Crônicas · Língua Presa · Música

Um Corvo Fora da Curva

Para iniciar, o contexto: surpreendendo a todos, Chris e Rich Robinson fizeram as pazes e anunciaram o retorno do The Black Crowes, após cinco anos de hiato, voltando a figurar nos principais portais do meio artístico.

Agora, o principal.

Eu possuía um rascunho intitulado “Um Corvo Fora da Curva”, na qual havia alguns escritos sobre o quão intrigante foi a trajetória dos Crowes lá nos anos noventa, onde a música pop e o rock alternativo/independente dominavam o cenário musical, e a gangue dos irmãos Robinson, influenciada pelos movimentos setentistas, voavam na contramão e ainda assim conseguiam se destacar.

Porém, todavia, entretanto, esse que vos escreve tomou a sábia atitude de apagar tal rascunho, com a desculpa de que não seria interessante finalizá-lo, por dificuldade em desenvolver o raciocínio. Hoje, com a notícia do retorno do conjunto, seria o timing ideal para terminar tal texto, mas a besteira cometida por mim levou a nuvenzinha chamada ideia para bem longe e sem retorno, causando-me um enorme remorso.

Para entrar na onda e arrancar (mesmo que em partes) o peso na consciência, deixo algumas das minhas canções favoritas da banda para o leitor ouvir, e uma lição muito importante: jamais apague uma ideia por completo, mesmo que ela não pareça promissora no momento. Em alguma oportunidade, ela fará sentido.

Direto do Forno · Música

O novo do Iggy Pop: Free

A parceria com Josh Homme parece ter feito bem para a mente de Iggy Pop. Passados três anos desde Post Pop Depression, eis que chega ao mundo Free, seu décimo oitavo disco em carreira solo, com uma banda renovada e um estilo diferente.

As guitarras foram deixadas de lado e metais tornaram-se os fios condutores do álbum, uma semelhança com Blackstar, do David Bowie, que o ouvinte mais atento notará com facilidade. Além disso, o ar melancólico e meio noir traz uma faceta de Iggy que contrasta com sua figura selvagem e raivosa.

Após a abertura com a faixa-título, onde o artista escancara seu desejo de liberdade com um instrumental quase ambient, a trinca dançante happy-sad “Loves Missing”, “Sonali” e “James Bond” vem logo em seguida como o ponto mais alto do disco, sendo a última, talvez, uma das melhores canções de toda sua carreira.

Na segunda metade, o disco entra em uma espiral depressiva. A exagerada “Dirty Sanchez” não é tão atrativa, mas “Glow In The Dark” compensa em sequência. Para os fãs de poesia, “We Are The People”, com letra do Lou Reed, “Do Not Go Gentle Into That Good Night” (um poema de Dylan Thomas) e “The Dawn” são três peças de spoken word que finalizam o álbum de forma primorosa.

Com uma carreira de cinco décadas, Iggy Pop não precisa mais da aprovação de ninguém e pode fazer o que bem entender com sua música. Ele é livre, e tal liberdade nos brindou com um disco de alto nível. Como eu disse há alguns meses, que esse não seja o seu epitáfio, como Blackstar foi para seu amigo Bowie.

1. Free
2. Loves Missing
3. Sonali
4. James Bond
5. Dirty Sanchez
6. Glow in the Dark
7. Page
8. We Are the People
9. Do Not Go Gentle Into That Good Night
10. The Dawn

 

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #07: Já Fomos Rebaixados

Triste acontecimento no Mineirão ontem.

Se não bastasse a terrível partida que Atlético e cruzeiro protagonizaram no campo, um imbecil da torcida atleticana insultou um dos seguranças do estádio com termos racistas. O pior de tudo é que no Brasil sil sil da impunidade, nada acontecerá à esse idiota.

Esse é o país em que vivemos hoje. Ninguém liga mais para porra nenhuma. Disparam as metralhadores de xingamentos (quando não são as de balas mesmo) e não estão nem aí para o próximo. E o mais nojento de tudo é que esses são que se auto-intitulam “cidadãos de bem”.

Se há cinco/seis anos, a dupla mineira podia se vangloriar de dominar o cenário nacional e internacional do futebol local, hoje, à duras penas, se esforçam para não caírem para a segunda divisão.

Porém, no quesito humanidade, o Brasil caiu há tempos.

Direto do Forno · Garimpo · Música

30 Anos da Warp Records

Uma das casas mais influentes da música eletrônica, a Warp Records está completando três décadas de existência. Lar de onde saíram Aphex Twin, Boards of Canada e afins, a gravadora prepara um material digno de apreciação para comemorar o feito.

WXAXRXP Sessions, o disco festivo, contará com dez faixas, cada uma de um artista do selo, cujas gravações foram feitas em sessões para programas de rádio. A versão de luxo contará com um vinil para cada artista, contendo quatro faixas cada (confira aqui).

Interessante é que o lançamento oficial (digital e vinil) será no dia 15 desse mês, mas quase todo o álbum já está disponível no Youtube da Warp (ou no site oficial acima). Deleite-se abaixo com o melhor da música eletrônica/ambient.

Garimpo · Música

I Hope You’re Happy Now

Tenho certeza que se os Beatles da fase iêiêiê entrassem em uma máquina do tempo e ouvissem “I Hope You’re Happy Now”, do Elvis Costello, eles morreriam de inveja.

Lançada em 1986 no ótimo Blood and Chocolate, “I Hope You’re Happy Now” é de uma melodia pop contagiante, daquelas em que o pé acompanha a bateria em todo o seu decorrer, e que se contrapõe com a letra ácida e certeira, como um belo foda-se para quem o narrador se dirige.

Entraria em qualquer disco da trupe de Lennon. E, certamente, se sobressairia.

Diversos · Língua Presa · Música · Quarta Parede

O Homem da Tela e o Homem do Machado

Não sai da minha cabeça a ideia de que o sexto episódio da terceira temporada de American Horror Story, The Axeman Cometh, teve uma leve inspiração em “Screen Man”, do Failure.

Eu sei que é só um devaneio sem sentido e que ambas as obras não tem ligação alguma, mas, na minha cabeça, as duas peças se complementam em uma só.

A imagem do Homem do Machado caminhando por New Orleans durante uma noite movimentada, à procura de sua próxima vítima e que, de repente, rompe com a quarta parede e olha atentamente nos olhos do espectador, tira o seu saxofone e toca as suas tristes e solitárias notas antes de cometer mais um crime, e você se espanta ao saber que ele pode ser qualquer pessoa, até mesmo o vizinho da porta ao lado, e você pisca os olhos rapidamente para ter certeza de que não é uma alucinação e… você acorda.

Admita: é um delírio e tanto.

 

Direto do Forno · Garimpo · Música

Garimpo: Chicos De Nazca

Foi por uma recomendação do André Barcinski em seu espaço no Uol (faz muita falta) que conheci a Chicos De Nazca, banda chilena de Santiago que vive em Berlim desde 2010.

Ouvi uma música aqui e outra ali e achei interessante o som, porém, caiu no limbo das playlists. Hoje isso mudou. Embarquei em uma viagem aos anos 60 com Since You Got It, o álbum mais recente do conjunto (saiu essa semana), e entrei em transe.

São muitas guitarras se entrelaçando e conduzindo o ouvinte a um passeio entre paisagens coloridas, giratórias, flutuantes e cheias de flores. Nem precisa de “ajuda”, se é que me entendem.

Para quem gosta de psicodelia, é um prato cheio.

Direto do Forno · Música

O novo do Tool: Fear Inoculum

“Por milhões de anos, a humanidade viveu como os animais. Então, algo aconteceu e desencadeou o poder de nossa imaginação: nós aprendemos a falar.”
-Stephen Hawking

Comunicação. 

Se me perguntassem como eu definiria o trabalho do Tool, seria essa a palavra. É mais do que sentir ou ouvir as músicas. É uma orientação de pensamento, de colocar-se em um espaço vulnerável para absorver cada palavra e analisar o que está sendo dito. Como uma conversa, onde um lado transmite o que está pensando e o outro escuta para tirar as suas conclusões.

Por isso Fear Inoculum foi tão aguardado por todos os fãs. Porque falta sinceridade na música atual. Faltam artistas que colocam o ouvinte em um estado desconfortável e que o forçam a ouvir o disco duas, três, até dez vezes para captar todos os seus pedaços. E, ainda assim, haveriam surpresas. Um sussurro, uma virada de tempo diferente, uma letra mal-entendida e assim por diante. No caso do Tool, até hoje sou surpreendido com detalhes não percebidos em audições anteriores.

O trabalho é composto por dez faixas (considerando aqui a versão digital), sendo quatro instrumentais que funcionam como uma espécie de vinhetas para que o disco soe como uma única longa canção. Apesar de entender o conceito, achei desnecessária a quantidade (como também são nos outros discos).

Seus dois extremos são os pontos altos: a faixa-título que inicia a jornada e “7empest”, o desfecho, essa sendo a mais longa e a que mais causou-me um transe sonoro. Pesada e psicodélica na medida ideal. Mas isso é uma opinião recente. É impossível digerir um disco do Tool em tão pouco tempo. Fear Inoculum é um lançamento que renderá novos entendimentos a cada audição.

Meu único lamento é a arte da capa e do novo logo da banda. Poderiam ter sido bem melhores.

1. Fear Inoculum
2. Pneuma
3. Litanie contre la peur (instrumental)
4. Invincible
5. Legion Inoculant (instrumental)
6. Descending
7. Culling Voices
8. Chocolate Chip Trip
9. 7empest
10. Mockingbeat (instrumental)

 

 

 

Crônicas · Língua Presa · Música

Nostalgia

Nostalgia.

Ou a velha ilusão de que o passado foi muito melhor do que o presente momento. Aquela sensação que consome o consciente na hora de dormir, com memórias de tempos que jamais serão vividos novamente, e que dão saudade. Mas é de uma ingenuidade tamanha pensar que eles foram perfeitos. Não foram e pode ser que, na época em que aconteceram, foram um desastre, só que, na maior parte das vezes que a nostalgia bate com força, analisamos essas memórias com um carinho acima do normal.

São poucas as lembranças que me causam nostalgia. O álbum de figurinhas do primeiro filme do Homem-Aranha do Sam Raimi é uma delas. Situações que vivi com amigos da escola e da minha rua também. Mas nada supera a trilha sonora da clássica trilogia Donkey Kong Country para o SNES, em uma época que videogames ainda eram sinônimo de diversão, e não de mercado/esporte.

Separei algumas canções do vasto repertório para o leitor. É uma estranha mistura de dor no coração com a satisfação pelos bons momentos vividos.

Direto do Forno · Música

All Them Witches – 1×1 (Single)

Agora como um trio, o All Them Witches já está preparando o sucessor do ótimo ATW, lançado ano passado e que ficou por muitos dias nas minhas playlists diárias.

Não há nada confirmado de forma oficial, mas podemos esperar algo em breve, pois no último dia de outubro a banda soltou um single de repente, intitulado “1×1”, via New West Records.

Um rock do deserto feito sob medida, com altos riffs de guitarra, toques psicodélicos e uma bateria arrasadora. Confira abaixo.