? Isso me remete à fantasia dos tempos de fim de ano, carnaval e outras datas, em que fazemos de tudo para aproveitar melhor o dia, as pessoas, mas que, quando acaba, tudo volta ao marasmo da nossa rotina. Pergunto isso porque, assim como muitas pessoas, também só fico no questionamento. Sem ação.

Mas por acaso ou por esforço nosso, alguns dias comuns se parecem com um aniversário, e tem alguns aniversários que mais parecem um dia comum. Mas também tem aqueles aniversários que REALMENTE se parecem com um aniversário, e dias comuns que nada mais são do que dias comuns. Tudo depende… Da gente.

Para hoje, dia 10, meu aniversário, considerando somente trechos da canção citada, a que mais se assemelha com o que sinto agora seria: “I-think-of-you Day” (Dia de pensar em você).

“It’s my birthday.
No one here day.
Very strange day.
I-think-of-you day.

Go outside day.
Sit in park day.
Watch the sky day.
What a pathetic day.

I don’t like this day,
It makes me feel too small.

I don’t like these days,
They make me feel too small.”

Crônicas · Música

Uma coisa chamada exilado

(Texto que estava na gaveta há muito tempo e que, finalmente, resolvi terminar. Foi publicado no blog da Immagine na última sexta-feira. Link aqui.)

“E assim foi o ano de 1970: o Brasil virou tricampeão mundial e mesmo sem querer e nem entender direito, eu acabei virando uma coisa chamada exilado. Eu acho que exilado quer dizer ter um pai tão atrasado, mas tão atrasado, que nunca mais volta pra casa.”

Essa é a última fala de Mauro, personagem principal do filme “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias”, dirigido por Cao Hamburger e lançado em 2007. O filme se passa na época do regime militar e conta a história de um menino apaixonado por futebol que é levado para a casa do avô em São Paulo, enquanto seus pais “saem de férias” por tempo indeterminado. Boa parte do filme mostra o choque de realidade de Mauro que tenta, aos poucos, aceitar e seguir em frente com a sua nova vida, se adaptando à nova cidade e às pessoas que passam a fazer parte de seu cotidiano, ao mesmo tempo em que busca respostas para o paradeiro de seus pais.

46 anos antes (e no mundo real), um artista brasileiro, que se encontrava praticamente na mesma situação do garoto Mauro, lançava o seu trabalho de maior destaque. “Transa”, de Caetano Veloso, tornou-se um marco na história da música nacional, atravessando barreiras tanto de idiomas quanto de musicalidade, expondo uma pessoa que sofria para buscar a sua identidade, ao mesmo tempo em que aceitava a sua condição de isolamento em relação à sua terra natal.

O “Caetano Exilado” já havia lançado um belo álbum autointitulado em 1971, marcado, principalmente, por canções calmas e melancólicas, que apontavam claramente para as feridas deixadas pela saudade do Brasil. Um ano depois, em “Transa”, o artista já estava mais maduro e, segundo o próprio, já começava a gostar de Londres e descobrir o que de melhor a capital inglesa poderia oferecer. Em seus passeios por Portobello Road, por exemplo, conheceu o reggae jamaicano e dessa experiência saiu a canção “Nine Out of Ten”, considerada a “entrada oficial” do reggae na música popular brasileira.

“I’m alive, vivo, muito vivo, vivo, vivo,
Feel the sound of music banging in my belly, belly, belly.
Know that one day I must die,
I’m alive.”

Gravado praticamente ao vivo e com apenas 7 faixas, o álbum traz uma forte mistura de idiomas e ritmos, indo do baião ao rock ‘n’ roll clássico, da poesia barroca brasileira ao inglês com sotaque nordestino, sem perder a elegância e a sutileza.

Prova maior disso é “Triste Bahia”, canção mais longa do disco. Caetano a inicia declamando versos do poeta Gregório de Matos, acompanhado por um dedilhado de violão “à la bossa nova” e, ao fundo, a percussão vai se incorporando até tomar conta de vez da canção, em uma crescente alucinante ao torno dos 9 minutos de duração. O casamento quase perfeito entre a música brasileira com ritmos africanos.

“Triste Bahia, oh, quão dessemelhante!
A ti tocou-te a máquina mercante.
Quem tua larga barra tem entrado,
A mim vem me trocando e tem trocado.
Tanto negócio e tanto negociante…”

Outras canções também se destacam no decorrer do trabalho, como a bela “Mora Na Filosofia” e a bilíngüe “It’s A Long Way”, ambas com arranjos muito bem estruturados que conseguem transitar facilmente entre a cultura pop e o experimentalismo natural das obras de Caetano Veloso.

“Se seu corpo ficasse marcado
Por lábios ou mãos carinhosas
Eu saberia, ora vai mulher,
A quantos você pertencia.
Não vou me preocupar em ver,
Seu caso não é de ver pra crer.
Ta na cara!”

 “Arrenego de quem diz
Que o nosso amor se acabou.
Ele agora está mais firme
Do que quando começou.” 

 Em entrevista ao portal “Gaúcha ZH”, Caetano afirma que havia a possibilidade de sua carreira decolar na terra da rainha, mas que não pensou duas vezes em voltar ao Brasil no instante em que teve a chance. O que parecia uma loucura, acabou tornando-se uma decisão acertada e toda a história dos bastidores só engrandece ainda mais a importância de “Transa” em sua vida.

Crônicas · Música

27 anos de “Spiderland”

No dia 27 de março de 1991 era lançado “Spiderland”, segundo e último disco de estúdio do Slint. Fundamental para a construção daquilo que conhecemos atualmente como post-rock (e seus derivados), “Spiderland” foi mais um trabalho que ficou ofuscado com o estrondoso sucesso do “Nevermind”. Porém, com o passar dos anos, sua influência foi se tornando cada vez maior até atingir a mística cult por parte dos fãs e da crítica. Atualmente, não temo em dizer que o álbum já é considerado um clássico moderno.

Com quase 40 minutos de duração e distribuído em 6 faixas, o ouvinte se depara com um ambiente claustrofóbico e que, em partes, torna-se absurdamente barulhento. Os vocais, que alternam entre sussurros, declamações e gritos, são os fatores que mais chamam atenção. Mesmo com um instrumental extremamente preciso, como se todos os acordes e riffs fossem milimetricamente criados, a voz de Brian McMahan não se deixa levar e ali, à deriva, conta a história de cada canção. Nas primeiras audições, confesso que fiquei incomodado com esse detalhe, até conseguir perceber a beleza nesse aspecto proposital e que torna o disco tão marcante.

Não é nenhum exagero dizer que certas explosões sonoras causam sustos e desespero, vide o final épico de “Good Morning, Captain”, canção que encerra o trabalho. Até o momento de mais “tranquilidade” do disco, em “Don, Aman”, é capaz de trazer um desconforto graças a sua atmosfera cinzenta, digna de um filme de terror.

Como já disse antes, “Spiderland” pode trazer doses de desconforto a um ouvinte iniciante, mas não desista na primeira audição. Com o passar do tempo, fica mais fácil compreender e enxergar a beleza melancólica que esse trabalho icônico oferece. Mesmo 27 anos depois de seu lançamento, “Spiderland” permanece tão atual quanto aqueles que ele influenciou.

Crônicas

Olhos Iguais Aos Seus

(Texto que escrevi para o blog da Immagine no dia 18 de abril de 2007. Link aqui.)

A vida moderna está cada vez mais estressante. Horários, limites, metas e outros inúmeros fatores mascaram a nossa liberdade e pela falta de tempo, não pensamos nisso. Deixamos passar vários detalhes despercebidos, cegos pela correria do cotidiano e, de certa forma, nos tornamos apenas mais um na multidão, como Humberto Gessinger canta em “Olhos Iguais Aos Seus”, canção lançada em 1990 no clássico disco O Papa É Pop:

“Você olha ao seu redor e acha melhor parar de olhar. São olhos iguais aos seus, iguais ao céu ao seu redor.”

 

O olhar pode ser considerado uma voz para o silêncio, uma forma de se comunicar quando palavras não são o bastante. Tem olhares que nos engrandecem, enquanto outros nos derrubam. Alguns são questionadores, e outros só aumentam as dúvidas. Um certo olhar pode mudar a rota da viagem, o rumo de um planejamento, uma intenção a mais ou até a falta dela. Um olhar apaixonado salva o dia de alguém, enquanto um olhar de tristeza procura alguém que o faça.

A percepção do stress na vida moderna é bem clara no trânsito. Precisamos correr para chegar logo em casa, para não nos atrasarmos no trabalho, para passar naquele sinal ou, simplesmente, ser mais rápido do que aquele carro logo à frente, No caminho, lombadas, placas, nervosismo, freia, acelera, freia novamente, engarrafamentos, cruzamentos, etc.

Certo dia (já estressado) peguei a marginal ao lado da BR e transitava rumo à minha casa quando um olhar veio bem na minha direção, como uma flecha. E aquele olhar me pegou de jeito. Nesse instante, o detalhe não passou despercebido. Não dessa vez. Não sei se era um pedido de ajuda ou apenas cansaço. Jamais saberei. Aquele olhar, durante alguns segundos, serviu para me mostrar que, na maioria das vezes, reclamamos de barriga cheia.

Crônicas · Música

O acaso mora ao lado

(Texto que fiz para o blog da Immagine após um show do Dance of Days em Barreiras, Bahia, no dia 27 de agosto de 2016. Foi ao ar no dia 26 de outubro do mesmo ano. Link aqui.)

No dia 27 de agosto, fomos a Barreiras curtir o show de uma das mais bem-sucedidas bandas do underground brasileiro: a Dance of Days. Com 19 anos de estrada, eles eram aguardados com muita ansiedade e alegria pelos poucos fãs presentes no local do evento. Apesar do baixo público, o show foi como esperávamos: pesado, agitado e barulhento. É bom ressaltar que fotografar uma das bandas mais respeitadas da música independente brasileira foi uma realização muito grande, e abaixo seguem alguns dos registros.

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Apesar de toda essa festa, o show não é o nosso assunto principal. Iremos falar sobre o acaso, o inesperado, e sobre como certas ocasiões podem marcar a nossa vida e ficarem guardadas em nossa memória. E, claro, com a ajuda da fotografia.

Enquanto aguardávamos na entrada, começamos a conversar com Thonny, um simpático segurança que estava na porta do local. Conversamos por um bom tempo, e todos os nossos assuntos envolviam música.

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Em certo momento, falávamos sobre a arrogância de certos artistas que, apesar de pouco tempo no ramo, já se comportam como deuses da música. Nesta hora, Thonny pegou seu celular e nos mostrou uma foto, dizendo: “Vocês conhecem esse cara aqui? Esse cara me disse ‘Thonny, traga amanhã uma foto da sua família, quero conhecê-la’”. O “cara” da foto era Paul McCartney.

A Great Honnor

Ficamos surpresos, sem reação. Em seguida, Thonny começou a nos contar a sua história, e ouvimos atentamente. Em 1988 (na época, era policial militar), ao ser visto conversando em inglês com um turista na Passarela do Samba, no Rio de Janeiro, foi convidado por um policial civil para trabalhar com segurança de estrangeiros. Sua empresa cobria eventos de grande porte, fato que o proporcionou a chance de trabalhar com artistas lendários, como Paul McCartney, Sting, Ozzy Osbourne, Kurt Cobain, entre outros. As fotos abaixo foram gentilmente cedidas pelo próprio Thonny, através do whatsapp.

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Perguntamos a ele qual foi o momento mais marcante de sua carreira, e ele nos disse:

“Momento mais marcante fica difícil dizer qual, mas um bastante interessante foi dirigir para PAUL MCCARTNEY, e ele sentar no banco do carona e começar a conversar comigo, perguntando coisas de minha vida, tipo onde eu morava, se era casado, quantos filhos… E o mais interessante, se eu tinha foto dos meus filhos comigo, depois ele abriu sua carteira e me mostrou a de seus filhos. No dia seguinte, ele me cobrou a foto de minha família, mulher e filhos. E depois, no final do trabalho, quando ele já estava dentro do avião quase partindo, me chamou para tirarmos uma foto juntos, eu, ele e a família. Ele juntou todo o dinheiro brasileiro, de todos da equipe dele, e me deu dizendo que não era para pagar o meu trabalho, e sim para que eu comprasse presentes para meus filhos em nome dele.”

A frase acima foi enviada pelo Whatsapp especialmente para o blog, e por si só já nos deixou arrepiada. Porém, o ouvir falar sobre esse acontecimento no dia do show foi ainda mais emocionante, algo surreal. A maneira como ele detalhava as situações, e o nível de intimidade que ele adquiriu com Paul nos deixou totalmente surpresos. Foi gratificante ouvir e saber que um dos maiores artistas de todos os tempos era uma pessoa extremamente humilde e simpática.

E Thonny continuou a nos contar mais histórias. Cada nova foto que víamos nos causava uma explosão de sensações, como se não acreditássemos que aquilo estava mesmo acontecendo.

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Outro trecho da conversa que causou muita comoção foi quando Thonny contou sobre o seu trabalho com Kurt Cobain, ex-líder do Nirvana, quando a banda veio ao Brasil para dois shows. Ao explicar os detalhes, Thonny nos contou o quão simples era Kurt, e como a fama o incomodava. Certa vez, Kurt perguntou a Thonny: “Hey Thonny, por que eu faço tanto sucesso, se existem artistas muito melhores do que eu?” Ao ouvir essas palavras, todos que participavam da conversa não disfarçaram a emoção. Sem falar na parte onde Kurt resolveu pular de asa delta de pijamas e calças rasgadas, que gerou risadas de todos nós.

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Depois de um longo tempo de conversa, nos despedimos de Thonny e adentramos ao local do evento. Mas confesso que poderíamos passar o resto da noite toda ali ouvindo suas histórias. É incrível como um momento que parecia ser tão comum, como esperar na porta de uma casa de shows, pudesse se transformar em algo magnífico. Naquela noite Thonny e suas histórias deixaram as nossas vidas mais brilhantes. Muito obrigado, Thonny, por ter tornado aquele dia marcante e inesquecível. Novamente a fotografia esteve presente em um momento especial. Esperamos reencontrá-lo para ouvir mais histórias. Na nossa dança de cada dia, o acaso é quem se destaca.