Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #13: Grande Otero e a Imprensa

Tá quase fechado o negócio entre o Galo e o Corinthians envolvendo o meio-campista venezuelano Otero, que ficou sem espaço no clube mineiro após a chegada do Sampaoli.

A imprensa está a todo vapor com tal transação, com muitos jornalistas afirmando como o Corinthians está fazendo um excelente negócio e que o Otero vai chegar pra ser titular. Calma, pessoal, ele não é tudo isso.

Eu sou atleticano e vejo os jogos, e afirmo: Otero não é tudo isso que aparece nos highlights. Nem de longe.

Ele bate falta bem? Sim, demais, é um exímio cobrador, mas são dez cobranças para um gol, praticamente. Mais nada. Não dribla, não cria uma jogada. Ele tem raça, vontade, corre demais durante o jogo, mas não é o suficiente para esse endeusamento todo.

Para mim, as opiniões desses “especialistas” só provam o quanto esses caras são mal informados e se baseiam em vídeos de “melhores momentos” para justificar seus argumentos.

Deixa o Otero chegar lá e vocês verão. A corneta vai soar sem parar nas primeiras partidas em que o encanto desaparecer.

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O Povo Contra Larry Flynt

Uma provocação:

Larry Flynt é um dos nomes mais poderosos do entretenimento adulto estadunidense (Quando digo entretenimento adulto, leia pornografia pesada mesmo, não precisa ficar com vergonha.) É o fundador da LF Publications, cujo carro-chefe de maior nome é a revista Hustler. O filme é de 1996, mas a história acontece nas décadas de 70 e 80, retratando o início de sua trajetória e suas duras batalhas contra o lado conservador americano, que queria proibir a distribuição de sua revista. Flynt até sofreu um atentado de um louco da supremacia branca, fato esse que o deixou paraplégico.

Porém, o foco principal é o famoso imbróglio judicial entre ele e um pastor lá que o acusou de difamação e outras coisas. Para sua defesa, Flynt abraçou um trecho da lei americana que protege o direito do cidadão de expressar-se livremente, e era isso que incomodava os puritanos, que questionavam como uma revista “suja” circulava assim pelo país sem nenhum pudor, com o risco de poluir a mente das criancinhas e blábláblá. Interessante ressaltar aqui que até seu advogado dizia que não era apoiador da revista Hustler e dos outros conteúdos produzidos pela empresa, mas que defenderia sempre o direito da livre expressão das pessoas.

Agora, estamos em 2020 e essa história parece que jamais envelheceu. Do contrário, só piorou. Aquele pessoal que se considera puro e correto até hoje faz suas artimanhas para atacar o que não os convém. O caso da Natura é um ótimo exemplo, e não, não uso Natura e nem sei qual o cheiro daqueles trem. A questão é que eles se incomodaram com a figura usada na propaganda, mas nos bastidores dessas casas tão bonitas e limpas, sabemos bem muito do que acontece.

Imagine um cenário onde Larry Flynt seria candidato à presidência do Brasil sil sil. Qual lado o apoiaria, a direita defensora dos bons costumes (duvido muito) ou a esquerda festiva (como diria Vitor Brauer) que muda suas lutas todo dia, que o usariam como arma de combate e logo buscariam podres do cara (que com certeza devem existir) para derrubá-lo em seguida?

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30 Anos do “Bossanova”

Mais um grande disco dos anos noventa completa um aniversário expressivo nesse ano. Bossanova pode não ser o mais aclamado pela imprensa, mas no meu particular, é o melhor álbum dos Pixies, daquele que não se pula uma única faixa.

Grande parte das minhas músicas favoritas da banda estão nele, como “Velouria”, “All Over The World” e a deliciosa peça final, “Havalina”. Porém, a minha preferida de toda a discografia é “The Happening”, onde Frank Black narra de uma forma brilhante como seria se ele avistasse um OVNI pairando em sua frente.

De Bossanova em diante a tensão entre Black e Kim Deal ganharam proporções impactantes para a trajetória da banda, tanto que na atual formação, Deal não faz mais parte.

E infelizmente, esse foi o último grande disco deles.

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Não Ao Futebol Moderno #12: Bring It On Down

Futebol e música andam de mãos dadas tem um bom tempo. Canções de torcida, hinos, músicas na cultura pop (tem aquela do Skank, tem a do Fio Maravilha, etc.), enfim, o que não faltam são exemplos de como essas duas paixões se unem.

Tem um caso que gosto bastante, que é o fanatismo dos irmãos Gallagher pelo Manchester City. Pode-se dizer que ali são torcedores raiz mesmo, daqueles que apoiam o clube em qualquer momento e que odeiam com todas as forças o maior rival.

Tava assistindo hoje Manchester City x Real Madrid pela Champions League e como os jogos estão ocorrendo de portões fechados, dá pra ouvir quase tudo que se fala em campo. Durante o intervalo da partida, deu pra ouvir que nos alto-falantes do Etihad Stadium tava tocando “Bring It On Down”, uma das músicas mais rock’n’roll do Oasis, presente no Definitely Maybe, de 1994.

Não dá pra afirmar que isso afetou em algo, mas o City venceu por 2×1 e avançou de fase. E para mim, é um dos candidatos mais fortes ao título, apesar de não gostar nem um pouco dele e da outra modinha chamada PSG, também um forte candidato.

Quarta Parede · Traduções

Akira Kurosawa sobre Roteiro

“O que mais me estressa nos diretores aspirantes que batem à minha porta é isso:

‘É muito caro fazer um filme nos dias de hoje e é difícil virar um diretor.’

É preciso aprender e experimentar várias coisas para se tornar um diretor e não é tão fácil de se conseguir. Mas se você realmente quer fazer filmes, então escreva roteiros. Tudo o que você precisa é papel e lápis. Somente ao escrever roteiros se aprende aspectos da estrutura do filme e o que é o cinema.

Isso é o que os digo, mas eles ainda assim, não escrevem. Acham difícil demais. E é. Escrever roteiros é um trabalho árduo. Porém… Balzac disse para escritores e também para novelistas, que o mais essencial e necessário é a paciência ao encarar a chatice de escrever uma palavra por vez. Essa é a primeira exigência para qualquer escritor. Quando você analisa a obra de Balzac com isso em mente, é ainda mais impressionante, porque ele produziu um volume de trabalhos que não seríamos capazes de terminar de ler durante nossas vidas. Sabe como ele os escreveu? É interessante. Ele os rabiscava e enviava para a impressão logo em seguida. Uma página era impressa em uma folha de papel enorme. Quando recebia de volta as páginas impressas, ele fazia revisões na margem, até restar bem pouco do escrito original. Depois, enviava essas revisões para a impressão. É uma ótima forma de trabalhar, apesar de ser meio difícil para o tipógrafo. Ele era capaz de produzir bastante por causa desse método. Esse pode até ter sido o ingrediente, mas o mais essencial foi ter a paciência de escrever uma palavra por vez até chegar ao tamanho que queria.”

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Poema de “Spartacus”

“Quando o sol ardente se opõe no horizonte oeste,
Quando o vento das montanhas se acalma,
Quando o canto do sabiá-do-campo cessa,
Quando os gafanhotos do campo não crepitam,
Quando a espuma do mar descansa como uma donzela
e o crepúsculo toca o contorno da terra suspensa,
Volto para casa.

Por sombras azuis e florestas púrpuras,
Volto para casa.

Volto ao lugar onde nasci.
À mãe que me deu à luz e ao pai que me ensinou
Há muito, muito tempo,
Muito tempo.

Agora, só.
Perdido e sozinho num mundo distante e vasto.

Ainda assim, quando o sol ardente baixa,
Quando o vento se acalma e a espuma do mar dorme
E o crepúsculo toca o contorno da terra,
Volto para casa.”

Crônicas · Língua Presa · Música

Hoje Dancei Ouvindo Ride

Something Else, do The Brian Jonestown Massacre, foi um dos vários álbuns que ouvi hoje durante o dia. E no Spotify é o seguinte: quando um disco acaba, começa a tocar aquilo que o programa chama de rádio, que é um compilado aleatório de músicas que se parecem com o que acabou de ser reproduzido. É uma ferramenta interessante para descobrir bandas e artistas novos.

A rádio do Something Else tinha, em sua maioria, artistas de música psicodélica, como o Spiritualized e o Oh Sees. Só que teve uma em específico que quando começou a tocar, não acreditei. Meus braços arrepiaram-se por inteiro e pensei que havia entrado em uma máquina do tempo. “Dreams Burn Down”, do Ride.

Quando o shoegaze entrou na minha vida, eu estava naqueles momentos de personalidade vulnerável, ainda sendo moldado sob as próprias influências. Nowhere, do Ride, foi um dos grandes discos que abriram as portas para que eu adentrasse nesse universo de guitarras dissonantes, etéreas e barulhentas.

Voltando ao tempo presente, era final de tarde e estava encerrando o expediente (home office) quando “Dreams Burn Down” começou a tocar. Peguei um cigarro, acendi e coloquei o volume da caixa de som quase no máximo, fazendo com que a bateria SENSACIONAL do início da música quase trincasse a janela da sala. No quintal, meus dois cachorros ouviram o barulho da porta sendo aberta e vieram ver o que eu estava fazendo. A música, que eu não ouvia há uns bons anos, levou-me a dançar com eles durante todo o seu decorrer. Para minha surpresa, até a letra eu ainda sabia cantar.

Quase chorei em certo momento. Foi como se ela tivesse se transformado em correntes de ar e entrado em meu organismo, tomando conta de minhas emoções.

Foi como expurgar parte de demônios que ainda vivem dentro de mim.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #11: Garrincha no Vox Populi

Considero-me um cara ainda jovem, com vinte e sete anos recém completados. Comecei a acompanhar futebol para valer, com lembranças, torcida e tudo mais, em 2006, ano em que o Atlético Mineiro disputou a Série B. O que era para ser motivo de vergonha para muitos, foi a comprovação de uma lealdade e a firmação daquilo que acredito ser atleticano. E tenho certeza que muitos sentem o mesmo.

De 2006 pra cá, vi times encantadores. Vi o Barcelona de 2009, que ganhou TUDO que disputou, a Espanha bi-campeã européia e campeã mundial, o Galo de 13/14, enfim, são alguns exemplos. Tiveram muitos outros, claro. Sem falar no privilégio em presenciar o auge de dois dos maiores jogadores de todos os tempos, Messi e Cristiano Ronaldo.

Apesar de ser novo, minha alma pertence a épocas passadas. Tenho uma paixão inexplicável pelas décadas que não vivi, principalmente quando o assunto é futebol. Entro em devaneios quando imagino aquele futebol cascudo, truncado, times tão bem falados ainda nos dias atuais, como o Flamengo do Zico, o Atlético de Reinaldo, a Seleção Brasileira de 1970, Santos e Botafogo dos anos sessenta, e por aí vai. E um dos meus personagens favoritos desse tempo é o Garrincha, pelas jogadas inovadoras para a época. Os cortes secos, muitas vezes repetitivos, mas que os marcadores sempre caíam. E claro, sua estrela em duas Copas do Mundo.

Vi há poucos dias uma entrevista do Mané no programa Vox Populi, na TV Cultura, de 1978, salvo engano. A qualidade é de um nível que não se vê em entrevistas de jogadores nos dias atuais. Garrincha responde questionamentos variados, que vão de sua carreira a assuntos mais delicados, como situação financeira, vícios e separações. E o melhor de tudo, com exceção de uma ou outra pergunta que ele rodeia, o cara não nega a chance de resposta.

Pegue qualquer jogador brasileiro de hoje e imagine uma entrevista com ele. Os assuntos provavelmente seriam bens materiais, mulheres, idiotices de rede social e só ladeira abaixo. E as respostas? Bem, se houvesse alguma, todas passariam pelo exame do assessor antes. Uma lástima. Chega a dar tristeza perceber como nosso nível caiu tanto, dentro e fora do campo.

Garimpo · Língua Presa · Música

Redescobrindo o Suede

Meu primeiro contato com o Suede foi numa apresentação dos caras no programa do Jools Holland, em 1994, época do então recém-lançado Dog Man Star. Isso tem muitos anos, como também fazia muitos anos que eu não ouvia a banda de novo. Sem motivo algum, havia criado em minha cabeça uma espécie de bloqueio em relação ao Suede.

Bom, nas últimas semanas, estava navegando internet afora e deparei-me com uma postagem do Scream & Yell sobre a banda. Aquele post despertou uma curiosidade em redescobrir o Suede para, enfim, ter uma opinião bem formada em relação ao grupo. O resultado dessa redescoberta é que já faz umas duas semanas (ou mais) que o disco que inicia meus dias é o Dog Man Star.

Melancólico, o álbum possui doze canções ao todo e NENHUMA É DISPENSÁVEL. A hipnótica “Introducing The Band”, quase um mantra, é o abre-alas para um conjunto de músicas cujas referências abrangem o glam rock feito pelo David Bowie no início dos anos setenta, como “The Power” e “New Generation”, odes à ícones do cinema, como “Heroine” (Marilyn Monroe) e “Daddy’s Speeding” (James Dean), baladas bastante emotivas, vide “The 2 of Us” e “Black Or Blue” e até música clássica, no desfecho em “Still Life”.

“We Are The Pigs” e “The Wild Ones” foram os principais singles do disco e são suas melhores canções, flertando o rock’n’roll com um forte apelo pop. “The Asphalt World” é a mais experimental, com pouco mais de nove minutos de duração. Ela vem em sequência das duas baladas e possui uma longa passagem instrumental, quase que lisérgica, renovando o tom do disco às alturas até a última canção.

A banda em si é muito afiada, as linhas de guitarra são algo que se o ouvinte escutar com atenção, verá que são muito acima da média, mas o que me pegou em cheio foi a voz do Brett Anderson e sua figura elegante, bem vestida, como se ele estivesse acima de tudo o que está acontecendo durante as músicas.

A versão de luxo de Dog Man Star possui algumas demos e canções extras e também vale a pena dar uma conferida.

É um disco para dar play e colocar no repeat, pois a cada audição, detalhes e mais detalhes antes despercebidos começam a ficar claros e só engrandecem ainda mais a produção. Como disse acima, faz semanas que ele abre minhas audições diárias e, sem exageros, ele é capaz de tornar os dias um pouco menos pesados. Afinal, essa é uma das maiores belezas da música, não?

Garimpo · Língua Presa · Música

25 Anos de Wowee Zowee

Um dos meus últimos textos foi sobre o vigésimo-quinto aniversário do Alien Lanes, do Guided By Voices, clássico do rock noventista lançado pela Matador Records. Por coincidência, outro grande disco da época e da mesma gravadora também completou vinte e cinco anos de seu lançamento em abril: Wowee Zowee, o mais experimental álbum do Pavement e o meu favorito.

Sucessor do Crooked Rain, Crooked Rain, trabalho mais aclamado da banda, Wowee Zowee é interessante pela sua não-linearidade, pois com uma tracklist de dezoito canções, o álbum alterna momentos mais bem produzidos (“Grounded”, “Rattled By The Rush”, “Kennel District”) com outras canções que parecem inacabadas, como “Serpentine Pad” e “Brinx Job”. Stephen Malkmus mostra-se um conhecedor de seu instrumento, cria linhas de guitarra ora estranhas, ora redondinhas, e sua voz, mesmo desafinando em vários momentos do disco, é cativante.

Uma canção que sintetiza o álbum, se fosse para selecionar uma, seria “Half A Canyon”. É a mais longa e tem grunhidos de Malkmus, letra non-sense e ela entra em um estado acelerado a partir de sua metade que parece um transe.

Pode-se dizer que Wowee Zowee é capaz de influenciar aqueles que pensam em montar um projeto musical, e mais além, prova que é possível obter êxito com sua criatividade e honestidade. E para quem é apenas amante da música, o disco envelheceu bem e rende as mesmas boas sensações de anos atrás, quando o conheci. Lembro que paguei vinte reais na saudosa Goval Discos pelo CD e o guardo com carinho até hoje.