Direto do Forno · Música

Cosmic Cave – Ex Hex (Single)

Três mulheres. Guitarra, baixo e bateria. É assim, simples e certeiro, que a Ex Hex mantém suas atividades, agora com um novo disco chegando em março de 2019 pela Merge Records, quase cinco anos após “Rips” (2014).

“It’s Real” é o título do trabalho, e contará com dez canções. A escolhida como primeiro single, “Cosmic Cave”, é dançante, animada e imparável. São três minutos cravados do mais puro rock’n’roll de garagem.

O nome do disco deve ser uma brincadeira com o ouvinte: sim, é real o que você está ouvindo. Difícil mesmo é sair do transe causado por essa primeira e ótima fatia do álbum. Só lamento pela capa: poderia ter sido melhor. Bem melhor.

Direto do Forno · Música

Hank Wood and the Hammerheads – HEADS (Single)

Ali no título está single, mas como a própria banda o denomina, “HEADS” é um “2-Song Cassingle“, ou seja, um trabalho de duas canções que terá seu formato físico em fita cassete, resgatando o modo que ouvia-se música algumas décadas atrás.

“You Could Have It” e “I’d Rather Be With Me” são as músicas que compõem esse pequeno projeto, mas que causam um belo estrago (no bom sentido) ao ouvinte. Se juntá-las, são quase cinco minutos de porrada sonora influenciada pelo punk rock e pelo rock de garagem meio The Stooges, com guitarras cortantes e velozes e um vocal bem raivoso.

Seu lançamento foi no início do ano, em 4 de janeiro. Apenas enquanto escrevo esse texto, “HEADS” está sendo repetido pela quarta vez.

Direto do Forno · Música

Rema-Rema – Rema-Rema (Single)

Após passar quase quarenta anos no mais extremo limbo da música alternativa, a banda Rema-Rema retorna do obscuro para o catálogo da 4AD com o lançamento de seu único disco completo, “Fond Reflections”, trabalho esse que, segundo o próprio selo, é o “debut que nunca existiu”. Explico.

Formada por membros do The Models e da Siouxsie and The Banshees, o Rema-Rema estava naquele meio do post-punk no início dos anos oitenta, fazendo canções claustrofóbicas, secas e com muito experimentalismo. Em seu curto período de atividade, lançaram somente um EP em 1980, intitulado “Wheel in the Roses”. Inclusive, é um dos primeiros trabalhos lançados pela 4AD. Ouça “The Feedback Song” para ter uma noção de sua sonoridade:

Perto de completar quatro décadas do lançamento de “Wheel in the Roses”, Gary Asquith, um dos membros do conjunto, em parceria com o engenheiro de som Takatsuna Mukai, reviraram arquivos e fitas cassetes com canções da banda e trabalharam nelas para montar “Fond Reflections” da forma mais fiel possível quanto ele seria lançado na época.

Todo esse material resultou em um disco duplo, que sairá do forno em primeiro de março desse ano. A gravadora já disponibilizou “Rema-Rema”, faixa que leva o nome da banda. Um belo resgate da 4AD no que diz respeito à música alternativa.

Garimpo · Música

Garimpo: Trent Reznor & Peter Murphy Ao Vivo 23/06/2006

Em 2006, Trent Reznor, Peter Murphy, Atticus Ross e Twiggy Ramirez juntaram-se para um turnê de apresentações em rádios do EUA. Selecionado a dedo, o repertório continha canções tanto de Trent/Nine Inch Nails quanto de Murphy/Bauhaus, bem como algumas músicas aleatórias que faziam parte do gosto musical dos participantes.

Uma dessa apresentações aconteceu em Boston, no dia 23 de junho daquele ano, com quatro canções. A apresentação está completa no Youtube, no canal oficial do Nine Inch Nails.

A performance é recheada de sons eletrônicos e Twiggy Ramirez explora muito bem a sua guitarra. Somente “A Strange Kind of Love”, de Peter Murphy, é tocada em formato acústico.

Tracklist:

1. Warm Leatherette (Grace Jones)
2. A Strange Kind of Love (Peter Murphy)
3. Reptile (Nine Inch Nails)
4. Nightclubbing (Iggy Pop)

Garimpo · Música

Garimpo: Stone Temple Pilots – Dancing Days (Led Zeppelin Cover, Ao Vivo no Howard Stern Show 1996)

Em 1995, vários artistas foram reunidos em uma compilação-tributo ao Led Zeppelin, intitulada “Encomium”. Nessa leva, uma das homenagens acabou sobressaindo-se, fazendo certo sucesso nas rádios e alcançando boas posições nas paradas: “Dancing Days”.

Lançada de forma original no clássico “Houses of the Holy”, de 1973, a canção ganhou nova cara pelo talento do Stone Temple Pilots, que acrescentou um quê de apatia à canção, porém, de forma criativa e elegante.

Devido ao seu sucesso, a banda participou do Howard Stern Show em 1996, com uma apresentação acústica da mesma, em um ritmo um pouco mais lento. Em plena forma, destaco aqui o vocal de Scott Weiland. Um deleite para os fãs.

Direto do Forno · Música

Kev Brown – That’s It (Vídeo)

“That’s It”, uma das canções mais curtas do disco “Fill In The Blank” (2018), ganhou um singelo videoclipe.

Lançado na véspera do réveillon, o vídeo traz Kev andando por um subúrbio, retratando um estilo de vida longe de holofotes ou exibicionismos. Enquanto caminha pela rua, ele dispara os seus versos, até o corte em que o artista conversa sobre as boas-vindas com pessoas locais.

A proposta é interessante e a música, apesar da duração, traz linhas de baixo e pianos muito bem elaborados.

Vale conferir.

Direto do Forno · Música

Guided By Voices – The Rally Boys (Single)

Chego a soar repetitivo, mas a fórmula do novo single do Guided By Voices é a mesma. A canção mal começa e as guitarras já estão correndo, com Pollard soltando os seus versos com a voz enérgica, apesar de já mostrar o seu envelhecimento. A duração segue o padrão: menos de dois minutos.

Quando o ouvinte pensa que virá uma segunda parte, uma estrofe a mais ou até um solo, ela é encerrada. Assim, direto ao ponto, é “The Rally Boys”, mais um anúncio de “Zeppelin Over China”, o disco completo que chega no início de fevereiro.

Crônicas · Língua Presa · Música

46 + 2

(Meu texto mais recente para o site da Immagine. Link direto aqui.)

Antes do texto, um aviso: é preciso estar com a mente aberta para o que vem a seguir. Transitar entre o submundo da nossa consciência é como uma viagem sem volta. É compreensível não acreditar, e também creio ser humanamente impossível atingir tal teoria na prática. Porém, é como Eduardo Galeano diz sobre crer nas utopias: elas são impossíveis de se alcançar, mas, ao menos, nos fazem segui-las.

“Forty Six & 2” é a canção número 5 de Ænima, segundo disco do Tool, lançado em 1996. Sem dúvidas, uma das mais enigmáticas e discutidas do grupo, muito em virtude do enorme talento de Maynard J. Keenan com as palavras e de sua inteligência. É uma mescla de teorias com experiências pessoais que, em um todo, nos permite várias possibilidades de interpretação. Trago hoje a mais conhecida (e discutida) entre os admiradores e questionadores da banda.

Em resumo, dois conceitos servem como base: o Arquétipo da Sombra, de Carl Jung, e a teoria dos dois cromossomos extras, que foi mais bem desenvolvida pelo metafísico Drunvalo Melchizedek. Comecemos por essa.

O título da música refere-se a uma possível composição de cromossomos que os seres humanos podem atingir. Segundo Melchizedek, são três os conjuntos existentes na Terra. O primeiro possui a composição 42+2, sendo que “+2” são os cromossomos sexuais, x ou y. Esse primeiro grupo compreende a sua existência como uma única consciência, uma única realidade, ou seja, nada mais além do que os próprios olhos alcançam. Não há distinção de espécies ou organismos, tudo compreende uma única conexão. Povos ancestrais como os aborígenes australianos e algumas tribos africanas fariam parte desse conjunto. Até algumas tribos indígenas brasileiras entrariam nesse grupo.

O próximo passo “evolutivo” é composto por 44 cromossomos (sem esquecer os dois sexuais), e é onde nós estamos. – Note o “evolutivo” entre aspas como uma ironia. – O estado atual do ser humano é entendido como consciências individuais, cada qual compreendendo a própria visão de realidade. Não há a noção de vida como um todo, e sim cada ser entendendo-a e agindo conforme a própria percepção. Esse conglomerado de seres é visto apenas como um degrau para o estágio maior.

Portanto, mais dois cromossomos e chegamos ao estado evolutivo de máximo alcance, o 46+2. Esse nível de consciência admite o ser como uma ponte entre o divino e o material. Um único corpo, porém detentor de várias consciências diferentes, tornando-se onipresente, capaz de sentir, presenciar e agir em várias realidades ao mesmo tempo. Palavras do próprio Drunvalo:

“Toda célula em seu corpo tem sua própria consciência e memória. Você, o ser maior que o ocupa, faz as milhares consciências diferentes trabalharem juntas em apenas um ser. Ainda teremos consciência individual, mas elas estarão unidas na forma de uma existência superior, trabalhando como uma entidade.”

Dessa forma, o ser humano atingiria o pico da evolução mental, que se comparado a termos religiosos, seria o mesmo que tornar-se um deus ou Cristo. Porém, não é somente subir degrau por degrau até o topo da pirâmide. Na canção, para chegar ao estado de plenitude de consciência, é necessário encarar um grande obstáculo: o seu eu mais profundo e obscuro. A sua sombra e a teoria do Arquétipo, segundo Carl Jung.

A idéia de Jung é que todos os seres humanos possuem um submundo em seu inconsciente, um oceano profundo onde habitam os seus medos, repressões, fracassos, pensamentos inadequados, sonhos não-realizados, enfim, uma gama de sentimentos e instintos julgados como incorretos perante o convívio social. Essa é a chamada Sombra Pessoal.

Um segundo arquétipo é identificado em casos ainda mais obscuros, chamado Sombra Impessoal, que envolve psicopatas, genocidas, assassinos, ou seja, mentes que são essencialmente malignas.

O momento em que Jung e Melchizedek se cruzam em “Forty Six & 2” é na transição de estado consciente. Para chegar ao nível mais avançado, é necessário enfrentar a sua própria sombra, e não escondê-la ainda mais em seu interior. Deixar de lado os personagens sociais criados para uma melhor aceitação perante a sociedade e não ter medo de ser o que você é. Ao confrontar a sua sombra e tirá-la das profundezas de seu inconsciente, o indivíduo aceita-se de forma plena. Com isso, a sombra irá mover-se para o lado consciente, o que possibilita desafiá-la face a face e integrá-la em seu dia-a-dia. Leia esse trecho:

“Eu escolho viver e crescer, tomar e doar e mover, aprender, amar e chorar, matar e morrer, ser paranóico e mentir, odiar e temer, fazer o que for preciso para sobreviver. Eu escolho viver e mentir, matar e doar e morrer, aprender, amar, fazer o que for preciso para atravessar

Veja minha sombra mudando, alongando-se sobre mim. Suavizo esta velha armadura esperando que eu possa limpar o caminho. Atravessando minha sombra e saindo do outro lado. Adentre a sombra! 46 & 2 estão logo à minha frente!”

Caso contrário, reprimir a sua sombra irá fortalecê-la ao ponto de roubar o seu próprio equilíbrio. Um artigo no site A Mente É Maravilhosa chamado “Arquétipo da sombra: o lado escuro da nossa psique” possui um trecho fundamental para compreender esse desafio: “o nosso crescimento pessoal e o nosso bem-estar psicológico dependerão sempre da nossa capacidade de iluminar essas sombras.”

Agora um pensamento meu.

Lembremos do ano de 2018 no campo político. Não digo sobre aqueles que estavam tentando nos representar, mas sim dos eleitores em sua maioria e a intolerância que os acometeu. As discussões infundadas, a falta de diálogo, amizades acabando e até famílias entrando em colapso por opiniões divergentes. A polarização que tomou conta dos grupos sociais, das redes sociais (principalmente) e a falta de seriedade que tudo isso levou àqueles que não se sentiam representados por nenhum dos lados.

O teor cômico de toda a “filosofada” sobre a música “Forty Six & 2” é justamente o contraposto em que vivemos atualmente: o retrocesso. Como admitir que a vida humana possa passar para um degrau de lucidez muito mais evoluído que o atual, que compreende uma realidade além do que possamos imaginar, sendo que não somos capazes nem de encarar a diferença, sendo um todo, como realidade?

O próprio Maynard, de forma brilhante, nos toca na ferida em “Right In Two”, quando escreve que anjos estão nos assistindo perplexos e confusos, questionando-se como que o Pai concebeu a nós, macacos estúpidos, o livre arbítrio e a razão e preferimos a guerra/força para resolver nossos obstáculos, mesmo nas situações mais simples. Leia:

“Anjos na platéia intrigados e fascinados. Por que o Pai deu a estes humanos livre arbítrio? Agora eles estão todos confusos. Estes macacos falantes não sabem que o Éden tem o suficiente para viver? Há abundância neste jardim sagrado, macacos tolos.

Anjos na platéia perplexos e confusos. O Pai os abençoou com a razão e é isso o que eles escolheram? Macacos matando macacos, matando macacos por pedaços da terra. Macacos tolos, dê-lhes polegares e eles forjam uma lâmina.

Lutam até morrer pela terra, pelo céu, eles lutam pela luz, pela guerra, pelo paraíso. Deitam sobre o amor, sobre o sol, sobre o sangue. Eles lutam até morrer pelas palavras, polarizando…”

Usar a palavra “cômico” é apenas uma válvula de escape para aliviar a tensão, pois a realidade é trágica mesmo. Seres tão evoluídos como os seres humanos (lembra a ironia alguns parágrafos atrás?) não conseguem aceitar diferenças e compreender que mentalidades distintas são o que agregam para o próprio engrandecimento. E tenha certeza, eu, você e todos nós estamos nesse grupo.

Para finalizar, um pedido: ouças as músicas, leia suas letras e tire as conclusões por si mesmo. Ainda acredito que, ao final de tudo, não somente a música, mas a arte como um todo, é o melhor caminhão para a nossa evolução.

Direto do Forno · Música

O novo do Reverend Horton Heat: Whole New Life

Com formação nova e uma visão de mundo mais otimista (palavras do líder da banda à Billboard), “Whole New Life” chega ao mundo para aqueles que curtem um rock’n’roll descompromissado e ideal para se mexer. É difícil acompanhar o disco e não balançar o corpo por alguns segundos, no mínimo. São 11 faixas inéditas que bebem diretamente do rockabilly e do blues, com um pouco de punk rock.

A adição de um pianista trouxe certo dinamismo ao conjunto, tornando o disco mais versátil e menos enjoativo. A alternância de guitarras e piano tomando a frente de algumas canções mostram o quão criativo foi a produção do trabalho.

Um único momento de “Whole New Life” chama a atenção pelo teor mais emocional: “Don’t Let Go of Me”, digamos, poderia ser considerada a balada do disco. No mais, é uma enxurrada sonora sem tirar o pé do acelerador. Nesse tempo, os dois singles anteriores, “Hog Tyin’ Woman” e a faixa-título, e canções como “Wonky”, “Got It In My Pocket” e “Sunrise Through The Power Lines” fazem valer a audição da obra.

 

1. Whole New Life
2. Hog Tyin’ Woman
3. Hate To See You Cry
4. Got It In My Pocket
5. Don’t Let Go Of Me
6. Ride Before The Fall
7. Tchoupitoulas Street
8. Sunrise Through The Power Lines
9. Wonky
10. Perfect
11. Viva Las Vegas

Direto do Forno · Música

O novo do Kev Brown: “.”

Fazem exatas duas semanas que falei sobre o produtor e rapper norte-americano Kev Brown pela primeira vez aqui no blog. O havia conhecido há poucos dias e “Fill In The Blank” era, até então, seu trabalho mais recente. Porém, 2019 mal deu as caras e o rapaz já lançou “.” (sim, um ponto), o sucessor do disco em questão.

O próprio artista trata seu novo LP como “untitled“, ou seja, sem título. Essa falta de um nome oficial transmite a ideia de um trabalho feito às pressas, e ao ouvi-lo, isso fica ainda mais claro. As dez canções que compõem “.” parecem inacabadas, como demos ainda em estado de lapidação. Nesse ponto, lembremos de “Nearly God”, disco que Tricky lançou em 1996 e que ele mesmo afirmou ser um compilado de músicas inconclusas. O resultado tanto de “.” quanto de “Nearly God” se assemelham: tal rusticidade torna-os mais orgânicos, ou seja, mais natural, sem rodeios e/ou efeitos desnecessários.

Apesar de alguns cortes vocais surgirem durante o disco, como “oh yeah, alright, you got it“, as dez faixas que compõem o novo trabalho sem nome de Kev Brown são inteiramente instrumentais. As batidas são secas e repetitivas, variando entre diversos estilos. O interessante é que toda essa salada sonora é montada em trechos curtos, pois poucas canções superam os dois minutos de duração.

Se no álbum anterior, Kev focou mais em seu talento com as rimas, aqui em “.” ele mostra todo o seu potencial criativo e inventivo como produtor. Uma boa maneia de iniciar o ano.

 

1. introduction
2. hello
3. skirmish
4. distortion of sound
5. a spectrum of tactics
6. jammin’ on the one
7. friends since the 80’s
8. boogaloo feels
9. a theme for the optimistic
10. the end credits (work)