Crônicas · Música

Alguns Centavos Por Amor

(Texto escrito para o blog da Immagine que foi ao ar hoje. Link aqui. Para melhor entendimento, o link da tradução citada no texto está aqui.)

Há alguns anos atrás, talvez uns oito ou nove, conheci um blog que foi fundamental na construção do meu gosto musical. Se chamava “Amor Louco Br” e era voltado (basicamente) ao rock independente dos anos 80 e 90. Não importa se a banda era bem conhecida ou se era uma daquelas pérolas obscuras que passam despercebidas pela atenção do público. Provavelmente, teria algum registro disponível para ouvirmos.

Naquele gigantesco acervo digital, conheci artistas que se tornaram referências máximas para mim, como os Pixies, Nick Cave e o Sonic Youth, bem como outros artistas renomados. Também conheci artistas que, infelizmente, acabaram se tornando obscuros em meio a esse vasto universo musical. Dentre essa infinidade de trabalhos, lembro-me bem de ficar interessado em “Love 15”, único disco da extinta banda de Detroit, Majesty Crush.

Quando ouvi pela primeira vez, foi uma viagem sonora daquelas que demoramos a voltar ao estado normal. Naquele dia, fui dormir ansioso, pois queria continuar ouvindo aquelas músicas novamente e novamente e novamente. Sem parar. A voz calma de David Stroughter contrasta com os instrumentos que, ao fundo, criam toda a atmosfera do disco. As guitarras atuam como camadas/texturas que permitem um destaque maior do baixo e da bateria. Um típico álbum de shoegaze, que ultrapassa esse limite e vai ainda mais além.

Talvez pela minha inquieta vontade de conhecer cada vez mais e mais novos artistas, “Love 15” acabou desaparecendo das minhas audições. Por fim, fiquei anos sem ouvi-lo. Para ser bem sincero, até me esqueci da existência dele e do “Majesty Crush”. Porém, a espiral do universo fez questão de torná-lo presente de novo nas minhas playlists.

Sem saber o motivo, acordei com “Penny For Love” na cabeça, como se fosse uma continuação daquele sono de anos antes, que mencionei acima. E ela não parava um só minuto de tocar na minha rádio interna. Desde o despertar até o trajeto para o trabalho, seu refrão era repetido incessantemente em minha mente, como uma súplica, me implorando para ouvi-la novamente, depois de tanto tempo. E após realizar o tal desejo, era como se eu nunca tivesse esquecido sua existência.

Resolvi checar novamente informações sobre a banda pela internet, com a expectativa de encontrar algo novo, diferente da época em que a conheci, onde nem as letras das músicas estavam disponíveis. O cenário no Google era o mesmo, com informações escassas, mas com uma notícia a mais que se destacava. Porém, ela não foi nada animadora. David Stroughter, a mente principal por trás do projeto, havia falecido quase um ano antes da minha busca.

Pesquisei a fundo toda a situação que envolveu a sua morte e encontrei um artigo de despedida escrito pelo ex-baixista da banda, Hobey Echlin. Até fiz uma tradução do mesmo, para me aprofundar ainda mais na história desse enigma da música underground.

O Majesty Crush foi um verdadeiro caso de estar no lugar errado na época errada. Fizeram certo sucesso na região de Detroit e até emplacaram uma canção nas rádios. Porém, quando conseguiram lançar um disco por uma gravadora, ela faliu pouco tempo depois, arruinando o sonho dos integrantes, que não mais tiveram forças para manter a banda. David até se manteve ativo, mas sempre à margem da cultura independente.

Esse texto é uma homenagem ao Majesty Crush e, principalmente, a David Stroughter. Uma figura inquieta e brilhante que liderou uma das bandas mais interessantes de sua época. Certamente, sucesso não é sinônimo de qualidade.

Um comentário em “Alguns Centavos Por Amor

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