Crônicas · Diversos · Língua Presa · Quarta Parede

Poema de “Paterson”

Poema de Amor

Nós temos muitos fósforos em nossa casa.
Sempre estamos com eles em mãos.
No momento, nossa marca preferida é Ohio Blue Tip,
mas antes gostávamos da marca Diamond.
Isso foi antes de descobrirmos os fósforos da Ohio Blue Tip.
São caixinhas resistentes, pequenas, com rótulos azul-marinho, azul-celeste e brancos,
com palavras escritas no formato de um megafone,
como se fosse para gritar ainda mais alto ao mundo:
“Aqui está o mais lindo fósforo do mundo,
de 3,8cm de pinho macio
com uma cabeça roxa-escura granulada, tão contida e furiosa
e teimosamente pronta para entrar em chamas,
acendendo, talvez, o cigarro da mulher que você ama
pela primeira vez, e nunca foi realmente a mesma coisa
depois disso.
Tudo isso daremos à você.”
Isso é o que você me deu. Eu me torno o cigarro e você o fósforo,
ou eu me torno o fósforo e você, o cigarro,
chamuscando com beijos que ardem na direção do paraíso.

Quarta Parede

Trecho de “Close-Up”, do Abbas Kiarostami

Trecho do julgamento do Hossain Sabzian:

“Cada vez que me sinto triste na prisão, penso no verso do Corão que diz: diga o nome de Alá e o teu coração será confortado. Mas não sinto conforto nenhum. Sempre que estou deprimido ou transtornado, sinto o desejo de gritar ao mundo a angústia da minha alma, os tormentos que passei, todas as minhas tristezas, mas ninguém as quer ouvir. Eis que chega um homem que retrata todo o meu sofrimento nos seus filmes e posso vê-los mais de uma vez. Eles mostram o rosto maligno daqueles que brincam com a vida dos outros, o rico que não presta atenção às necessidades materiais básicas do pobre. Foi por isso que me senti compelido a procurar consolo naquele roteiro. Li-o, e ele traz calma ao meu coração. Diz as coisas que desejei ter expressado.”

Close-Up, Abbas Kiarostami, 1990.