Crônicas · Música

Um Minuto Quente, Por Favor

Difícil imaginar quais rumos seriam tomados pelo Red Hot Chili Peppers após John Frusciante sair da banda pela primeira vez, em 1992. A exaustão das viagens e o vício em drogas o deixaram em pânico, e John abandonou seus companheiros antes do fim da turnê de divulgação do aclamado “Blood Sugar Sex Magik”, lançado um ano antes.

Para encontrar um novo guitarrista, a banda publicou um informativo em um jornal, porém sem sucesso. Chad Smith, então, sugeriu Dave Navarro, ex-guitarrista do Jane’s Addiction (e um dos que mais admiro), e o convite foi feito. Depois de um tempo e algumas jam sessions, ele foi aceito. A partir desse momento, dava-se início à criação e produção do trabalho que é considerado um ponto fora da curva na discografia do Red Hot Chili Peppers, renegado pela própria banda, pela crítica (qual é o papel da crítica?) e até por alguns fãs.

Em meio a ensaios turbulentos, falta de entrosamento com o novo guitarrista, lapso criativo e problemas com drogas do vocalista Anthony Kiedis, “One Hot Minute” foi lançado no ano de 1995.

“I can’t find the love I want.
Someone better slap me
Before I start to rust,
Before I start to decompose.”

As performances excêntricas e temáticas sexuais misturadas com o típico som funkydos discos anteriores deram lugar a uma atmosfera mais sombria, letras confessionais abordando temas como morte, depressão e abuso de drogas. Além disso, o som ficou mais pesado, devido às influencias de heavy metal e classic rock de Dave Navarro.

“I remember…
10 years ago in Hollywood
We did some good
and we did some real bad stuff.”

Em meio a esse caos, duas belas baladas saíram do forno e são momentos marcantes no decorrer do disco.

“Tearjerker” é uma linda homenagem a Kurt Cobain, ex-líder do Nirvana, cuja morte foi muito sentida por Anthony Kiedis. Já “My Friends”, minha favorita em todo o álbum, é um lamento pelas dificuldades, mas, ao mesmo tempo, uma tentativa de conforto para esses momentos de catástrofe. Ambas as músicas são os momentos mais vulneráveis de Kiedis, e percebe-se isso em sua voz.

“You never knew this,
But I wanted badly for you to
Requite my love.”

“Imagine me
Taught by tragedy.
Release is peace.”

Outro ponto positivo em relação ao “One Hot Minute” é uma bela ironia que o destino o concedeu. Falei acima que o som funky foi praticamento deixado de lado, mas é nesse álbum que está aquela que considero a música mais funky do Red Hot Chili Peppers, “Walkabout”. É impossível não se contagiar com a guitarra de Navarro nessa canção. É um momento onde, aparentemente, toda a tensão que os contornava é esquecida.

“Just me and my own two feet
In the heat I’ve got myself to meet.”

Mais de vinte anos depois do lançamento, nunca mais se viu o Red Hot Chili Peppers em um estado tão fragilizado e vulnerável. Se você assistir algumas apresentações da época, percebe-se nitidamente a áurea negativa que os sondava, especialmente no semblante de Kiedis.

Mais tarde, Navarro seria despedido da banda por “diferenças criativas” e John Frusciante retornaria. A partir daí, o filme já é conhecido. Porém, é importante lembrar essa fase sombria que a banda enfrentou e dar o merecido valor a esse grande trabalho que foi (e ainda é) “One Hot Minute”. Portanto, pegue uma cadeira, sente-se e aprecie o seu “minuto quente”. Ah, e peça um café também.

*Texto publicado hoje no blog da Immagine, dia 15 de setembro de 2017. Link aqui.

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