Indico · Música

Indico #13: A Ghost Story

Com uma direção brilhante e uma história angustiante, “A Ghost Story” é uma das obras mais interessantes que assisti nos últimos meses. Pretendo desenrolar melhor minha opinião em outro texto futuramente, pois esse de hoje é somente para apresentar uma de suas características mais marcantes: a trilha sonora. Composta pelo artista Dark Rooms, alter-ego de Daniel Hart, a trilha traz a tonalidade ideal para os acontecimentos da trama, sem exageros. Seu ponto alto é a canção “I Get Overwhelmed”, apresentada em uma cena igualmente emocionante. Confira abaixo.

Direto do Forno · Música

Chris Cornell – “You Never Knew My Mind” (Johnny Cash)

Acaba de sair do forno a versão de Chris Cornell para “You Never Knew My Mind”, poema escrito por Johnny Cash e que nunca havia sido gravado antes. A canção fará parte de uma coletânea em homenagem ao “man in black”.

A canção, como de costume, nos traz a potente e inigualável voz de Cornell em um acompanhamento acústico, bem parecida com suas apresentações solo nos últimos anos.

Intitulada “Johnny Cash: Forever Words”, a coletânea-tributo será lançada no dia 6 de abril e contará com versões de vários outros artistas.

Uma bela maneira de matar a saudade não só de Chris Cornell, mas também de Johnny Cash.

Já falei anteriormente no blog sobre a carreira de Chris Cornell (aqui) e os famosos covers de Johnny Cash (aqui).

Indico · Música

Indico #12: “Kool Thing”

Vai além do meu entendimento a classificação do “cool” como característica de algo ou alguém. Seja um artista, uma pessoa comum, uma pintura, um disco, entre outros. Não há um dicionário que explique ou um modelo definitivo que traduza visualmente o que é ser “cool”, mas todos sabemos que esses “descolados” existem. Consigo detectar automaticamente (ao meu ponto de vista, óbvio) quando avisto um deles.

Nesse clipe da banda brasileira Pin Ups, por exemplo, além do visual preto e branco, a expressão blasé do vocalista nos primeiros segundos do vídeo acompanhada pelos riffs iniciais de guitarra dão o tom “cool” que tanto me atrai.

Crônicas · Música

O acaso mora ao lado

(Texto que fiz para o blog da Immagine após um show do Dance of Days em Barreiras, Bahia, no dia 27 de agosto de 2016. Foi ao ar no dia 26 de outubro do mesmo ano. Link aqui.)

No dia 27 de agosto, fomos a Barreiras curtir o show de uma das mais bem-sucedidas bandas do underground brasileiro: a Dance of Days. Com 19 anos de estrada, eles eram aguardados com muita ansiedade e alegria pelos poucos fãs presentes no local do evento. Apesar do baixo público, o show foi como esperávamos: pesado, agitado e barulhento. É bom ressaltar que fotografar uma das bandas mais respeitadas da música independente brasileira foi uma realização muito grande, e abaixo seguem alguns dos registros.

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Apesar de toda essa festa, o show não é o nosso assunto principal. Iremos falar sobre o acaso, o inesperado, e sobre como certas ocasiões podem marcar a nossa vida e ficarem guardadas em nossa memória. E, claro, com a ajuda da fotografia.

Enquanto aguardávamos na entrada, começamos a conversar com Thonny, um simpático segurança que estava na porta do local. Conversamos por um bom tempo, e todos os nossos assuntos envolviam música.

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Em certo momento, falávamos sobre a arrogância de certos artistas que, apesar de pouco tempo no ramo, já se comportam como deuses da música. Nesta hora, Thonny pegou seu celular e nos mostrou uma foto, dizendo: “Vocês conhecem esse cara aqui? Esse cara me disse ‘Thonny, traga amanhã uma foto da sua família, quero conhecê-la’”. O “cara” da foto era Paul McCartney.

A Great Honnor

Ficamos surpresos, sem reação. Em seguida, Thonny começou a nos contar a sua história, e ouvimos atentamente. Em 1988 (na época, era policial militar), ao ser visto conversando em inglês com um turista na Passarela do Samba, no Rio de Janeiro, foi convidado por um policial civil para trabalhar com segurança de estrangeiros. Sua empresa cobria eventos de grande porte, fato que o proporcionou a chance de trabalhar com artistas lendários, como Paul McCartney, Sting, Ozzy Osbourne, Kurt Cobain, entre outros. As fotos abaixo foram gentilmente cedidas pelo próprio Thonny, através do whatsapp.

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Perguntamos a ele qual foi o momento mais marcante de sua carreira, e ele nos disse:

“Momento mais marcante fica difícil dizer qual, mas um bastante interessante foi dirigir para PAUL MCCARTNEY, e ele sentar no banco do carona e começar a conversar comigo, perguntando coisas de minha vida, tipo onde eu morava, se era casado, quantos filhos… E o mais interessante, se eu tinha foto dos meus filhos comigo, depois ele abriu sua carteira e me mostrou a de seus filhos. No dia seguinte, ele me cobrou a foto de minha família, mulher e filhos. E depois, no final do trabalho, quando ele já estava dentro do avião quase partindo, me chamou para tirarmos uma foto juntos, eu, ele e a família. Ele juntou todo o dinheiro brasileiro, de todos da equipe dele, e me deu dizendo que não era para pagar o meu trabalho, e sim para que eu comprasse presentes para meus filhos em nome dele.”

A frase acima foi enviada pelo Whatsapp especialmente para o blog, e por si só já nos deixou arrepiada. Porém, o ouvir falar sobre esse acontecimento no dia do show foi ainda mais emocionante, algo surreal. A maneira como ele detalhava as situações, e o nível de intimidade que ele adquiriu com Paul nos deixou totalmente surpresos. Foi gratificante ouvir e saber que um dos maiores artistas de todos os tempos era uma pessoa extremamente humilde e simpática.

E Thonny continuou a nos contar mais histórias. Cada nova foto que víamos nos causava uma explosão de sensações, como se não acreditássemos que aquilo estava mesmo acontecendo.

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Outro trecho da conversa que causou muita comoção foi quando Thonny contou sobre o seu trabalho com Kurt Cobain, ex-líder do Nirvana, quando a banda veio ao Brasil para dois shows. Ao explicar os detalhes, Thonny nos contou o quão simples era Kurt, e como a fama o incomodava. Certa vez, Kurt perguntou a Thonny: “Hey Thonny, por que eu faço tanto sucesso, se existem artistas muito melhores do que eu?” Ao ouvir essas palavras, todos que participavam da conversa não disfarçaram a emoção. Sem falar na parte onde Kurt resolveu pular de asa delta de pijamas e calças rasgadas, que gerou risadas de todos nós.

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Depois de um longo tempo de conversa, nos despedimos de Thonny e adentramos ao local do evento. Mas confesso que poderíamos passar o resto da noite toda ali ouvindo suas histórias. É incrível como um momento que parecia ser tão comum, como esperar na porta de uma casa de shows, pudesse se transformar em algo magnífico. Naquela noite Thonny e suas histórias deixaram as nossas vidas mais brilhantes. Muito obrigado, Thonny, por ter tornado aquele dia marcante e inesquecível. Novamente a fotografia esteve presente em um momento especial. Esperamos reencontrá-lo para ouvir mais histórias. Na nossa dança de cada dia, o acaso é quem se destaca.

Crônicas

Vivo de Novo

Passadas duas semanas da tragédia, é necessário seguir em frente. Preciso seguir com o andamento do Numa Sexta e de outros projetos que tenho em mente. Não tenho palavras para agradecer as pessoas que, de alguma forma, me fizeram sentir acolhido e forte para seguir adiante. Não é necessário citar o nome de todas, tenho certeza que cada um reconhecerá a sua importância nesses últimos dias.

Repetindo: é hora de seguir em frente. Dona Raquel ficaria orgulhosa disso.

Vida de vivo de novo.

Crônicas

Fortaleza

Preciso ser honesto: isso é mais que um texto. É uma ferida aberta, escancarada e que ainda não cicatrizou. Vai demorar ainda. Porém, não é um lamento. Neste exato momento que o escrevo, faz nove dias que perdi minha mãe. Ela faleceu em um acidente de ônibus bem aqui ao lado, no Tocantins. Não há palavras para explicar a situação ou o que sinto. Nem precisa. Só que é preciso colocar tudo para fora, expurgar todo o sentimento ruim para ajudar a colocar tudo de volta no lugar. Tudo.

Não busco mais aqueles “e se?”, nem justificativas. Tampouco culpados. É melhor lembrar os momentos que passamos. A minha infância, as mudanças de cidade (foram várias), o retorno a Minas Gerais, o falecimento do meu pai e como nos tornamos ainda mais próximos, a mudança de rumos na vida e os vários reencontros. Tem muita história e sempre dá para tirar uma lição. Sempre.

Habitualmente, a música fez parte de toda essa trajetória. Não ouvíamos as mesmas coisas, mas hora ou outra havia algo em comum, como o Oasis. Ela acabou gostando, pois eu ouvia sem parar todos os dias durante a adolescência. Ao lado do Nirvana, era minha banda favorita. Uma música em especial ficou marcada: “Rockin’ Chair”. Ela adorava o refrão, mesmo sem entender uma única palavra. Realmente, a energia da música é contagiante e, nesse caso, entendê-la acaba sendo desnecessário. Depois do acontecimento, não consegui mais ouvi-la, acho que por medo da dor vir muito forte e eu não saber como reagir. Mas uma hora vou ter que encarar. A vida continua.

Lembro que um de seus maiores sonhos (se não o maior) era conhecer Fortaleza, capital cearense. Nunca soube o motivo e nem ela mesma sabia explicar tal vontade, mas tinha e em algum dia se tornaria real. Talvez essa tenha sido a dor maior: os planos que permaneceram somente no papel. Mas, pensando bem, o sonho de conhecer a cidade acabou se tornando realidade. De certa forma, ela foi não só a minha, mas a Fortaleza de muita gente.

Crônicas · Música

Alguns Centavos Por Amor

(Texto escrito para o blog da Immagine que foi ao ar hoje. Link aqui. Para melhor entendimento, o link da tradução citada no texto está aqui.)

Há alguns anos atrás, talvez uns oito ou nove, conheci um blog que foi fundamental na construção do meu gosto musical. Se chamava “Amor Louco Br” e era voltado (basicamente) ao rock independente dos anos 80 e 90. Não importa se a banda era bem conhecida ou se era uma daquelas pérolas obscuras que passam despercebidas pela atenção do público. Provavelmente, teria algum registro disponível para ouvirmos.

Naquele gigantesco acervo digital, conheci artistas que se tornaram referências máximas para mim, como os Pixies, Nick Cave e o Sonic Youth, bem como outros artistas renomados. Também conheci artistas que, infelizmente, acabaram se tornando obscuros em meio a esse vasto universo musical. Dentre essa infinidade de trabalhos, lembro-me bem de ficar interessado em “Love 15”, único disco da extinta banda de Detroit, Majesty Crush.

Quando ouvi pela primeira vez, foi uma viagem sonora daquelas que demoramos a voltar ao estado normal. Naquele dia, fui dormir ansioso, pois queria continuar ouvindo aquelas músicas novamente e novamente e novamente. Sem parar. A voz calma de David Stroughter contrasta com os instrumentos que, ao fundo, criam toda a atmosfera do disco. As guitarras atuam como camadas/texturas que permitem um destaque maior do baixo e da bateria. Um típico álbum de shoegaze, que ultrapassa esse limite e vai ainda mais além.

Talvez pela minha inquieta vontade de conhecer cada vez mais e mais novos artistas, “Love 15” acabou desaparecendo das minhas audições. Por fim, fiquei anos sem ouvi-lo. Para ser bem sincero, até me esqueci da existência dele e do “Majesty Crush”. Porém, a espiral do universo fez questão de torná-lo presente de novo nas minhas playlists.

Sem saber o motivo, acordei com “Penny For Love” na cabeça, como se fosse uma continuação daquele sono de anos antes, que mencionei acima. E ela não parava um só minuto de tocar na minha rádio interna. Desde o despertar até o trajeto para o trabalho, seu refrão era repetido incessantemente em minha mente, como uma súplica, me implorando para ouvi-la novamente, depois de tanto tempo. E após realizar o tal desejo, era como se eu nunca tivesse esquecido sua existência.

Resolvi checar novamente informações sobre a banda pela internet, com a expectativa de encontrar algo novo, diferente da época em que a conheci, onde nem as letras das músicas estavam disponíveis. O cenário no Google era o mesmo, com informações escassas, mas com uma notícia a mais que se destacava. Porém, ela não foi nada animadora. David Stroughter, a mente principal por trás do projeto, havia falecido quase um ano antes da minha busca.

Pesquisei a fundo toda a situação que envolveu a sua morte e encontrei um artigo de despedida escrito pelo ex-baixista da banda, Hobey Echlin. Até fiz uma tradução do mesmo, para me aprofundar ainda mais na história desse enigma da música underground.

O Majesty Crush foi um verdadeiro caso de estar no lugar errado na época errada. Fizeram certo sucesso na região de Detroit e até emplacaram uma canção nas rádios. Porém, quando conseguiram lançar um disco por uma gravadora, ela faliu pouco tempo depois, arruinando o sonho dos integrantes, que não mais tiveram forças para manter a banda. David até se manteve ativo, mas sempre à margem da cultura independente.

Esse texto é uma homenagem ao Majesty Crush e, principalmente, a David Stroughter. Uma figura inquieta e brilhante que liderou uma das bandas mais interessantes de sua época. Certamente, sucesso não é sinônimo de qualidade.