Crônicas · Língua Presa · Música

Um Corvo Fora da Curva

Para iniciar, o contexto: surpreendendo a todos, Chris e Rich Robinson fizeram as pazes e anunciaram o retorno do The Black Crowes, após cinco anos de hiato, voltando a figurar nos principais portais do meio artístico.

Agora, o principal.

Eu possuía um rascunho intitulado “Um Corvo Fora da Curva”, na qual havia alguns escritos sobre o quão intrigante foi a trajetória dos Crowes lá nos anos noventa, onde a música pop e o rock alternativo/independente dominavam o cenário musical, e a gangue dos irmãos Robinson, influenciada pelos movimentos setentistas, voavam na contramão e ainda assim conseguiam se destacar.

Porém, todavia, entretanto, esse que vos escreve tomou a sábia atitude de apagar tal rascunho, com a desculpa de que não seria interessante finalizá-lo, por dificuldade em desenvolver o raciocínio. Hoje, com a notícia do retorno do conjunto, seria o timing ideal para terminar tal texto, mas a besteira cometida por mim levou a nuvenzinha chamada ideia para bem longe e sem retorno, causando-me um enorme remorso.

Para entrar na onda e arrancar (mesmo que em partes) o peso na consciência, deixo algumas das minhas canções favoritas da banda para o leitor ouvir, e uma lição muito importante: jamais apague uma ideia por completo, mesmo que ela não pareça promissora no momento. Em alguma oportunidade, ela fará sentido.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #07: Já Fomos Rebaixados

Triste acontecimento no Mineirão ontem.

Se não bastasse a terrível partida que Atlético e cruzeiro protagonizaram no campo, um imbecil da torcida atleticana insultou um dos seguranças do estádio com termos racistas. O pior de tudo é que no Brasil sil sil da impunidade, nada acontecerá à esse idiota.

Esse é o país em que vivemos hoje. Ninguém liga mais para porra nenhuma. Disparam as metralhadores de xingamentos (quando não são as de balas mesmo) e não estão nem aí para o próximo. E o mais nojento de tudo é que esses são que se auto-intitulam “cidadãos de bem”.

Se há cinco/seis anos, a dupla mineira podia se vangloriar de dominar o cenário nacional e internacional do futebol local, hoje, à duras penas, se esforçam para não caírem para a segunda divisão.

Porém, no quesito humanidade, o Brasil caiu há tempos.

Diversos · Língua Presa · Música · Quarta Parede

O Homem da Tela e o Homem do Machado

Não sai da minha cabeça a ideia de que o sexto episódio da terceira temporada de American Horror Story, The Axeman Cometh, teve uma leve inspiração em “Screen Man”, do Failure.

Eu sei que é só um devaneio sem sentido e que ambas as obras não tem ligação alguma, mas, na minha cabeça, as duas peças se complementam em uma só.

A imagem do Homem do Machado caminhando por New Orleans durante uma noite movimentada, à procura de sua próxima vítima e que, de repente, rompe com a quarta parede e olha atentamente nos olhos do espectador, tira o seu saxofone e toca as suas tristes e solitárias notas antes de cometer mais um crime, e você se espanta ao saber que ele pode ser qualquer pessoa, até mesmo o vizinho da porta ao lado, e você pisca os olhos rapidamente para ter certeza de que não é uma alucinação e… você acorda.

Admita: é um delírio e tanto.

 

Crônicas · Língua Presa · Música

Nostalgia

Nostalgia.

Ou a velha ilusão de que o passado foi muito melhor do que o presente momento. Aquela sensação que consome o consciente na hora de dormir, com memórias de tempos que jamais serão vividos novamente, e que dão saudade. Mas é de uma ingenuidade tamanha pensar que eles foram perfeitos. Não foram e pode ser que, na época em que aconteceram, foram um desastre, só que, na maior parte das vezes que a nostalgia bate com força, analisamos essas memórias com um carinho acima do normal.

São poucas as lembranças que me causam nostalgia. O álbum de figurinhas do primeiro filme do Homem-Aranha do Sam Raimi é uma delas. Situações que vivi com amigos da escola e da minha rua também. Mas nada supera a trilha sonora da clássica trilogia Donkey Kong Country para o SNES, em uma época que videogames ainda eram sinônimo de diversão, e não de mercado/esporte.

Separei algumas canções do vasto repertório para o leitor. É uma estranha mistura de dor no coração com a satisfação pelos bons momentos vividos.

Crônicas · Língua Presa · Música

Idiotização

Os idiotas estão dominando o mundo ou eu que estou ficando rabugento cedo demais?

Repetindo os versos de Noel Gallagher, “estou desmoronando ou apenas ficando velho?”

Afinal, por que os homens viram completos idiotas quando se tornam pais? Cada vez mais tenho notado um comportamento…. digamos, imbecil quando esses interagem com seus filhos. Um exemplo bem nítido são as chamadas de vídeo com as crianças que, muitas vezes, nem têm noção do que está acontecendo, e o pai bobalhão fica fazendo voz fina e caras e bocas que até assustam.

Mais cedo no mercado, o segurança do local estava fazendo isso, perguntando ao filho como ele se machucou, se doeu, e depois um pedido que foi a gota d’água e que quase me matou de vergonha: “conta para o papai como foi que você chorou”. Nesse momento, vi que o mundo não tem mais salvação.

Fat Mike estava certo em 2003 e sua razão se concretizou por completo em 2019.

Os idiotas assumiram o controle.

Crônicas · Língua Presa · Música

Dor

Aproveitando o gancho que o canal oficial do Nick Cave me deu ao subir no Youtube uma performance incrível de “Magneto”, vou finalizar esse rascunho que está há meses parado aqui no meus arquivos. Chama-se “Dor”.

Dor porque é através dela que, creio eu, os artistas tiram o melhor de seus talentos. Certa vez (isso tem anos), ao comentar com minha esposa que não conseguia escrever ou tocar quando estava triste, ela me deu esse soco na consciência:

-Bem, então você nunca irá gravar o seu melhor disco.

Posso citar Kurt Cobain, Elliott Smith, Damon Albarn e tantos outros que extraíram o pior de seus eus para criar obras incríveis, mas foi a perda de Nick Cave que me instigou a escrever esse texto.

Em julho de 2016, um de seus filhos, Arthur, então com 15 anos, caiu de um penhasco na Inglaterra e veio a óbito. Cave não concedeu nenhuma entrevista a respeito do ocorrido durante os dias de luto. Pelo contrário, respondeu todas suas perguntas em forma de música ao lançar Skeleton Tree no mesmo ano. E mesmo sem mencionar o acidente de forma direta nas letras, as referências são claras.

“Magneto” é a canção mais cortante do disco, daquelas em que o artista deixa seu coração totalmente exposto à quem quiser ver. Porém, toda a obra funciona como um cicatrizador para a ferida que dificilmente se fechará por completo.

Charles Bukowski escreveu em um poema sobre o que é ser um escritor, e para ele, as palavras devem sair até de suas entranhas, quase explodindo o seu interior. É como uma lava cutucando a borda de um vulcão, suplicando para encontrar a luz do dia.

Alguns músicos são verdadeiros escritores antes de serem, propriamente, músicos. Nick Cave é um deles. E meu favorito.

Crônicas · Língua Presa · Música

Radiohead e a Cidade

Era fim de tarde quando saí da barbearia e fui em direção ao carro para, enfim, tomar o rumo de casa. Ao ligá-lo, o som, em modo aleatório, escolheu uma canção curiosa para aquele momento: “No Surprises”, do Radiohead.

Repito, era fim de tarde. Carros e motos aglomeravam as ruas. Pessoas tomavam conta das calçadas. Na sorveteria, nas lojas de roupas, na fila do banco então, nem se fala. Celulares eram tocados em cada canto que os olhos pudessem alcançar, por crianças, idosos, se bobear, até pelos cachorros.

Na esquina, um playboy fechou um motoqueiro e a buzina se espalhou cidade afora. Adiante, um motorista resmungou ao parar na faixa de pedestres para uma mulher atravessar. Se fosse uma gostosona, pensei, ele não reclamaria. E sem falar nas bicicletas, que vão e vêm na contra-mão sem se importar com quem ou que irá atravessar em sua frente.

Enquanto isso, em meio ao caos do fim de tarde na selva de pedra, tudo o que Thom Yorke pedia à mim, quase uma súplica, era um pouco de silêncio.

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“Me Come, Elio”

Melhor do que o filme, somente o livro Me Chame Pelo Seu Nome, de André Aciman. A adaptação para os cinemas é bela, com uma trilha sonora tocante e a química entre os atores que interpretam Elio e Oliver causa arrepios ao espectador.

Mas o livro tem algo ainda mais forte: ele é intenso. Ele causa dor ao leitor. Ele nos coloca na vulnerabilidade de Elio. Nas suas dúvidas, nos seus anseios, nas suas saudades. Se o filme termina na despedida, o livro vai além. Aos rumos tomados, ao reencontro, ao fogo que ainda não se apagou.

Mesmo que a história de Elio e Oliver em um paraíso italiano se encaixe na prateleira de obra LGBT, Me Chame Pelo Seu Nome é muito mais do que isso. É sobre descoberta, é sobre quebrar a barreira de si mesmo, ir além da grade invisível que cerca o nosso ser.

É sobre amor. Sobre sentir. Sobre ser humano.

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Vazio

Penso em festas, bares, reuniões, festivais, protestos, bolsas de valores, redações de jornais, tumultos, casamentos, eventos esportivos e os mais variados tipos de aglomerações, enquanto permaneço deitado nessa cama e a minha única companhia é um pequeno feixe de luz que adentra o quarto pelo furo da cortina, pensando o que estou fazendo com minha vida, observando ela se esvair com o vento que sopra a terra da rua lá fora.

Penso no trajeto percorrido nas noites solitárias de volta para casa, nas bitucas de cigarros jogadas pela janela do carro enquanto passeio pela cidade viva e fervente e meu reflexo no retrovisor me aconselha: não há conforto nesse mundo.

E cada bituca daqueles cigarros que joguei pela janela do carro espalham cidade afora um pouco de mim. Palavras que disse, palavras que não disse, beijos que dei, ideias que tive, cicatrizes da existência que permeiam as minhas veias e que agora estão escancaradas pelo asfalto. O meu “eu” mais particular aberto para quem quiser ver.

Mais tarde, após horas na penumbra, o renascimento. Um banho para lavar a alma. Junto à água e o shampoo que escorrem pelo meu corpo, vejo descer pelo ralo, também, um pouco de mim. Da minha pele, dos meus olhos, da minha boca e de toda a minha estrutura, um pouco vai embora junto às impurezas. Ao final, toda a escuridão se esvai, e sobra apenas o vazio.

(Escrevi esse texto três dias depois de passar horas deitado no meu quarto, em uma crise profunda de tristeza. A escrita salva vidas.)

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A Música Pop Perfeita

Já faz algum tempo que gostaria de deixar essa opinião registrada em algum lugar, e como o computador é o parceiro de escrita mais próximo, não há espaço melhor do que aqui. Então, vos digo:

In Between Days, do The Cure, é a música pop perfeita.

Os três minutos cravados de duração, a melodia alegre e dançante misturada à voz dramática de Robert Smith, o refrão de fácil coro e a letra que qualquer pessoa se identifica.

É como se fosse um ponto colorido em meio à discografia preto e cinza do The Cure.

Seja numa festa de apartamento, boate, casamento, karaokê ou qualquer outro tipo de manifestação. Ninguém fica parado ao som happy-sad de In Between Days.