Direto do Forno · Música

King Buzzo – Science In Modern America (Single)

Parece não ter fim a criatividade do King Buzzo, um dos líderes do Melvins. Porém, agora a proposta é diferente. Ele deixa de lado o tremor de suas guitarras e assume um formato mais acústico em Gift of Sacrifice, seu segundo disco solo. O anterior, This Machine Kills Artists, é de 2014 e segue a mesma proposta. A distribuição de ambos é pela Ipecac Recordings.

Para esse novo trabalho, Buzzo contará com a ajuda de um antigo conhecido da época do Fantômas: Trevor Dunn, que também é integrante do Mr. Bungle.

Um primeiro aperitivo de Gift of Sacrifice já está disponível para audição e chama-se “Science In Modern America”. Apesar do nome “acústico” rodear as informações do disco, a canção soa tão aterrorizante quanto uma pedrada dos Melvins.

O álbum completo sai em maio, no dia 15.

Quarta Parede

Big Sur

Na vasta obra de Jack Kerouac, Big Sur está entre minhas favoritas. É a visão do escritor sobre as três semanas que passou isolado em uma cabana na região que leva o nome do livro e como esse período afetou a sua cabeça.

Como de praxe, Jack junta pensamentos com filosofadas e flashbacks de forma desenfreada, dando a impressão de que está ao lado do leitor contando a história com tamanha empolgação. Não é uma leitura fácil, mas quando se atinge o ritmo necessário, torna-se prazerosa.

Big Sur foi adaptado para o cinema em 2013 e cumpre bem seu papel ao transpor para um filme esse estado de inquietação do cara. Os trechos que acontecem em cidades também me agradaram, por retratar de forma convincente as reuniões da galera beatnick, em um Estados Unidos dividido entre o conservadorismo e a porra-louquice.

Viva Kerouac!

Garimpo · Música

Tricky + Goldfrapp + Smashing Pumpkins

Tricky sempre foi certeiro na escolha de suas parcerias musicais. Sua lista é grande: tem a longeva dupla com Martina Topley-Bird, PJ Harvey, Björk e até os caras do Red Hot Chili Peppers. Caberia mais algumas linhas para citar as colaborações com artistas menos conhecidos, e não que elas também não sejam importantes, mas não quero estender o texto.

Em 1995, saiu Maxinquaye, o mais aclamado disco do cara, um daqueles álbuns capaz de mudar a vida de alguém. A música “Pumpkin” (minha favorita) é tão sexy quanto nebulosa, e tem participação de uma então desconhecida Alisson Goldfrapp, que brilha em seus versos de forma magistral.

Interessante é que a canção possui um sample de “Suffer”, dos Smashing Pumpkins, aí a referência em seu título. A peça é uma amostra da imensa criatividade de Tricky na hora de desenvolver as suas músicas.

Garimpo · Música

Algumas Preciosidades da Shore Dive Records

Instalado em Brighton, na Inglaterra, o selo Shore Dive Records tem sido um dos meus garimpos mais explorados nas últimas semanas. Mais orientado para o noise rock/shoegaze, o catálogo da gravadora é vasto e diverso, capaz de agradar o fã de música barulhenta até aquele que curte um som mais atmosférico.

O novo EP do Last Victorian Death Squad, por exemplo, é um caos sonoro do início ao fim, recheado de feedbacks e emoção.

Já a estreia do Nossiennes, um EP curto com apenas três faixas, traz uma boa fusão entre o Slowdive e o My Bloody Valentine, com as guitarras em eco fazendo um belo trabalho.

Também é daqui que saiu um dos meus discos preferidos de 2019, o EP The Creation, do Superdrone. Até hoje”Freedom” é presença constante em minhas audições diárias.

Caro leitor, não fique apenas nessas indicações e vasculhe-se os mais profundos arredores do universo shoegaze da Shore Dive Records. É uma surpresa melhor que a outra, e claro, um caminho sem volta.

Língua Presa · Não Ao Futebol Moderno

Não Ao Futebol Moderno #10: Exageros da Imprensa

Sabemos que a mídia tem um papel cada vez mais forte na formação de opinião das pessoas em geral, e na imprensa esportiva não é diferente. O uso de títulos sensacionalistas para assuntos tão rasos são cada vez mais frequentes, o que diminui (e muito) a qualidade das notícias.

E não é só isso.

Tem sempre um jogador queridinho que é elogiado mesmo com atuações pífias, o clube do momento (PSG, Manchester City, etc) sempre colocado como grande potência mundial, mas que tradição mesmo é quase nenhuma, as famosas carimbadas de “sábios”  comentaristas donos da verdade (alguém lembra de colocarem o Palmeiras como o campeão nacional já no início do Brasileirão?) e muitas outras observações equivocadas.

A que chamou minha atenção nos últimos meses é a falácia do “golaço” de letra ou de calcanhar, que ganha manchetes em todo Brasil sempre que acontece tal episódio. Com o gol do Nenê ontem no FlaxFlu então, as proporções foram ainda maiores.

Reduziram a expressão golaço para qualquer gol nesse estilo que citei. O do clássico de ontem, por exemplo, a bola foi mascada e chorando até o fundo do gol, e a imprensa tratou o feito como um digno candidato ao Prêmio Puskas.

Convenhamos, golaço de letra ou de calcanhar foi o que Suárez fez contra o Mallorca, por exemplo, ou alguns que Ibrahimovic marcou em passagens pelo PSG e LA Galaxy, e não qualquer empurrada para o fundo da rede com o goleiro já batido ou até com o gol vazio.

Se transformarmos o golaço, aquele momento em que deixa qualquer amante do futebol boquiaberto, para gols tão simples e feios plasticamente, será mais um brilho prestes a ser apagado nesse esporte tão admirado em todo o planeta.

Direto do Forno · Música

A estreia do Ryte

Para quem gosta de música pesada, esse álbum é um deleite.

O Ryte é um quarteto norte-americano que bebe direto das profundas fontes do stoner e seus derivados. O disco de estreia leva o nome da banda e é composto por quatro canções somente, chegando perto dos quarenta minutos de duração.

São músicas longas e instrumentais em sua maior parte. Para ser mais exato, são raros os momentos em que os vocais aparecem. Aliando duas guitarras afiadas, um baixo certeiro e uma bateria incansável, o disco flerta com o rock psicodélico, o heavy metal mais clássico e o doom metal, provando que a escola fundada pelo Black Sabbath rende frutos primorosos até os dias atuais.

RYTE foi lançado em 17 de janeiro desse ano pela Heavy Psych Sounds Records.

1. Raging Mammoth
2. Shaking Pyramid
3. Monolith
4. Invaders

Crônicas · Língua Presa · Música

Factótum

Factótum, por definição gramatical, é o indivíduo cuja função é ocupar-se de todos os afazeres de outrem. No português ainda mais claro, é o famoso faz-tudo, o Severino. O mesmo Severino que Gláuber Rocha disse ser a imagem do povo brasileiro, e que Makalister sampleou de forma brilhante.

Factótum também é o título do segundo romance do Bukowski, publicado em 1975. Entre bebedeiras, relacionamentos desastrosos e empregos dos mais variados tipos, o livro nos apresenta o submundo das cidades grandes, aquele em que os cartões-postais fazem questão de ignorar. Aqui, o personagem principal não deixa de ser um Severino, e mostra que não há glamour algum nas suas misérias.

Em resumo, não importa se o Severino é brasileiro ou americano, as dificuldades (que vão muito além da falta de interesse, como o personagem do livro) são quase as mesmas.

Trocando a chave, se eu pudesse dizer um faz-tudo na música… Bem, esse, ao contrário do já discorrido, seria alguém recheado de glamour. Quem mais foi capaz de transitar entre a soul music, a música eletrônica, o krautrock, o glam, o funk, o folk e o jazz de forma tão brilhante quanto David Bowie? É possível citar ao menos um disco dele em cada um desses estilos cujo nível é o mais alto possível. Além disso, é notória a sua influência em campos que ultrapassam as barreiras musicais, como a moda, por exemplo.

Um verdadeiro Factótum.

Direto do Forno · Música

Brant Bjork – Jungle In The Sound (Single)

Pouco mais de um ano após o lançamento de seu último de inéditas, Brant Bjork, uma das figuras máximas do rock do deserto, deixa engatilhado mais um trabalho.

Auto-intitulado, o novo disco ganha luz em 10 de abril desse ano, mais uma vez pelo ótimo selo Heavy Psych Sound Records, uma das casas mais influentes do stoner rock mundial. O primeiro aperitivo é “Jungle In The Sound”, contendo a já conhecida mistura de riffs pesados com o gracejo do funk rock. É como consta no release do disco, só de ouvir a canção, já dá pra saber de quem é, mesmo sem informação alguma a respeito.

Sobre seu último álbum, Mankind Woman, escrevi sobre ele aqui. Uma boa hora para revisitá-lo.

Direto do Forno · Música

Emancipator – Labyrinth (Single)

Contrariando o sentido mais conhecido de um labirinto, a música do Emancipator não deixa o ouvinte perdido e nem tem a intenção de desorientá-lo. Seus versos em forma de batidas orientam, acalmam, trazem respiro a quem os ouve. E emociona.

A sensação é de voar entre os pingos da chuva, ver o mundo inteiro do alto, sem interferência urbana alguma. No labirinto do Emancipator não há buzinas, vozes altas, fumaça, pressa, ansiedade, não há qualquer resquício dessa vida moderna que nos aprisiona.

“Labyrinth” é o primeiro fragmento de Mountains of Memory, o novo disco do artista, que sairá do forno em 20 de abril, pela Loci Records.

Para quem acompanhou seu último trabalho, o EP colaborativo com o 9 Theory (leia sobre aqui), é possível ter uma noção do que virá nesse novo disco.