Garimpo · Música

Garimpo: Algel Olsen (Ao Vivo na NPR Music)

As árvores balançam ao fundo e dá até para ouvir o vento passando por entre os galhos. O sol brilha tímido e é quase possível sentir o cheiro de ar fresco.

É com esse visual ao fundo que a Angel Olsen gravou sua participação no Tiny Desk Concert, uma série de apresentações que acontecem no canal da NPR Music.

Há poucos dias escrevi aqui sobre o Whole New Mess, disco mais recente dela, e um pouco da sensação que esse trabalho causa. Só que ao vivo, suas músicas soam ainda mais aconchegantes.

O setlist é curto. São três músicas desse disco: a faixa-título, “What It Is (What It Is)” e “Waving, Smiling”. Ela também toca “Iota”, canção do álbum de 2014, Burn Your Fire for No Witness.

Curioso é que essa curta apresentação combina com a atual situação climática de onde moro: dia nublado, sol cabisbaixo e temperatura agradável.

Direto do Forno · Música

O Novo do Tricky: Fall To Pieces

Desde a criação de seu selo próprio, o False Idols (2013), Fall To Pieces é o melhor lançamento do Tricky. E vou além: é o melhor trabalho do cara desde o Blowback, lá de 2001.

Atormentado pela morte de sua filha Mazy Topley-Bird, Tricky descarrega suas dores e esperanças em letras que em alguns momentos soam confusas, mas que possuem versos muito claros para quem está passando por um processo de luto.

Ainda há vestígios do seu recente flerte com a club music, como a abertura do álbum, “Thinking Of”, “Chills Me To The Bone” e “Fall Please”, uma das minhas preferidas. Porém, Fall To Pieces lembra mais os trabalhos de sua era de ouro, como o Pre-Millenium Tension (1996) e o Angels With Dirty Faces (1998), cuja abordagem era mais obscura.

A diferença é que aqui em Fall To Pieces o mais importante não é a batida que encabeça cada uma das canções, mas o que Tricky diz, seja através de sua própria voz ou das duas cantoras que, maravilhosamente, o apoiam no disco: Oh Land e Marta.

Em “Hate This Pain”, ele é bem claro: “what a fuckin’ game, I hate this fuckin’ pain” (que jogo de merda, eu odeio essa droga de dor). Mas em alguns minutos antes, ele mostra que não quer perder essa batalha, quando entoa “don’t let it get you down” (não deixe que isso te derrube) em “Close Now”.

Talvez a que mais explicite o motivo de sua dor, mesmo que não de forma tão direta, seja “I’m In The Doorway”, disparada a que mais gostei. É como se os versos fossem ditados pela sua própria filha em outro plano:

“Ended in the bayou. Would you think to free me?
I can only sense things into something sort of…
(…)
I’ll bring you greetings and hidden meanings.
Can you hear me breathing? Can you feel me leaving into something sort of?”

(“Terminou no bayou. Você pensaria em me libertar?
Posso apenas sentir coisas em algo como…
(…)
Trarei comprimentos e sentidos escondidos.
Você me ouve respirar? Você pode ver eu me transformando em algo como…?”)

Há tempos não me empolgava tanto com um disco do Tricky. Uma pena que seja em um momento tão delicado de sua vida. Mas é isso que grandes artistas fazem: em seus momentos de maior vulnerabilidade, transformam toda essa turbulência em obras primorosas.

1. Thinking Of
2. Close Now

3. Running Off
4. I’m in the Doorway
5. Hate this Pain

6. Chills Me to the Bone
7. Fall Please
8. Take Me Shopping
9. Like a Stone

10. Throws Me Around
11. Vietnam

Língua Presa · Música · Traduções

Amity

(Tradução livre de um trecho do texto “Song of the Day #1,885: ‘Amity’ – Elliott Smith“.)

Elliott: É uma canção realmente desprotegida – Escrevi a letra em alguns minutos e não a mudei. Gosto de como ela soa, embora não seja uma canção especialmente profunda.

Repórter: Não, de jeito nenhum, eu amo a sensação dela. Estava a dançando em meu porão como Uma Thurman em “Pulp Fiction”.

Elliott: (risos) É que, não sei… Apenas uma grande canção de rock. É bem simples. Não é tanto sobre as palavras em si, mas mais como a coisa toda soa. Alguns amigos disseram que ela parece uma tentativa de conseguir algo romântico com alguém, e não era essa a intenção. Era para ser “você é realmente uma ótima companhia e gosto muito de você por isso, mas estou muito, muito deprimido”, mas não sei se ela parece com isso. Quando digo “pronto para ir”, era para indicar que estava cansado de viver.

Repórter: An? Tipo, pronto para ir embora desse mundo?

Elliott: É, desculpe por tornar a música triste para você agora. (Ambos riem)

Repórter: Tudo bem, vou continuar ouvindo. Eu também pensei que existiam elementos românticos nessa música. Fiquei pensando se a palavra “amity” era uma brincadeira com a palavra francesa “amite” (amizade).

Elliott: Na verdade, é uma pessoa que conheço.

Repórter: Minha parte favorita é quando você canta “’cause you laugh and talk/and ’cause you make my world rock!” (porque você ri e conversa/e faz eu me sentir muito bem). É uma quebra no estilo que você costuma escrever. Gostei do aspecto despreocupado disso. Lembro de pensar em como a maioria dos compositores não usariam essas palavras e as descartariam. Se mais alguém escrevesse aquilo, eu teria pensado “que babaca!”.

Elliott: Sim. (risos) É isso.

Repórter: Mas você é inteligente e suas letras são tão boas, que senti que você foi se soltando de propósito e se divertindo com a canção.

Elliott: Foi bem simples. Eu estava dizendo “realmente gosto de você e é muito bom sair com alguém que é feliz e fácil de lidar, mas eu não me sinto assim e não posso ficar com você.”

Crônicas · Garimpo · Língua Presa · Música

Uma Noite Calma na Suécia

 

Imagine a situação:

É 18 de novembro de 2003, uma noite calma em Estocolmo, Suécia.

Pessoas se divertem no Debaser Hornstulls Strand, uma casa noturna famosa da cidade.

Mesas cheias de amigos que conversam, bebem, fumam, paqueram com pessoas de outras mesas, abrem seu corações, confidenciam segredos, discutem negócios, esportes e tudo mais que uma noite de distrações pode proporcionar.

Ao fundo, Andy Bell, um banquinho e um violão são os responsáveis pela trilha sonora do ambiente. Uma apresentação acústica com músicas do Ride, Oasis, entre outros.

Sua voz é calma, meio preguiçosa e tímida, capaz de chamar atenção e também de passar batida. Em “Thank You For The Good Times”, canção do Oasis que ele escreveu, seus versos são claros:

“Seria tão bom ouvi-lo dizer ‘obrigado pelos bons tempos’, antes que os bons tempos vão embora.”

Não tenho dúvida de que ao ouvirem os áudios dessa apresentação, as pessoas que lá estiveram e que tiveram bons momentos, pensam: 18 de novembro de 2003 foi uma noite calma na Suécia.

Direto do Forno · Garimpo · Música

Garimpo: Angel Olsen – Whole New Mess

Gravado no final de 2018 no corredor de uma capela, para que a voz ganhasse efeitos mais naturais, Whole New Mess é o quinto disco da Angel Olsen, lançado pela Jagjaguwar no dia 28 de agosto. Ele é traz as canções do disco anterior, o elogiado All Mirrors, de 2019, mas em um formato mais intimista.

As músicas foram escritas em um período difícil para a artista, onde ela passava por um término de relacionamento. Por isso a roupagem delicada e melancólica, mas sem parecer meloso.

Em certos momentos, Whole New Mess lembrou o Nebraska (1982), do Bruce Springsteen, devido à abordagem simples e crua das canções.

É um disco que tenho ouvido do início ao fim por várias vezes durante o dia e sem enjoar.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #14: Choque Térmico

Durante o dia, jogos frios, sonolentos e irritantes, daqueles que até os narradores não conseguem disfarçar o tédio. À noite, no último jogo da rodada, duas equipes querendo jogar futebol, com marcação alta e ataque o tempo todo, onde uma delas é predominante.

Assistir o Galo passar o trator por cima do Vasco e, em seguida, lembrar dos jogos do Palmeiras, Corinthians e afins, é como levar um choque térmico. E fica difícil recuperar depois.

Sampaoli faz um mal necessário ao futebol brasileiro, mas os “jênios” daqui insistem em esbravejar que somos o país do futebol e não precisamos inovar em nada. Há quem ousa menosprezar seus feitos, que vêm desde a última temporada. Vai entender.

Enfim, pela milésima vez, 1×7 foi pouco, mas muito pouco.