Língua Presa · Música

25 Anos de Alien Lanes

Não fosse pela minha eterna procrastinação, esse texto sairia na data exata do acontecimento. Mas não o fiz, então paciência, vai assim mesmo.

No mês de abril, de forma mais precisa no dia 04, um dos maiores clássicos do rock independente completou 25 anos: Alien Lanes, do Guided By Voices.

Reza a lenda que o contrato dos caras com a Matador Records foi de cem mil dólares para produzir o disco, mas que ele custou ao todo apenas dez pratas (com exceção das cervejas).

O resultado foi um trabalho de vinte e oito faixas e apenas quarenta e um minutos de duração. Apenas seis canções passam os dois minutos de duração, e muitas mal atingem o primeiro minuto. Aqui, o Guided By Voices explorou bem as gravações em quatro canais e mesclou vários estilos entre uma canção e outra.

Apesar do meu favorito ainda ser seu antecessor, Bee Thousand, de 1994, muito mais por memória afetiva (lembrança de um tempo em que o disco foi muito importante para mim), considero o Alien Lanes a porta de entrada principal para quem quiser conhecer a banda. Além do mais, aqui estão algumas de suas melhores músicas, como “Watch Me Jumpstart”, “Motor Away”, “My Valuable Hunting Knife” e, claro, “Game of Pricks”.

O bom do Guided By Voices é que não dá para sentir falta dos caras, pois a cada ano eles lançam uma porrada de discos novos, e para comemorar o vigésimo-quinto aniversário do Alien Lanes, a Matador preparou alguns materiais inéditos. Corre no site ou no Instagram deles e confira, ao mesmo tempo que você pode ouvir abaixo as canções que selecionei do disco.

Direto do Forno · Música

O Novo do Spotlights: We Are All Atomic EP

Seguindo a mesma proposta de misturar elementos das mais variadas escolas e juntá-las em um só núcleo, o Spotlights lançou no final do último mês We Are All Atomic, um EP curto, com pouco mais de vinte e quatro minutos, mas que mantém a criatividade de Love & Decay, o trabalho anterior.

Formado por quatro canções (I, II, III e IV), We Are All Atomic parece dividido ao meio. As duas primeiras peças se complementam, e as duas últimas, idem.

Bebendo do post-rock, “I”, com quase oito minutos, inicia o álbum feito uma trilha sonora pós-apocalíptica, com uma guitarra atmosférica dando um tom sombrio e contínuo que permanecem até a sua metade. A partir daí, a canção muda a chave ganha um aspecto mais violento, com distorções de peso e percussão entrando e conduzindo o restante até “II”, marcada por bateria e baixo cadenciados e guitarras pesadas.

Pode-se dizer o mesmo da outra metade do disco, o que muda apenas é a ordem de duração das músicas. “III” é o pedaço que introduz o ambiente de distopia, cuja repetição é estendida até a última fatia, “IV”, mais pesada e caótica e que, ao final, a guitarra age como uma sirene e, à exaustão, repete-se até o final.

Como em boa parte das bandas do universo shoegaze, as vozes, quase inaudíveis, são apenas um complemento em toda a estrutura, e não a força principal.

Por pegar referências em várias fontes, uni-las e criar uma música não original, mas particular, faz da Spotlights uma das minhas principais recomendações para quem gosta de um som pesado, hipnótico e melancólico.

We Are All Atomic foi lançado oficialmente em 27 de março, dessa vez pela Blues Funeral Recordings.


1. Part I
2. Part II
3. Part III
4. Part IV

Direto do Forno · Garimpo · Música

Garimpo: Malcontet – Rest In Noise

Para deixar nossos dias de distanciamento social injetados com boa música, esse garimpo é daqueles que merecem ser ouvidos com o volume alto. O Malcontent faz um noise rock de qualidade, colocando muito do shoegaze e do pós-punk num liquidificador e criando um som moderno, pesado e barulhento, no bom sentido.

Rest In Noise é um álbum ao vivo lançado há quatro dias em sua página no Bandcamp, referente a um show realizado na cidade de Porto, em Portugal, em dezembro de 2018.

O áudio está impecável, limpo e bem editado, mostrando toda a força da banda quando sobe em um palco.

À efeito de créditos, o Malcontent foi a segunda banda portuguesa de noise rock que conheci no Floga-se. A outra é o The Melancholic Youth of Jesus, que já escrevi sobre aqui algumas vezes.

Começar o dia com Rest In Noise ecoando pela casa é como recompor o gás para o restante da rotina. Caiu por aqui em um momento essencial.

Garimpo · Música

Garimpo: Nirvana – Drain You (Ao Vivo Numa TV Francesa, 1994)

A insônia tem marcado presença em boa parte de minhas noites nessa “quarentena” (aqui o vírus AINDA não chegou), e para quem conseguiu se atrasar para o trabalho até em home office, acordar cedo por três dias seguidos é um feito a ser comemorado. Tive tempo até de fazer meu café e degustá-lo sem pressa.

Na última noite, deixei uma playlist engatilhada no computador. Pensei: assim que levantar, ligo o PC e coloco essas músicas para tocar, me ajudarão a tirar a preguiça. Foi dito e feito.

Boa parte dessa playlist (que, nesse momento, ainda está sendo executada) é formada por músicas do Nirvana. Sem alguma dúvida, Nirvana foi a banda que mais ouvi na minha adolescência, e sempre que posso, revisito minhas canções favoritas.

A minha favorita de todas é o tema do texto. Essa versão de “Drain You”, tocada em uma TV na França meses antes do suicídio do Kurt, já é bem conhecida e considerada por muita gente, e por mim, inclusive, como a sua melhor. E ela tem uma história curiosa: no final, a guitarra do Cobain estraga, e ele, puto da vida, a arremessa no chão. Com mais raiva ainda, ele solta o famoso grito, que na versão de estúdio é arrepiante, mas que ao vivo ele quase nunca fazia.

Veja como é curioso sua postura ao cantar sem sua guitarra. No mínimo, estranho. E Dave Grohl, claro, mais uma vez destruindo na bateria.

Direto do Forno · Música

Maya Hawke – By Myself (Single)

Uma grata surpresa nesses tempos de isolamento foi descobrir que Maya Hawke, a menina da sorveteria de Stranger Things, também é música e prepara o seu disco de estreia para 19 de junho deste ano, intitulado Blush.

A primeira fatia do seu debut, “By Myself”, foi lançada no último mês. A voz de Maya é doce e traz uma melancolia agradável, muito nessa onda happy-sad que se encaixa bem na atual cena indie.

Interessante também o fato de que a artista é filha de dois atores que eu admiro muito: Ethan Hawke e Uma Thurman. Ou seja, o talento dela vem de berço.

Garimpo · Música

Terrapin

Faixa de abertura de The Madcap Laughs, a obra-prima de Syd Barrett lançada em 1970, “Terrapin” é uma das maiores criações do músico em sua carreira solo. Em tempos de quarentena, Syd tem sido uma de minhas melhores companhias e sua voz ecoa pelas paredes da casa há alguns dias, e tenho ouvido “Terrapin” exaustivamente.

Por ter formato acústico, quis aprender a tocá-la. Não é tão difícil, apesar de possuir algumas sequências de acordes não muito convencionais em alguns trechos. Por isso Syd Barrett está no hall dos grandes artistas da história, por fugir do convencional, experimentar, ousar em suas criações.

Ao pesquisar tutoriais e tablaturas, deparei-me com duas surpresas. A primeira, um cover de David Gilmour presente em seu DVD In Concert, lançado em 2002. A segunda, uma estranha versão dos Smashing Pumpkins, de 1992, cantada por James Iha.

Vale conferir pela curiosidade, mas nada substitui a crueza e a beleza da original.

Crônicas · Língua Presa · Música

A Música Que Explodiu Minha Cabeça

Eu costumava passar madrugadas acordado no computador quando era adolescente, nos bons tempos do Orkut, MSN e jogatinas em excesso. Foi o período em que conheci boa parte das bandas que me acompanham até hoje e nunca me esqueço do dia em que caí no território “grunge” e minha cabeça explodiu ao ouvir “Nearly Lost You”, do Screaming Trees.

Aquela guitarra e bateria combinadas no começo me pegaram desprevenido por volta das 3h da madrugada em uma daquelas noites e não havia uma única alma conhecida acordada naquela hora para que eu pudesse compartilhar minha descoberta.

Estava tão animado com aquele som novo aos meus ouvidos que fui escavando cada vez mais internet afora, e quando finalmente o sono bateu, já era de manhã. Dali em diante veio o Pearl Jam, Smashing Pumpkins, algumas bandas mais desconhecidas como o Love Battery, e tantas outras que fazem parte do meu cotidiano até os dias atuais.

Bons tempos.

Direto do Forno · Garimpo · Música

Garimpo: The National – Never Tear Us Apart (INXS Cover)

Devido aos acontecimentos recentes na Austrália, uma galera boa se reuniu para gravar um tributo em prol de toda a causa. A proposta do disco Songs For Australia é que cada participante faça um cover de alguma canção australiana. A grana arrecadada será para ajudar o país a se reerguer após os desastres ambientais que comoveram o planeta.

O The National carimbou sua participação ao regravar “Never Tear Us Apart”, clássico do INXS, com uma versão happy-sad gostosa de ouvir. O disco completo sai daqui dez dias e você confere mais informações sobre ele aqui.

Direto do Forno · Música

King Buzzo – Science In Modern America (Single)

Parece não ter fim a criatividade do King Buzzo, um dos líderes do Melvins. Porém, agora a proposta é diferente. Ele deixa de lado o tremor de suas guitarras e assume um formato mais acústico em Gift of Sacrifice, seu segundo disco solo. O anterior, This Machine Kills Artists, é de 2014 e segue a mesma proposta. A distribuição de ambos é pela Ipecac Recordings.

Para esse novo trabalho, Buzzo contará com a ajuda de um antigo conhecido da época do Fantômas: Trevor Dunn, que também é integrante do Mr. Bungle.

Um primeiro aperitivo de Gift of Sacrifice já está disponível para audição e chama-se “Science In Modern America”. Apesar do nome “acústico” rodear as informações do disco, a canção soa tão aterrorizante quanto uma pedrada dos Melvins.

O álbum completo sai em maio, no dia 15.

Quarta Parede

Big Sur

Na vasta obra de Jack Kerouac, Big Sur está entre minhas favoritas. É a visão do escritor sobre as três semanas que passou isolado em uma cabana na região que leva o nome do livro e como esse período afetou a sua cabeça.

Como de praxe, Jack junta pensamentos com filosofadas e flashbacks de forma desenfreada, dando a impressão de que está ao lado do leitor contando a história com tamanha empolgação. Não é uma leitura fácil, mas quando se atinge o ritmo necessário, torna-se prazerosa.

Big Sur foi adaptado para o cinema em 2013 e cumpre bem seu papel ao transpor para um filme esse estado de inquietação do cara. Os trechos que acontecem em cidades também me agradaram, por retratar de forma convincente as reuniões da galera beatnick, em um Estados Unidos dividido entre o conservadorismo e a porra-louquice.

Viva Kerouac!