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Monólogo de “A Ghost Story”

“O escritor escreve o livro. O compositor escreve a música. O sinfonista escreve a sinfonia, o que pode ser o melhor exemplo porque as melhores foram escritas para Deus. Então, me diz o que acontece quando Beethoven está escrevendo a 9ª Sinfonia e, de repente, acorda um dia, e percebe que Deus não existe. De repente, todas as notas, acordes e harmonias que tinham a intenção de transcender a carne, você percebe que “são parte da física”. Então Beethoven diz:

– Caramba, Deus não existe, então acho que escrevo para outras pessoas. São apenas porcas e parafusos agora”.

Ele não teve filhos, não que eu me lembre. Mas tiremos o amor da equação e desenrolemos isso sob o pensamento: “é assim que se lembrarão de mim”. E eles lembraram. E nós lembramos. E, com certeza, fazemos o possível para perdurar. Construímos nosso legado e talvez o mundo todo se lembre ou, talvez, apenas algumas pessoas, mas fazemos o possível para continuarmos depois de partirmos.

Então ainda lemos esse livro, ainda cantamos essa música; as crianças se lembram dos pais e dos avós e todos têm sua árvore genealógica, e Beethoven tem sua sinfonia, e nós também. E todos continuarão ouvindo no futuro próximo. Mas é aí que as coisas começam a desmoronar. Porque seus filhos… Seus filhos vão morrer. Os seus também. E os seus também. Só estou dizendo. Todos morrerão, e os filhos deles também e assim por diante.

E então haverá uma grande mudança tectônica. Yosemite explodirá e as placas ocidentais mudarão, os oceanos subirão, as montanhas cairão e 90% da humanidade desaparecerá. Uma queda precipitada. É apenas ciência. Quem sobrar, irá para as partes altas e a ordem social acabará, e regrediremos a caçadores e necrófagos e coletores, mas talvez sobre alguém… Alguém que um dia cantarole uma melodia que costumava ouvir.

E isso dará a todos um pouco de esperança.

A humanidade chega à beira do fim, mas consegue seguir porque alguém ouve outro alguém cantarolar uma melodia numa caverna, e a física disso no ouvido deles os faz sentir algo além de medo ou fome ou ódio. E a humanidade prossegue e a civilização retorna. E agora você está pensando que terminará o livro. Mas não vai durar. Porque, aos poucos, o planeta vai morrer. Em alguns bilhões de anos o Sol se tornará gigante e eventualmente engolirá a Terra. Isso é fato.

Talvez até lá tenhamos nos estabelecido em outro planeta. Bom para nós. Talvez descubramos um jeito de carregar conosco tudo o que importa. Conseguem uma cópia da Mona Lisa, alguém vê e mistura poeira alienígena com cuspe, pinta algo novo e as coisas prosseguem. Mas nem isso importará. Mesmo que alguma forma de humanidade carregue uma gravação da 9ª Sinfonia de Beethoven até o futuro, o futuro atingirá uma parede.

O universo continuará expandindo e eventualmente levará toda a matéria com ele. Tudo pelo que lutou, tudo o que você e algum estranho do outro lado do planeta compartilharam com um estranho do futuro num planeta diferente, sem nem saber, tudo o que te fez sentir grande ou poderoso, tudo acabará.

Todo átomo nesta dimensão será destruído por uma força simples… E todas essas partículas retalhadas se contrairão novamente e o universo vai se juntar numa mancha pequena demais para notarmos.

Então, pode escrever um livro… Mas as páginas queimarão. Pode cantar uma música e passar adiante. Pode escrever uma peça esperando que alguém lembre e continue apresentando. Pode construir sua casa dos sonhos… mas no final nada importará mais do que enfiar a mão na terra para colocar uma cerca. Ou transar.

Acho que seria quase a mesma coisa.”

 

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