Direto do Forno · Música

Bruce Springsteen – There Goes My Miracle (Single)

Sentir-se tocado por uma obra artística é uma atividade individual, ou seja, cada pessoa capta as sensações à sua percepção. Os caminhos também são infinitos: seja pela escolha das palavras, a métrica, a voz emocionada ou o visual, apenas para exemplificar.

O que torna “There Goes My Miracle” tão potente é a junção de várias percepções que transformam a canção quase como um hino. Sim, é perigoso afirmar isso antes do disco ser lançado e tratando-se do Bruce Springsteen, cuja trajetória é recheada de canções grandiosas, mas pelos dois aperitivos disponibilizados até então, Western Stars o apresenta em plena forma e ainda capaz de emocionar. Isso é o mais importante.

Individual, lembra?

Se “Hello Sunshine” é para um aconchego, “There Goes My Miracle” vem para refletir. Onde está o seu milagre? O que você anda fazendo com sua vida?

Diversos · Língua Presa

Entre o céu e o inferno

Um piscar de olhos é a distância entre o céu e o inferno.

Tem quem tome remédios. Leia uma piada. Faça sexo. Ligue para a mãe. Converse com um amigo. Transe com um amigo. Converse com a esposa ou marido. Assista alguma comédia pastelão. Deite no sofá e durma. Brinque com o cachorro. Acaricie o gato. Coma. Viaje. Saia correndo. Saia para beber. Vá ao médico. Ao mercado. Ao pet shop. Ao Instagram. À desilusão. À fantasia. Ao embate. Não importa.

A fuga é tola quando o inimigo vive dentro da própria cabeça. Céu e inferno estão lado a lado. Pisque os olhos e acorde. Você escolhe em qual hemisfério viverá.

 

Diversos · Língua Presa

Meus Vinte e Seis Anos

“O meu pai sempre dizia: quero ver você doutor. Minha irmã sempre a escutar: quero ver você casar[…] Eu, sem caminho ou qualquer profissão.”

A realidade não é tão dura quanto na música. Os vinte e seis anos chegaram, disso não tem como escapar, mas meu pai nunca exigiu que eu fosse algo que não quisesse.

O caminho existe, apesar de vê-lo, por enquanto, apenas à distância. Falta ainda a direção. Falta sair da região chamada “conforto” e mudar para um país distante, chamado “criatividade”.

Eu, agora aos vinte e seis anos, gostaria de ter tido minha mentalidade atual há dez anos. Gostaria que pessoas que fizeram parte da minha adolescência me conhecessem hoje, que pessoas da família me vissem como sou hoje, que meu pai tivesse a chance de ver onde estou. Com muito caminho a ser desvendado.

 

Direto do Forno · Música

O novo do Messer Chups: Twin Peaks EP

Mais um divertidíssimo trabalho dos russos surfistas acaba de sair do forno. O novo álbum é curto, um EP com apenas quatro músicas e tem como referência Twin Peaks, o famoso seriado que foi ao ar pela primeira vez na década de noventa.

A faixa-título inicia o EP de forma lenta e preguiçosa, recheada de reverbs e wah-wahs, em um típico clima praiano. A partir da metade, a velocidade aumenta e é mantida até “Horrifica”, que começa e termina acelerada. É possível ouvir até um sopro fazendo parte da loucura ao fundo. “Humanica” quebra o ritmo numa pausa para o ouvinte descansar, e “Siberiade” finaliza o disco na mesma intensidade das anteriores.

Em Twin Peaks, guitarras, baixo e bateria se comunicam em plena sintonia, sem lugar para ego. Não há espaço para destaques individuais, sendo a música em seu todo o pico de admiração.

O EP foi lançado de forma oficial ontem, 08 de maio, pela MuSick Recordings, selo russo que vale a pena dar uma conferida mais atenta.

1. Twin Peaks Twist
2. Agent Horrifica
3. Humanica
4. Siberiade

Direto do Forno · Música

Kyle Craft – 2 Ugly 4 NY (Single)

No primeiro riff de “2 Ugly 4 NY” nota-se a referência. A Nova York setentista que foi palco de um dos maiores movimentos musicais ganha uma nova cara com Kyle Craft, acompanhado de uma guitarra crua que percorre a canção junto com seu vocal, que passeia entre o agudo e o rasgado.

O single ganhou um videoclipe onde o artista passeia por vários lugares fantasiado de morte, ou seja, até o visual tem influência de artistas que balançaram a cidade por um tempo, como o New York Dolls e Lou Reed.

Seu disco está marcado para julho deste ano, mais precisamente no dia 12, pela Sub Pop, e será chamado Showboat Honey.

Não se preocupe, Kyle Craft, os Dolls também eram considerados “feios para NY” perante os conservadores, mas, se não fosse eles, talvez você nem tocaria essa música hoje.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #04: Soberba

Demos mole“. Assim, de forma resumida, foi a explicação de Renato Gaúcho para a virada que seu time levou EM CASA para o Fluminense, após abrir um 3×0 com meia hora de jogo. No final, 4×5 para os cariocas.

Soberba. Esse é o nome da praga que está enraizada no futebol brasileiro e que nos faz estagnar. Até os vizinhos sul-americanos apresentam equipes melhores treinadas do que aqui no “país do futebol”.

Foi assim, bastante soberbo, que o Felipão explicou o 1×7 na entrevista pós-jogo. Não foi mérito do adversário e nem erro dele mesmo. Foi “sorte”, algo de outro mundo.

Luxemburgo, desempregado há mais de quinhentos dias e que, a cada nova entrevista, parece que parou no tempo, demonstra a mesma atitude. Tudo que conhecemos atualmente no futebol foi graças a ele, nada do que acontece é novidade. Ele é o maior técnico que existe no planeta e está desempregado há tanto tempo… bem, talvez porque está “dando mole” em seus últimos trabalhos.

Por isso Fernando Diniz, Sampaoli e outros técnicos que tentam novas maneiras de jogar aqui no Brasil têm tanta dificuldade e gente torcendo contra. A zona de conforto e a soberba falam mais alto.

Garimpo · Música

Garimpo: Talk Show (1997)

Em 1997, chegou ao mundo o primeiro e único lançamento do Talk Show, banda que foi uma espécie de projeto paralelo para os instrumentistas do Stone Temple Pilots, já que Scott Weiland havia deixado o grupo para tratar seu problema com drogas e gravar um álbum solo (12 Bar Blues, lançado em 1998). Em seu lugar, Dave Coutts, ex-vocalista do Ten Inch Men, foi contratado para assumir os vocais e ajudar na composição das músicas.

Capa do álbum. Fonte: Wikipedia

Talk Show, o disco, é composto por doze canções que vão do hard rock distorcido à baladas mais suaves e emotivas. “Wash Me Down”, por exemplo, levada por uma bateria gostosa de ouvir e acordes de violão, acalma, enquanto “So Long”, que desde o início soa garageira (a sensação é de que o disco está arranhado), é um petardo sonoro. Outras canções que destaco são: “Ring Twice”, “Peeling An Orange” e “Hide”. Ao todo, o álbum mescla bem os momentos de maior intensidade com outros em que a poeira parece dar uma baixada, portanto, recomendo ouvi-lo em sequência, apreciando cada uma das faixas.

O projeto não durou muito (foi encerrado no ano seguinte), já que as vendas decepcionaram e o trabalho não foi bem divulgado. Logo, Weiland retornaria ao seu posto oficial de vocalista do Stone Temple Pilots e seguiria com a banda por mais algum tempo.

O disco homônimo do Talk Show é, ao meu ver, um trabalho do STP com um novo vocalista. Simples assim. Tanto que após a morte de Weiland e de Chester Bennington, pensei que seria muito mais interessante uma possível volta do Talk Show do que o STP continuar suas atividades com um terceiro vocalista que, apesar de muito competente, não chega aos pés do líder original da banda.

Devido à sua curta duração, o Talk Show ainda é um projeto que passa despercebido pela maior parte dos ouvintes, mas não se engane: é digno de atenção. Infelizmente, ele está no fosso da cultura pop dos anos noventa, sendo necessário escavar um pouco mais afundo até encontrá-lo.

Diversos · Música

Tristessa

Tristessa é a quinta obra de Jack Kerouac que leio. Foi publicada originalmente em 1960, baseada em experiências reais do autor, que durante uma viagem à Cidade do México, apaixonou-se por uma prostituta índia chamada Esperanza.

Esperanza virou Tristessa, e as aventuras em uma Cidade do México marginalizada foram transformadas em um dos relatos mais honestos e comoventes de Kerouac, que transforma dor, solidão e sofrimento em cenários cheios de vida, ambientes alucinantes e personagens comoventes, cada qual com suas particularidades, tudo isso em seu já habitual ritmo frenético de escrever.

Além de Tristessa, li On The Road, Big Sur, Satori Em Paris e O Livro Dos Sonhos, todos recomendadíssimos.

Billy Corgan, líder do The Smashing Pumpkins, escreveu uma canção baseada em Tristessa para o disco de estreia da banda, Gish, lançado em 1991. Confira abaixo.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #03: José Maria Pena

Foi com pesar que li sobre o falecimento do grande José Maria Pena, figura que está na história dos dois alvinegros que torço: o Galo e a Pantera.

Como jogador, foi revelado nas categorias de base do Atlético-MG e jogou na equipe de 1968 a 1973, fazendo parte do time campeão nacional em 1971.

Como técnico, destaco sua passagem pelo Democrata-GV em 2007, naquele que considero o último grande time da Pantera, semifinalista do Campeonato Mineiro e campeão do interior. Como torcedor do “Demo”, é triste lembrar da grande equipe liderada por Vilar, Amilton e Leandro Carrijo e comparar com a atual situação do clube.

Zé Maria também foi o técnico do Democrata em sua melhor campanha até hoje, quando foi vice-campeão de Minas Gerais em 1991, porém, eu ainda não era nascido.

Fica aqui a minha singela homenagem a esse personagem fundamental de momentos gloriosos que, tenho certeza, não serão apagados das mentes dos torcedores.

CAM1971Foto: https://www.futebolinterior.com.br/