Diversos · Língua Presa

Entre o céu e o inferno

Um piscar de olhos é a distância entre o céu e o inferno.

Tem quem tome remédios. Leia uma piada. Faça sexo. Ligue para a mãe. Converse com um amigo. Transe com um amigo. Converse com a esposa ou marido. Assista alguma comédia pastelão. Deite no sofá e durma. Brinque com o cachorro. Acaricie o gato. Coma. Viaje. Saia correndo. Saia para beber. Vá ao médico. Ao mercado. Ao pet shop. Ao Instagram. À desilusão. À fantasia. Ao embate. Não importa.

A fuga é tola quando o inimigo vive dentro da própria cabeça. Céu e inferno estão lado a lado. Pisque os olhos e acorde. Você escolhe em qual hemisfério viverá.

 

Diversos · Língua Presa

Meus Vinte e Seis Anos

“O meu pai sempre dizia: quero ver você doutor. Minha irmã sempre a escutar: quero ver você casar[…] Eu, sem caminho ou qualquer profissão.”

A realidade não é tão dura quanto na música. Os vinte e seis anos chegaram, disso não tem como escapar, mas meu pai nunca exigiu que eu fosse algo que não quisesse.

O caminho existe, apesar de vê-lo, por enquanto, apenas à distância. Falta ainda a direção. Falta sair da região chamada “conforto” e mudar para um país distante, chamado “criatividade”.

Eu, agora aos vinte e seis anos, gostaria de ter tido minha mentalidade atual há dez anos. Gostaria que pessoas que fizeram parte da minha adolescência me conhecessem hoje, que pessoas da família me vissem como sou hoje, que meu pai tivesse a chance de ver onde estou. Com muito caminho a ser desvendado.

 

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #04: Soberba

Demos mole“. Assim, de forma resumida, foi a explicação de Renato Gaúcho para a virada que seu time levou EM CASA para o Fluminense, após abrir um 3×0 com meia hora de jogo. No final, 4×5 para os cariocas.

Soberba. Esse é o nome da praga que está enraizada no futebol brasileiro e que nos faz estagnar. Até os vizinhos sul-americanos apresentam equipes melhores treinadas do que aqui no “país do futebol”.

Foi assim, bastante soberbo, que o Felipão explicou o 1×7 na entrevista pós-jogo. Não foi mérito do adversário e nem erro dele mesmo. Foi “sorte”, algo de outro mundo.

Luxemburgo, desempregado há mais de quinhentos dias e que, a cada nova entrevista, parece que parou no tempo, demonstra a mesma atitude. Tudo que conhecemos atualmente no futebol foi graças a ele, nada do que acontece é novidade. Ele é o maior técnico que existe no planeta e está desempregado há tanto tempo… bem, talvez porque está “dando mole” em seus últimos trabalhos.

Por isso Fernando Diniz, Sampaoli e outros técnicos que tentam novas maneiras de jogar aqui no Brasil têm tanta dificuldade e gente torcendo contra. A zona de conforto e a soberba falam mais alto.

Diversos · Música

Tristessa

Tristessa é a quinta obra de Jack Kerouac que leio. Foi publicada originalmente em 1960, baseada em experiências reais do autor, que durante uma viagem à Cidade do México, apaixonou-se por uma prostituta índia chamada Esperanza.

Esperanza virou Tristessa, e as aventuras em uma Cidade do México marginalizada foram transformadas em um dos relatos mais honestos e comoventes de Kerouac, que transforma dor, solidão e sofrimento em cenários cheios de vida, ambientes alucinantes e personagens comoventes, cada qual com suas particularidades, tudo isso em seu já habitual ritmo frenético de escrever.

Além de Tristessa, li On The Road, Big Sur, Satori Em Paris e O Livro Dos Sonhos, todos recomendadíssimos.

Billy Corgan, líder do The Smashing Pumpkins, escreveu uma canção baseada em Tristessa para o disco de estreia da banda, Gish, lançado em 1991. Confira abaixo.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #03: José Maria Pena

Foi com pesar que li sobre o falecimento do grande José Maria Pena, figura que está na história dos dois alvinegros que torço: o Galo e a Pantera.

Como jogador, foi revelado nas categorias de base do Atlético-MG e jogou na equipe de 1968 a 1973, fazendo parte do time campeão nacional em 1971.

Como técnico, destaco sua passagem pelo Democrata-GV em 2007, naquele que considero o último grande time da Pantera, semifinalista do Campeonato Mineiro e campeão do interior. Como torcedor do “Demo”, é triste lembrar da grande equipe liderada por Vilar, Amilton e Leandro Carrijo e comparar com a atual situação do clube.

Zé Maria também foi o técnico do Democrata em sua melhor campanha até hoje, quando foi vice-campeão de Minas Gerais em 1991, porém, eu ainda não era nascido.

Fica aqui a minha singela homenagem a esse personagem fundamental de momentos gloriosos que, tenho certeza, não serão apagados das mentes dos torcedores.

CAM1971Foto: https://www.futebolinterior.com.br/

Diversos · Língua Presa · Música

Domingo de Páscoa

“Domingo de Páscoa”, do álbum Só Vive Duas Vezes, do Fellini. Já escrevi um breve texto sobre o disco aqui.

Cadão Volpato é ótimo em criar cenários em suas canções, mesmo com letras tão desconexas. E a canção tem tudo a ver com o feriado do final de semana.

O blog retorna após o mesmo, na segunda. E lembre-se: depois do domingo de páscoa, a segunda é o dia. Tudo volta ao normal.

“Depois do Domingo de Páscoa,
Segunda é o dia
Olhar uma por uma todas as quaresmeiras
É só o galo cantar e acordar o seu Pinto
Não é todo dia que se tem a vida inteira
O sol se levanta quando alguém cai da cama
As mulheres correndo que o ônibus vem vindo
Os judeus numa boa e os cachorros latindo”

Diversos · Língua Presa · Música

Adeus, Mark Hollis

O Talk Talk nasceu em Londres, no ano de 1981, em meio à febre do synthpop, onde os sintetizadores eram os principais regentes das canções. (Bandas como o A-ha, Eurythmics, Soft Cell e Tears For Fears são ótimos exemplos do estilo.)

Formada por Mark Hollis (guitarra, piano e voz), Lee Harris (bateria) e Paul Webb (baixista) e embarcando nessa onda, o sucesso veio rápido, com alguns singles estourando em vários países ao longo da Europa. No terceiro disco, The Colour of Spring, as mudanças começaram. As melodias ficaram mais complexas e as letras de Hollis mais reflexivas, o que não impediu o estouro de músicas como “Like’s What You Make It” e “Living In Another World”, por exemplo.

A partir de Spirit of Eden, de 1988, a casa caiu de vez. Trocando os sintetizadores e melodias pop por longos improvisos jazzísticos e experimentações sonoras com camadas e atmosferas mais sombrias, o Talk Talk atingiu o ápice de sua criatividade, principalmente no álbum seguinte, o quinto e último da discografia da banda: Laughing Stock, lançado em 1991. Poucos meses depois, a banda encerrou suas atividades.

Sobre as vendas, foram decepcionantes se comparadas aos trabalhos anteriores. Porém, isso é o de menos. Os dois discos são considerados precursores do que conhecemos hoje como post-rock (junto ao Spiderland, do Slint) e citados como dois dos maiores álbuns lançados durante aquele período.

Em 1998, Mark Hollis aventurou-se em uma carreira solo e lançou um único disco auto-intitulado. Foi seu último trabalho antes de se aposentar da indústria da música.

Há pouco menos de dois meses, em 25 de fevereiro e aos 64 anos, Hollis veio a óbito.

Se eu fizesse uma lista com os dez melhores discos que já ouvi até hoje, sem dúvida alguma, Laughing Stock estaria na primeira metade.

Diversos · Garimpo

Garimpo: Jack Kerouac no Steve Allen Show (1959)

Não é a praia do blog, eu sei, mas Jack Kerouac é o meu escritor favorito e essa pérola que encontrei merece um espaço por aqui.

Em 1959, Jack foi convidado do Steve Allen Show, um talk show da época. É interessante ver o escritor em seu estado natural, tímido, contido, diferente daquele que encantou o mundo em livros como On The Road ou Big Sur, sempre alucinado, empolgante, sob efeito de álcool e afins.

São quase quatro minutos mágicos em que vemos Jack Kerouac proclamando versos do final de sua obra-prima, On The Road, acompanhado pelo apresentador que toca um blues em seu piano, encaixando de forma perfeita com a leitura.

Bom final de semana.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #02: Masoquismo

No final de semana retrasado, assisti um jogaço da Bundesliga: Hertha Berlim 2×3 Borussia Dortmund. Fora de casa, os auri-negros venceram de virada e com um gol nos acréscimos, depois de tanto martelar o adversário. O jogo foi ótimo porque foi movimentado, com duas equipes bem armadas, que sabiam trocar passes e buscavam o gol a todo instante. Venceu a melhor.

Alguns dias antes, no final de fevereiro, assisti cerca de quinze minutos de Boavista x Madureira, transmitido pelo Sportv para TODO O BRASIL, pelo desastroso Campeonato Carioca. Meus olhos chegaram a doer, de tão ruim que foi a experiência. Os times não conseguiam trocar mais do que três passes até darem algum chutão para frente, sem falar na péssima pontaria dos jogadores. Ainda assim, a cada equipe conseguiu fazer um gol cada. Não vi nenhum deles.

Outra partida que acompanhei por alguns minutos foi Atibaia x Portuguesa, pela Série A2 do Paulistão, também com transmissão NACIONAL pelo canal global. Com chuva, esse jogo foi ainda pior. E olha que São Paulo tem, ao meu ver, o melhor futebol do interior. Ficou 1×2 para a Lusa, que consegue se afundar cada vez mais, ano após ano.

Sei que é engraçado admitir isso, mas mesmo com todas as críticas, gosto dos Estaduais. Sinto falta deles quando chega nessa época do nosso calendário futebolístico, onde a maioria dos campeonatos já estão nas fases finais. É divertido ver esses jogos com técnica zero, zagueiros truncados, atacantes que se acham craques e gramados terríveis. Lembra dos jogos que eu ia no Mamudão, em Governador Valadares-MG, acompanhar os jogos do Democrata pelo Campeonato Mineiro. É nessas partidas que temos o tio da pipoca, da batata seca, do torcedor do rádio de pilha e mais um monte desses clássicos personagens que fazem o futebol ser tão apaixonante.

Prefiro pagar vintão num ingresso para assistir Democrata x Ipatinga (clássico do leste mineiro que já vi debaixo de uma forte chuva e que perdemos em casa por 1×4) do que acompanhar um clássico inglês sentado, como se estivesse num teatro.

Gostar dos Estaduais é gostar de sofrer. Só pode ser masoquismo.

Diversos · Língua Presa · Música

Sem Conserto

“Não consigo encontrar um lugar apropriado para o fim. O tempo entrou em coma, perdi minhas memórias e nem percebi. ‘Um breve instante’ foi um presente que eu ganhei, mas ainda não abri. Tempo perfeito não deixa sobras pro futuro. Igual a mim. Igualzinho a mim.
Qualquer um que fotografar os pesadelos de quem não volta a dormir, vai andar olhando pro céu, pois vai sempre estar a um passo de cair. ‘Um breve instante’ foi um presente que eu ganhei, mas ainda não abri. Sem memória e sem futuro, é melhor assim. Bem melhor assim.
É o melhor pra mim.”