Crônicas · Língua Presa · Música

Dor

Aproveitando o gancho que o canal oficial do Nick Cave me deu ao subir no Youtube uma performance incrível de “Magneto”, vou finalizar esse rascunho que está há meses parado aqui no meus arquivos. Chama-se “Dor”.

Dor porque é através dela que, creio eu, os artistas tiram o melhor de seus talentos. Certa vez (isso tem anos), ao comentar com minha esposa que não conseguia escrever ou tocar quando estava triste, ela me deu esse soco na consciência:

-Bem, então você nunca irá gravar o seu melhor disco.

Posso citar Kurt Cobain, Elliott Smith, Damon Albarn e tantos outros que extraíram o pior de seus eus para criar obras incríveis, mas foi a perda de Nick Cave que me instigou a escrever esse texto.

Em julho de 2016, um de seus filhos, Arthur, então com 15 anos, caiu de um penhasco na Inglaterra e veio a óbito. Cave não concedeu nenhuma entrevista a respeito do ocorrido durante os dias de luto. Pelo contrário, respondeu todas suas perguntas em forma de música ao lançar Skeleton Tree no mesmo ano. E mesmo sem mencionar o acidente de forma direta nas letras, as referências são claras.

“Magneto” é a canção mais cortante do disco, daquelas em que o artista deixa seu coração totalmente exposto à quem quiser ver. Porém, toda a obra funciona como um cicatrizador para a ferida que dificilmente se fechará por completo.

Charles Bukowski escreveu em um poema sobre o que é ser um escritor, e para ele, as palavras devem sair até de suas entranhas, quase explodindo o seu interior. É como uma lava cutucando a borda de um vulcão, suplicando para encontrar a luz do dia.

Alguns músicos são verdadeiros escritores antes de serem, propriamente, músicos. Nick Cave é um deles. E meu favorito.

Crônicas · Língua Presa · Música

Radiohead e a Cidade

Era fim de tarde quando saí da barbearia e fui em direção ao carro para, enfim, tomar o rumo de casa. Ao ligá-lo, o som, em modo aleatório, escolheu uma canção curiosa para aquele momento: “No Surprises”, do Radiohead.

Repito, era fim de tarde. Carros e motos aglomeravam as ruas. Pessoas tomavam conta das calçadas. Na sorveteria, nas lojas de roupas, na fila do banco então, nem se fala. Celulares eram tocados em cada canto que os olhos pudessem alcançar, por crianças, idosos, se bobear, até pelos cachorros.

Na esquina, um playboy fechou um motoqueiro e a buzina se espalhou cidade afora. Adiante, um motorista resmungou ao parar na faixa de pedestres para uma mulher atravessar. Se fosse uma gostosona, pensei, ele não reclamaria. E sem falar nas bicicletas, que vão e vêm na contra-mão sem se importar com quem ou que irá atravessar em sua frente.

Enquanto isso, em meio ao caos do fim de tarde na selva de pedra, tudo o que Thom Yorke pedia à mim, quase uma súplica, era um pouco de silêncio.

Diversos · Língua Presa · Música · Quarta Parede

“Me Come, Elio”

Melhor do que o filme, somente o livro Me Chame Pelo Seu Nome, de André Aciman. A adaptação para os cinemas é bela, com uma trilha sonora tocante e a química entre os atores que interpretam Elio e Oliver causa arrepios ao espectador.

Mas o livro tem algo ainda mais forte: ele é intenso. Ele causa dor ao leitor. Ele nos coloca na vulnerabilidade de Elio. Nas suas dúvidas, nos seus anseios, nas suas saudades. Se o filme termina na despedida, o livro vai além. Aos rumos tomados, ao reencontro, ao fogo que ainda não se apagou.

Mesmo que a história de Elio e Oliver em um paraíso italiano se encaixe na prateleira de obra LGBT, Me Chame Pelo Seu Nome é muito mais do que isso. É sobre descoberta, é sobre quebrar a barreira de si mesmo, ir além da grade invisível que cerca o nosso ser.

É sobre amor. Sobre sentir. Sobre ser humano.

Crônicas · Diversos · Língua Presa

Vazio

Penso em festas, bares, reuniões, festivais, protestos, bolsas de valores, redações de jornais, tumultos, casamentos, eventos esportivos e os mais variados tipos de aglomerações, enquanto permaneço deitado nessa cama e a minha única companhia é um pequeno feixe de luz que adentra o quarto pelo furo da cortina, pensando o que estou fazendo com minha vida, observando ela se esvair com o vento que sopra a terra da rua lá fora.

Penso no trajeto percorrido nas noites solitárias de volta para casa, nas bitucas de cigarros jogadas pela janela do carro enquanto passeio pela cidade viva e fervente e meu reflexo no retrovisor me aconselha: não há conforto nesse mundo.

E cada bituca daqueles cigarros que joguei pela janela do carro espalham cidade afora um pouco de mim. Palavras que disse, palavras que não disse, beijos que dei, ideias que tive, cicatrizes da existência que permeiam as minhas veias e que agora estão escancaradas pelo asfalto. O meu “eu” mais particular aberto para quem quiser ver.

Mais tarde, após horas na penumbra, o renascimento. Um banho para lavar a alma. Junto à água e o shampoo que escorrem pelo meu corpo, vejo descer pelo ralo, também, um pouco de mim. Da minha pele, dos meus olhos, da minha boca e de toda a minha estrutura, um pouco vai embora junto às impurezas. Ao final, toda a escuridão se esvai, e sobra apenas o vazio.

(Escrevi esse texto três dias depois de passar horas deitado no meu quarto, em uma crise profunda de tristeza. A escrita salva vidas.)

Diversos · Língua Presa · Música

A Música Pop Perfeita

Já faz algum tempo que gostaria de deixar essa opinião registrada em algum lugar, e como o computador é o parceiro de escrita mais próximo, não há espaço melhor do que aqui. Então, vos digo:

In Between Days, do The Cure, é a música pop perfeita.

Os três minutos cravados de duração, a melodia alegre e dançante misturada à voz dramática de Robert Smith, o refrão de fácil coro e a letra que qualquer pessoa se identifica.

É como se fosse um ponto colorido em meio à discografia preto e cinza do The Cure.

Seja numa festa de apartamento, boate, casamento, karaokê ou qualquer outro tipo de manifestação. Ninguém fica parado ao som happy-sad de In Between Days.

Crônicas · Diversos · Língua Presa · Música

No Limite

Um curto relato.

Aula de Matemática II. Estava usando o kit antissocial na universidade: roupa toda preta, postura desengonçada e fones de ouvido. “Edge of the World”, do Faith No More, tocava no celular.

Presente no clássico The Real Thing (1989), a canção possui uma levada jazzística e a voz de Patton, afiadíssima, proclama os versos que soam como um ritual sedutor entre um homem mais velho e uma jovem e bela mulher.

É daquelas músicas em que não se ouve parado. O corpo, desobediente, balança, a cabeça rodopia, os dedos estalam e os pés tocam um bumbo imaginário. Nesse estado, saí da sala em completo transe musical e fui ao banheiro urinar (deixa eu manter o palavreado moderado).

O resultado da situação, deixo ao leitor que conclua.

Diversos · Garimpo · Língua Presa · Música

Criança de Domingo

Manguebeat. O termo que revitaliza a música brasileira dos anos noventa. Que leva mundo afora a originalidade tupiniquim, o Chico e sua Nação, Fred 04 e o seu Mundo Livre, passeando do underground ao sucesso.

Da ponte aérea SPxPE, conhecemos Criança de Domingo. Escrita por Cadão Volpato, ex-Fellini e que à época liderava o Funziona Senza Vapore (1992), a canção que faz parte do único disco do projeto chegou aos ouvidos de Chico Science por Stela Campos, uma das integrantes da banda. Chico gostou tanto que a regravou para o segundo disco da Nação Zumbi, Afrociberdelia, de 1996.

A original, que só chegou à luz em 2002 (assim como todo o registro do Funziona Senza Vapore), bebe do pós-punk inglês. Já a regravação, mais lenta e melancólica, é moldada à forma do mangue, através de percussão e a guitarra de Lúcio Maia.

Da ponte aérea SPxPE, ganhamos a influência Inglaterra x Brasil. América do Sul x Europa. Tudo em um movimento só.

A música é universal.

Diversos · Música

A Volta do Mr. Bungle

É apenas para o ano que vem, mas já podemos considerar que o MR. BUNGLE ESTÁ DE VOLTA!

Uma das bandas mais inventivas e loucas que já pisaram nesse planeta, o Mr. Bungle foi o principal projeto do Mike Patton por anos, até assumir a frente do Faith No More (e uma infinidade de grupos posteriores).

Anunciado de forma oficial através de uma conta no Instagram, a banda performará, até agora, em seis datas de fevereiro de 2020. Além dos membros da formação original Patton, Trevor Dunn e  Trey Spruance, dois ilustres convidados participarão das apresentações: Dave Lombardo (Slayer, Suicidal Tendencies, Fântomas) e Scott Ian (Anthrax).

Por enquanto, o principal set das apresentações será a demo The Raging Wrath of The Easter Bunny, lançada em 1986 e que é puro death/thrash metal. Uma maravilha!

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #06: Exorcismo

Tá exorcizado! Expurgado! Excomungado! Expulso!

Não importa o verbo, a sensação de ALÍVIO que o torcedor atleticano está sentindo hoje é imensurável. Eliminamos o Botafogo na Sul-Americana com DUAS VITÓRIAS!

O contexto para explicar tamanha alegria:

Há 25 anos um terror chamado Botafogo assombra as nossas cabeças em competições de mata-mata. Seja na Copa do Brasil, Sul-Americana ou qualquer outro torneio, sempre o time carioca passava com autoridade. Algumas vezes, de forma até humilhante, como aquele desastroso 2×5 em pleno Mineirão na temporada de 2008. Tenho pesadelos com aquele jogo até hoje.

Porém, isso é passado. Ontem espantamos essa nhaca do nosso caminho com uma vitória por 2×0 no Independência, gols de Fábio Santos e Vinícius. O próximo adversário será o La Equidad, da Colômbia.

Um adendo: não se enganem, Galos Doidos. O time tá jogando muito mal, com dificuldades para marcar gols e alguns jogadores passando por uma fase terrível. Vamos torcer para que o técnico Rodrigo Santana acerte ainda mais a equipe e que, ao final do ano, possamos levantar essa taça para salvar a temporada.

Diversos · Língua Presa

Nem Tudo Passa

Nem tudo passa. É bom deixar isso bem claro. Nem todas as pessoas superam seus traumas, seus medos, seus demônios. Nem todo mundo encontra o caminho da esperança e da salvação ou alguém para tirá-lo (a) da lama.

Digo que é bom deixar isso bem claro porque estamos acostumados a encarar um mundo de fantasia na maior parte do tempo. Pessoas felizes e saudáveis o tempo inteiro, “gurus” cheios de conhecimento e com soluções para cada problema, seja ele financeiro ou emocional, a famosa “ostentação” de riquezas e viagens e corpos perfeitos. Somos encharcados por esses estereótipos todos os dias em qualquer direção que olhamos. O pior de tudo: muita gente absorve isso. E se sente mal. Incapaz. Inferior.

O livro Quando Os Pêlos do Rosto Roçam No Umbigo, do querido colega e escritor Anton Roos, nos abre os olhos: a vida não é esse conto de fadas que somos forçados a acreditar.

Fonte: Amazon

Andrei, o personagem principal, o conselheiro de puta que navega pelo oceano mais sombrio da consciência, alimentado por fantasmas e temores que o impedem de continuar sua vida com um mínimo de decência, é o espelho da vida humana que não vemos nas redes sociais, nas colunas da elite ou no jornal diário. É a fragilidade que somos forçados a esconder e a condenar quem a expõe. É a sujeira que navega em nosso cérebro em segredo, pois colocá-la para fora fere os bons costumes. É a violência, a raiva, o obsceno, a dor no peito, a angústia de quem sabe que a salvação não existe. É a sombra do ser em seu estado mais natural.

Alguns desses traumas nos acompanham por toda a vida. Muita gente não entende. Muita gente finge que não vê. Muita gente até condena. Mas não se engane: todo mundo, até essa gente, tem um pouco de Andrei dentro de si.