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Diálogo

Jasper: Então… você tem a fé aqui e o acaso ali.
Miriam: Como Yin e Yang.
Jasper: Mais ou menos.
Miriam: Ou Shiva e Shakti.
Jasper: Lennon e McCartney.
Kee: Olhem, Julian e Theo (apontando para uma foto).
Jasper: É, eles se encontraram entre 1 milhão de manifestantes por acaso, mas estavam lá pelo que acreditavam. Pela fé. Eles queriam mudar o mundo, e a fé os manteve juntos. Mas, pelo acaso, Dylan nasceu.
Kee: Esse é ele (apontando pra uma foto)?
Jasper: Sim, é ele. Ele teria a sua idade. Criança mágica, lindo. A fé deles colocada em prática.
Miriam: O que aconteceu?
Jasper: O acaso. Ele era o pequeno sonho deles, de mãos, pernas e pés pequeninos… E pulmões. E em 2008, veio a pandemia da gripe. E pelo acaso, ele se foi.
Miriam: Meu deus!
Jasper: Veja, a fé do Theo perdeu para o acaso. Então para que se incomodar, se a vida faz suas próprias escolhas?
(Children of Men, Alfonso Cuarón, 2006)
Garimpo · Música

Garimpo #07 – Guided By Voices

“Bela Sky, não se preocupe,
Já há quem ocupe o meu coração.
Mas prometo que guardarei
Um dos meus cacos para lhe abrigar.

Me desculpe pelo meu jeito,
Mas sou bom sujeito, sou sangue e fervor.
Camuflo minha mocidade, e em minha liberdade
Não tenho pudor.

Faça de mim seu castigo
Não ouça o que eu digo, mas faça um favor:
Me abrigue em sua morada,
Fique calada e me encha de amor.

*Mais um poema experimental baseado na melodia de uma canção. Dessa vez, “Mincer Ray” do Guided By Voices foi a escolhida. Uma das minhas maiores referências artísticas. Por favor, leita no ritmo da canção.

 

Garimpo · Música

Garimpo #06

Tenho vagado por aí
Por tantas estradas e desfiladeiros
Com os mesmos tênis novos
Que ganhei naquele aniversário
Em que tínhamos tudo para dar errado
E foi o que aconteceu.
Eu era uma tempestade
E você, uma garoa.
Eu era a via láctea
E você, só um cometa.
Eu era todas as músicas
E você, o silêncio.

*Poema experimental que criei com base na melodia de “Jackass”, do Beck. Leia no ritmo da mesma.

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Naufrágio

Meu é o coração que tu seguras
Mas que deixas escapar entre os dedos calejados.
Se Jesus morresse bem na minha frente,
Eu poderia dizer que estava sem tempo?
Toque em meus ossos  para que eu me sinta vivo
Ou, enfim, já me conforme com o esquecimento.

Com as portas abertas e os destinos cruzados
Vivemos o mesmo sonho naufragado;
Atirados ao mar do desespero
Sem saber onde está a superfície,
Sem saber nadar,
Sem saber de nada.

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“Minha mãe e meu pai tinham um relacionamento complicado, e acho que por isso ele gostava de beber. Tinham dias em que ela não parava de falar no ouvido dele, sempre reclamando e falando sobre dinheiro. Eu observava tudo de longe.

Ele saía para trabalhar às 08 da manhã, voltava ao meio-dia para o almoço e retornava às 14 horas, chegando em casa depois somente às 18:30. Nessas duas horas de almoço, minha mãe começava a disparar sua metralhadora de palavras. ‘Precisamos de dinheiro, as contas estão vencendo, você conseguiu vender hoje?, já recebeu?, você está mentindo pra mim’. Em alguns dias, era insuportável. Lembro que em uma das vezes ele simplesmente levantou e saiu de casa. Só fui saber bem depois, quando ele me contou. Tinha ido ao estacionamento do DNIT, estacionado embaixo de uma árvore e cochilado. Era só isso que ele queria.

Ele morreu fazem alguns anos já. A mesma substância que o dava prazer, tirou sua vida.

Minha mãe queria dinheiro para não se preocupar. Meu pai só queria paz. Não culpo nenhum dos dois, assim é a vida.”

Música

Músicas Para O Halloween

O texto de hoje será mais curto que o habitual. Estamos em outubro, mês do Halloween e resolvi entrar na onda das listas para diversificar um pouco o conteúdo do blog. As músicas abaixo não são necessariamente sobre o Halloween, mas seriam, em minha opinião, uma trilha sonora apropriada para tal data. Aproveite sem moderação e até o próximo texto!

Misfits – Hybrid Moments

Slayer – Raining Blood

Black Sabbath – Black Sabbath

Pantera – Floods

Marilyn Manson – Tourniquet

Nick Cave and the Bad Seeds – Jack, The Ripper

The Cure – Lullaby

Type O Negative – All Hallows Eve

Joy Division – Dead Souls

Sepultura – Orgasmatron

Lacrimosa – Lichtgestalt

Coal Chamber – Fiend

Nine Inch Nails – March of  the Pigs

Mudvayne – Nothing To Gein

Fear Factory – Replica

The Cramps – Human Fly

E para finalizar com chave de ouro:

White Zombie – Thunder Kiss ’65

Fique à vontade para acrescentar ou retirar alguma música da lista, mas não deixe de curtir um bom som nessa data. Até a próxima!

*Texto que foi ao ar hoje para o blog da Immagine. Link aqui.

Garimpo · Música

Garimpo #05

Mantendo a linha das canções pesadas emocionalmente, não tinha como não falar sobre Chris Cornell. Ídolo máximo, morto após perder uma batalha contra si mesmo. Em “Sweet Euphoria”, somente sua voz e um violão, ambos carregados de sentimentos e lamentos em uma das mais belas poesias de sua carreira. Será que os anjos cansados que ele procura salvaram o seu amor? Não sei, foi só um pensamento rápido que me veio à mente. Não se assuste. É que depois de sua morte, todas suas músicas começaram a fazer ainda mais sentido.

 

Garimpo · Música

Garimpo #04 – Claustrofobia

Claustrofobia. Esse é o sentimento não só da primeira, mas de todas as audições que fiz e farei do clássico “Unknown Pleasures”, estréia do Joy Division. Em “Candidate”, terceira faixa do disco, essa sensação fica ainda mais forte. A letra é, na minha opinião, a mais pesada emocionalmente, como uma flechada no peito. Ian Curtis declama os versos como se estivesse na lama, no fundo do poço, sobre um relacionamento desgastado que está, aos poucos, chegando ao completo fracasso.

Apesar do tom pesado, ela não deixa de ser belíssima.

“Please keep your distance,
the trail leads to here.
There’s blood on your fingers,
brought on by fear.

I campaigned for nothing,
I worked hard for this.
I tried to get to you…
You treat me like this.”

Crônicas · Música

13

Seja uma desilusão amorosa, problemas financeiros, crise emocional ou qualquer outro motivo, não importa. É no fundo do poço que vários artistas conseguem extrair as suas obras mais honestas e poderosas, revelando uma face mais verdadeira e íntima ao público em geral. No caso do Blur, um conjunto de fatores desgastou a relação dos integrantes, e em meio a um ambiente turbulento saiu “13”, a obra mais marcante de toda a discografia do quarteto londrino.

Lançado em 1999, o álbum apresenta uma banda mais amadurecida musicalmente, inovando a sua sonoridade com novos elementos eletrônicos e modernos, além das letras de tom confessional do líder e vocalista Damon Albarn, arrasado pelo fim de um relacionamento de oito anos. Graham Coxon, o comandante da guitarra, também passava por um momento difícil e enfrentava sérios problemas com álcool, o que tornava as gravações ainda mais complicadas.

“13” é a reunião das principais referências de toda a obra da banda até então. Nele, conseguimos detectar o shoegaze presente em “Leisure” (1991), o pop e o rock inglês na “trilogia londrina” que começa em “Modern Life Is Rubish” (1993), passa pelo clássico “Parklife” (1994) e termina em “The Great Escape” (1995), além da forte influência do rock alternativo americano que ouvimos no disco auto-intitulado de 1997. Além disso, vejo o trabalho como dois álbuns distintos, separando-o ao meio. A primeira parte soa mais “pop”, mais acessível, e na outra metade o clima fica mais sombrio, com as experimentações ainda mais fortes, camadas e mais camadas de guitarras, baterias e sons eletrônicos mais presentes que o normal e o teor das letras com um tom bem depressivo.

O disco começa com aquela que seria o seu sucesso absoluto, “Tender”. Na canção, Damon escancara as feridas de seu coração em versos dolorosos e uma voz bem emotiva, que ganha uma bela ajuda de um coral gospel. “Coffee and TV” (lembra do clipe do leitinho?), escrita e cantada por Graham Coxon, é outro ponto alto dessa primeira metade do álbum. Percebe-se uma grande influência do rock britânico dos anos 60, e a voz preguiçosa de Coxon dá todo um charme à canção. A atmosfera começa a tomar outros rumos em “1992”, apresentando ruídos de guitarra com uma bateria marcante misturados à voz arrastada de Damon, quase como um sussurro. Um shoegaze nato e digno de atenção, já antecipando a segunda metade do disco.

“Tender is my heart,
I’m screwing up my life.
Lord I need to find
Someone who can heal my mind.”

“Sociability is hard enough for me.
Take me away from this big bad world
And agree to marry me,
So we can start over again.”

“…And you’d love my bed,
You got the other instead.”

Nos primeiros segundos de “Battle”, a minha favorita de todo o álbum, já se percebe a mudança de ambiente. Dos efeitos eletrônicos à hipnotizante e incansável bateria nos quase oito minutos de duração, “Battle” é a chamada para o ouvinte adentrar nesse novo universo de caos e confusão, com as palavras confusas de Damon Albarn ganhando um tom ainda mais soturno.

Here I love the bow.
See me walk on down to adorn myself.
It’s a new song glory
‘Cause see me, what do you think of now?”

“Mellow Song” e “Trailerpark” dão continuidade à atmosfera experimental e dolorosa, em versos lamentosos que chegam a supor até uma dependência de heroína e álcool no trecho “shooting stars in my left arm/an alcohol low”. Em seqüência, “Caramel” é um dos testemunhos mais fortes e honestos de todo o trabalho. As guitarras de Graham Coxon, alternando-se entre momentos caóticos e delicados, se aliam a efeitos eletrônicos que acompanham fielmente os sussurros de Damon Albarn. Ele precisa melhorar e seguir em frente e cogita até parar de fumar, mas nunca se esquecerá de sua amada.

Na mesma linha, “No Distance Left To Run” é o ápice da dor emocional do vocalista, e chega ao fim do disco tocando na ferida aberta, que insiste em não cicatrizar. É o relato mais confesso de Damon, a canção mais clara e que melhor traduz toda essa confusão de sentimentos que guiou todo o andamento do disco.

“I’ve gotta get over,
I’ve got to get better,
I’ll love you forever…”

It’s over, you don’t need to tell me.
I hope you’re with someone who makes you
feel safe in your sleeping tonight.
I won’t kill myself trying to stay in your life,
I got no distance left to run.”

Tive a sorte de achar um exemplar do álbum (em CD) em uma prateleira de promoções na saudosa Goval Discos, quando eu ainda morava em Minas Gerais. “13” é um disco “heartbreaker” de uma banda que experimentou o auge do sucesso e que, depois de anos, tentava superar seus dramas pessoais e sair da zona de conforto criativa. De maneira primorosa, eles conseguiram.

*Meu novo texto para a coluna no blog da Immagine, que foi ao ar na última quarta-feira, dia 11 de outubro. Link aqui.