Indico · Música

Indico #08

 

Há tempos eu não tinha “bandas favoritas que não paro de ouvir um só minuto”. Por duas semanas seguidas, Pixies e Filter têm sido as mais constantes nas minhas audições diárias, e merecem todo o espaço possível dentro do meu próprio espaço(?).

Do Pixies, em meio a uma discografia curta, mas de altíssimo nível, seleciono o “Bossanova”, lançado em 1990. Perfeito do início ao fim, alternando entre gritos desesperados e até momentos que remetem a canções de ninar, como “Havalina” e “Ana”.

Infelizmente, sobre o Filter, não posso dizer o mesmo em relação à “discografia de altíssimo nível”. Apesar de considerar os dois primeiros discos como “must listen”, eles foram perdendo o fôlego ao longo dos anos. “Short Bus”, a estréia dos caras, é um soco nos nossos ouvidos e ótimo para sentir uma adrenalina.

Ouça sem moderação.

Crônicas

O Monstro dos Mil Olhos

A boca salivava mesmo antes de me levantar; na cabeça, já percebia uma leve pontada. Cheguei a sonhar com o monstro dos mil olhos e sentia na pele, no sentido mais literal da expressão, a falta que ele me fazia. Ombros trêmulos, a coceira nos braços, uma sensação de formigamento espantadora que me impedia de seguir em frente. Mas a vida é impiedosa.

O despertador esperneava às sete da manhã quando levantei e fui correndo me arrumar. Os olhos mal se abriam quando entrei no banheiro e deixei a água do chuveiro caindo por alguns segundos. Nem a mais quente lava vulcânica era capaz de amenizar o gelo que eu sentia dentro daquela casa vazia. A chuva amena caía do lado de fora, infiltrando-se entre as estruturas da casa e me dava um oi pelas manchas no azulejo. Coloquei a primeira calça e primeira blusa branca que vi na minha frente, escovei os dentes, dei comida para os gatos e para o cachorro, calcei a bota velha e suja que ainda resistia ao tempo e parti para o trabalho feito uma bala.

No trânsito, foram mais alguns minutos de nervosismo e meu rosto começou a ficar vermelho, eu via tudo pelo retrovisor, tantos carros e motos e bicicletas e pessoas atravessando as ruas e a avenida e aqueles cachorros, pestes, porque não ficam no canto, toda essa agonia e a visão embaçada por causa do sono e porque essas pessoas não saíram mais cedo de suas casas, pensei. Fui desviando dos veículos, das enormes poças d’água, lutando contra o relógio e, chegando ao trabalho, ainda enfrentei o fedor insuportável daquelas águas sujas empoçadas e misturadas com mijos de motoristas de caminhão e grãos podres que já deviam estar ali há dias e agora a chuva os engolia e ajudava a deixá-los ainda mais nojentos.

Tentei abrir correndo a porta da sala, mas a chave não entrava e os braços trêmulos não se firmavam na direção da fechadura até que, finalmente, consegui e passei para o lado de dentro. A mochila nas costas ficou no meio do caminho. A copa era o destino e lá estava ele, me aguardando ferozmente, soltando fumaça por toda a sua superfície. O monstro dos mil olhos enclausurado em seu habitat natural. A garrafa térmica. Tomei o primeiro gole, depois o segundo, terceiro. No sexto, meu corpo voltou a se estabilizar. As tremuras passaram, bem como as coceiras. Tudo normal novamente. Vida que segue.

 

Crônicas · Música

Cadê As Guitarras, Radiohead?

‘OK Computer’, o mais conhecido e aclamado trabalho do Radiohead, completou 20 anos em 2017. Uma versão expandida chamada ‘OKNOTOK’ foi lançada, e claro, a mídia ficou a todo vapor. E não por menos, já que o álbum é considerado um dos melhores de todos os tempos.

E é aproveitando o hype (merecido) que surgiu nos últimos meses que resolvi fazer esse texto. Fiquei pensando o que se passa na cabeça de um artista ao atingir o tal “ápice” de sua criatividade. O correto seria manter a fórmula ou partir para um novo começo? No caso do Radiohead, a escolha foi a segunda opção.

‘Kid A’ chegou em 2000, 3 anos após o ‘OK Computer’, e novamente causou uma reviravolta na cultura pop mundial, com uma sonoridade totalmente nova. A idéia inicial da banda era fazer algo inverso ao que fora apresentado anteriormente, buscando fórmulas não-comerciais e não-convencionais tanto para a criação das músicas quanto para a divulgação do trabalho. A maior reviravolta, digamos assim, foi a ausência quase total de guitarras e/ou violões, que foram deixados de lado e deram lugar aos sintetizadores, baterias e ruídos eletrônicos, jazz, influências de krautrock e até música clássica. Para completar, não foi lançado nenhum single ou videoclipe para promover o disco. Mesmo com toda essa “aversão ao sucesso”, ‘Kid A’ vendeu milhões de cópias e foi muito bem recebido pela crítica.

“I slipped away,
I slipped on a little white lie.
We’ve got heads on sticks,
You’ve got ventriloquists staring at the shadows
At the edge of my bed.”

Saber mesclar em doses certas momentos de caos e estranheza com tranqüilidade e doçura foi peça fundamental para manter o equilíbrio e a qualidade do álbum. A dobradinha “The National Anthem/How To Disappear Completely”, por exemplo, leva o ouvinte de um total delírio sonoro a um espaço completo de paz e tristeza. Enquanto a primeira é levada por um baixo e bateria constantes que encontram um solo de instrumentos de sopro alucinados no final, a segunda diminui o clima e um violão acompanha os lamentos de Thom Yorke sobre a vida e a si mesmo.

Em seqüência, a bela faixa instrumental “Treefingers” mantém o clima de calmaria, como uma hipnose sonora. Porém, ao final, dá lugar a uma pancada de guitarras em “Optimistic” que, ironicamente (uma das poucas acompanhadas por guitarra/violão), considero a melhor do álbum. A estranha “Idioteque”, construída em cima de batidas eletrônicas indecifráveis e com uma letra igualmente enigmática, é outro ponto forte que se encontra no andamento do disco.

“Flies are buzzing round my head,
Vultures circling the dead,
Picking up every last crumb.
The big fish eat the little ones,
The big fish eat the little ones,
Not my problem, give me some.
You can try the best you can.
You can try the best you can?
The best you can is good enough.”

“Who’s in a bunker?
Who’s in a bunker?
Women and children first,
And the children first,
And the children…
(…)
Who’s in a bunker?
Who’s in a bunker?
I have seen too much,
I haven’t seen enough,
You haven’t seen it…”

Dos primeiros sons de “Everything In It’s Right Place” até o belo desfecho em “Motion Picture Soundtrack”, o Radiohead entrega um trabalho que serviria como base para suas experimentações futuras, que ficariam ainda mais claras em “Amnesiac” (2001) e que ganhariam uma encorpada ainda mais interessante em “In Rainbows” (2007).

Com o passar dos anos, o Radiohead foi adotando uma identidade de inovação a cada registro lançado, surpreendendo os ouvintes e conquistando cada vez mais fãs ao redor do planeta. Todo o entusiasmo em cima desses caras não é em vão.

*O Radiohead possui uma proteção f#d!d@ sobre suas músicas, por isso foi muito difícil encontrar as canções originais no Youtube. Mas nas plataformas digitais estão todas disponíveis.

Crônicas · Música

Na Natureza Selvagem

Terminei de ler, recentemente, o livro “Na Natureza Selvagem”, lançado em 1996 por Jon Krakauer e que conta a história de Christopher McCandless, rapaz de classe média alta, recém-formado na faculdade, com diversos conflitos pessoais que abandonou a vida que tinha em sociedade e partiu rumo ao Alasca, com o sonho de sobreviver no meio da natureza. Na obra, Krakauer tenta entender e recriar os passos de McCandless, através de entrevistas com familiares e pessoas que o ajudaram em sua jornada, informações sobre os lugares em que ele supostamente passou e muitas histórias semelhantes às de Chris. Em 2007, o livro recebeu uma ótima adaptação para os cinemas, com a direção comandada por Sean Penn e com Emile Hirsch no papel de McCandless.

O filme ajudou a impulsionar a história de McCandless para o mundo, mostrando seus ideais, seus pensamentos a respeito da sociedade em que vivemos e os motivos que o levaram a tomar suas decisões, com frases e diálogos bastante inspiradores, que nos fazem refletir muito sobre nossas vidas. Para acompanhar as cenas e contribuir ainda mais com a beleza da película, um grande artista foi convidado a criar e gravar a trilha sonora do filme… O responsável é ninguém menos que Eddie Vedder, e é esse trabalho o tema do texto de hoje.

Com pouco mais de meia hora de duração, o disco tem 11 belas canções que mesclam a simplicidade do acompanhamento voz-violão com alguns momentos de maior emoção e euforia, passando até por algumas passagens instrumentas, todas emanando uma sensação de liberdade e apreço pela natureza.

Um dos destaques é a “trinca” bem eufórica que abre o trabalho, composta por “Setting Forth”, “No Ceiling” (minha preferida do disco) e “Far Behind”. Curioso é que a duração das três juntas soma apenas um pouco mais que 5 minutos.  Em minha opinião, esse é o momento do disco que mais transmite o desejo de sair viajando pelo mundo, conhecendo lugares novos, pessoas novas e, principalmente, se conhecendo melhor.

A partir daí, o disco toma um caminho mais tranquilo e intimista, com aquelas canções voz-violão que falei um pouco acima, caso de “Rise” e “Long Nights”, até retomar novamente a uma direção mais “explosiva” em “Hard Sun”, canção de maior sucesso do álbum. Cito essas três músicas pois são, ao meu ver, as que mais evidenciam os conflitos retratados por McCandless no filme, e como essa escolha de abandonar tudo e cair na estrada transformou o seu interior.

A chave de ouro que encerra o disco é a ótima “Guaranteed”, canção que rendeu à Eddie Vedder um Globo de Ouro em 2008. A mais longa de todas as faixas, com pouco mais de 7 minutos, é composta inteiramente por um belo dedilhado que acompanha a voz de Vedder e tem uma das melhores letras do álbum, onde o personagem questiona as regras/modos de vida que levamos, com prisões que construímos em nossas cabeças, na rotina que levamos no dia-a-dia e que, sem percebermos, o tempo passa e não aproveitamos devidamente os simples detalhes da vida.

Recomendo arduamente a quem estiver lendo esse texto a ler o livro, assistir o filme e, óbvio, ouvir o álbum. Muitos julgam McCandless por não ter experiência suficiente para tomar uma jornada desse porte (inexperiência essa que causou a sua morte) e tanto Jon Krakauer como Sean Penn por romantizarem demais uma trágica história, mas as lições que podemos tirar podem fazer muita diferença em nossas vidas. Quando estiver estressado em um escritório, no trânsito, cansado da mesmice cotidiana, dê uma chance a essas canções, elas podem ter um forte impacto em você.

**BÔNUS**

Em certo momento do filme, McCandless faz uma breve apresentação musical em um festival com Tracy, garota que se apaixonou por ele quando o mesmo chegou em Slab City. A canção que eles tocam se chama “Angel From Montgomery”, originalmente criada por John Prine, mas que se tornou um verdadeiro clássico da música norte-americana na versão de Bonnie Raitt. Fica aí mais uma dica, pois música boa nunca é demais.

*Texto meu que foi ao ar no dia 24 de julho de 2017 no blog da Immagine. Link original aqui.

Crônicas · Música

David Pajo – Scream With Me

David Pajo pode não ser uma figura conhecida tão do grande público, mas na cena underground americana sua importância e influência atingiram níveis inimagináveis, que se expandiram e ajudaram a criar a forma de todo o universo da música independente americana e, consequentemente, mundial. Seja no Slint, onde ele ajudou a criar aquilo que, futuramente, seria conhecido como post-rock, seja com os experimentos do Tortoise ou até em sua carreira solo, Pajo é bastante cultuado e, provavelmente, várias bandas atuais não existiriam sem suas criações dos anos 80 e 90.

Mesmo com uma discografia tão extensa e rica, ele conseguiu inovar mais uma vez e o que seria somente um disco de covers acabou tornando-se uma pérola em sua obra. “Scream With Me”, lançado em 2009, é composto inteiramente de canções da banda punk americana Misfits, porém e um formato bem diferente: somente voz e violão.

Em quase 26 minutos de duração, ele retrabalha 9 canções para um formato totalmente intimista e sereno, diferente dos petardos sonoros das versões originais. É muito interessante ouvir os versos raivosos de “Bullet” e “Angelfuck”, por exemplo, sendo cantados por uma voz serena e preguiçosa, acompanhada por dedilhados bem delicados em uma gravação caseira bem ao estilo lo-fi.

Abaixo tem o link do disco completo, que você pode conferir na íntegra.